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A trajetória e as conquistas do movimento LGBTI brasileiro

Das publicações alternativas, passando pelo enfrentamento da Aids e pela visibilidade da causa por meio das paradas anuais, o ‘Nexo’ conta a história dessa luta por direitos civis

A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo é atualmente uma das maiores celebrações da diversidade do mundo. Centenas de milhares de pessoas se reúnem na avenida Paulista, todo ano, em um evento que une diversão e exposição de temas caros a homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais.

Sua existência é fruto de um movimento que começou, no Brasil, na década de 1970, com pequenas publicações alternativas, se reorganizou na década de 1980 em uma resposta à crise da Aids, e se tornou mais visível na década de 1990, abrindo espaço para conquistas de direitos.

A realidade mostra, porém, que essas conquistas vieram a partir de decisões do Poder Judiciário ou Executivo, e não de novas legislações propostas e aprovadas pelo Congresso — reflexo de um país conservador, que ainda registra recordes de agressões contra pessoas LGBTI. Abaixo, o Nexo detalha a trajetória dos movimentos e os avanços obtidos nas últimas décadas.

QUAL a origem do movimento LGBTI no Brasil

O movimento pelos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no Brasil começou a partir de reuniões em espaços sociais, como bares e clubes nos anos 1970, em plena ditadura (1964-1985). Eram nesses espaços que publicações homossexuais circulavam. Elas serviram de referência numa fase inicial de organização.

“Gueto era um nome que já usávamos para boates frequentadas por gays, lésbicas e travestis. Fazíamos panfletagem e buscávamos montar nossa pauta de reivindicação e apoio lá”, diz Alice Oliveira, militante lésbica.

Publicações precursoras

‘O Lampião da Esquina’

O primeiro jornal de temática homossexual com grandes tiragens e circulação nacional foi “O Lampião da Esquina”, fundado em 1978 como parte da imprensa alternativa da época. Ela se beneficiava do abrandamento da censura imposta pelo regime militar. A ideia da publicação era “dizer não ao gueto e, em consequência, sair dele”, conforme afirmava o editorial da primeira edição do veículo.

O “Lampião” fazia oposição à ditadura e servia para denunciar abusos contra LGBTIs, como a prisão arbitrária de lésbicas devido a sua orientação sexual em 1980, em São Paulo, no que foi apelidado de “Operação Sapatão” —algo que continuou a ocorrer com transexuais e travestis após a redemocratização. A cobertura do veículo incluía outras causas sociais, como a questão indígena. Ele era também uma resposta à parte da esquerda que associava os gays à “decadência burguesa” e via o movimento homossexual como “um desvio da luta principal”, que era “o fim do capitalismo”. "Era uma ideia de revolução com luta armada, de um homem muito masculino, que pega em armas”, afirma a ativista transfeminista e escritora Helena Vieira, em entrevista ao Nexo.

‘Chanacomchana’

Em sua edição de 1979, “O Lampião da Esquina” abriu espaço pela primeira vez para participantes lésbicas, que escreveram um longo artigo chamado “Não somos anormais”.

Em 1981, elas criam um novo jornal, depois transformado em boletim: “Chanacomchana”, vendido no Ferro’s Bar, frequentado por lésbicas no centro de São Paulo. Sua venda não era aprovada pelos donos, e as militantes chegam a ser expulsas. No dia 19 de agosto de 1983, participantes do Galf (Grupo Ação Lésbica-Feminista, fundado em 1981), com apoio de outras feministas e de gays, driblam o porteiro do Ferro’s, fazem um ato político e conseguem reverter a proibição.

O evento repercutiu nacionalmente e é frequentemente comparado à Revolta de Stonewall, de 1969, em que LGBTIs revidaram a uma ação policial no bar Stonewall Inn, em Nova York. Décadas depois, militantes propuseram a comemoração do 19 de agosto como Dia do Orgulho Lésbico, reconhecido no Estado de São Paulo pela Assembleia Legislativa.

No decorrer do tempo, cada uma das identidades que formam a sigla LGBTI desenvolveu uma voz política própria. Juntas, compõem a “sopa de letrinhas” do movimento, que inclui também as letras Q (queer) e A (assexual).

Siglas do movimento LGBTI

Gays

O primeiro grupo homossexual do Brasil foi o Somos (Grupo de Afirmação Homossexual), fundado em 1978 em São Paulo, em um momento em que os movimentos estudantil e de trabalhadores também se estruturavam. Apesar de a palavra “homossexual” dizer respeito também a lésbicas, ele possuía, no início, principalmente homens gays.

Lésbicas

Em 1979, um número maior de lésbicas se junta ao Somos após um debate no Departamento de Ciências Sociais da USP. Elas fundam uma subdivisão do grupo, a Lésbicas Feministas. A letra L é incluída na sigla geral do movimento em 1993, quando militantes votaram para que o Sétimo Encontro Brasileiro de Homossexuais passasse a se chamar Encontro Brasileiro de Homossexuais e Lésbicas. Em 2008, a Conferência Nacional GLBT decide, após um polêmico debate, posicionar a letra L à frente do G. O movimento passa a ser “LGBT”, com o intuito de dar maior visibilidade às lésbicas.

Bissexuais

Uma parte da luta dos bissexuais corresponde à de homossexuais, como o direito a união civil e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Bissexuais buscam, no entanto, visibilidade e reconhecimento de que não são apenas identidades indecisas entre homo e heterossexualidade, ou de que se tratam de pessoas necessariamente promíscuas. Em 2005, o 12º Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Transgêneros aprovou o uso de GLBT, incluindo, oficialmente, a letra B como representação de bissexuais.

Travestis e transexuais

Em 1992, é formada no Rio de Janeiro a primeira organização política de travestis da América Latina. A letra T é incluída no movimento geral em 1995, quando gays e lésbicas convidam formalmente travestis para seu encontro nacional e se funda a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis. Em 2008, a Conferência Nacional GLBT decide que T identifica, simultaneamente, travestis e transexuais homens e mulheres, mas não transgêneros.

Intersexuais

Intersexuais — aqueles que nascem com o sexo não claramente definido como masculino ou feminino — são alvo de violências específicas, como operações quando bebês. “Não somos aceitos como militância integrante da sopa de letrinhas”, afirma o militante intersexual Amiel Vieira.

O processo de aproximação e formação de um movimento conjunto ocorreu não só via grupos de visibilidade nacional, mas também por pequenos grupos locais. E não sem percalços. Por exemplo: muitas militantes lésbicas veem traços de machismo e domínio de homens gays sobre o movimento geral.

Travestis e transexuais homens e mulheres, por outro lado, apontam protagonismo excessivo de gays e lésbicas sobre suas pautas, no que a militante travesti Marjori Marchi definiu em 2010 como “tutela”. Em paralelo, transexuais mulheres e travestis debatem entre si a diferença exata entre as duas identidades.

COMO uma doença mudou o movimento

Se no início dos anos 1980 se contavam mais de 20 grupos homossexuais no Brasil, em 1984, contabilizavam-se sete e, em 1985, seis. “O Lampião” deixou de ser publicado em 1981, e o Somos se dissolveu em 1983, em um período no qual os estágios finais da ditadura geravam uma crise entre movimentos sociais no geral. Eles precisavam organizar novas formas de atuação que não fossem pautadas pelo grande inimigo que o governo militar representava.

O movimento homossexual tinha uma quest��o particular: a eclosão da epidemia de Aids, que afetou com mais força e primeiramente homossexuais homens, assim como bissexuais, travestis e transexuais no início da década de 1980.

Homossexuais ganharam um novo estigma, como vetores de uma doença mortífera, e a pauta da liberação sexual se esvaziou frente à nova crise de saúde pública. Militantes do Estado de São Paulo, especialmente, deixaram os grupos estabelecidos. Muitos passaram a atuar em projetos de combate à Aids. Grupos como o GGB (Grupo Gay da Bahia), fundado em 1980 em Salvador, e Triângulo Rosa, fundado em 1985 no Rio, tomam a dianteira do movimento.

“No meu bairro em Salvador, Barris, às vezes eu passava de moto e tinha uma molecada que gritava ‘Aids, Aids!’”

Luiz Mott

fundador do GGB e antropólogo, em entrevista ao Nexo

A crise serviu para aumentar a visibilidade dessa população. Verbas estatais e de agências de cooperação internacional para combate à Aids passaram a financiar grupos de homossexuais, que até hoje atuam em suas comunidades como parte da resposta ao problema.

A resposta das travestis e transexuais

A pressão exercida pela doença fez com que travestis também se organizassem. Em 1984, a pernambucana Brenda Lee começou a acolher em sua pensão em São Paulo os chamados “pacientes sociais”, ou seja, pacientes com Aids que não estavam doentes o suficiente para serem internadas em hospitais, mas debilitadas a ponto de não conseguirem manter vidas independentes. O local, que continua a existir, foi chamado inicialmente de “Casa das Princesas”, depois rebatizado de “Casa de Apoio Brenda Lee”.

Segundo o artigo “Contribuição a um futuro trans?”, publicado em 2013 na “Revista Latinoamericana Sexualidade Saúde e Sociedade”, projetos de prevenção de Aids “ofereceram a possibilidade concreta, através de cursos de capacitação e financiamento de projetos, para que travestis se constituíssem como sujeitos nos campos jurídico e político”.

Em 1992, um grupo de travestis que se prostituía na praça Mauá, região portuária do Rio de Janeiro, e se reunia como parte do programa contra Aids “Saúde na Prostituição”, do Iser (Instituto Superior de Estudos da Religião), forma a primeira associação travesti do país, a Astral (Associação das Travestis e Liberados).

Rapidamente, suas pautas passam a incluir a luta contra a repressão —continuavam a ocorrer ações de perseguição policial e prisão em massa de travestis como forma de “limpar” pontos da cidade, mesmo com o fim da ditadura.

“A Astral imprimia uma especificidade: as violências físicas e simbólicas sofridas pelas travestis não eram as mesmas que as sofridas por gays e lésbicas”, afirma em entrevista ao Nexo, o historiador Elias Ferreiras Veras, autor do livro “Travestis: carne, tinta e papel”.

QUANDO houve avanços civis

A resposta governamental à Aids é considerada uma das primeiras formas de reconhecimento do movimento LGBTI e suas demandas. Houve, no entanto, outras vitórias.

Vitórias do movimento LGBTI

‘Homossexualidade não é doença’

Desde a promulgação do Código Penal Imperial de 1830 não havia uma lei que punisse o amor com pessoas do mesmo sexo. Mas o “homossexualismo” ainda era rotulado na década de 1980 do século 20 como “desvio de transtorno sexual” no Código de Saúde do Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social.

Em 1981, o Grupo Gay da Bahia iniciou uma campanha nacional junto à sociedade civil, psicólogos e psiquiatras pela despatologização da homossexualidade. A vitória veio em 1985, com decisão favorável do Conselho Federal de Medicina. A despatologização ocorreu no Brasil cinco anos antes de a Organização Mundial de Saúde retirar a homossexualidade de sua lista de doenças.

‘Orientação sexual’

Na década de 1980, também se fortaleceu entre gays, lésbicas e bissexuais a defesa do uso do termo “orientação sexual” em oposição a “opção sexual”. A briga é por demarcar que a homossexualidade não é uma escolha objetiva, mas tampouco uma condição biológica inata.

O Grupo Triângulo Rosa, do Rio, realizou a defesa da inclusão do termo “orientação sexual” na Constituinte de 1987 em dois pontos: o artigo que veta discriminação por “origem, raça, sexo, cor e idade” e o que proíbe diferenças salariais motivadas por “sexo, idade, cor ou estado civil”.

A inclusão na Constituição não foi adiante, mas posteriormente foi adotada por legislações municipais e mesmo Constituições estaduais. No âmbito das Nações Unidas, o Brasil também marca posição contra a discriminação por orientação sexual.

Visibilidade

O movimento LGBTI começou a ganhar também visibilidade massiva nas ruas na década de 1990. Em 1995, a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersex realizou a sua 17ª conferência no Rio, que terminou com uma pequena marcha na praia de Copacabana. Em 1996, um ato na praça Roosevelt, em São Paulo, reuniu cerca de 500 pessoas reivindicando direitos LGBTI.

A partir daquele ato, coletivos LGBTI começaram a planejar a primeira parada LGBTI do país, que aconteceu em 1997 na avenida Paulista, em São Paulo. Ela teve entre 500 e 2.000 pessoas. Hoje a parada é um dos maiores eventos da capital paulista, reunindo um público maior do que o de cidades inteiras.

União e casamento civil

Apesar de haver projetos de lei garantindo esses direitos desde a década de 1990 em tramitação no Congresso, tanto a união civil estável quanto o casamento entre homossexuais foram concessões do Judiciário.

A união civil estável entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecida em 2011 pelo Supremo Tribunal Federal. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça permitiu o casamento civil entre homossexuais, assim como a conversão de uniões estáveis homoafetivas em casamentos civis.

Redesignação sexual

Em 2002, o processo de redesignação sexual —popularmente chamado de “mudança de sexo”— do fenótipo masculino para o feminino foi autorizado pelo Conselho Federal de Medicina. Desde 2008, passou a ser oferecido pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Em 2010, o processo de redesignação do fenótipo feminino para o masculino também foi aprovado pelo conselho e passou a ser oferecido pela rede pública. A espera na fila pode durar, no entanto, mais de 20 anos, e apenas uma fração de trans homens e mulheres e travestis com interesse é atendida.

Nome social

O nome social é aquele que pessoas transexuais e travestis, por exemplo, usam para se identificar, mesmo quando não alteraram o seu registro civil, o presente no Registro Geral. Desde 2009, o Ministério da Saúde permite que esse nome seja usado no SUS. Desde 2013, o governo federal permite seu uso no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Há também decisões em níveis federal, estadual e municipal nesse sentido que valem para órgãos públicos, instituições de ensino e empresas estatais.

Mudança no registro civil

Em março de 2018, o Supremo Tribunal Federal determinou que transgêneros podem alterar em cartório o nome e o registro de sexo presente no registro civil.

Criminalização da LGBTIfobia

Em junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal decidiu a favor da criminalização da homofobia e da transfobia, equiparando-as juridicamente ao racismo. Isso significa que práticas homofóbicas e transfóbicas passam a ser enquadradas como crime de racismo até que o Congresso Nacional aprove uma lei específica sobre o preconceito contra esses grupos. O crime de racismo é inafiançável e imprescritível e a pena é de um a três anos de detenção e multa.

Fim da proibição para doar sangue

O Supremo Tribunal Federal derrubou em maio de 2020 as normas sanitárias que proibiam de doar sangue homens que tiveram relações sexuais com outros homens nos 12 meses anteriores. No contexto da epidemia de aids, surgida na década de 1980, o Brasil proibiu em 1993 os homossexuais de doarem sangue. A restrição, também adotada em outros países, visava a controlar a transmissão do HIV por meio de transfusões. Em 2002, o veto foi flexibilizado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), passando a autorizar a doação desde que a relação sexual do doador com outro homem tivesse ocorrido há pelo menos 12 meses. À medida em que o comportamento e a transmissão do vírus passaram a ser melhor compreendidos, a proibição passou a ser entendida como discriminatória por associar a orientação sexual a um comportamento de risco.

QUAIS os desafios dos movimentos

Travestis e transexuais têm como pauta essencial o direito a exercer a identidade de gênero, ou seja, viverem e serem reconhecidos ou reconhecidas de acordo com o gênero com o qual se identificam.

Hoje, a única forma de transexuais e travestis alterarem seu registro civil é por meio de pedidos na Justiça. Juízes, com frequência, fazem exigências como pareceres de psicólogos e psiquiatras, além de cirurgias de redesignação sexual.

Há um projeto de lei de 2013 apresentado pelos deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Érica Kokay (PT-DF) que prevê esse direito de forma explícita. A mudança ocorreria em um processo em cartório e não precisaria ser pleiteada na Justiça, mas o histórico de rechaço do Congresso às pautas LGBTI indica que sua aprovação é improvável. A expectativa recai sobre decisões do Judiciário.

Além disso, a transexualidade continua a ser classificada como doença pelo Conselho Federal de Medicina, assim como acontece na Organização Mundial de Saúde.

Uma questão que afeta LGBTIs, em particular no Brasil, é a violência. Anualmente, o Grupo Gay da Bahia publica um relatório em que compila casos de assassinatos de LGBTI no Brasil. Ele é baseado em relatos da mídia e não pode ser considerado um retrato completo da violência. A forma como essas mortes ocorrem é encarada por militantes, no entanto, como indício de que se tratam de crimes de ódio.

“Você vê crimes em que as pessoas não são mortas com uma, duas ou três facadas, mas com 20, 30, 50. Vê crimes em que os corpos são jogados fora. Esse requinte de crueldade aponta para crimes de ódio contra os LGBT”, afirmou Toni Reis,da Associação Brasileira LGBT, em entrevista ao Nexo realizada em 2016. Em números absolutos, o país é líder mundial no ranking de assassinatos de transexuais e travestis.

Mortes de LGBTi no Brasil

POR QUE a Justiça é protagonista nos avanços

Apesar de exemplos como a senadora Marta Suplicy (PMDB-SP), que na década de 1990 apresentou o primeiro projeto prevendo a união estável homossexual, ou de Jean Wyllys, que foi eleito em 2010 com uma plataforma pró-LGBTI, o Congresso é em geral refratário à causa.

Um exemplo dessa posição é a reação ao projeto de lei 122 de 2006, que criminalizaria a homofobia no país, como já ocorre com o racismo. Ele foi aprovado em 2011 pela Câmara dos Deputados, mas foi arquivado no Senado em 2015.

Em dados momentos, o Congresso vai além, e chega a barrar avanços articulados por outros Poderes. Em 2011, por exemplo, o governo Dilma Rousseff cedeu à pressão da Frente Parlamentar Evangélica e deixou de lançar o pacote “Escola Sem Homofobia” em troca de apoio para aprovação de outras pautas de interesse do Executivo. Apelidado pejorativamente de “kit gay”, ele estava pronto, e trazia informações e materiais didáticos para combate ao preconceito nas escolas.

A falta de atuação do Legislativo contribui para o processo da “judicialização da política” sobre questões LGBTI. O termo se refere a quando o Judiciário é chamado para resolver conflitos que tradicionalmente deveriam ser solucionados por outros Poderes.

Em entrevista concedida em 2016 ao Nexo, o cientista político Ernani Carvalho, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), afirmou que a judicialização da política decorre do “empoderamento” do Poder Judiciário realizado pela Constituição de 1988.

Esse movimento, afirmou, ocorreu em países que fizeram a transição de ditaduras para democracias na década de 1980. Muitos escolheram esse Poder como “fiador” do processo. Contudo, segundo ele, o Brasil optou por fortalecer ainda mais o Judiciário após o ano 2000, enquanto outros países realizaram ajustes no sentido contrário.

Os parlamentares que votaram a Constituinte não garantiram, diretamente, direitos de LGBTI e decidiram por não incluir, por exemplo, o veto à discriminação por orientação sexual. Mas estabeleceram princípios que, posteriormente, serviram de base para garantir esses direitos judicialmente. São eles:

  • Dignidade da pessoa humana
  • Promover o bem estar de todos, sem preconceitos e discriminação
  • Igualdade de direitos
  • Liberdade
  • Segurança jurídica

NO MUNDO: os direitos LGBTI

O avanço dos direitos LGBTI no mundo é desigual. Essa desigualdade é vista, por exemplo, no próprio continente americano. Na Jamaica, por exemplo, a homossexualidade ainda é crime. Na Bolívia, no Uruguai e no México, há legislações federais contra a homofobia. A legislação uruguaia permite que uma pessoa transexual mude o sexo registrado em sua documentação sem que tenha passado por cirurgia.

A ONU (Organização das Nações Unidas) tem uma série de recomendações aos países voltadas a proteger a população LGBTI. Publicado em 2016, o relatório “Vivendo livres e igualmente” aponta as medidas que 200 países estão tomando para implementá-las.

Ele ressalta que “mesmo em países que em tese registraram maior progresso no que diz respeito aos direitos de homens gays e lésbicas, houve, até o momento, bem menos atenção em proteger pessoas trans e cuidado incipiente com os direitos de pessoas intersexuais”.

Veja abaixo algumas das recomendações da ONU e o que tem sido feito para implementá-las mundialmente:

Discriminação

Países devem proibir a discriminação de pessoas LGBTI. As legislações de Malta e Austrália, por exemplo, proíbem explicitamente a discriminação no mercado de trabalho e na educação.

Despatologização

A ONU recomenda a despatologização de LGBTI e repudia o tratamento médico coercitivo — com operações não desejadas, por exemplo. Apenas alguns países reconhecem legalmente o direito de adultos e crianças trans de terem suas identidades reconhecidas através de processos administrativos simples. A maioria ainda possui requisições abusivas para a concessão desse direito, como que transexuais se divorciem, ou realizem cirurgias, “em violação a padrões de direitos humanos”.

Campanhas

Mensagens públicas criticando crimes de ódio contra LGBTI devem ser adotadas. A campanha Brasil Sem Homofobia, lançada em 2003 pelo primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva e mantida até 2011, é citada como exemplo positivo. Na Tailândia, mais de 2.000 estudantes de escolas e universidades participaram da campanha “Escola do Arco-Íris”, em que se desenhavam arco-íris em pontos de reunião mostrando que eles promoviam a diversidade.

Bullying

O bullying motivado por orientação sexual ou identidade de gênero tem efeito duradouro na vida das pessoas LGBTI. Para evitar esse impacto, a ONU recomenda o treinamento de funcionários e o fornecimento de informações sobre questões de sexo, identidade de gênero e características sexuais. Como exemplo positivo, cita a Lei Antibullying aprovada nas Filipinas, que tem uma sessão especial sobre a questão LGBTI.

Crimes de ódio

Menções a orientação sexual, identidade de gênero e características sexuais devem ser incluídas em leis contra crimes de ódio ou incitação a crimes de ódio. Malta é o primeiro país a incorporar características sexuais como fator agravante em relação a um crime, o que o torna o primeiro a proteger pessoas intersexuais.

Aplicação da lei

Legislações contra violência e incitação à violência devem ser aplicadas, independentemente de haver menção específica a LGBTI. A ONU cita Brasil, México e Honduras como casos positivos por terem estabelecido e treinado equipes específicas para investigar crimes de ódio homo e transfóbicos

Monitoramento

Países devem encorajar a coleta de informações sobre violência, crimes de ódio e discurso de ódio. O governo da província canadense de Quebec, por exemplo, concedeu apoio à organização sem fins lucrativos Gai Écoute para que essa registre atos homofóbicos.

Treinamento

Agentes de segurança devem ser treinados de forma a respeitar os direitos humanos do público LGBTI. A Dinamarca desenvolveu um manual para o treinamento de policiais sobre como lidar com crimes de ódio baseados em orientação sexual.

Suporte a vítimas

Vítimas de crimes de ódio baseados em orientação sexual, identidade de gênero ou características sexuais deveriam ter apoio do Estado, inclusive médico, legal, psicológico e de moradia. Um relatório da Comissão Europeia destacando boas práticas a respeito do assunto destaca que a maior parte do apoio parte da organização civil, e mais verbas estatais deveriam ser garantidas.

Proteção de detentos

A ONU recomenda que se protejam detentos LGBTI, que são especialmente vulneráveis a “humilhação, abuso, estupro e outras formas de violência sexual e física”. O Departamento de Justiça americano cita as “vulnerabilidades únicas de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, intersex e prisioneiros de gênero não conformante” em suas políticas contra abuso de detentos.

Asilo a vítimas

Leis referentes à concessão de asilo a refugiados deveriam reconhecer a perseguição por identidade de gênero, expressão de gênero, orientação sexual ou características sexuais como argumento. Alemanha, África do Sul e Suécia incluíram perseguição por orientação sexual como motivo para concessão de asilo. Malta inclui também perseguição por motivos de identidade de gênero.

EM ASPAS: a evolução do debate público

“A sociedade perturbava muito… Perturbava, não queria que a gente ficasse na [estação de trem] Central do Brasil. Não queria que a gente ficasse na Lapa. Não queria que a gente ficasse em Copacabana. Aí, a polícia perturbava, vivia enchendo aqueles ônibus ‘coração de mãe’ e levando todos os dias para as delegacias”

Jovanna Baby

militante travesti, em relato presente no artigo “Contribuição a um futuro trans?”, publicado em 2013 na “Revista Latinoamericana Sexualidade Saúde e Sociedade”

“O pior poder sempre foi, realmente, o Legislativo. Ele sempre vê os homossexuais como um risco, na medida em que muitos eleitores, sobretudo os mais religiosos, acham que a homossexualidade é uma doença, um perigo para suas famílias. Eles [os congressistas] evitam tocar nesses assuntos e, durante o mandato legislativo, também se omitem. Não estão na hora de votação no plenário para serem identificados como simpatizantes de uma causa que faz perder eleitores”

Luiz Mott

fundador do Grupo Gay da Bahia, em entrevista ao Nexo

“Nós estamos atrasadas porque existimos, mas sempre abdicamos de existir. Existimos nos cochichos, nos bochichos, em algum barzinho, em algumas boates, n’alguma cama com algum corpo, nas fantasias e sonhações que, na maioria das vezes, arquivamos desde sempre. Nós estamos atrasadas porque temos medo, receio, cagaço mesmo de viver o que somos. (...) Nós estamos atrasadas porque os valores garantidos pelos esquemas repressivos têm conseguido um desempenho eficaz”

Militantes lésbicas do grupo Somos, em colaboração em “O Lampião da Esquina” em 1979

“Lembro que tive muito medo de a polícia aparecer e nos levar presas. Tive medo da imprensa também. Não era muito confortável aparecer nas páginas dos jornais na época. Mas organizamos tudo de forma a minimizar os riscos: chamamos os grupos gays da época e algumas feministas para dar apoio”

Míriam Martinho

militante do Galf, em entrevista concedida em 2009 ao site LGBT “A Capa”, sobre o ato político no Ferro’s Bar em 19 de agosto de 1983

“Ao contrário de outras ocasiões, quando nos sentíamos acossadas, nós — as militantes do Galf — tomamos a ofensiva naquela sexta-feira [19 de agosto de 1983]. Rosely fez discursos em várias cadeiras. É bom deixar claro que ela não é e não quer ser líder do grupo, pois lutamos contra a hierarquia e o poder; algumas militantes do grupo ainda lutam contra o medo de se exporem publicamente. A interiorização do medo e da repressão é um dos motivos que impedem o grupo de crescer quantitativamente. Porque qualitativamente ele vem avançando desde seu surgimento, em 1979”

Boletim “Chanacomchana”, de 1983

“Velhos preconceitos contra a homossexualidade, combinados com a construída moralidade revolucionária, que condenava as atividades sexuais entre os militantes do mesmo sexo, silenciaram ativistas no interior das frações das organizações de esquerda que expressassem qualquer desejo erótico direcionado a outros membros do mesmo sexo”

James N. Green

pesquisador da história LGBTI, no artigo “A luta pela igualdade: desejos e homossexualidade na América Latina”, publicado em 2003

“O que nos interessa é destruir a imagem-padrão que se faz do homossexual, segundo a qual ele é um ser que vive nas sombras, que prefere a noite, que encara a sua preferência sexual como uma espécie de maldição”

Jornal “Lampião da Esquina”

no editorial do primeiro número, em 1978

NA ARTE: obras de temática LGBTI

O Lampião da Esquina’, de 1978 a 1981

'Chanacomchana', 1981 a 1987

‘São Paulo em Hi-Fi’ (2013)

‘Essa estranha atração’ (1988)

‘Meu amigo Claudia’ (2013)

‘Dzi Croquettes’ (2009)

Vá ainda mais fundo

Drag Queen: Um percurso histórico na arte dos atores transformistas

Movimento homossexual no Brasil: recompondo um histórico

Na trilha do arco-íris: do movimento homossexual ao LGBT

Quem tem medo de sapatão? Resistência lésbica à Ditadura Militar (1964-1985)

Quando o movimento homossexual brasileiro virou LGBT

Em direção a um futuro trans? Contribuição para a história do movimento de travestis e transexuais no Brasil

Movimento LGBT e partidos políticos no Brasil

Transexualidade e travestilidade na saúde

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