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As commodities e seu impacto na economia do Brasil

Matéria prima essencial para países industrializados, mercadoria importante para nações em desenvolvimento. O que são as commodities e como o preço delas afeta a economia brasileira

 

O governo e parte dos economistas associam com frequência a queda no preço das commodities nos últimos anos com a recessão que o Brasil atravessa. Nem todo mundo concorda que o cenário externo é o principal motivo da crise, mas ninguém nega o impacto da queda mundial da demanda por produtos primários na economia brasileira.

As commodities representam 65% do valor das exportações brasileiras, segundo levantamento de 2014 da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). As dez primeiras posições no ranking do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) de produtos mais exportados são ocupadas por commodities. As exportações brasileiras somaram US$ 191 bilhões em 2015.

Principais produtos

 

A diminuição nos preços das commodities começou em 2011 e coincide com o início da desaceleração da economia chinesa. Como o Brasil exporta bem mais do que importa deste tipo de produto, quanto menor o preço, pior para o país.

O Nexo explica o que são commodities, como são negociadas e qual o peso delas na economia brasileira.

O QUE são commodities

 

A palavra inglesa “commodity” significa simplesmente mercadoria. Mas no mercado o termo se refere a produto básico, em estado bruto ou com baixo grau de transformação. São mercadorias com pouco valor agregado e quase sem diferenciação - que podem portanto ser negociadas globalmente sob uma mesma categoria. Minério de ferro, madeira, carne e frango “in natura” e petróleo são algumas das mais comercializadas.

O frango in natura produzido no Brasil e exportado para o mundo todo é uma commodity. Já produtos feitos a partir dele, como nuggets e salsichas, não. O que faz um nugget deixar de ser commodity é seu grau de processamento. Não é commodity por ser diferenciado.

Esses produtos são divididos em agrícolas e minerais. Os agrícolas englobam culturas como soja, milho, algodão, açúcar. Os minerais vão desde o minério de ferro até o petróleo, passando pelo cobre e o ouro.

ONDE são negociadas

 

Commodities podem ser vendidas como qualquer mercadoria, mas são normalmente negociadas no mercado futuro, em bolsas de valores. Isso é, produtor e comprador firmam um contrato com um preço fixado hoje para a entrega e pagamento do produto em uma data futura pré-definida. Assim, mesmo antes de ter colhido a soja ou matado o boi, o produtor já tem uma garantia de volume contratado e preço a receber.

Quem detém o contrato no momento do vencimento é que tem o direito de receber o produto, mas isso nem sempre acontece. Os contratos são como seguros que garantem ao produtor um preço mínimo e ao comprador um preço máximo, travados no futuro .

No dia da liquidação, se o preço da commodity no mercado estiver abaixo do combinado, o vendedor recebe a diferença até chegar ao preço firmado. Se estiver acima, é o comprador quem recebe. Assim, mesmo com a variação, ambos negociam o produto pelo preço pré-estabelecido, se protegendo de variações.

No Brasil, as commodities são negociadas na Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros BM&FBovespa. O contrato é formalizado para determinada quantidade de cada produto. A soja, na BM&FBovespa, por exemplo, é negociada em lotes de 450 sacas de 60 kg. Mas a quantidade, 27 toneladas de soja por contrato, não faz desse um mercado restrito a grandes consumidores dos produtos.

Esses papéis, até o vencimento, são ativos que funcionam como investimentos normais. Seu preço varia de acordo com a oferta e a demanda. É comum que investidores que não têm o menor interesse no produto final, invistam em commodities. Entre as principais bolsas de commodities do mundo estão as de Chicago, Londres, Nova Yorque, Mumbai, Shangai e Tóquio.

QUEM são os consumidores e os produtores

Os Estados Unidos e a China são grandes produtores de commodities, mas consumidores ainda maiores. Os dois são os maiores importadores mundiais.

Maiores importadores

 

 

Alterações no apetite dos maiores consumidores afeta uma série de países produtores, como Brasil, Austrália, Chile e Índia.

A lista dos produtores de commodities apresenta algumas coincidências. Geralmente são países com grande extensão territorial e com possibilidade de exploração de recursos naturais.

O Japão, por exemplo, por ser altamente industrializado e ter território pequeno e altamente povoado, tem dificuldades de produzir esses produtos, mas é um grande consumidor de commodities - tanto as que servem de matéria prima para as empresas locais quanto as que alimentam sua população.

COMO o Brasil é impactado por esse mercado

 

Desde os tempos de colônia a exportação de produtos primários tem peso na economia nacional. Já houve o tempo da cana-de-açúcar, do ouro e do café.

Na década passada, a demanda por commodities aumentou muito, puxada, principalmente, pelo crescimento acelerado da China - um gigantesco mercado consumidor de matéria prima. Isso influenciou os preços, que ficaram mais altos e favoreceu os países produtores.

O chamado boom das commodities começou por volta de 2004 e o Brasil soube surfar na onda do aumento de demanda e preços. As exportações para a China, por exemplo, aumentaram mais de 500% entre 2005 e 2011. Foi um período de bom crescimento do PIB brasileiro, mesmo com a crise mundial de 2008.

Expansão

 

Com a exportação de commodities representando 6,8% do PIB brasileiro (UNCTAD, 2014), a queda dos preços e a redução da demanda chinesa a partir de 2011 colaboraram para que os resultados na economia se deteriorassem.

QUANDO ocorrem flutuações no preço

A atual queda nos preços globais das commodities começou com a desaceleração da China, por volta de 2011. O país asiático vive um processo de transição para um novo modelo econômico que valoriza o mercado interno em detrimento da produção industrial para exportação. Com isso, passou a demandar menos commodities o que, dado o seu tamanho relativo no mercado, influenciou os preços para baixo.

Estacionado

 

A evolução do índice CRB (da Thomson Reuters/CoreCommodity), um dos principais medidores do preço das commodities no mercado internacional, mostra bem a situação.

Preços em baixa

 

A queda recente na demanda por commodities e a volatilidade de seu preço não é uma novidade quando se olha para o Século XX. O comércio destes produtos vive de ciclos e, consequentemente, picos e crises.

Ciclos

POR QUE a situação do Brasil não é tão ruim

Há países, como os Emirados Árabes, que têm mais de 70% do PIB baseado em exportação de commodities. Esse não é o caso do Brasil. A economia brasileira é menos dependente desse tipo de exportação do que seus vizinhos e outros Brics.

Dependência

 

Outro ponto, levantado pelo economista Lívio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV e especialista em China, é que o Brasil tem um leque mais variado de produtos a oferecer, o que é uma vantagem neste novo momento.

Ribeiro acredita que a China vai continuar importando - um pouco menos para sua indústria exportadora e um pouco mais para o consumo de sua própria população. “O apetite chinês será menos intensivo em commodities metálicas e mais intensivo em agrícolas. Esse mundo novo é um mundo em que o Brasil deveria ir”.

A favor do Brasil, em termos de exportacao de commodities, pesa ainda a desvalorização do Real nos últimos meses. Como o preço das commodities é cotado em dólares, tem sido mais vantajoso para o produtor brasileiro vender para o exterior e as receitas obtidas são maiores em reais. Isso já se reflete na balança comercial, que em 2015 teve o melhor resultado em quatro anos.

NA ARTE: As commodities no cinema

 

Syriana - a indústria do petróleo

 

Enquanto o trem não passa

 

Vá ainda mais fundo

  • "O Declínio Secular das commodities", relatório do banco Itaú BBA
  • Relatório Unctad sobre dependência dos países das commodities (em inglês)

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