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União Europeia: o maior projeto de integração regional em seus piores momentos

Criado para unir a Europa pós-guerra, o bloco cresceu, ficou complexo e hoje luta para sobreviver em meio a uma instabilidade econômica e identitária

Em junho de 2016 os britânicos decidiram se separar da União Europeia. O “Brexit”, como ficou conhecido o processo, marcou a primeira vez que um membro quis deixar o grupo do qual todos sempre desejaram fazer parte. Um grupo que representa também o projeto mais ousado de integração regional já colocado em prática no mundo. O evento marcou o ápice de um debate que ganha força em outros países europeus: será que eles querem mesmo ser parte da União Europeia?

Criado logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, o projeto marcou uma reviravolta nas relações entre países que antes viviam imersos em rivalidades e beligerâncias. Por ser o mais aprofundado do mundo, o bloco europeu marca também um ponto de referência para todas as iniciativas de integração em outras regiões. Sua derrocada — que nunca foi tão temida quanto agora — poderia marcar também um redirecionamento na forma como as relações internacionais são tocadas desde o início do processo de globalização.

O Nexo, então, resgata a história e o desenvolvimento da União Europeia, sua importância política e seu funcionamento para explicar o que está em jogo agora e como o bloco chegou até aqui.

O QUE é a União Europeia

O bloco pode ser definido como uma união econômica e monetária. Isso significa que todos os seus membros coordenam políticas econômicas entre si e formam um grande mercado único, congregando suas capacidades produtivas e se transformando em um dos atores internacionais mais poderosos. Além disso, boa parte deles compartilha a mesma moeda: o euro.

Para facilitar essa coordenação política, foram criadas instituições supranacionais, competentes para impor leis e sanções aos países-membros do bloco nas mais diferentes áreas — desde a econômica até de direitos humanos, cultura, educação e meio ambiente.

“Os Estados-Membros delegam alguns dos seus poderes de decisão nas instituições comuns que criaram, de modo a assegurar que as decisões sobre assuntos do interesse comum possam ser tomadas democraticamente a nível europeu”

Comissão Europeia

Por ser tão abrangente, a União Europeia é considerada a iniciativa de integração regional mais desenvolvida do mundo. Os blocos podem ser divididos em diferentes níveis, de acordo com o aprofundamento da integração:

Blocos regionais

Zona de preferência tarifária

Redução das barreiras tarifárias para determinados produtos entre os países. As tarifas, contudo, não são extintas.

Zona de livre comércio

Redução ou abolição de tarifas para a maior parte dos produtos que os membros de um bloco comercializam entre si. O Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) é um exemplo.

União aduaneira

Estabelece uma tarifa externa comum para os produtos comprados de países de fora do grupo. Embora seu nome indique o contrário, o Mercosul (Mercado Comum do Sul) é considerado ainda uma união aduaneira com a intenção de chegar ao mercado comum.

Mercado Comum

Permitida a livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas. Nesse estágio de integração, os países ainda possuem políticas macroeconômicas distintas.

União Econômica e Monetária

Mantém todas as características do mercado comum, mas também estabelece uma governança comum das políticas econômicas. Cria também uma moeda única para seus países-membros.

A quantidade de leis criadas ao longo do tempo é um bom indicador do nível de aprofundamento da integração, embora não seja o único. Elas ajudam a dar a dimensão da quantidade de temas tratados nas instâncias decisórias do grupo e o quão abrangente é a presença institucional europeia nas vidas de seus habitantes.

Das que ainda estão em vigor

 

Essas leis vão desde regulamentações de pesca em águas internacionais por barcos de seus países-membros, passam por decisões de ajuda financeira e humanitária a países externos e vão até diretivas sobre a acessibilidade de sites de órgãos públicos dos países-membros.

Além de crescer em número de membros (alargamento), o grupo não deixou de crescer em complexidade (aprofundamento, como visto no gráfico acima). Esse é um fenômeno difícil, uma vez que os dois movimentos são praticamente opostos. Quanto mais países-membros, maior a diversidade de interesses, o que tende a tornar a integração mais rasa para poder agradar a todos.

QUANDO a União Europeia surgiu

A ideia de criar um movimento de integração surge com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. O continente teve sua história moderna marcada por guerras e tensões entre países vizinhos, que culminaram nas duas grandes guerras.

A ideia era integrar a produção das indústrias de carvão e aço — uma área estratégica por ser base da indústria armamentícia

A maneira encontrada para superar essas rivalidades foi criar um sistema que tornasse os países interdependentes. Esse sistema deveria ser forte e, sobretudo, unir Alemanha e França, rivais históricos e duas grandes potências econômicas. Além disso, também criava um grupo maior para se opor à gigante vizinha União Soviética.

Alguns dos maiores entusiastas dessa ideia — e que são considerados os idealizadores do que hoje é a União Europeia — foram os políticos que lideravam países europeus no período pós-guerra, como o chanceler da Alemanha Ocidental Konrad Adenauer, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, os políticos franceses Jean Monnet e Robert Schuman e o belga Paul-Henri Spaak.

“Nós precisamos recriar a família europeia em uma estrutura regional chamada, talvez, os Estados Unidos da Europa, e o primeiro passo prático será criar o Conselho da Europa”

Winston Churchill

Primeiro-ministro britânico durante discurso em Zurique, na Suíça, em 1946

O primeiro passo oficial foi o documento de 1950 chamado Plano Schuman, apresentado pelo então ministro de Relações Exteriores da França, Robert Schuman, e desenhado com a ajuda do conselheiro político francês Jean Monnet.

O plano foi o passo mais importante para a assinatura do Tratado de Paris, em 1951, que deu origem à Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (Ceca), composta por França, Bélgica, Luxemburgo, Holanda, Itália e Alemanha Ocidental. Esses seis países são considerados os primeiros membros da União Europeia.

A ideia era integrar a produção das indústrias de carvão e aço desses países sob uma autoridade supranacional que a coordenaria — uma área estratégica, por ser base da indústria armamentícia. Assim, todos os membros saberiam tudo o que os outros faziam com suas indústrias militares.

“A solidariedade de produção assim alcançada revelará que qualquer guerra entre a França e a Alemanha se tornará não apenas impensável como também materialmente impossível”

Trecho do Plano Schuman

Documento francês de 9 de maio de 1950

Em 25 de março de 1957 os mesmos seis países assinaram o Tratado de Roma, criando a Comunidade Econômica Europeia e a Comunidade Europeia de Energia Atômica. Estava instaurado o Mercado Comum, uma das principais ambições do projeto europeu.

O bloco foi evoluindo e se tornando mais abrangente. Novas instituições foram criadas para unir as diferentes comunidades que surgiam sob uma governança unificada, até que em 1992 o Tratado de Maastricht fundou a União Europeia nos moldes de hoje, salvos alguns ajustes institucionais feitos de lá pra cá. Ele entrou em vigor em novembro de 1993, e criou a união econômica e monetária que caracteriza o bloco hoje.

QUEM faz parte da União Europeia

Nem sempre o bloco foi tão abrangente quanto é hoje. A atual formação, por exemplo, existe há menos de quatro anos, desde que a Croácia ingressou em 1º de julho de 2013.

28

países fazem parte da União Europeia, incluindo o Reino Unido, que ainda não a deixou juridicamente

 

A Ceca é considerada a primeira formação oficial da União Europeia, Depois dos seis primeiros, os novos membros tiveram que se adaptar ao modelo.

Para poder fazer parte do bloco, é necessário que o país cumpra algumas exigências pré-estabelecidas. Elas são conhecidas como os “Critérios de Copenhague”, por terem sido oficializadas em uma reunião na capital dinamarquesa. O documento especifica três condições a serem cumpridas pelo candidato.

As exigências para adesão

Estabilidade política

A primeira exigência é que o país tenha instituições estáveis que garantam a “democracia, o Estado de direito, os direitos humanos e o respeito e proteção às minorias”.

Estabilidade econômica

O candidato também deve ter necessariamente uma economia de mercado em funcionamento, com a capacidade de se integrar à “concorrência e às forças de mercado existentes na União Europeia”.

Aceitar as normas do bloco

Além da compatibilidade política e jurídica, o Estado também deve aceitar e internalizar leis de 35 diferentes tópicos, que regulam desde a livre circulação de capitais até as bases para o desenvolvimento de transporte integrado.

Caso a União Europeia, através de sua Comissão, entenda que um candidato ainda tem problemas internos para se adequar às normas coletivas, ele será mantido como apenas um candidato até que consiga resolver essas questões. Hoje, cinco países estão nessa situação.

Os candidatos à União Europeia

Além dos candidatos oficiais — Albânia, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Turquia —, Bósnia-Herzegovina e Kosovo são considerados “potenciais candidatos”, sem o status formal.

O caso da Turquia

A Turquia é talvez o maior exemplo de como a entrada de um novo membro na União Europeia também depende da vontade política dos membros, e não apenas dos critérios de Copenhague. Alguns dos principais fatores que jogam contra os turcos são:

  • Falta de identidade cultural compartilhada com o resto da Europa, no entendimento de alguns membros;
  • Conflitos com atuais Estados-membros, como a questão do Chipre com a Grécia;
  • Longo apoio dos EUA para sua adesão, o que é visto pelos outros países como uma tentativa dos americanos instaurarem uma agenda de interesses próprios dentro da Europa.

Mais do que isso, França e Alemanha, as duas maiores economias e lideranças políticas do grupo, são abertamente contra a ideia de a Turquia se juntar ao bloco.

Por outro lado, a Turquia é um ator importante para a segurança europeia, uma vez que constitui o “portão de entrada” do Oriente Médio à Europa. Por isso, turcos e europeus jogam constantemente com a possibilidade de entrada no grupo como barganha política.

Um dos exemplos é o acordo entre Turquia e União Europeia sobre os refugiados. Na ocasião, a chanceler alemã Angela Merkel disse ser a favor de acelerar as conversas para a adesão turca ao bloco, embora seu histórico não demonstre tanta boa vontade.

QUAIS os diferentes estratos dentro do bloco

Embora a União Europeia seja só uma, existem diferentes níveis de integração em seu interior. Enquanto alguns países adotaram todos os projetos, outros preferiram “assinar o pacote básico” do grupo. Os dois principais blocos internos que não incluem todos os países-membros são o Espaço Schengen e a Zona do Euro.

Espaço Schengen

Os países que fazem parte do acordo de Schengen não praticam nenhum tipo de controle fronteiriço entre si. Isso significa que pessoas de qualquer nacionalidade — mesmo as que não são europeias — podem circular livremente entre eles.

Para isso, todos os países-membros se comprometem a ser mais rigorosos com a aceitação de estrangeiros em suas fronteiras externas. O acordo tem esse nome por ter sido assinado no vilarejo de Schengen, em Luxemburgo, na tríplice fronteira com França e Alemanha.

26

países fazem parte do Espaço Schengen

4

deles não são da União Europeia: Noruega, Islândia, Suíça e Liechtenstein

6

membros da União Europeia não fazem parte: Reino Unido, Irlanda, Chipre, Romênia, Bulgária e Croácia

Eventualmente um país do Espaço Schengen pode controlar suas fronteiras caso alegue que exista um risco real à sua segurança nacional. Mais recentemente, o grande fluxo de refugiados que buscam asilo no continente fez com que pelo menos sete dos membros evocassem esse dispositivo.

Os países que não fazem parte da área têm motivos diferentes para isso. O Reino Unido nunca integrou Schengen por ser mais rígido com sua segurança de fronteiras. A Irlanda, por possuir um acordo de fronteiras abertas com o Reino Unido, seguiu os britânicos na decisão.

Já Romênia, Bulgária, Chipre e Croácia estão em situação oposta: querem fazer parte, mas os outros membros exigem maior eficiência no controle de suas fronteiras externas.

Zona do Euro

A União Europeia é um mercado único e nele existem países que compartilham também a mesma moeda: o euro (€). É a segunda principal moeda em termos de troca, presente em 31% das operações de câmbio no mundo — embora esteja em queda desde 2010.

A criação do euro está relacionada com o ideário político de integração e solidariedade entre os países do continente. Além disso, uma moeda única facilita as relações comerciais entre seus membros e, em teoria, fortalece a economia de todos do grupo.

A lógica é que uma vez que produtos, serviços, pessoas e capitais são livres para circular dentro do bloco, o trabalho de efetuar o câmbio cada vez que uma fronteira é atravessada seria um impedimento para que o mercado único funcionasse da melhor forma possível, além de ser um processo custoso. O euro acaba com esse problema.

Moedas mais importantes do mercado

 

Mas não foi todo mundo que comprou a ideia. Dos 28 países do bloco, apenas 19 adotaram o euro. O Reino Unido e a Dinamarca optaram por não fazer parte, e a Suécia organizou um referendo em 2003 que também disse não ao euro. República Tcheca, Romênia, Hungria, Polônia, Croácia e Bulgária ainda estão em processo de adequação interna para adotar a moeda única.

337 milhões

de pessoas vivem em países que adotaram o euro

A união monetária é gerida de forma descentralizada. Algumas políticas são responsabilidade do Banco Central Europeu, órgão independente localizado em Frankfurt, na Alemanha. Outras, pelos governos nacionais dos países-membros. As instituições políticas do bloco também participam da formulação e acompanhamento de decisões econômicas.

As políticas unificadas têm seu lado negativo: padronizam medidas para economias com necessidades diferentes

Mas a integração, mesmo entre os membros do euro, não é completa. As políticas fiscais ainda são diferentes em cada país, por exemplo. Isso significa que se uma empresa pretende atuar nos 28 países, terá que se adaptar a 28 sistemas diferentes de impostos.

A tendência, nesse caso, é que indústrias prefiram se instalar em um país que cobre menos impostos, e a partir dele exportar seu produto para o resto do bloco, criando uma competição interna desigual que mantém o fluxo de dinheiro dos países mais pobres para os mais ricos.

COMO ela se organiza institucionalmente

A União Europeia possui diversas instituições que gerem o bloco. Seus principais órgãos decisórios são cinco:

Parlamento Europeu

É a “Câmara dos Deputados” da Europa. Agrega todos os parlamentares eleitos diretamente por voto popular, e representam a população dos países-membros. Sua principal função é criar e modificar leis, mas também tem o papel de controlar os outros poderes do bloco e de participar da definição do orçamento da União Europeia. O Parlamento é composto por 751 eurodeputados, divididos proporcionalmente às populações de cada país.

Conselho Europeu

É o comando político do bloco, composto pelos chefes de Estado ou de governo dos países-membros. O Conselho Europeu define as prioridades executivas da União Europeia e faz recomendações a outros órgãos. É lá também que se definem os posicionamentos internacionais do bloco.

Conselho da União Europeia

Reúne os governos dos países-membros, representados por um de seus ministros, dependendo do tema tratado. Ele celebra acordos internacionais em áreas específicas de cooperação. Junto ao Parlamento, participa da definição do orçamento do bloco e da criação de legislações. Com o Conselho Europeu, coordena as políticas nacionais e participa da definição de posicionamentos internacionais.

Comissão Europeia

Os “comissários” não representam seus países, mas sim a União Europeia como um todo, tanto para dentro quanto para fora do bloco. A Comissão é um órgão mais executivo: propõe leis, políticas e programas de ação. Também é ela que fiscaliza se os países-membros estão obedecendo os acordos e tratados firmados no âmbito do bloco. Por fim, representa a União Europeia diplomaticamente.

Tribunal de Justiça

Se os quatro órgãos anteriores cuidam das áreas legislativa e executiva, o Tribunal, com sede em Luxemburgo, é a instância máxima do Judiciário europeu. Ele cuida de questões relativas às leis comuns da União Europeia. Tem competência para decidir conflitos que envolvem Estados-membros, instituições da União Europeia, empresas, pessoas ou coletivos. É formado por um juiz de cada país.

Outras instituições

As cinco instâncias acima, além do Banco Central Europeu, podem ser consideradas as mais importantes do bloco. Além delas, outros órgãos independentes cuidam de temas mais específicos.

Outras agências, autoridades, centros, empresas, fundações, institutos, observatórios e organismos especializados também são vinculados à União Europeia e cuidam de assuntos desde produção audiovisual até políticas de drogas.

ONDE estão seus centros decisórios

A União Europeia não tem uma capital. Suas principais instituições estão espalhadas pelo continente. Mas existem algumas cidades que, de alguma forma, podem ser consideradas “centros” importantes para o bloco.

Bruxelas, capital da Bélgica, é uma delas. Lá estão as sedes do Conselho Europeu, do Conselho da União Europeia, da Comissão Europeia e de diversas outras instituições menores. O Parlamento, que tem três sedes diferentes, também faz a maioria de suas atividades ali.

Luxemburgo, capital do país homônimo, é outra cidade importante no bloco. Abriga as sedes do Tribunal de Justiça e do Tribunal de Contas, além de receber reuniões do Conselho e do Parlamento. Estrasburgo, na França, é a sede oficial do Parlamento e do Provedor de Justiça. Já Frankfurt, na Alemanha, recebe o Banco Central.

Mas essa difusão geográfica não fica isenta de críticas dentro da Europa. O argumento é que as viagens feitas pelos políticos entre as diferentes sedes de instituições gera altos custos para o orçamento do bloco.

Segundo contas divulgadas em 2009 pelo eurodeputado alemão Wolf Klinz, os 785 parlamentares da União Europeia e suas equipes gastavam cerca de € 200 milhões (aproximadamente R$ 654 milhões) por ano com viagens entre as três cidades onde acontecem reuniões do grupo — Estrasburgo, Bruxelas e Luxemburgo. A situação ganhou até apelido: “traveling circus” (circo viajante, em português).

QUAL o tamanho do bloco

O seu tamanho pode ser medido sob dois principais aspectos: o econômico e o demográfico. Eles são os dois eixos centrais da própria existência do bloco, que, por um lado, junta economias para criar um grande e forte mercado, mas, por outro, também cria um espaço de convergência entre diferentes culturas na tentativa de cultivar um sentimento de pertencimento europeu, acima das paixões nacionais.

Tamanho econômico

A União Europeia é a segunda maior economia do mundo, mas, como o gráfico abaixo demonstra, desde o início da crise de 2008 tem tido dificuldades para se estabilizar e voltar a um ritmo de crescimento estável.

Instabilidade persiste

Mesmo com uma economia forte, o bloco ainda tem dificuldades em proporcionar uma qualidade de vida equilibrada entre todos os seus habitantes. O gráfico a seguir compara o consumo individual real de cada país-membro — uma forma de medir o bem-estar. O índice médio é 100, e a partir dele é calculado o consumo individual de cada país. Quanto maior o índice, maior acesso ao consumo tem a população.

Diferenças internas

 

As populações mais jovens são algumas das mais afetadas pelo atual momento econômico. O índice de desemprego das pessoas entre 15 e 24 anos, mesmo em queda desde 2013, ainda supera a marca dos 18%. Na Grécia, Espanha, Croácia e Itália, a taxa de desemprego entre os jovens fica acima dos 40%.

Pico foi em 2013

A dívida pública também disparou com a crise de 2008, comprometendo mais de 80% do PIB interno do bloco.

Governos endividados

 

Tamanho demográfico

Se fosse um país, a União Europeia teria a sétima maior área do mundo. Mas em termos populacionais, só perderia para a China e para a Índia.

510 milhões

de pessoas vivem na União Europeia

Uma das maiores preocupações com relação à sua demografia é o processo de envelhecimento. O gráfico abaixo mostra como, entre 2005 e 2015, a proporção de crianças e da população economicamente ativa diminuiu, enquanto a de idosos aumentou.

Menos crianças, mais idosos

Essa tendência pode ser explicada tanto pela melhora na qualidade de vida e nos avanços na área da saúde, como também pelo alto desemprego entre os jovens e o corte nos direitos das mulheres, que em alguns países, como a Itália, correm o risco de perderem seus empregos caso engravidem.

80,9

anos é a média da expectativa de vida ao nascer na União Europeia

1,6

é a taxa de fertilidade total das mulheres do bloco

POR QUE tem gente que é contra a União Europeia

População envelhecendo, governos endividados, jovens desempregados e economia instável criam um clima de preocupação com o futuro econômico do Estado de bem-estar social europeu. Em meio a isso, a percepção de que a União Europeia é mais um peso econômico do que um benefício para seus habitantes.

Nos últimos anos, ganhou atenção o crescimento de grupos políticos considerados “eurocéticos”, ou seja, que pregam a saída de seus países da União Europeia ou, pelo menos, uma integração mais rasa.

O principal exemplo desse movimento foi o referendo do Reino Unido, em junho de 2016, favorável à saída do bloco. A campanha pró-Brexit foi liderada pelo Ukip (Partido pela Independência do Reino Unido) e se baseava em três eixos principais, que também se aplicam de modo geral às campanhas semelhantes em outros países.

Argumentos para sair da União Europeia

Questão econômica

Para a campanha, os custos em fazer parte do bloco não compensam os ganhos, e vale mais a pena investir o dinheiro do orçamento nacional no próprio país. Sustentada nos efeitos da crise de 2008, a ideia de que o euro é uma moeda instável também é muito usada. Além disso, existe o argumento de que estar dentro do bloco impede que o país negocie acordos comerciais livremente com outros parceiros.

Segurança nacional

“A União Europeia começou com nove países — agora tem 28”, diz o site da campanha pelo Brexit, dando a entender que a quantidade de nacionais de outros países que podem entrar livremente no território britânico saiu de controle. Todo o debate aconteceu em meio à crise de refugiados, e a ideia de ter fronteiras abertas para qualquer cidadão europeu — incluindo os membros do leste e as pessoas que conseguiram asilo em algum país do bloco — não agrada grupos mais conservadores.

Democracia

Por fim, ainda evocando a questão da independência nacional reduzida por estar dentro de um bloco de integração, os eurocéticos julgam que os poderes Legislativo e Judiciário devem ser nacionais, para que a população seja governada por instituições mais próximas do que as continentais.

Tudo isso se insere em um contexto global de reavaliação do impacto da globalização nas realidades nacionais. A eleição de Donald Trump nos EUA, um candidato que prega o fechamento de fronteiras e a priorização da indústria nacional em oposição ao comércio mundial integrado, é outro grande exemplo.

Países europeus tampouco ficam imunes ao fenômeno. Na França, a Frente Nacional de Marine Le Pen nunca foi tão forte. Na Itália, o partido que mais cresceu nas últimas eleições foi o Movimento 5 Estrelas, também eurocético, embora prefira não se enquadrar em nenhum lado do espectro político. Na Alemanha, o partido de extrema-direita AfD cresceu nas eleições regionais, embora ainda não tenha força para competir nacionalmente.

Alguns desses partidos têm a característica de focar mais no peso econômico da União Europeia ou o que consideram uma subordinação excessiva ao bloco, enquanto outros também abordam com mais veemência aspectos sociais como o fluxo de imigrantes e refugiados, adotando discursos muitas vezes considerados xenófobos e racistas por cortes nacionais.

Mas mesmo que os protagonistas do euroceticismo estejam geralmente associados a partidos de direita, a postura de antagonismo ao bloco também aparece em blocos mais extremos de esquerda.

Na eleição presidencial francesa, que tem seu primeiro turno marcado para o dia 23 de abril de 2017, o candidato Jean-Luc Mélenchon, do Partido de Esquerda, é a favor da saída do país da União Europeia, por exemplo.

"Nossa independência de ação, a soberania de nossas decisões não devem nunca ser abandonadas às obsessões ideológicas da Comissão Europeia"

Jean-Luc Mélenchon

Candidato à presidência da França pelo Partido de Esquerda

Seu argumento é de que o bloco é usado pelos grandes bancos e chefiado por grupos de direita para se apropriar das economias nacionais e criar políticas de austeridade que prejudicam a população trabalhadora e favorecem o lucro das grandes empresas.

O BRASIL e a União Europeia

O bloco europeu é um dos principais parceiros comerciais do Brasil. É o segundo maior comprador de produtos brasileiros — só perde da China — e o maior vendedor.

A relação faz sentido: os europeus têm o perfil de exportarem produtos manufaturados, que é o grupo de produtos mais importados pelo Brasil — 75,9%. Já o Brasil tem na agropecuária sua principal força de exportação, na casa dos 42%, uma área que a União Europeia protege a produção interna e evita importar.

R$ 12 bilhões

é aproximadamente o saldo negativo para o Brasil das relações comerciais com a União Europeia em 2015

EM ASPAS: a origem do bloco e sua crise

“Se conseguirmos criar uma organização que permita aos franceses saber o que se passa na indústria do carvão e do aço na Alemanha e aos alemães saber o que se passa na França, esse sistema de controle mútuo será a melhor forma de seguir uma política baseada na confiança”

Konrad Adenauer

Chanceler da Alemanha Ocidental entre 1949 e 1963

“A Europa não se concretizou e tivemos a guerra. A Europa não se fará de uma só vez, nem de acordo com um plano único. São necessárias realizações concretas, começando por estabelecer uma solidariedade de fato”

Robert Schuman

Ministro das Relações Exteriores da França entre 1948 e 1952, um dos idealizadores da Ceca

“Vocês [eurodeputados], como projeto político, estão em negação. Estão em negação que a sua moeda [euro] está fracassando. [...] E vocês estão em negação de que a fala da sra. Merkel [chanceler alemã] no ano passado [2015], para que o maior número possível de pessoas cruzasse o Mediterrâneo e entrasse na União Europeia, levou a divisões massivas entre os países e dentro dos países”

Nigel Farage

Líder da campanha pelo Brexit e eurodeputado, em discurso no Parlamento Europeu após o referendo

"O futuro da Europa não deveria ser refém de eleições, partidos políticos ou gritos de triunfo direcionados ao público local"

Jean-Claude Juncker

Presidente da Comissão Europeia

“Nós devemos ver essa decisão [Brexit] como um incentivo para trabalharmos juntos, para manter a Europa unida agora mais do que nunca, para melhorar ela ainda mais e para unir novamente seus cidadãos”

Angela Merkel

Chanceler da Alemanha

“Existe uma (razoavelmente) coesa identidade europeia centrada em um âmago de valores e cultura. Infelizmente, essa identidade tornou-se confusa com as incômodas instituições da União Europeia”

Nicholas Barr

Professor da London School of Economics, ao Nexo

NA ARTE: as últimas crises do continente

“Fogo no Mar” (2016) - A travessia de refugiados à Itália

 

“All Things Ablaze” (2015) - Os conflitos da Euromaidan na Ucrânia

 

“Españistán” (2011) - A crise econômica na Espanha

 

Vá ainda mais fundo

Livros e guias produzidos pela União Europeia que explicam seu funcionamento em diferentes tópicos, com download gratuito

O lado político dos Critérios de Copenhague

The Uniting of Europe, de Ernst Haas

Um estudo da União Europeia através da vida de Jean Monnet

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