A ameaça e o controle das armas atômicas no mundo

Tecnologia militar é usada por clube restrito de potências como intimidação e barganha silenciosa nas relações internacionais

 

A regulação do desenvolvimento, da transferência e dos testes com armas atômicas avança e retrocede no mundo, alternando períodos de alívio e apreensão.

Bombas atômicas não são o tipo de argumento que os países sacam numa negociação todos os dias. Mas elas sempre estão lá, engatilhadas sob a mesa. Desde que os EUA lançaram duas bombas nucleares sobre o Japão, na Segunda Guerra Mundial, o pesadelo nuclear tomou forma e passou a ocupar espaço como último recurso à força, como a “solução definitiva” para impasses intransponíveis na área da segurança internacional - ou da insegurança.

No auge da Guerra Fria, Washington e Moscou empurraram o mundo para muito perto do abismo. As duas maiores potências nucleares, EUA e União Soviética, chegaram realmente perto de usar seus arsenais, no que poderia levar à destruição completa de toda forma de vida na Terra. Um dos episódios mais tensos ocorreu em 1962, quando a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) enviou uma bateria de mísseis para Cuba, deixando o mundo na iminência de um “holocausto nuclear”.

Em 1947, o Boletim dos Cientistas Atômicos criou o “Relógio do Dia do Juízo Final”, no qual os ponteiros se movem de acordo com a iminência de um ataque nuclear, sendo a meia-noite o momento da explosão. Na contagem atual, o ponteiro marca apenas 3 minutos para o juízo final. Desde sua criação, esse relógio mudou apenas 21 vezes de posição. O risco de hoje é semelhante ao de 1983, no auge da Guerra Fria. O risco mais baixo foi registrado em 1991, quando o ponteiro distou 17 minutos da meia noite. O relógio só se move depois de uma análise de conjuntura feita por um time que inclui 16 ganhadores do Prêmio Nobel da Paz, além de cientistas nucleares e outros acadêmicos.

Entenda o que pesa nessa questão.

QUEM possui armas atômicas no mundo

 

Não há informação precisa, pois regimes fechados, como a Coreia do Norte, sequer permitem inspeções. Além disso, países como Israel negam possuir programas atômicos, embora sejam apontados como detentores da tecnologia para produzir essas armas.

Apesar da dificuldade de acesso à informação, alguns centros de estudo tentam monitorar a questão e oferecem cifras semelhantes, que dão uma ideia aproximada do universo de armas atômicas existentes.

O Ploughshares Fund diz haver 15.695 armas nucleares nas mãos de nove países. A Rússia possui 7.500 delas e os EUA, 7.200. As 1.110 restantes estão divididas entre França, China, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte, nessa ordem.

Já o Boletim dos Cientistas Atômicos estima o arsenal hoje em 9.920 armas, sendo 4.760 dos EUA, 4.300 da Rússia e as 860 restantes divididas em outros sete países, na seguinte ordem: Reino Unido, França, China, Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte.

Perigo global

 

Ambas as estimativas extra-oficiais apontam, portanto, para a existência de nove países detentores de armas atômicas no mundo atualmente.

QUANDO essas armas foram usadas

 

A única vez que armas atômicas foram empregadas militarmente na história da humanidade foi no Japão, em agosto de 1945. No fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA lançaram uma primeira bomba sobre a cidade de Hiroshima, no dia 6 de agosto, e uma segunda, três dias depois, sobre Nagasaki.

Não há um número preciso de mortos e feridos, considerando que os efeitos da radiação perduram muito tempo depois da explosão e se estendem para muito além do local da detonação. Além disso, os danos à rede hospitalar e às instâncias de governo tornaram impossível qualquer controle estatístico nos dias que se seguiram às explosões. Alguns centros de estudo se dedicam a calcular o número de mortos e feridos, aplicando fórmulas que cruzam a quantidade de radiação, seu raio de alcance e a estimativa de pessoas que viviam nessas áreas.

O Projeto Avalon, da Escola de Direito da Universidade de Yale, estima em 199 mil o número de vítimas nos dois ataques. Autores japoneses do estudo chamado “O Impacto d' ‘A Bomba’, Hiroshima e Nagasaki, 1945 - 1985”, produzido pela Universidade de Indiana, em 1985, estimaram o número total de mortos em 118.661.

ONDE já foram feitos testes nucleares

O artista japonês Isao Hashimoto produziu a obra abaixo. Nela, piscam luzes sobre o mapa mundi indicando a data, o local e o país responsável por cada um dos testes nucleares (e as duas bombas jogadas sobre populações do Japão na guerra), entre 1945 e 1998.

 

O gráfico abaixo mostra a quantidade de testes nucleares realizados. Os EUA lideram isolados a lista, com 1.032 testes - quase a soma das explosões realizadas por todos os outros países juntos. O grande ausente é o controvertido programa nuclear atribuído a Israel, que aparece na lista de potências nucleares, mas não na lista de testes da CTBTO, comissão que trabalha para a adoção de um tratado que proíba a realização de novos testes no mundo.

Responsáveis pelas explosões

 

Para concluir que um teste nuclear aconteceu, ele precisa ter sido detectado pelas 377 estações de medição espalhadas pelo mundo. A medição é feita por abalo sísmico, hidroacústico, infrasonoro e rádionuclear. A CTBTO explica em detalhes como funciona cada um desses indicadores e onde estão as estações de medição.

O gráfico abaixo mostra as explosões mais poderosas já registradas até hoje:

Potência dos testes

 

O QUE é o Tratado de Não Proliferação Nuclear

 

É um tratado criado em 1968 para conter a proliferação das armas nucleares no mundo. Ele entrou em vigor em 1970 e, até janeiro de 2016, havia sido ratificado por 170 dos 193 Estados reconhecidos pela ONU, o que faz dele o tratado de regulação de armas mais ratificado do mundo.

Ele cria e atribui funções à AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), responsável por fiscalizar o cumprimento dos termos do tratado. A AIEA visita os países membros e monitora toda a tecnologia nuclear empregada para fins pacíficos, para garantir que ela não seja convertida para uso em programas militares.

O único país a se retirar do Tratado de Não Proliferação Nucelar até hoje foi a Coreia do Norte, em 2003. Após o fim da URSS, o regime comunista norte-coreano acelerou as pesquisas sobre mísseis balísticos e armas atômicas a partir dos anos 1990, sob alegação de se proteger do que considera uma ameaça imperialista americana no sul da Ásia.

POR QUE alguns países podem e outros, não

O Tratado de Não Proliferação Nuclear é apresentado oficialmente como “o único compromisso expresso em um tratado multilateral obrigatório com a meta de desarmar os Estados que possuem armas nucleares”. Essa pretensão, entretanto, é recebida com ceticismo pelos que consideram que o TNP congela o status quo dos Estados nucleares. Na verdade, ele tem mais êxito em impedir que outros países se juntem ao clube do que em reduzir os arsenais já existentes.

Alguns grupos são especialmente assertivos em seus argumentos. O Wildfire propõe separar o assunto entre proibição e desarmamento. Para eles, as potências estão muito mais empenhadas em proibir outros países de desenvolverem arsenais do que em reduzir os seus próprios estoques de armas atômicas.

É improvável que o assunto avance, pois as potências nucleares que precisariam se engajar seriamente no desarmamento são as mesmas que monopolizam o Conselho de Segurança da ONU, ocupando os cinco assentos permanentes do órgão - EUA, Reino Unido, França, Rússia e China.

NA ARTE: O holocausto nuclear no cinema

“Dr. Fantástico”

Filme dirigido por Stanely Kubrick em 1964 usa o humor macabro e a sátira para retratar a Guerra Fria entre EUA e URSS.

 

“Os 13 Dias que Abalaram o Mundo”

Filme de Ronald Donaldson, com Kevin Costner, mostra os dias mais tensos na negociação entre EUA e URSS pela instalação de uma bateria de mísseis em Cuba, em 1962.

 

“Caçada ao Outubro Vermelho”

Filme de 1990, baseado num romance de Tom Clancy e dirigido por John McTiernan, tem Sean Connery no papel de um comandante de um submarino nuclear russo que navega em direção aos EUA em 1984.

 

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