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Popular e perseguido, funk se transformou no som que faz o Brasil dançar

Surgido no final da década de 1980, ritmo carioca tem sucessos milionários e críticos agressivos. Abaixo-assinado enviado ao Senado pediu sua criminalização

O funk brasileiro vive há quase duas décadas entre extremos de aceitação e repúdio. Se as músicas contam com milhões de plays no YouTube e Spotify, o estilo também foi alvo em 2017 de um abaixo-assinado com mais de 20 mil assinaturas que pediu ao Senado que o tornasse crime.

Em dezembro do ano anterior, o então prefeito eleito de São Paulo, João Doria, classificou os eventos de funk de rua da periferia de São Paulo (conhecidos como “fluxos”) como “um cancro que destrói a sociedade”. No mesmo mês, subiu no YouTube o vídeo de “Deu onda”, do MC G15, de Duque de Caxias. O clipe contava com mais de 300 milhões de plays nove meses depois.

Entre os detratores do gênero é comum ouvir que o funk estaria entre os responsáveis por um declínio moral e cultural do Brasil. Entretanto, de acordo com a opinião de profissionais e especialistas ouvidos pelo Nexo, o funk pode ser entendido sim como consequência de uma sociedade marcada por exclusão e violência.

O QUE é o funk, do original ao brasileiro

Antes do funk brasileiro, existia o funk americano. Criado e desenvolvido por músicos como James Brown, Sly Stone e George Clinton nas décadas de 1960 e 1970, o funk dos Estados Unidos representou uma ruptura estética importante na música pop americana negra.

Com influências do jazz e dos desenhos polirrítmicos de estilos musicais africanos, Brown compôs músicas que estabeleceram uma nova cadência na música negra americana. O funk americano perseguiu arranjos mais espaçados, com foco na bateria e baixo (o “groove”) e pouca melodia. Era suado, atrevido e sacana (“Sex Machine” é talvez a música mais famosa de James Brown). Trazia também um forte componente de orgulho negro.

Esse tipo de som encontrou muita ressonância em uma cena de bailes que se desenvolveu nos subúrbios do Rio de Janeiro na década de 1970 (e, em menor escala, em São Paulo). Com raras apresentações de bandas, era uma cena em que o DJ quase sempre fornecia a música. No fim dos anos 1970, equipes de som responsáveis pelos bailes, como Soul Grand Prix e Furacão 2000, já eram “grifes” famosas.

Junto com a música, muitos organizadores e frequentadores importaram também a atitude confiante e a negritude orgulhosa do funk americano. Este movimento ganhou o nome de “Black Rio”. As autoridades da época, em plena ditadura, enxergaram indícios de subversão. Donos de bailes foram chamados para depor.

Na década de 1980, o som dos bailes virou eletrônico ao acompanhar a adesão aos sintetizadores do funk e soul americanos e do nascente hip hop. É deste último que vem uma influência chave: a batida usada por Afrika Bambaataa no hit “Planet Rock”, gerada pela bateria eletrônica Roland TR-808.

Esta batida forneceu o molde para um subgênero de hip hop chamado Miami Bass, por sua vez muito popular entre os DJs do subúrbio do Rio.

Os bailes aconteciam em salões como o União Rio da Prata (Bangu) e Magnatas Club (Rocha). Não ficavam no morro, e sim no asfalto suburbano. A decoração era simples, às vezes inexistente a não ser por faixas com o nome da equipe de som. No palco austero, a mesa com os toca-discos e o mixer para o DJ trabalhar. Preenchendo a paisagem, jogos de luzes e amplas paredes de caixas de som.

Apesar da preferência por sons importados, poucos frequentadores de bailes entendem inglês. Os refrões em língua estrangeira ganham “traduções” locais e que servem para identificar as músicas, ou “melôs”. “It’s tricky”, do Run DMC, vira o “Melô do eco”. A repetição da palavra “fresh” na música “The Beat is Fresh” é “traduzida” como “peixe”, a música passando então a ser identificada como “Melô do Peixe”.

A gênese do funk brasileiro

Em 1986, o DJ Marlboro, já um nome reconhecido na cena dos bailes, ganhou uma bateria eletrônica de presente do antropólogo Hermano Vianna, um estudioso do funk. Vianna havia conseguido o instrumento com seu irmão, Herbert, vocalista do Paralamas do Sucesso. Marlboro começou a experimentar com a bateria. Em alguns anos estaria em estúdio gravando alguns dos primeiros funks brasileiros. Entre eles está o sucesso “Melô da mulher feia”, de 1989, baseado em uma versão do 2 Live Crew (expoente do Miami Bass de letras bem obscenas) para um rock da década de 1960.

Outro pioneiro é Grandmaster Raphael, com músicas como o “Melô da Funabem”. Em palestra de 2017 ele lembrou das dificuldades técnicas que marcaram as primeiras tentativas de se forjar um som próprio: “Ouvíamos aquele bumbo grave do Miami Bass, queríamos fazer igual, mas não sabíamos como. Quando descobrimos que aquilo era feito com uma [bateria eletrônica] Roland TR-808, ela já tinha saído de linha”.

A chegada de um mixer da marca Numark que vinha com um sampler embutido resolveu a questão. A faixa “Volt Mix”, do DJ americano Battery Brain, proveu a base que sustentaria o novo estilo pela próxima década.

Os primeiros MCs foram improvisados. “Foram inventados, entre cantores de estúdio, os DJs e mesmo alguns atores (Dercy Gonçalves fazendo o ‘Resposta das aranhas’, uma resposta ao ‘Rock das aranhas’, de Raul Seixas)”, explicou ao Nexo o jornalista Silvio Essinger, autor de “Batidão: uma história do funk”. Posteriormente, os bailes passaram a promover concursos de rap entre os frequentadores, surgindo daí os primeiros MCs que eram garotos das comunidades. Conforme a aceitação do MC, ele poderia ir parar no estúdio de gravação.

QUEM ajudou a propagar o funk no Brasil

Desde os eventos das décadas de 1970, os bailes funk do Rio se desenvolveram longe dos olhares da mídia (inclusive das publicações de música), da indústria fonográfica e das classes média e alta da cidade. Houve exceções, como a cobertura em torno da onda “Black Rio” dos primórdios dos bailes (termo criado por uma matéria do Jornal do Brasil de 1976).

Nos anos 1980, coube a um antropólogo informar à “Zona Sul” sobre um fenômeno que ocorria do outro lado da cidade. Hermano Vianna se fascinou com a música e a cultura ao redor dos bailes. Escreveu para a imprensa sobre a cena, se tornando um especialista solitário no tema. Em 1987, Vianna concluiu dissertação de mestrado pela UFRJ (Universidade Federal Rio de Janeiro) intitulada “O Baile Funk Carioca: Festas e Estilos de Vida Metropolitanos”.

Um ano depois de “Melô da mulher feia”, em 1989, Marlboro reuniu esta e outras músicas em uma coletânea chamada “Funk Brasil 1”, que teria vendido 200 mil cópias (em vinil) sem qualquer apoio da mídia ou marketing de gravadora.

Em meados da década, acontece a primeira onda de sucesso de funk para além do seu circuito original. Marlboro se tornaria residente do programa de Xuxa em 1994, que virou uma divulgadora do gênero em rede nacional. No Carnaval de 1997, a escola de samba Viradouro insere uma “paradinha” ao estilo funk em seu samba-enredo campeão.

Era o tempo de Claudinho & Buchecha, que fizeram sucesso com músicas como “Conquista” e “Só love”. Com sons mais suaves e letras românticas, representavam o chamado “funk melody”, uma vertente de destaque nos bailes na primeira metade dos anos 1990.

Também se sobressaíram nesse tempo interpretações mais agressivas e realistas, como o trabalho da dupla MC Cidinho & Doca. Em 1994, lançam “Rap da Felicidade”, um lamento sobre as dificuldades de se viver na violência da favela, e o “Rap das armas”, com citações a modelos de armas e confrontos armados.

Em 1998, surgiu o “tamborzão”, nome de uma batida inventada pelos DJs Luciano e Cabide, usada pela primeira vez em uma música de Tito e Xandão, e que em pouco tempo tirou o lugar da levada “Volt Mix”, de 1988. Saiu o beat mais sintético e entrou uma espécie de atabaque pesado. A batida dominaria o funk pelas décadas seguintes.

No início dos 2000, o funk teve uma nova onda de estouro nacional, com alcance ainda maior que a anterior, ampliando sua aceitação entre ouvintes de classe média e alta. O momento foi puxado por sucessos avassaladores como “Cerol na mão”, do Bonde do Tigrão,  “Eguinha Pocotó”, de MC Serginho & Lacraia, e ”Tapinha não dói”, de Naldinho e Bela.

Em seguida, veio a primeira leva de mulheres MCs, que cantavam sobre sexo de um modo que até então era exclusividade dos seus colegas homens, como por exemplo, “Fama de putona só porque como seu macho” (Tati Quebra-Barraco) e “Tá ardendo, mas tô aguentando” (Deize Tigrona).

Foi neste período que o funk teve seu primeiro momento “hipster”, ao despertar o interesse de um público ligado em novidades da música eletrônica e do rock alternativo. O DJ Marlboro ganhou uma residência na casa Lov.e, então templo da música eletrônica, na Zona Sul de São Paulo. O DJ americano Diplo e a cantora anglo-cingalesa M.I.A., namorados na época, ajudaram a divulgar o funk brasileiro nos EUA e Europa. Diplo produziu o documentário “Favela Blast”, e M.I.A. sampleou Deise Tigrona em “Bucky Done Gun”.

O funk feito em São Paulo conseguiu projeção nacional no início dos 2010 com o funk ostentação, com letras aspiracionais, que faziam alusão a marcas de roupas ou carros. Seu maior astro foi o MC Guimê, com hits como “Plaquê de 100”. Segundo Renato Barreiros, diretor do documentário “Funk ostentação”, essa vertente foi reflexo de um momento de ascensão da classe C e maior poder de consumo que ocorreu no segundo governo Lula. “Foi uma época de prosperidade econômica e em São Paulo as marcas sempre tiveram um status importante”, disse o diretor ao Nexo.

Em 2011 sai pelo selo da Furacão 2000 a primeira música de uma cantora carioca de 18 anos chamada Anitta. Em alguns anos, a partir da música “Show das poderosas”, ela se tornaria um dos maiores fenômenos pop brasileiros da década de 2010. Hoje contratada pela multinacional Warner, e variando seu repertório para além do funk, Anitta tenta uma carreira internacional. Já conseguiu um hit, “Sua cara”, ao lado do DJ e produtor Diplo e de outra brasileira, a cantora Pabllo Vittar. O vídeo no YouTube tem mais de 200 milhões de visualizações.

COMO o funk projeta o orgulho da periferia

O funk se consolidou como gênero ouvido por jovens da periferia de cidades por todo o Brasil, do Rio de Janeiro ao Recife. Ao lado dos gêneros conhecidos como “gospel”, ligados às igrejas evangélicas e opostos em termos de mensagem, o funk é para onde tendem a migrar adolescentes com interesse em fazer música hoje na periferia.

Cantado em português, o funk frequentemente se tornou um canal para se relatar as dificuldades da vida na comunidade. Em meio à denúncia, entretanto, o tom raramente soa resignado ou melancólico. Muito mais comum nas letras é o orgulho da favela, da sua potência criativa e capacidade de animação.

A exaltação da origem aparece em funks de todos os tipos e vertentes, às vezes até em nomes de artistas, como Nego do Borel (da Favela do Borel, no Rio) ou o MC Neguinho da Kaxeta (da favela do mesmo nome, em São Vicente, Baixada Santista). Bairros e comunidades costumam ser citados em shows e aparecem em letras.

“É som de preto/de favelado/Mas quando toca/Ninguém fica parado”

“Som de preto”, Amilcka e Chocolate

“Eu sou a voz do morro/O grito da favela/Sou a liberdade em becos e vielas/Sou da sua raça/Sou da sua cor/Sou o som da massa”

“Funk-se quem quiser”, MC Dollores e Galo

“Em nossas favelas/Porque aqui no morro/Também tem jogador/Artistas famosos/Empresário e doutor/Gente inteligente/E mulheres belas/Você também encontra/Aqui na favela”

“Favela”, MC Marcinho

“O Vidigal também não fica de fora/Fim de semana rola um baile shock legal/A sexta-feira lá no Galo é consagrada/A galera animada faz do baile um festival/Tem outro baile que a galera toda treme/É lá no baile do Leme lá no Morro do Chapéu/Tem na Tijuca um baile que é sem bagunça/A galera fica maluca lá no Morro do Borel”

“Endereço dos Bailes”, MC Junior e Leonardo

“Que o Helipa, é baile de favela/Que a Marconi, é baile de favela/E a São Rafael, é baile de favela”

“Baile de favela”, MC João

Para quem estuda a cultura do funk, o orgulho serve como defesa contra a estigmatização, que vai da classe social ao gosto musical. “Movimento funk leva à desesperança”, manchetou o Jornal do Brasil em 1992, em uma das primeiras matérias negativas sobre os frequentadores de bailes funk. Nas letras do funk deste período, entretanto, o que predomina é um sentimento oposto. “Elas vão falar de como é bonita a Rocinha, como Vidigal tem lindas meninas, como a Cidade de Deus tem gente inteligente”, disse Adriana Facina, antropóloga e professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ao Nexo.

Em 2009, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro promulgou uma lei que declarava o funk como patrimônio cultural imaterial do estado. Como justificativa, dizia que o funk “está diretamente relacionado aos estilos de vida e experiências da juventude de periferias e favelas”.

QUANTO movimenta a indústria do funk nacional

Já foram feitas algumas tentativas de se estimar o valor da economia do funk no Rio. É uma conta difícil considerando a quantidade de eventos e lançamentos musicais, sem falar em negócios associados, como assessorias e agências de artistas, produtoras de vídeo, empresas de equipamento de som ou marcas de roupa. Muito do dinheiro gerado acaba ficando na própria comunidade, por isso a cena funk é entendida também como oportunidade econômica.

“O funk gera uma renda, gera para o gelo, para o rapaz que vende a bebida, que vende a água, gera renda para o salão de beleza, a questão da unha, do cabelo, o barbeiro, ele gera renda na questão da roupa”, explicou o fotógrafo Bira Carvalho, morador do Complexo da Maré e criador de um projeto sobre os trabalhadores nos bailes, em um simpósio em 2015.

Um levantamento da FGV (Fundação Getúlio Vargas) de 2008 estimou que, só no Rio de Janeiro , o ritmo era responsável direto por cerca de 10 mil empregos e um faturamento de R$ 10 milhões por mês. Segundo o estudo, as bilheterias de 879 bailes rendiam R$ 7,02 milhões. Os ganhos de MCs, DJs, vendedores ambulantes e funcionários de equipes de som seriam responsáveis por mais R$ 1,4 milhão. Já os cachês das equipes de som totalizariam R$ 2,14 milhões.

A carreira de grande parte dos MCs é curta, muitas não vão além de um sucesso. Mesmo assim, já serve para melhorar a condição de vida. “Um MC pode fazer 30 bailes por mês ao cachê de mil reais. Em seis meses, terá condições de montar um negocinho na favela, comprar uma casa e um carro”, explicou o DJ Marlboro à revista Veja em 2014.

Um vídeo com dezenas de milhões de visualizações no YouTube se torna uma fonte de renda também. O site de vídeos paga entre US$ 0,60 e US$ 5 para cada mil visualizações. Por esta conta, um vídeo como “Deu onda”, do MC G15, com mais de 300 milhões de visualizações, pode render até US$ 1,5 milhão (mais de R$ 4,7 milhões).

Um funkeiro de sucesso pode se apresentar mais de 20 vezes por mês. Dependendo do peso do nome ou do quão recente é o hit, um show de uma hora pode custar até R$ 30 mil. De acordo com apuração da reportagem, MC Guimê, que já deixou para trás o pico do sucesso, ainda consegue cobrar cerca de R$ 10 mil por apresentação. MC G15 custaria entre R$ 10 mil e R$ 15 mil a apresentação.

Quem ganha muito mais são os personagens que comandam o show todo. Dois dos empresários mais conhecidos e bem-sucedidos do ramo, com direito a reportagens de colunismo social mostrando amplas residências e automóveis de luxo, são Rômulo Costa e Konrad Dantas, o Kondzilla.

Costa é o chefe da equipe Furacão 2000, no Rio, talvez o maior império do funk carioca, responsável por centenas de festas, lançamentos fonográficos e produtos licenciados. Kondzilla, que nasceu na periferia de Guarujá, litoral de São Paulo, montou uma produtora de vídeos e de artistas que fatura mais de R$ 1 milhão por mês. São lançamentos alguns dos maiores hits dos últimos anos, como “Baile de favela”, de MC João, “Tá tranquilo, tá favorável”, de MC Bin Laden, e “Olha a explosão”, de MC Kevinho.

POR QUE o funk é criticado

O funk sofre críticas por diversos aspectos. Há quem reclame da sua falta de “musicalidade”. Nas comunidades em que acontecem festas, são frequentes os protestos por perturbação do sossego. Mas as duas acusações mais disseminadas são a de que o gênero faz apologia à violência e que é machista e objetifica a mulher.

O texto do abaixo-assinado enviado ao Senado que pede que o funk seja tornado ilegal diz que seu conteúdo é “podre”, responsável por “crime contra a criança, o menor adolescente e a família”. Conclui que o estilo configua “crime de saúde pública”, sendo uma “falsa cultura”. Os termos usados ecoam, em muitos casos literalmente, o que se diz sobre o funk em comentários nas redes sociais e sites de notícia. A avaliação de pessoas do meio é que a proposta, elaborada por um empresário paulista, tem pouca chance de emplacar no Senado.

Para MC Leonardo, da Associação dos Profissionais e Amigos do Funk, “todas as culturas populares brasileiras sofreram preconceito, mas poucos sofreram perseguição como o funk”. “Não tenho notícias de uma reação tão violenta contra um novo estilo musical que tenha acontecido em outro lugar no mundo”, afirmou Hermano Vianna em entrevista. De acordo com o antropólogo, foram muitas vezes em que ele ouviu relatos de equipamentos de som de bailes serem metralhados pela polícia. Notícias recentes dão conta de que o veículo Caveirão, do BOPE, vem sendo usado para derrubar e destruir aparelhagens de som de festas de funk.

Do outro lado, existem muitas denúncias de atos de violência dentro de bailes funk, não faltando vídeos no YouTube e reportagens na mídia sobre isso. No Rio de Janeiro, um período da década de 1990 é conhecido como o dos “bailes de corredor”, em que galeras rivais, separadas em lados distintos por seguranças, trocavam agressões físicas. Muitas letras reforçam essa impressão ao cantar sobre armas, crimes e conflitos, caso do “Rap das armas”, sucesso da década de 90 que lista marcas e modelos de pistolas e fuzis. Em sua defesa, os artistas dizem que estão apenas cantando o que vivem. “O funk não é o criador da violência… mas canaliza a violência”, escreveu MC Leonardo em artigo no jornal O Globo.

Quando o funk começou a ganhar visibilidade fora das comunidades, os primeiros registros na mídia não estavam nos cadernos de cultura. Em outubro de 1992, facções rivais de jovens funkeiros se encontraram na praia do Arpoador, em Ipanema. Houve pancadaria, corre-corre e pânico entre os frequentadores da praia.

No livro “Funk Carioca: Crime ou Cultura? O som que dá medo. E prazer”, a jornalista Janaína Medeiros define o episódio como “o divisor de águas na história do funk”. Os rituais de confronto do baile acabaram reproduzidos no asfalto, em plena luz do dia. “No dia seguinte, fotos ocupavam as primeiras páginas dos jornais em todo o país e ganhavam manchetes no mundo”, escreveu Medeiros.

Para Adriana Facina, da UFRJ, o funk nasceu em um momento de ampliação do estado penal, guerra às drogas, com aumento do comércio e consumo de cocaína, e a escolha, com o fim da ditadura, de um “novo inimigo” na forma do jovem pobre de periferia. A “criminalização brutal” desse setor da população está ligada à macabra sucessão de chacinas ocorridas a partir de 1990, incluindo a ocorrida em Acari em 1990 (11 jovens, sendo seis menores, desaparecidos), e as da Candelária (oito jovens, sendo seis menores) e de Vigário Geral (21 moradores da comunidade), ambas em 1993. “O funk é fruto de tudo isso”, disse Facina ao Nexo.

Em 1995, no Rio, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito municipal com o objetivo de investigar a ligação do funk com o tráfico de drogas. Mas a comissão não encontrou provas que vinculassem o estilo musical às organizações criminosas.

Quatro anos depois, uma nova CPI, dessa vez estadual, resultou na Lei 3.410, de 2000, que atribuía uma série de obrigações administrativas e de segurança aos locais que sediassem os bailes, como instalação de detectores de metais na portaria, presença de policiais militares durante todo o evento, permissão escrita da polícia e proibição de se tocar música que fizesse apologia ao crime. Para envolvidos na cena do funk, eram exigências pensadas para estabelecimentos com melhores condições econômicas, não eventos realizados em comunidades.

Em 2008, com a chegada das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) nos morros, uma das medidas foi o fechamento dos bailes funks. Para quem trabalha e pesquisa o funk, proibir o baile acabou empurrando o funk para a zona de influência do tráfico. Se o baile não pode ocorrer onde está a UPP ele ficará restrito às áreas dominadas por bandidos. Nesse caminho, surgem os “proibidões”, os funks de apologia ao crime e a facções. O processo é antigo, de acordo com Hermano Vianna. Já por volta de 1990, a maioria dos bailes de clubes, fora da favela, foram encerrados pela polícia a mando das autoridades. Foi também o tempo em que o tráfico subiu de patamar, com armamentos mais pesados e novas estruturas de organização. Muitas das festas migraram então para os locais controlados pelo tráfico, uma “aproximação forçada entre os dois fenômenos nascentes, em uma ‘mesma realidade’”, afirmou Vianna.

Postura machista

No início dos 2000, a música “Tapinha não dói”, foi motivo de ação pelo Ministério Público Federal e pela ONG Themis Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero. O argumento do processo era de que a letra era machista e tratava de forma banal a violência contra as mulheres.

Em 2015, a deputada federal Moema Gramacho (PT-BA) tinha certas letras de funk entre seus alvos quando propôs lei proibindo o uso de dinheiro público para a contratação de artistas que exponham mulheres a situações de constrangimento. “Isso se torna popular até entre crianças, e então cria-se uma cultura de violência e de desvalorização de gênero”, disse em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

“É cultura do estupro em ritmo de funk”, disse a cantora Fernanda Abreu sobre o hit “Baile de Favela”, de MC João, em entrevista ao O Globo em 2016. Ao mesmo tempo, Abreu pergunta se o conteúdo da música não é apenas outro reflexo do machismo geral da sociedade brasileira, que, como ela mesma aponta, também abrange casos de estupro realizados por estudantes de medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Para Adriana Facina, da UFRJ, também é questionável destacar o machismo no funk quando ele existe em outros gêneros, reflexo de um machismo mais amplo da sociedade. Para ela, o funk também pode ser situado na “vanguarda do enfrentamento ao machismo” ao conferir protagonismo a vocalistas como Tati Quebra-Barraco, Valesca Popozuda e Deise Tigrona “falando da autonomia de seus corpos e desejos, de suas estratégias de sobrevivência”.

Em “100% feminista”, de MC Carol e Karol Conka, a letra fala que “Eu tinha uns cinco anos, mas já entendia/ que mulher apanha se não fizer comida/ mulher oprimida, sem voz, obediente/ quando eu crescer eu vou ser diferente”.

Entretanto, há quem aponte uma espécie de “machismo reverso” em muitas letras que se propõem feministas. Um bom exemplo, de acordo com o jornalista Silvio Essinger, seria “Liga pra Samu”, da própria MC Carol, que contém os versos “explanou no microfone/ que queria transar/ ela bebeu demais/ ela falou sem pensar/ minha amiga não é disso/ ela é mina de família/ se embalou no ritmo/ ritmo da putaria”. Haveria aqui um “componente moralista, da mulher que se vê pelos olhos do homem, como se sua confissão de tesão só pudesse ser explicada pela embriaguez”.

EM ASPAS: opiniões sobre o funk

“Quando fui a um baile funk pela primeira vez, acho que em 1986, minha primeira sensação era de estar entrando num terreiro do futuro. Não conhecia, no Brasil, outra festa popular de multidão comandada por música produzida exclusivamente por instrumentos eletrônicos. Os bairros ricos da cidade iriam descobrir o hip hop, o techno ou a house tempos depois”

Hermano Vianna

Antropólogo

“O negócio é fazer o povo dançar. Não tem dessas de ver na revista de moda a música que tá tocando lá fora. Se o pessoal dançou, deixa; se não, joga fora. Não importa se é sucesso no exterior”

DJ Marlboro

Em entrevista para a Folha de S. Paulo em 2004

“O rap é mais para se pensar nos problemas. O funk é para se soltar”

MC Furlan

Em entrevista ao Estado de S. Paulo em 2010

“Funk é música de adolescente, feita por adolescente e consumida majoritariamente por adolescente. Então você tem um grande problema. Tipo hotel de férias: entra uma turma, se diverte, e no ano que vem já é outra turma, porque os outros já cresceram. O pessoal que consumia o funk ostentação com 15, 16 anos hoje já tem 20 e poucos, já trabalha, às vezes casou, já tem filhos e saiu da balada”

Renato Barreiros

Diretor de “Funk ostentação”

“A Austrália tem esses marsupiais muito doidos porque é uma ilha e eles se acasalaram até formar algo estranho. É meio o que aconteceu com o baile funk. O Miami Bass ficou aprisionado lá e se tornou essa coisa brasileira estranha e híbrida. Mas a coisa com o funk é que não existia uma indústria. Por um tempo eles vendiam singles, mas só no Rio. Era feito com CDs pirata. Não havia uma mão gigante ajudando a levar as coisas para um lado ou para outro. Era assim que os garotos queriam que fosse, o mais cru possível. Nunca vi algo se desenvolver assim em nenhum outro lugar por onde passei”

Diplo

DJ e produtor

NA ARTE

‘Funk Rio’ (documentário, 1994)

‘Sou feia, mas tô na moda’ (documentário, 2004)

‘Funk ostentação’ (documentário, 2012)

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