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Pílula anticoncepcional: da revolução sexual à revisão de seu uso

Inventado nos anos 1960, medicamento revolucionou a contracepção e o comportamento. Mas tem sido questionado por mulheres que buscam menos hormônios e mais partilha de responsabilidade com os homens

A pílula anticoncepcional chegou ao mercado nos anos 1960 e revolucionou a saúde e o comportamento. Muito mais eficiente para evitar a gravidez, impactou a autonomia das mulheres sobre o próprio corpo e possibilitou a tomada de decisão, por parte delas e das famílias, a respeito de querer ter filhos, além de quando e quantos.

Desencadeou, assim, uma mudança comportamental importante na relação das mulheres com o sexo, sobretudo do sexo fora do casamento, e é, por isso, frequentemente indicada como estopim da Revolução Sexual.

O medicamento se tornou, desde então, um dos métodos contraceptivos mais utilizados por mulheres do mundo inteiro. É, ao mesmo tempo, questionado desde a década de 1970 pelos efeitos colaterais da carga hormonal aplicada exclusivamente às mulheres e pela falta de transparência de médicos e da indústria farmacêutica com relação a esses efeitos.

O QUE é a pílula anticoncepcional

A pílula é um medicamento contraceptivo oral que atua por meio da inibição da ovulação. Ela também provoca alterações nas características físico-químicas do endométrio e do muco cervical, que são, respectivamente, a mucosa que cobre o interior do útero e a secreção produzida no colo do útero (sua “entrada”). O objetivo é tornar a mucosa menos atraente para os espermatozoides, impedindo a penetração deles dentro da cavidade uterina.

No mercado, há hoje as pílulas combinadas, que associam os hormônios sintéticos de progesterona e estrogênio, semelhantes aos produzidos pelo ovário da mulher, e as minipílulas, apenas com progesterona — recomendadas para quem apresenta efeitos colaterais com outros tipos de pílula.

As combinadas podem ser: monofásicas, bifásicas ou trifásicas. O que muda é se a dose hormonal varia ou não ao longo da cartela.

3 tipos de pílulas combinadas

Monofásicas

A dose dos esteroides é constante em todos os comprimidos da cartela.

Bifásicas

Contêm dois tipos de comprimidos com os mesmos hormônios em proporções diferentes.

Trifásicas

Três tipos de comprimidos com os mesmos hormônios em proporções diferentes.

No caso das combinadas, “são métodos muito eficazes quando usados correta e consistentemente, podendo sua taxa de falha ser da ordem de 0,1%, no primeiro ano de uso”, segundo uma cartilha do Ministério da Saúde.

Elas contêm, atualmente, de 50 a 150 microgramas de progestina (progesterona sintética) e entre 20 e 50 microgramas de estrogênio.

QUEM inventou a pílula anticoncepcional

As pesquisas médicas que resultaram na criação da pílula tiveram início nos anos 1950, nos EUA. A invenção da pílula contraceptiva é comumente atribuída ao cientista americano Gregory Pincus.

O trabalho de Pincus, ao lado do ginecologista John Rock, foi precedido pela atuação de uma enfermeira, educadora sexual, escritora e ativista do controle de natalidade, a americana Margaret Sanger.

Desde 1873, quando foi aprovada a Lei de Comstock nos EUA, o acesso a qualquer tipo de contracepção ou informação sobre contraceptivos era proibido no país.

Foto: Biblioteca do Congresso dos EUA/Domínio Público
Sanger, pioneira do planejamento familiar
Sanger, pioneira do planejamento familiar

Sanger atuou praticamente sozinha e na contramão das políticas de sua época. Abriu a primeira clínica de controle de natalidade americana em 1916, em Nova York. Logo depois, foi presa. Paga a fiança, seria presa novamente pouco depois junto com Ethel Byrne, sua irmã.

Sanger também criou a American Birth Control League (Liga de controle de natalidade, em tradução livre), organização predecessora da Planned Parenthood que atua até hoje na área de saúde reprodutiva e do planejamento familiar.

Sanger ainda influenciou ativamente o desenvolvimento da pílula anticoncepcional. Em 1950, ela “convenceu” a bióloga, sufragista e rica filantropa Katherine McCormick a financiar a pesquisa de Pincus e Rock. Os dois cientistas iniciaram os testes do uso de progesterona/progestina para contracepção, segundo a biografia “Margaret Sanger: A Life of Passion”, escrito pela historiadora Jean Baker.

Desde o final dos anos 1930 já se sabia que a progesterona era capaz de interromper a ovulação em fêmeas mamíferas. No fim da década seguinte, o químico Carl Djerassi descobriu como sintetizar o hormônio a partir de uma variedade mexicana do inhame, chamada “cabeza de negro”.

Para alguns, o princípio do anticoncepcional já havia sido inventado nesse momento. Mas ainda era preciso testá-lo e torná-lo um medicamento comercializável, o que só ocorreria uma década mais tarde.

Pincus e Rock passaram a testar os efeitos da progesterona em mulheres adultas e férteis. Rock já havia começado a fazer experimentos com suas pacientes envolvendo progesterona, com a proposta (ou o pretexto, para burlar as leis americanas que proibiam a contracepção) de tratar a infertilidade. A primeira rodada de testes foi feita em 1953, em algumas dezenas de mulheres americanas.

Não se tinha ideia da extensão dos efeitos colaterais que o tratamento poderia provocar. As pacientes que concordavam em participar dos testes não eram pagas, tampouco eram informadas de que se tratava de uma pesquisa cujo objetivo era desenvolver uma droga anticoncepcional eficaz, segundo o livro “The Birth of the Pill” (O nascimento da pílula), do jornalista Jonathan Eig.

Ainda segundo o livro, as mulheres testadas recebiam dosagens bastante altas de progesterona, que iam de 250 mil a 300 mil microgramas por dia. Parte delas deixou o experimento devido à rotina exigida ou aos efeitos colaterais, como náusea e seios inchados.

COMO foram feitos os testes da pílula 

Para chegar à eficácia que tornaria o medicamento atraente para a indústria e para as mulheres, os médicos precisavam ampliar a escala do experimento. Isso não seria possível nos EUA, dadas as barreiras legais. Pincus e Rock se voltaram então para Porto Rico, ilha caribenha que, desde 1950, é um Estado livre associado dos Estados Unidos. 

Porto Rico tinha, então, duas características que a tornavam propícia, aos olhos dos cientistas, para os experimentos com a contracepção oral: era superpopulosa e não tinha leis que proibiam contraceptivos. A taxa de fecundidade no país era de 5,2 filhos por mulher.

Os testes realizados com as porto-riquenhas são “um dos capítulos mais controversos — e raramente discutidos — da história de uma droga que simboliza a libertação das mulheres”, diz um artigo publicado no jornal The Washington Post.

Em 1956, mais de 200 mulheres foram testadas em Porto Rico. Boa parte delas já tinha muitos filhos e poucos ou nenhum meio de evitar a gravidez. Elas receberam altas doses hormonais e pouquíssima informação sobre a segurança do experimento. Muitos dos efeitos colaterais relatados pelas porto-riquenhas foram desconsiderados pelos médicos. 

1.500

mulheres porto-riquenhas participaram do experimento, que durou de 1956 a 1964

3

participantes morreram, mas, como não foi feita autópsia, não está claro se a morte delas estava ligada à pílula

(fonte: The Washington Post)

QUANDO o uso da pílula anticoncepcional ganhou escala

Depois de criada e testada nos anos 1950, a pílula só poderia ser comercializada regularmente nos Estados Unidos se aprovada pela FDA, agência federal americana que controla os alimentos e medicamentos que entram no mercado.

A primeira pílula anticoncepcional, chamada Enovid, foi apresentada à agência como contraceptivo oral e aprovada em 1960.

De acordo com um relatório de 2013 da Planned Parenthood, a Enovid tinha uma dose cerca de 65 vezes maior de progestina do que as pílulas de hoje. 

A aprovação da pílula nos EUA ocorreu antes que se compreendesse plenamente os riscos do medicamento, como o desenvolvimento de alguns tipos de câncer e trombose. Apenas uma década depois se estabeleceu essa ligação.

Em 1965, 6,5 milhões de mulheres americanas já tomavam a pílula. 

No Brasil, o comércio da pílula Enovid teve início em 1962. Na época, alguns artigos sobre o medicamento foram publicados em jornais e revistas femininas. Mas a divulgação mais significativa foi realizada por representantes comerciais que atuavam junto aos médicos, segundo o artigo “A experiência com contraceptivos no Brasil: uma questão de geração”, da historiadora Joana Maria Pedro.

Ainda segundo o artigo, muitas mulheres brasileiras de classe média aderiram à pílula, fazendo o mercado para o medicamento crescer em ritmo acelerado. Em 1970, 6,8 milhões de cartelas de pílulas anticoncepcionais foram vendidas e, em 1980, este número subiu para 40,9 milhões. Mulheres das classes baixas poderiam obter a pílula gratuitamente em ONGs como a Bemfam, sigla para a organização Sociedade Civil Bem Estar Familiar no Brasil.

COMO a pílula anticoncepcional mudou o comportamento sexual

Para os homens, fazer sexo com uma mulher sempre foi um ato potencialmente separado da concepção. Embora culturas e religiões ao longo da história tenham condenado o sexo sem finalidade reprodutiva, esta interdição, na prática, era aplicada somente às mulheres, por serem quem lida diretamente com a gravidez.

Para elas, a separação entre sexo (com um homem) e reprodução só pôde se tornar efetivamente possível a partir da invenção da pílula. Isso provocou mudanças culturais e comportamentais, relativas principalmente ao sexo fora do casamento e à sexualidade feminina.

Para a escritora britânica Margaret Drabble, a invenção afetou a moralidade em torno das relações sexuais. Ela lembra ainda que, no passado, engravidar e dar à luz representava um risco para as mulheres e que aquelas sexualmente ativas não tinham meios de evitar passar pela dor e o confronto com a morte que um parto representava.

“Ela [a mulher] é livre agora como nunca antes”, diz, e, segundo ela, o acesso à contracepção é a cláusula final do contrato de emancipação pelo qual as mulheres passavam nos anos 1960, já que “educação, poder trabalhar, pagamento igualitário e igualdade social não significavam muito quando podiam ser anulados por uma gravidez indesejada”, escreve.

Embora essas mudanças comportamentais não tenham sido homogêneas na sociedade ou igualmente disseminadas globalmente — a definição de Revolução Sexual do dicionário de língua inglesa Oxford as endereça principalmente aos países ocidentais nos anos 1960 — ideias e costumes se espalharam e, com a pílula, chegaram a países como o Brasil.

Aqui, a emancipação das mulheres e a Revolução Sexual foram pautadas por revistas como a Realidade, uma das mais culturalmente relevantes da década de 1960.

Atualmente, entretanto, a narrativa histórica sobre a Revolução Sexual e o papel da pílula como estopim único da transformação em curso na época são relativizados por alguns trabalhos acadêmicos, entre eles o livro “America and the Pill: A History of Promise, Peril, and Liberation” (Os EUA e a pílula: uma história de promessas, riscos e libertação, em tradução livre), da historiadora Elaine Tyler May.

May afirma que a ideia de que a pílula foi responsável por afrouxar os costumes sexuais é, em grande medida, um mito. Para ela, o impacto do medicamento para a Revolução Sexual é incerto — o que é evidente é seu impacto sobre o casamento e a vida das mulheres casadas, por meio do planejamento familiar.

O aumento da liberdade sexual para as mulheres americanas vinha acontecendo progressivamente, desde os anos 1920, embora a revolução nos hábitos sexuais seja mais associada aos anos 1960.

Ela pontua ainda, que, em geral, a decisão de tomar a pílula ocorria às jovens mulheres que já eram sexualmente ativas e não as “fazia decidir” por começar a vida sexual. Além disso, o tabu em torno da sexualidade das mulheres foi, durante muito tempo, transferido para o acesso ao medicamento.

Segundo a pesquisa de May, havia médicos que se recusavam a receitar a pílula para mulheres solteiras e leis estaduais americanas que proibiam a prática, além do próprio desconforto, por parte das mulheres jovens nos anos 1960, em pedir ao médico da família que lhes receitasse o anticoncepcional oral.

POR QUE o uso da pílula é questionado

Duas frentes principais fazem objeções ao uso do medicamento contraceptivo: uma de natureza política e de saúde pública (1), outra de ordem moral e religiosa (2).

Mulheres que buscam contracepção sem hormônios

A “lua de mel” das mulheres e o medicamento durou menos de uma década. Em 1969, foi publicado o livro “The Doctor’s Case Against the Pill”, da escritora, ativista e jornalista Barbara Seaman. Ele denunciou riscos, alguns deles fatais, das altas doses de hormônios dos primeiros anticoncepcionais — como coágulos, câncer, ataque cardíaco, derrame, depressão e diminuição da libido — e como os médicos vinham falhando em informar suas pacientes sobre esses efeitos.

Audiências públicas foram realizadas em 1970 para investigar os efeitos colaterais da pílula e se a indústria sabia desses riscos

O livro inspirou uma geração de mulheres, até então desencorajadas por seus médicos a fazerem “perguntas demais”, a assumirem o controle sobre sua saúde, diz o obituário de Barbara Seaman feito pelo New York Times em 2008. 

Baseado na pesquisa de Seaman, o senador Gaylord Nelson convocou uma série de audiências públicas, em 1970, para investigar se os efeitos relatados pelas mulheres estavam ligados à pílula e se a indústria sabia desses riscos e não os informava às consumidoras. 

As audiências ficaram conhecidas como Nelson Pill Hearings e foram acompanhadas por feministas e outras mulheres preocupadas com os riscos do medicamento. Apenas homens, entretanto, foram convocados a testemunhar sobre a segurança da pílula.

As sessões foram interrompidas repetidas vezes por protestos de mulheres do Women’s Liberation Movement, que demandavam ser ouvidas no processo.

As audiências tiveram como principal consequência a determinação de que os anticoncepcionais orais nos EUA viessem com um aviso sobre os possíveis riscos e efeitos colaterais.

Apesar do abalo sofrido, a indústria farmacêutica lançou, a partir da década de 1980, outros tipos de pílula, como as multifásicas, com doses menores e novos tipos de progestina.

A oferta de métodos não hormonais de maior eficácia, como os DIUs, também aumentou a possibilidade de escolha das mulheres em relação à contracepção.

A imagem da pílula como invenção salvadora das mulheres tem sido novamente questionada, levando em conta seus riscos e sua história, por uma nova onda feminista. Como consequência, questões como contracepção e saúde da mulher voltaram a se politizar

Nesse sentido, cada vez mais mulheres têm buscado abandonar os anticoncepcionais hormonais, substituindo-os por outros métodos. As redes sociais cumprem um papel importante na troca de experiências e na difusão de informações sobre “sair da pílula”.

A razão para essa revisão não está só no aspecto da saúde e da carga de hormônios sobre o organismo, mas também na partilha de responsabilidade sobre a contracepção com os homens.

“Em nossas consultas, colocamos na mesa, literalmente, todas as opções, riscos e benefícios. Algo que deveria acontecer com qualidade desde a escola, nos grupos em centros de saúde”, diz Halana Faria, ginecologista do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde ao Nexo.

Segundo Faria, o coletivo não é “anti-hormônio”. “Reconhecemos que muitas mulheres podem beneficiar-se de seu uso. Mas, em geral, um médico não dispõe de uma hora para oferecer esse tipo de informação. Por isso as mulheres têm se organizado em grupos no Facebook para buscar e compartilhar elas próprias as informações.” 

Igreja

As igrejas têm um longo histórico de rejeição aos contraceptivos. Foi apenas em 2010 que o papa Bento 16, declarou que o uso de preservativos era aceitável em “alguns casos”, para combater a Aids.

Até o início do século 20, todas as religiões cristãs se posicionavam contra os métodos de contracepção, segundo material educativo da BBC.

Essa proibição, segundo o texto, tem mais a ver com a interpretação acerca do matrimônio, do sexo e da família de cada religião do que com o que consta nas escrituras religiosas. As razões para a posição das igrejas cristãs residem, em geral, na opinião de que os métodos são antinaturais, contra a vida e análogos ao aborto. Há ainda a ideia de que a contracepção leva a um comportamento sexual tido como promíscuo e imoral.

Na década em que a pílula anticoncepcional entrou em circulação, a resposta da Igreja Católica foi um documento chamado “Humanae Vitae”, publicado em 1968 pelo papa Paulo 6º. O escrito reforçava a oposição aos métodos “artificiais”, como a pílula, em oposição aos “naturais”, como a “tabelinha”, que consiste na observação do ciclo menstrual e abstenção em dias férteis. Dizia que “qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida”. Em outras palavras, que o ato sexual deveria estar restrito ao casamento e ter como consequência e objetivo a procriação.

Hoje, a posição das religiões cristãs a respeito da contracepção em geral, e da pílula em particular, é menos homogênea. Na última década, em algumas ocasiões, a Igreja Católica foi obrigada a rever seu discurso relativo à contracepção.

Uma delas foi a epidemia de Zika. Em 2016, o papa Francisco declarou que a instituição admitia a flexibilização das restrições ao uso de métodos contraceptivos nas regiões afetadas pelo vírus que, se contraído durante a gravidez, pode provocar malformações no feto.

Divulgado em janeiro de 2017, o relatório “Barômetro latino-americano sobre o acesso das mulheres aos contraceptivos modernos”, da Federação Internacional de Planejamento Familiar, levantou dados sobre direitos reprodutivos no Brasil, México, Colômbia, Argentina e Chile.

O documento conclui que o acesso das mulheres a contraceptivos no Brasil é influenciado por correntes religiosas e grupos conservadores e que essa influência se dá porque muitas mulheres não têm acesso à informação ou a políticas públicas de educação sexual.

POR QUE a pílula masculina não vingou

Pesquisas voltadas para o desenvolvimento de um método contraceptivo eficaz e reversível para os homens têm sido feitas desde a década de 1950. Desde então, alternativas hormonais e não hormonais têm sido exploradas por cientistas.

Nos anos 1970, o médico brasileiro Elsimar Coutinho, especialista em fertilidade e controle de natalidade, trabalhou em parceria com o governo chinês. Na época, o país e o mundo estavam empenhados na redução da natalidade, o que tornava esse campo de pesquisa mais ativo e subsidiado pelos governos. Coutinho realizava testes com uma droga não hormonal chamada gossipol.

Com doses diárias aplicadas, em 1972, a 8.806 homens chineses, ela reduzia a contagem masculina de esperma. Os testes continuaram até meados da década de 1980, quando, devido aos efeitos colaterais — que incluíam queda de potássio no sangue e baixa permanente da fertilidade —, patrocinadores declararam que a droga era de pouco interesse.

Em 2016, a interrupção de uma pesquisa com um anticoncepcional masculino injetável ganhou repercussão. O estudo, que vinha sendo conduzido desde 2008 no mundo todo com a participação de 320 homens entre 18 e 45 anos, era financiado em parte pelas Nações Unidas. 

A injeção, aplicada a cada oito semanas, consistia em 1.000 miligramas de testosterona sintética e 200 miligramas de progestina e se revelou eficaz. Mas a Organização Mundial da Saúde exigiu a interrupção da pesquisa devido aos efeitos colaterais, como espinhas, mudança de humor, dores musculares e alteração da libido.

Obstáculos à pílula masculina

Falta de interesse comercial por parte da indústria farmacêutica

Atualmente, falta quem financie a pesquisa fazendo-a ir adiante, sendo preciso buscar apoio financeiro na sociedade civil.

Reduzir a fertilidade masculina de forma reversível é difícil

Do ponto de vista biológico, os homens produzem milhões de espermatozoides constantemente enquanto mulheres produzem um óvulo viável por mês, lembra Rob Stein, editor do conteúdo de saúde publicado no site da rádio pública americana NPR.

Aceitação pelo público-alvo

Durante muito tempo, a preocupação com a perda de virilidade e a supressão permanente da fertilidade foi um dos grandes empecilhos na aceitação dos homens em considerar aderir a um método anticoncepcional. A questão cultural da responsabilidade pela contracepção ser vista como algo que cabe à mulher também interferiu nos avanços do medicamento.

Atualmente, entretanto, essa mentalidade parece estar sendo revista. De acordo com a nota oficial divulgada em 2016 pelos pesquisadores para justificar a interrupção da pesquisa, 75% dos participantes queriam continuar a usar a injeção, apesar dos efeitos colaterais, e ficaram insatisfeitos quando os testes foram interrompidos.

NO MUNDO: o uso da pílula

Segundo o relatório “O direito à informação e serviços de contracepção para mulheres e adolescentes”, publicado em 2011 pelo Fundo Populacional das Nações Unidas, esse direito reprodutivo está entre os direitos humanos básicos.

O programa de ação da conferência internacional sobre população e desenvolvimento do órgão reconhece, ainda, “o direito de homens e mulheres de serem informados e terem acesso a métodos de planejamento familiar de sua escolha que sejam seguros, eficazes, economicamente acessíveis e aceitáveis”.

Atualmente, contraceptivos são usados pela maioria (64%) das mulheres casadas ou em união estável em idade reprodutiva em quase todas as regiões do planeta, segundo o relatório da ONU “Trends in Contraceptive Use Worldwide” (Tendências no uso de contraceptivos pelo mundo), de 2015. Em 1970, essa porcentagem correspodia a apenas 36%. 

Apesar do aumento global, há grandes disparidades entre regiões e países. No continente africano, o uso de contraceptivos nessa faixa corresponde a 33,4%.

O mesmo relatório revela que, mundialmente, a esterilização feminina e o DIU são os dois métodos mais comuns usados por mulheres casadas ou em união estável: 19% e 14% respectivamente. Os métodos de curta duração são menos comuns globalmente nesse grupo, com 9% dessas mulheres usando a pílula em 2015, 8% usando apenas camisinha, 5% anticoncepcionais injetáveis e 6% na tabelinha ou no coito interrompido.

Em pelo menos um em cada quatro países ou áreas com dados disponíveis, um único método é usado por pelo menos metade das mulheres casadas ou em união estável. Apesar da incidência da pílula parecer baixa quando analisada a nível global, em 2015, em 15 dos 45 países em que um único método é responsável por 50% ou mais do uso de contraceptivos, a pílula é o método dominante.

No Brasil, o planejamento familiar, que inclui o acesso à contracepção, é assegurado pela Constituição Federal e também pela Lei 9.263, de 1996. 

Entre 1970 e 2015, o uso de métodos contraceptivos no país aumentou de 48,9% para 79%, um crescimento superior à média da América Latina, como mostra um interativo feito pelo jornal The Guardian com base nos dados da ONU.

A PNDS (Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher) é realizada uma vez a cada década desde 1986 pelo Ministério da Saúde. Sua edição mais recente, de 2006, mostrou que para o total de mulheres brasileiras vivendo em alguma forma de união, 81% usavam anticoncepcionais (em comparação com 77% verificados em 1996).

A esterilização feminina, praticada em massa na América Latina ao longo do século 20, manteve-se como o método mais frequentemente utilizado na pesquisa (29%), seguida pela pílula (25%) e pelo preservativo (12%). A vasectomia responde por 5% das práticas contraceptivas, seguida pelos hormônios injetáveis (4%). O DIU, por outro lado, permanecia com baixo patamar de uso (2%).

No que diz respeito às fontes de obtenção dos métodos modernos pelas brasileiras, a PNDS de 2006 mostra que as farmácias continuam sendo a fonte mais importante de obtenção dos métodos hormonais (pílulas e injeções) e do preservativo. E que os serviços de saúde do SUS são os grandes responsáveis pelo provimento da esterilização e do DIU.

A Política Nacional de Planejamento Familiar foi criada em 2007. Ela inclui oferta de oito métodos contraceptivos gratuitos e também a venda de anticoncepcionais a preços reduzidos na rede Farmácia Popular. Teoricamente, toda mulher em idade fértil (de 10 a 49 anos de idade) teria acesso aos anticoncepcionais nas Unidades Básicas de Saúde, mas como toda ação de saúde pública, a cobertura é insuficiente.

EM ASPAS: o debate sobre a pílula

“[Em Porto Rico] as mulheres que descreviam efeitos colaterais como náusea, tontura, dores de cabeça e coágulos eram desconsideradas como ‘não confiáveis’. Apesar do efeito positivo substancial da pílula, sua história é marcada pela falta de conhecimento, falta de transparência, falta de escolha informada real e falta de pesquisas clínicas relevantes referentes ao risco”

Pamela Verma Liao e Janet Dollin

no estudo “Meio século da pílula contraceptiva oral”

“O que se observa é que, nos anos 60 e 70, a imprensa, de maneira geral, ocupou-se desta questão. Ao lado de discussões sobre a Guerra Fria e a ameaça de superpopulação, figuravam discussões sobre os modernos métodos contraceptivos e a opinião das mulheres sobre o assunto. Foi neste sentido que, em 1967, a revista Realidade, em seu famoso nº 10, que focalizou ‘A mulher brasileira, hoje’, informava numa pesquisa que 87% das mulheres consideravam importante evitar filhos, 46% adotavam alguma forma de contracepção e 19% delas já utilizavam as pílulas”

Joana Maria Pedro

no artigo “A experiência com contraceptivos no Brasil: uma questão de geração”

“Não é mais possível negar que encaramos a certeza de uma revolução sexual e que essa revolução, que afeta e muito as instituições do casamento, da maternidade e paternidade, é causada em grande parte pelo desenvolvimento de técnicas contraceptivas. Até muito recentemente, a confiabilidade de todos os métodos conhecidos era altamente questionável, e o ato sexual ainda era um ato cujas consequências poderiam ser inimaginavelmente significativas”

Margaret Drabble

em um artigo de 1967 para o jornal The Guardian

“Nos preocupa muito o relato recorrente de que as mulheres sentem que seus cuidadores ‘empurram’ a pílula a todo custo, elas raras vezes conseguem informações e apoio para métodos não hormonais. A pílula cai como uma luva na lógica segundo a qual as mulheres e seus corpos precisam de correção. Ela não é usada somente para fins contraceptivos, mas também para controle de sintomas como cólica e TPM, sintomas estéticos como controle da acne etc. Além disso é preciso alertar também para a forte influência da indústria farmacêutica na formação e prescrição médica”

Halana Faria

ginecologista do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde

NA ARTE

“A Redoma de Vidro”, de Sylvia Plath (1963)

O único romance da escritora e poeta americana conta a história de Esther Greenwood, jovem nos anos 1950 e início dos 1960 que lida com depressão. Quando um médico lhe receita a (recém-inventada) pílula, a protagonista passa a lidar de outra forma com suas ansiedades relativas ao sexo e ao futuro.

“The Pill”, de Loretta Lynn (1975)

Música da cantora country americana narra a alegria de uma mulher casada de poder tomar a pílula, já que antes ela engravidava todo ano.

“Miss Conception”, de Michele Pred (2013)

Performance em que Pred, vestindo um vestido de concurso de miss e uma coroa cravada de pílulas anticoncepcionais, interagia com as pessoas entregando-lhes cartões com concepções equivocadas sobre a reprodução. O título da obra faz um trocadilho entre “misconception” (concepção errada, em português) e Miss Conception (Miss Concepção, a figura encarnada pela artista). 

“Pare de Tomar a Pílula”, Odair José (1973)

Do cantor e compositor goiano Odair José, a música faz um apelo para que a companheira deixe a pílula e tenha um filho dele.

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