Campeonato Brasileiro: história conturbada, disputas por dinheiro e paixão nacional

Conheça a trajetória e entenda as controvérsias do principal evento esportivo do Brasil

O Campeonato Brasileiro é principal evento esportivo do país, seja em número de público, seja no volume de dinheiro que movimenta em seus quase sete meses de duração.

Abaixo, o Nexo faz uma imersão na história da competição, as polêmicas que a cercam, as críticas sobre como é organizada e qual sua relevância no futebol mundial.

O QUE é, oficialmente, o Campeonato Brasileiro

O Brasileirão é organizado pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e se organiza em quatro divisões. Entre as competições de futebol realizadas no Brasil, é a mais almejada pelos clubes e jogadores.

Oficialmente, o Brasileirão começou em 1971, décadas depois de campeonatos estaduais e regionais.

Em 2017, nas quatro séries, foram 128 times de todas as unidades da federação, englobando equipes de realidades financeiras e de público muito distintas. A maioria dos clubes (68) está na série D.

Entre maio e dezembro são definidos os campeões das quatro séries, além de rebaixamentos, acessos e classificações para torneios continentais.

O Brasileirão teve diferentes formatos ao longo dos anos, mas atualmente as duas primeiras divisões  — com 20 times em cada uma — são disputadas no sistema de pontos corridos ou “todos contra todos”, em que o campeão é o que possuir mais pontos ao fim das 38 rodadas. Nas séries C e D o sistema é diferente, incluindo fase mata-mata.

O campeonato acontece após os estaduais e divide o calendário com a Copa do Brasil, a recém-criada Primeira Liga, campeonatos regionais e os torneios continentais Libertadores e Copa Sul-Americana.

QUANDO surgiram as competições nacionais de futebol

Não há consenso sobre quando o primeiro campeonato nacional de futebol ocorreu: 1959 ou 1971. A discordância se dá principalmente pela abrangência dos torneios — se havia um caráter de fato nacional ou eram poucos times de poucos Estados.

No final da década de 1950 a seleção brasileira já havia sido campeã mundial, mas, quando o assunto eram os torneios nacionais de clubes, o Brasil estava atrasado em relação às outras grandes potências do esporte. Um dos motivos é o tamanho do país, o que dificultava e encarecia a locomoção de times.

Os antecessores

Taça Brasil

Existiu de 1959 a 1968 com os campeões estaduais disputando o título nacional. Possuía mata-mata e fases regionais. Com esse formato eliminatório e regionalizado, os custos eram menores. Times considerados mais fortes, como os que defendiam o título, tinham o privilégio de estrear em etapas mais avançadas.

Robertão/Taça de Prata

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, ou Robertão, foi disputado de 1967 a 1970. A partir de 1968 também foi chamado de Taça de Prata. Surgiu como herdeiro do Torneio Rio-São Paulo ao abranger clubes de outros Estados, embora na primeira edição tenha tido representantes de apenas cinco Estados do Sul e Sudeste. Nos anos seguintes, somente três clubes do Nordeste (nenhum do Norte ou Centro-Oeste) chegaram a competir. Havia fase de grupos no qual os melhores se classificavam para um quadrangular final, de onde saía o campeão.

Em 1971, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos, que mais tarde se desmembraria em outras instituições esportivas, incluindo a CBF) instituiu o Campeonato Nacional de Clubes. É consenso que desse ano até hoje em dia o torneio é o mesmo, apesar das particularidades de edição para edição. A discussão é sobre os campeonatos de 1959 a 1970.

Os formatos de disputa, o número de times participantes e o nome do torneio variaram com frequência ao longo dos anos.

Mudança de nomes

QUEM já foi campeão nacional

As discordâncias sobre quando teve início um campeonato nacional de futebol no Brasil levam a outra confusão: elencar quantos títulos cada time possui. Formalmente, desde 2010 a CBF considera os vencedores da Taça Brasil e do Robertão (que aconteceram entre 1959 e 1970) como campeões brasileiros, somando os títulos daqueles dois campeonatos às conquistas a partir de 1971.

Ao todo, 17 clubes já foram campeões brasileiros.

Os títulos de cada clube, de 1959 a 2017

5 maiores goleadores da história do Brasileirão e seus títulos

  1. Roberto Dinamite: 190 gols, campeão pelo Vasco (1974)
  2. Romário: 154 gols, campeão pelo Vasco (2000)
  3. Edmundo: 153 gols, bicampeão pelo Palmeiras (1993 e 1994) e campeão pelo Vasco (1997)
  4. Fred: 138 gols (até 2017, ele segue na ativa), bicampeão pelo Fluminense (2010 e 2012)
  5. Zico: 135 gols, tricampeão pelo Flamengo (1980, 1982 e 1983)

As divergências

Quem discorda da unificação afirma que os antecessores do Brasileirão não tinham grande abrangência nacional. Quem jogava a Taça Brasil eram os campeões estaduais, e o Robertão tinha representantes de poucos Estados. O fato de haver dois campeonatos anuais com status de título brasileiro em 1967 e 1968 (Taça Brasil e Robertão em paralelo) também causa polêmica.

Outro argumento é que a unificação ocorreu a partir de um documento apresentado à CBF pelos seis clubes que acabaram beneficiados na contagem final de títulos — Santos, Palmeiras, Bahia, Botafogo, Cruzeiro e Fluminense. Isso, dizem os críticos, configura uma decisão política para a confederação agradar os times envolvidos, não um critério futebol��stico.

“O eneacampeonato atribuído [ao Palmeiras] pela CBF, que odeia futebol e só gosta de dinheiro, corrupção e política, corresponde a dizer que Dom Pedro 1º foi presidente do Brasil, quando foi imperador, o que não lhe retira o poder de número 1, então, do país”

Juca Kfouri

jornalista, em coluna na “Folha de S.Paulo” após o Palmeiras ser campeão brasileiro em 2016

Entre os motivos mencionados pela CBF e por outros defensores da unificação dos títulos nacionais estão: o fato de o Brasil ter tido “campeonatos nacionais regulares e ininterruptos a partir de 1959”, a “excelência e alto nível técnico das partidas”, a participação de “atletas consagrados” que jogaram também pela seleção brasileira em Copas do Mundo (e foram campeões) e a classificação dos vencedores da Taça Brasil e Robertão para disputar a Libertadores.

Outros argumentos favoráveis incluem o fato de, na época, fãs, imprensa e clubes considerarem os vencedores da Taça Brasil e Robertão como campeões brasileiros. E que era inviável um formato de disputa em que muitos times de diversas regiões do país se enfrentassem, dadas as limitações e custos de transporte na época.

“Parece que o mundo e o futebol brasileiro começaram apenas em 1971. É preciso reconhecer o que aconteceu antes. Ninguém aqui está querendo mudar o passado. É lógico e simples”

Luiz Gonzaga Belluzzo

em 2009, quando era presidente do Palmeiras e documento foi apresentado à CBF

Briga entre rubro-negros

Outra controvérsia é a edição de 1987. Após desavenças entre os grandes clubes e a CBF naquele ano, surgiu o Clube dos Treze, entidade com os maiores times do país na época. A ideia era se contrapor à instituição centralizadora da CBF, organizando campeonatos e negociando direitos de transmissão por conta própria. O Clube dos Treze então montou paralelamente a Copa União, mas a CBF, ameaçada, decidiu que seria apenas um grupo do campeonato.

O Flamengo venceu a Copa União, e o Sport venceu a Copa Brasil (nome do campeonato da CBF naquele ano). O campeão e vice de cada uma deveriam se cruzar num quadrangular final, mas Flamengo e Internacional (da Copa União) se negaram a participar, portanto Guarani e Sport se enfrentaram na decisão, com vitória deste último. A partir do ano seguinte, o campeonato voltou a ser um só.

Em 2011, a CBF considerou Sport e Flamengo como campeões de 1987 — até então, reconhecia apenas o rubro-negro pernambucano. Isso gerou uma reação do Sport que, após várias etapas, levou a uma decisão do Supremo Tribunal Federal em abril de 2017 segundo a qual o Sport é o único vencedor de 1987. O Flamengo insiste que foi campeão “dentro de campo”. Após a decisão do Supremo, a CBF passou a considerar o Sport como o único campeão brasileiro de 1987.

QUANTO de dinheiro circula no Brasileirão

Todos os anos os clubes recebem uma quantia para expor sua imagem e de seus jogadores em transmissões do Brasileirão na TV.

O Grupo Globo (dono da Rede Globo, SporTV e Premiere, canais que transmitem o campeonato) é atualmente o único comprador das cotas dos clubes do Brasileirão. Desde 2016 a Band não transmite mais o campeonato — o acordo era feito diretamente com a Globo, com um valor pago pela Band e sob a condição de que a partida transmitida precisava ser a mesma da emissora carioca. O Esporte Interativo (canal a cabo que pertence à americana Turner), que entrou na disputa nos anos recentes e já tem contrato com alguns times, passará a transmitir o Brasileirão em 2019 junto com a Globo — embora essa situação atípica ainda levante dúvidas sobre o que poderá ser transmitido por qual canal.

Os gastos das emissoras com os clubes, apesar de altos, são bancados por anúncios milionários durante os jogos, que possuem grande audiência.

Cada uma das seis empresas que patrocina o futebol na Globo em 2017 (o que inclui as outras competições transmitidas pela emissora, não só o Brasileirão) pagou cerca de R$ 283 milhões. O valor exato não é divulgado, mas apurado por jornalistas que cobrem assuntos de TV ou do mercado publicitário. As placas físicas que exibem as marcas nos estádios não estão incluídas nesse valor.

Os patrocinadores de 2017 foram Itaú, Brahma, Chevrolet, Johnson & Johnson, Ricardo Eletro e Vivo. A Globo define o acordo como “o maior projeto de comercialização do mercado publicitário brasileiro”.

Quanto vai para cada clube

É comum a reclamação no meio do futebol de que os times com maiores torcidas, sobretudo Flamengo e Corinthians, recebem um valor muito maior pelas cotas de TV do que clubes menores que também estão na primeira divisão do Brasileirão.

R$ 1,3 bilhão

é o montante que a Globo paga (em cotas fixas, ou seja, sem incluir pay-per-view) para os clubes da série A em 2017 para transmitir os jogos

Quem ganha menos pleiteia valores maiores, sob o argumento de que uma distribuição mais equitativa seria melhor para o futebol como um todo.

O receio é que os grandes times sejam privilegiados e, a longo prazo, o campeonato fique desequilibrado — o que por vezes é chamado de “espanholização” do futebol brasileiro, em referência ao domínio do Real Madrid e Barcelona na Espanha, quanto a resultado e dinheiro recebido. Com menos competitividade, a tendência seria a perda de valor de mercado do próprio Brasileirão.

Valores pagos em 2017 pela Globo

Os valores do gráfico acima dizem respeito às cotas fixas da Globo aos times. Elas não incluem a divisão de outros R$ 500 milhões do serviço pay-per-view do Premiere. Essa partilha acontece de acordo com a audiência dos jogos da equipe e de uma pesquisa que afere quantos dos assinantes torcem para cada time — o que acentua a disparidade entre as quantias recebidas pelos clubes, pois os de maior torcida ganham mais.

Para 2017, a divisão das cotas na série B teve uma mudança. Inspirados no sistema de direitos de imagem da Inglaterra, os clubes da série B acordaram em fevereiro de 2017 que parte do dinheiro será dividida igualmente e outra parte dependerá do resultado no ano anterior.

Portanto, os times que subiram da série C ganharão menos, e os que caíram da série A ganharão mais, com variações entre os que permaneceram na série B. As exceções são Internacional e Goiás, que têm contrato com a Globo.

Os clubes possuem diversas outras formas de ganhar dinheiro, embora os direitos de TV representem uma das maiores receitas. Patrocínios, ingressos de partidas, transferências de jogadores, venda de artigos esportivos e premiação pelo resultado em campeonatos são algumas delas.

R$ 60 milhões

foi a premiação total (paga pela Globo) aos 16 times que permaneceram na primeira divisão de 2016 para 2017

Segundo ranking da revista “Forbes” que leva em consideração relatórios financeiros, investimentos, jogadores e estádios de cada time, estes são os cinco clubes brasileiros mais valiosos:

  1. Corinthians, avaliado em R$ 532 milhões
  2. Palmeiras, R$ 480 milhões
  3. Grêmio, R$ 320 milhões
  4. São Paulo, R$ 188 milhões
  5. Internacional, R$ 158 milhões

QUAL o tamanho do público nos últimos anos

É comum ver, durante os jogos do Brasileirão, estádios com muito menos torcedores do que a capacidade total. Isso traz menos receita aos clubes e diminui o espetáculo em si, como entretenimento.

Os jogos às 21h45 durante a semana são frequentemente criticados, pois terminam muito tarde — dificultando que os torcedores possam assistir à partida inteira e ainda voltar para casa de transporte público, além de prejudicar quem precisa acordar cedo no dia seguinte. Segundo a Globo, é “mais valioso ter futebol nesse horário”.

Nos últimos anos foram acrescentados dois horários na série A: às 20h de segunda-feira e às 11h de domingo. É uma tentativa de diversificar as opções para os torcedores, na TV ou no estádio, aumentar o público e valorizar a competição.

O tamanho do público varia de acordo com o time que está em campo e com a capacidade do estádio. Em 2016, os jogos do Brasileirão tiveram em média 15.293 espectadores pagantes por partida.

Média de público por jogo

Nas últimas sete edições do Brasileirão (de 2010 a 2016), o maior destaque de público é o Corinthians: em todas elas o time aparece ou no primeiro ou no segundo lugar no ranking de média de público do campeonato. Nesse período, o clube foi campeão duas vezes (2011 e 2015) e teve média de 28.330 pagantes por jogo. Depois do Corinthians, os clubes com as melhores médias no mesmo período são, nesta ordem, Flamengo, São Paulo, Santa Cruz, Grêmio, Cruzeiro e Palmeiras.

Clubes com as maiores médias de público

Em toda a história do Brasileirão, entretanto, é o Flamengo o clube que leva mais gente ao estádio. Segundo um levantamento do site Verminosos por Futebol que considerou o público da primeira divisão de 1971 a 2015, o rubro-negro carioca tem uma média de 28.775 pagantes.

Em seguida vêm Corinthians (24.933), Atlético-MG (23.120), Bahia (22.407) e Cruzeiro (20.640). Entram nessa conta apenas as vezes em que os clubes disputaram a série A.

ONDE a bola rola

A série A do Brasileirão é dominada por clubes de São Paulo: são cinco em 2017. Em seguida vêm Rio de Janeiro (quatro), Bahia, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina (com dois cada um), além de Goiás, Pernambuco e Rio Grande do Sul (um clube de cada).

A grande maioria dos jogos da primeira divisão acontecerá em capitais — somente Chapecoense, Ponte Preta e Santos não são de capitais.

1.220

é o número total de jogos do Brasileirão em 2017, somando as quatro divisões

Quando se desce para as séries B, C e D, a “interiorização” se acentua cada vez mais, assim como a diversificação dos Estados participantes.

Estádios pelo país no Brasileirão 2017

Na série D, para evitar grandes deslocamentos e os gastos que decorreriam disso, os 17 grupos da primeira fase são divididos seguindo um critério regional. Os times que se enfrentam nessa etapa são de Estados vizinhos ou próximos. Na série C ocorre algo semelhante, mas são apenas dois grupos (com 10 times cada): no grupo A estão os times do Norte, Nordeste e Centro-Oeste; e no grupo B, clubes do Sul e Sudeste.

POR QUE o calendário está sempre em debate

Na Europa, principal mercado do futebol no mundo, os campeonatos nacionais e continentais começam entre agosto e setembro e terminam em maio ou junho. No Brasil, o maior torneio começa ainda no primeiro semestre, em maio, e vai até dezembro.

Os grandes campeonatos entre seleções (como Copa do Mundo, Copa América, Eurocopa e Copa das Confederações) acontecem em junho e julho, durante as férias dos clubes, seguindo a lógica do calendário europeu. O Brasileirão é interrompido durante a Copa do Mundo e acaba desfalcado dos seus principais atletas quando a seleção joga outros campeonatos.

É o que se chama de datas Fifa, dias reservados para partidas oficiais e amistosas entre seleções. A intenção é pausar os jogos entre clubes para que não haja desfalques e as atenções se voltem às seleções. Ao contrário da Europa, no Brasil essas datas não são respeitadas. Resultado: times entram em campo sem suas principais estrelas. A CBF argumenta que o calendário é apertado para suspender jogos nas datas Fifa e que há poucos convocados para seleções que jogam em clubes brasileiros.

Entre 2013 e 2016 existiu o Bom Senso FC, grupo de jogadores que pleiteava mudanças no futebol brasileiro — entre elas, o calendário. Para eles, havia jogos em demasia e o calendário era prejudicial aos atletas, assim como como o horário das 21h45. Houve alguns protestos de jogadores de grandes clubes antes de partidas do Brasileirão, a fim de chamar atenção para as pautas que levantavam. O grupo, que chegou ao fim por falta de recurso “tanto financeiro quanto humano”, também pedia mais voz dos atletas nos espaços de decisão do futebol.

A sincronização (ou não) do calendário do Brasil com o da Europa é um assunto constante entre quem acompanha o futebol.

Autor do livro “Um calendário de bom senso para o futebol”, Luis Filipe Chateaubriand escreveu um texto em dezembro de 2016 para o jornal “Lance!” defendendo a sincronização. Ele também elencou alguns argumentos de quem é contrário a ela:

A favor da mudança

Mais datas

Sem pausa para torneios de seleções no meio do ano (já que coincidiria com as férias dos clubes), haveria mais datas disponíveis para organizar os campeonatos.

Transferências

A ida de jogadores de clubes brasileiros para a Europa (algo frequente no mercado da bola) poderia se concentrar entre uma temporada e outra, evitando que times do Brasil fossem prejudicados ao perder atletas importantes no meio do Brasileirão. E também poderia haver intercâmbio entre brasileiros e europeus na pré-temporada, com benefícios técnicos e comerciais.

Contra a mudança

Calor

No verão, os jogos às 11h e às 16h de sábado ou domingo aconteceriam em temperaturas mais altas, colocando a saúde dos atletas e a qualidade do jogo em risco. O mesmo ocorreria nas partidas à noite, embora em menor intensidade.

Esvaziamento

Com o Brasileirão acontecendo em dezembro e janeiro, é possível que houvesse menos torcedores nos estádios, pelo fato de ser um período em que muitas pessoas estão de férias e viajam. E o público baixo já é um problema do campeonato.

Além disso, ajustar o calendário brasileiro ao europeu necessitaria de empenho dos clubes e da CBF, afinal todos os campeonatos e times precisariam enfrentar um período de transição até a sincronização.

Campeonatos estaduais, regionais, nacionais e continentais brigam por datas a cada ano. Não é raro alguém defender o fim dos estaduais, embora, por outro lado, se argumente que isso poderia ser prejudicial a clubes menores.

Apesar de a discussão do calendário englobar todo o futebol nacional, o Brasileirão é, ao mesmo tempo, causa e consequência dele, portanto a forma de disputa da competição também entra na pauta.

Quando um clube brasileiro avança às fases finais da Libertadores ou Copa Sul-Americana, é comum deixar o Brasileirão de lado, poupando jogadores e focando nos torneios continentais. Isso é ruim para o Campeonato Brasileiro. Fazer dois jogos por semana, com viagens internacionais, toma tempo de preparação, treino e recuperação dos jogadores. A partir de 2017, a Libertadores estendeu a sua duração a fim de amenizar esses problemas.

Lá se vai mais de meio século desde que o Santos de Pelé, na década de 1960, foi campeão brasileiro e da Libertadores no mesmo ano — desde então nenhum clube do país conseguiu o feito. E, na época, tanto o formato dos torneios quanto o futebol em si eram menos desgastantes. Em 1963, quando defendeu o título nacional e o da Libertadores, o Santos só precisou jogar oito partidas, quatro em cada campeonato. Em 2017, precisaria de mais de 50 jogos.

De onde vem essa diferença

Pode parecer óbvio que a temporada do futebol tenha início logo nos primeiros meses do ano. Mas essa lógica não é global.

Assim como aulas em escolas e universidades, na Europa os torneios de futebol começam no segundo semestre. A razão é que as atividades (sejam aulas ou torneios esportivos) devem se encerrar próximo à chegada do verão, tido historicamente como um período de férias. No hemisfério Norte o verão vai de junho a setembro, o que inverte a lógica em relação ao Brasil.

Fora da Europa

Além da Europa, os campeonatos nacionais da Bolívia, Chile e México também se iniciam no segundo semestre, em consonância com o calendário europeu. Colômbia, Equador, Estados Unidos e Peru são países que seguem com a temporada do futebol começando no início do ano, como o Brasil.

Em 2016, a Argentina ajustou seu calendário ao do futebol europeu. Houve um campeonato curto, apenas no primeiro semestre, e ao fim do ano já se iniciou o novo torneio.

Há campeonatos brasileiros de outros esportes que seguem a lógica do calendário do hemisfério Norte. A Superliga (vôlei), a LBF (Liga de Basquete Feminino) e o NBB (Novo Basquete Brasil) são exemplos. As grandes ligas mundiais de vôlei e de basquete também o fazem.

QUAIS são as segundas vias

No Brasil, o maior campeonato nacional é organizado pela Confederação Brasileira de Futebol, que também se encarrega das seleções (masculina, feminina, sub-20, entre outras). Situação semelhante ocorre na Argentina, Equador, Gana, México, Uruguai, entre outros.

Já os clubes dos principais países do futebol europeu — Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália, França, Holanda, Portugal, entre outros — disputam ligas, que são organizadas pelo conjunto dos times, não por uma instituição superior e separada deles. O mesmo ocorre na África do Sul, China, Estados Unidos, Japão e Nigéria. Às federações nacionais desses países cabe principalmente cuidar das seleções.

Apesar de críticas constantes à CBF, a instituição segue firme. A Primeira Liga, que surgiu em 2015 sob a inspiração das ligas europeias, não conseguiu atingir seu objetivo de organizar os clubes de forma independente da CBF. A confederação usou de sua influência política para minar as pretensões da concorrência. Uma liga aos moldes europeus como principal campeonato no Brasil está longe de acontecer.

Na década de 1980, o Clube dos Treze também surgiu para se contrapor à CBF, negociando direitos de imagem e campeonato à parte. O grupo, que nunca atingiu plenamente os objetivos, se desmantelou em 2011, quando os clubes restantes assinaram contratos de televisão diretamente com a Globo.

QUAL a situação do feminino

Para as jogadoras, o Brasileirão começa antes. Em 2017, teve início em março e irá até agosto. A série A1, divisão mais alta do campeonato, reúne 16 equipes de oito Estados.

Corinthians, Flamengo, Grêmio, Santos, Sport e Vitória são clubes que estão na série A1 do feminino e também na primeira divisão do masculino em 2017. Com isso, há partidas em alguns dos principais estádios do país, como a Vila Belmiro e Ilha do Retiro, embora o público seja muito menor.

O maior público já registrado em uma partida feminina entre clubes no Brasil foi de 17.322 pessoas — e não foi no Brasileirão, mas na final da Liga Nacional Sub-20, em 2016. Entre os homens esse recorde é inferior à média de público de nove times durante o Campeonato Brasileiro do mesmo ano. Ou seja, o que no feminino foi um feito inédito, no masculino é um público corriqueiro para os grandes clubes.

O Brasileirão feminino não tem a longa história do masculino. Também organizado pela CBF, somente em 2013 o campeonato teve sua primeira edição. Em 2017 deu um passo adiante: há duas divisões, mais equipes e um calendário mais comprido.

Os quatro clubes campeões até hoje são Centro Olímpico (SP), Ferroviária (SP), Rio Preto (SP) e Flamengo (RJ).

O dinheiro que circula no feminino ainda é irrisório em relação ao masculino. O clube campeão de 2017 vai levar R$ 120 mil, valor 141 vezes menor do que os R$ 17 milhões que o Palmeiras ganhou ao ser campeão brasileiro entre os homens em 2016.

Como medida de incentivo ao futebol feminino no continente — que ainda possui muitas atletas amadoras, baixo valor comercial e grande discrepância de nível técnico entre as equipes — a Conmebol, entidade que regula o futebol na América do Sul, instituiu uma regra segundo a qual, a partir da temporada de 2019, os clubes precisarão ter uma equipe feminina para poder disputar a Libertadores ou a Copa Sul-Americana no masculino.

Para evitar que haja times femininos “decorativos”, o texto estipula que as atletas precisarão ter acesso a uma infraestrutura adequada para jogos e treinos, além de estarem inscritas em competições nacionais. Também será necessário ter pelo menos uma categoria juvenil feminina.

A longo prazo, a expectativa é uma melhora do nível e audiência do Brasileirão feminino, embora não esteja claro se essas condições da Conmebol serão eficazes para as jogadoras e para a melhora da modalidade.

NO MUNDO: o Brasil no cenário internacional

É lugar-comum elogiar o Brasileirão como o campeonato nacional de futebol “mais equilibrado do mundo”. De fato, em relação aos europeus, existe uma alternância maior de clubes campeões e de quantos times brigam pelo título até as últimas rodadas. Mas isso não garante que o espetáculo seja melhor do que na Inglaterra ou Itália, por exemplo.

Embora seja transmitido para dezenas de países, o Brasileirão ainda fica atrás de outros grandes campeonatos de futebol entre clubes. Entre os motivos estão o fuso horário desfavorável para o público europeu e a falta de investimentos em internacionalizar a marca do Campeonato Brasileiro.

No cenário internacional, o Brasileirão possui uma importância sobretudo por revelar atletas que mais tarde chegam a clubes europeus de renome ou jogam pela seleção, sob os olhares de fãs de futebol do mundo inteiro.

O jornalista Emerson Gonçalves conta que em 2007 conversou pessoalmente com Ferran Soriano, atual CEO do clube inglês Manchester City e então vice-presidente do espanhol Barcelona. Gonçalves o questionou sobre o motivo de o Brasileirão não ser visto fora do país, ao contrário dos maiores torneios europeus. A resposta foi a seguinte: “Por que eu devo ver um jogo que poucos estão dispostos a ir ao estádio para ver?”.

No quesito negócio, o modelo mais citado é o da Premier League, da Inglaterra. É o campeonato nacional mais valioso e mais visto, com estádios frequentemente cheios e que consegue obter mais dinheiro.

Na temporada 2014/2015, a Premier League teve um faturamento de € 4,4 bilhões (aproximadamente R$ 14,6 bilhões). A alemã Bundesliga faturou € 2,3 bilhões (R$ 7,6 bilhões), e a espanhola La Liga, € 2,05 bilhões (R$ 6,08 bilhões).

É difícil fazer a comparação com o Brasil, afinal o país não possui o sistema de liga, mas levantamento da revista “Época” mostra que, em 2015, os clubes que disputaram a série A faturaram um total de R$ 3,6 bilhões, o que inclui ganhos além do Brasileirão.

Na mesma temporada, a média de público da Premier League superou os 36 mil por jogo — o dobro da primeira divisão do Campeonato Brasileiro de 2015.

EM ASPAS

“Nós temos que saber qual a razão para formar essa liga. Para criar uma nova terá que criar uma nova administração, além de gastar um bom dinheiro, já que a CBF não cobra nada para organizar os campeonatos e ainda ajuda a Série B, C e D. Não adianta levar a primeira divisão e deixar as outras de lado. Mas se eles entenderem que não é assim, nós vamos analisar a ideia. Mas acho isso muito difícil, porque estamos fazendo tudo certinho”

Marco Polo Del Nero

presidente da CBF, em 2015, sobre a criação de uma liga nacional paralela à CBF

“Não tem sentido mais existirem as federações! Em nenhum outro lugar do mundo elas fazem campeonatos. Há ligas regidas pelos clubes, e as federações cuidam somente das seleções (...) É de lamentar tudo o que está acontecendo com o futebol brasileiro fora de campo”

Zico

ex-jogador e técnico, em entrevista ao jornal “Lance!

“O que pesa mesmo é a ideia de que elas dificilmente vão se profissionalizar. O futebol ainda não é uma carreira para as mulheres”

Silvana Goellner

professora da UFRGS e pesquisadora da história do futebol feminino, ao jornal “Zero Hora”

“Estamos muito satisfeitos com os clubes que temos fechados para o Campeonato Brasileiro e ter o Palmeiras com a gente é mais uma prova de que temos um projeto sério e de longo prazo de investimento e desenvolvimento do futebol brasileiro”

Leonardo Lenz Cesar

vice-presidente de esportes da Turner (dona do canal Esporte Interativo) no Brasil à “Folha de S.Paulo”, sobre o canal passar a transmitir o Brasileirão em 2019

“Parece muita grana. Mas, não é. A folha de pagamento dos grandes clubes beira a casa dos R$ 6 milhões, em média. O prêmio ao campeão [R$ 17 milhões em 2016] garante, no máximo, três meses de salários aos jogadores e comissão técnica”

Luiz Antônio Prósperi

jornalista, sobre a premiação de 2016 aos clubes da série A

NA ARTE: o Brasileirão e o tal país do futebol

“Uma História de Futebol” (1998)

“Democracia em Preto e Branco” (2014)

“Pelada - Futebol na Favela” (2013)

 

“Boleiros - Era uma Vez o Futebol...” (1998)

Vá ainda mais fundo

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: