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Guerra na Síria: dos protestos de rua à ação das superpotências

Conflito teve início após repressão do governo a manifestações pacíficas, mas evoluiu para uma guerra aberta na qual mais de dez países participam das operações militares

 

A guerra na Síria começou em 2011 e rapidamente se converteu num dos mais sangrentos e complexos conflitos armados em andamento hoje no mundo. Já são cerca de 400 mil mortos, segundo a última contagem, de abril de 2016 feita por Steffan de Mistura, enviado especial das Nações Unidas ao país.

A ONU também estima que 13,5 milhões de sírios precisam de ajuda humanitária, sendo 4,8 milhões refugiados fora do país e outros 6,3 milhões deslocados internamente. Completa o cenário um emaranhado de países envolvidos em bombardeios diários num território disputado pelo governo e por vários grupos rebeldes, sem solução à vista.

A Turquia já abriga 2,8 milhões de refugiados, e o Líbano mais de 1 milhão. Apenas em 2015, 468.299 pessoas se lançaram no Mediterrâneo em direção à Europa. No dia 13 de novembro do mesmo ano, um atentado do Estado Islâmico deixou 130 mortos em Paris. Os dois fatos despertaram o mundo pela primeira vez para as consequências de uma guerra até então confinada no Oriente Médio.

O QUE deflagrou a guerra da Síria

 

Nos primeiros meses de 2011, manifestantes saíram às ruas da capital, Damasco, para criticar o governo de Bashar al-Assad. O movimento aconteceu em meio à onda de protestos populares que ficou conhecida como Primavera Árabe.

Jovens pediam mais democracia e melhoria nas condições de vida. O movimento já havia atingido antes outros países, derrubando governos no Egito, na Tunísia, na Líbia, no Iêmem e no Barein.

Na Síria, a repressão manteve al-Assad no poder. O preço pago foi uma espiral de violência que em pouco tempo passou para o conflito aberto, com bombardeios aéreos e até uso de armas químicas contra civis.

QUEM são os principais atores dessa guerra

 

Estão envolvidos tanto vizinhos seculares, como a Turquia, quanto governos xiitas, como o do Irã, sunitas, como o do Iraque, além de monarquias, como a Arábia Saudita, novos grupos armados, como o Estado Islâmico, guerrilhas de recorte étnico, como os curdos, sem contar duas das maiores potências nucleares do mundo, EUA e Rússia.

Quase todas as potências militares do mundo passaram a se alinhar entre si e a disputar interesses na Síria. Pelo menos 13 países se envolveram em operações militares nos quase cinco anos de conflito.

Para classificar em grandes linhas todos esses atores é preciso, primeiro, separar quem é a favor e quem é contra o governo sírio. Isso não resolve todas as variáveis étnicas, religiosas, políticas e econômicas presentes no contexto, mas ajuda a simplificar como ponto de partida, pelo menos.

Apoiam Assad

Rússia

Os russos tentam reafirmar um poder sobre a Síria que remonta aos tempos da URSS. Além disso, começaram a bombardear rebeldes sírios, não apenas para proteger o governo local e mantê-lo como aliado no Oriente Médio, mas também como uma forma de responder na mesma moeda aos EUA, à França e ao Reino Unido.

Irã

Os iranianos têm laços históricos com a Síria. Na guerra Irã-Iraque (1980), os dois países formaram uma aliança que perdura até hoje. Síria e Irã também têm posições comuns sobre o apoio ao Hezbolah no Líbano e na oposição a Israel. O atual apoio iraniano ao governo sírio é, portanto, uma extensão desses laços históricos.

Atacam Assad

EUA e aliados

O grupo liderado pelos EUA inclui desde Turquia até Austrália, passando por aliados tradicionais, como França e Reino Unido, além das monarquias do golfo, como a Arábia Saudita e o Qatar. O envolvimento americano obedeceu ao mesmo princípio de outras ações no Oriente Médio - um misto de imposição à força de ideias da democracia ocidental a qualquer custo (como no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão e na Líbia) e de oportunismo diante da possibilidade de que Assad caísse pressionado pelo mesmo movimento democrático que havia derrubado outros tiranos em países próximos durante a Primavera Árabe (Tunísia e Egito, por exemplo).

Rebeldes

Há diversos grupos armados envolvidos no conflito - todos eles de oposição ao governo. O mais conhecido deles é o Estado Islâmico, que nasceu no Iraque, com um braço da Al-Qaeda, e se expandiu para a Síria. Os curdos já se faziam presentes na política síria há muitos anos, com 18 partidos políticos. Agora, com a guerra, abriram um dos mais duros fronts contra Assad. O movimento é dividido em diferentes vertentes. Alguns reivindicam a formação de um Estado curdo independente, outros não. Em comum, a união contra o presidente sírio.

QUANTO a geopolítica pode mudar

 

A vitória de Assad fortaleceria o Baath, partido que se mantém no controle da Síria com “punhos de aço” desde o golpe de 1970, e manteria os sunitas (70% a 80% da população síria) longe da presidência por muitos anos mais. Regionalmente, fortaleceria tanto o Hezbolah no Líbano quanto o Irã, num plano maior. Também representaria a vitória da Rússia que, desde o início da guerra, se opôs ao desejo americano de intervir militarmente para derrubar Assad.

“Nós pensamos que é um enorme erro se recusar a cooperar com o governo sírio e com suas forças armadas, que estão valentemente enfrentando o terrorismo cara a cara”

Vladimir Putin

Presidente da Rússia

 

“De acordo com essa lógica, nós deveríamos apoiar tiranos como (o presidente sírio) Bashar al-Assad, que lança contêineres com bombas de fragmentação para massacrar civis inocentes porque a alternativa a ele é pior”

Barack Obama

Presidente dos EUA

Já com uma mudança de regime, os americanos trariam um novo governo da Síria para sua esfera de influência no Oriente Médio, afastando a Rússia. Há, entretanto, um complicador para os americanos: como enfraquecer Assad fortalece grupos que se caracterizam pelo fundamentalismo religioso, como o Estado Islâmico, a Casa Branca se equilibra num dilema entre o que já é ruim e o que pode vir a ser ainda pior.

Para ONDE fogem as vítimas da guerra

 

Embora a chegada de quase 880 mil refugiados sírios na Europa tenha levantado o debate em nível mundial, o problema das vítimas da guerra na Síria não teve início em 2015, nem a Europa é o maior destino.

Entre os países vizinhos, a Turquia é o que mais recebe refugiados sírios: 2,8 milhões de pessoas. Mesmo se refazendo de uma longa guerra, o Iraque recebeu quase 230 mil refugiados do país vizinho e o Líbano acomodou mais de 1 milhão. Os dados são do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), em dezembro de 2016.

Dentro da Síria, o movimento populacional também impressiona. Mais da metade dos moradores abandonou suas casas nos últimos quatro anos. Cidades inteiras ficaram vazias. Só na cidade de Aleppo, mais de 700 mil pessoas foram retiradas de suas casas entre os dias 14 e 15 de dezembro de 2016.

COMO o Brasil se posiciona nesse conflito

Desde o início, o governo brasileiro se colocou terminantemente contra qualquer saída bélica para a Síria. “Não há saída militar”, disse a presidente Dilma Rousseff na Assembleia Geral da ONU, em 2012. O Brasil, entretanto, nunca formulou com clareza qualquer proposta alternativa capaz de mobilizar outros países ou de chamar a atenção dos atores diretamente envolvidos no problema.

Em situações de conflito, o Itamaraty apela genericamente pela paz e pela chegada a um acordo negociado que respeite a população civil, mas o Brasil não participa efetivamente dos grupos envolvidos nas negociações, como o que se reúne em Viena, na Áustria.

O país acolhe hoje 2.300 refugiados sírios e estendeu a eles os benefícios do “visto humanitário”, procedimento criado inicialmente para receber imigrantes haitianos. Os sírios lideram a lista de 8.863 refugiados de 79 nacionalidades diferentes presentes hoje no Brasil, segundo dados de abril de 2016 da Acnur.

POR QUE a questão religiosa é importante

 

O atual conflito na Síria é eminentemente político, mas fatores religiosos ajudam a entender melhor as divisões históricas do contexto. Para isso, é preciso voltar ao passado.

Em 1923, a França assumiu o controle do que veio a ser a Síria e o Líbano, depois da queda do Império Otomano. As novas fronteiras, desenhadas pelos colonizadores europeus, confinaram dentro de um mesmo território xiitas, sunitas, cristãos, judeus, russos e alauítas.

Para manter seu controle colonial, a França apostou na divisão interna da sociedade síria, privilegiando alguns grupos em detrimento de outros, evitando que eles se unissem contra o inimigo externo comum. Assim, a França pôs em cargos importantes do governo e das forças armadas grupos menores, como os xiitas (hoje, 2% da população) e alauítas (10%). Com isso, esperava não apenas barganhar com os privilegiados, mas também balancear o poder dos sunitas na sociedade síria, já que esse grupo tinha a seu favor o fato de responder por 60% da composição populacional do país.

Depois que a França deixou a Síria, em 1963, um alauíta assumiu o poder -  Hafez al-Saad, pai do atual presidente, Bashar al-Assad. Durante todo o seu governo, Hafez reprimiu os sunitas e teve de lidar com uma guerra interna de baixa intensidade movida pela etnia majoritária contra o seu governo, até que, em 1982, o conflito atingiu um ápice - Hafez bombardeou indiscriminadamente a cidade síria de Hama, num massacre histórico de mais de 20 mil sunitas sírios.

O massacre de 1982 tem influência definitiva nos ressentimentos e disputas que permaneceram latentes e voltaram a eclodir em 2011, na Primavera Árabe e no conflito que se estende até agora.

Glossário Religioso

Sunitas e Xiitas

A divisão entre esses dois ramos do Islã vem desde o ano 632 e está relacionada à forma como os seguidores da religião se dividiram em relação às duas linhas sucessórias estabelecidas depois da morte do profeta Maomé, o fundador do islamismo. Para além dos aspectos teológicos, entretanto, o que importa é a influência dessa divisão na política. Os xiitas (10% a 13% da população muçulmana mundial) são mais rígidos na interpretação do Alcorão e muitas vezes estão ligados a figuras político-religiosas fortes e centralizadoras, como no caso dos aiatolás xiitas no Irã. Já os sunitas (87% a 90%) são menos centralizadores e, em alguns casos, ligados a governos mais próximos do Ocidente, como a Arábia Saudita. Mesmo assim, sunitas lideram grupos anti-americanos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico na Síria e no Iraque, não apenas por questões religiosas, mas principalmente porque esses grupos estão em países duramente atacados pelos americanos desde a Guerra ao Terror que se seguiu à queda das Torres Gêmeas. Embora haja divisões sectárias, o islamismo é um só e todos seguem o Alcorão e Maomé, costumam dizer seus fiéis.

Alauítas

É uma corrente minoritária derivada do xiismo surgida no ano 850. Alguns especialistas atribuem aos alauítas uma intenção deliberada de se fazer confundir com os xiitas apenas como forma de proteção, uma vez que eles sempre foram minoritários e religiosamente híbridos em termos doutrinários. Os alauítas têm um calendário que mistura datas islâmicas e cristãs, por exemplo, e acreditam na reencarnação. Desde a descolonização da Síria, o governo está nas mãos da família Assad, de raízes alauítas. Hoje, 10% da população síria é alauíta.

O passo a passo do conflito

Março de 2011 - Primavera Árabe

Milhares de sírios tomam as ruas para protestar contra o governo da família Assad, há 44 anos no poder. Repressão deixa quatro mortos.

 

Julho 2011 - Do protesto à guerra

A crescente repressão somada a décadas de disputas políticas e religiosas leva opositores a pegar em armas e fundar o Exército Livre da Síria para depôr Assad.

 

Janeiro 2012 - Raízes do Estado Islâmico

O conturbado ambiente do conflito cria condições para que a Al-Qaeda vá do Iraque à Síria fundar a Frente Al-Nusra, que, depois de um racha, viria a formar o Estado Islâmico, em abril de 2013.

 

Agosto de 2012 - Massacres

Sob forte pressão dos rebeldes, Assad reage com ataques cada vez mais violentos. O número de mortos, que em março de 2012 era de 9 mil, pula para 60 mil em janeiro de 2013.

 

Março de 2013 - Apoio externo

Liga Árabe aprova o envio de armas, munição e recursos financeiros de seus 22 países membros para apoiar aos rebeldes na luta contra Assad.

 

Agosto de 2013 - Armas químicas

Assad usa gás sarin contra a população civil nos arredores da capital, Damasco. Cifras mais pessimistas falam em quase 1.500 mortos. EUA reagem dizendo que governo sírio “cruzou a linha vermelha”.

 

Setembro 2014 - Bombardeios contra Estado Islâmico

Relutante em enviar tropas, americanos dão início a uma série de bombardeios aéreos contra posições do Estado Islâmico na Síria.

 

Julho 2015 - A crise dos refugiados

O enorme fluxo de refugiados que já sobrecarregava os países vizinhos da Síria chega à Europa.

 

Setembro de 2015 - Imagem do bebê na praia

O corpo de um refugiado sírio de apenas 3 anos é fotografado na areia de uma praia da Turquia. A imagem choca o mundo e chama definitivamente a atenção do Ocidente para a crise dos refugiados e o conflito sírio.

 

Novembro de 2015 - Atentados em Paris

Estado Islâmico assume autoria de série de ataques na capital francesa, que deixou 130 mortos e cerca de 350 pessoas feridas. França classifica episódio como "ato de guerra" e anuncia ofensiva contra o grupo na Síria. ONU teme reação contra refugiados.

 

Fevereiro de 2016 - Cessar fogo colapsado

EUA e Rússia concordam em iniciar uma trégua no fim do mês, mas o acordo dura apenas alguns dias. Outras conversas do tipo voltariam a ganhar espaço nos meses seguintes, todas com curto prazo de validade.

 

Julho de 2016 - Recuo do Estado Islâmico

Depois de perder 47% de seu território no Iraque e 20% na Síria, o grupo, com dificuldades financeiras, muda de tática e passa a encorajar ataques isolados ao redor do mundo. Dias depois, um caminhão mata 84 pessoas em Nice, na França. O grupo reivindica a autoria, mas investigações não encontram ligação entre ele e o motorista.

 

Agosto de 2016 - Crianças feridas na ambulância

Guerra volta a ganhar atenção após imagens do bebê Omran Daqneesh e sua irmã, feridos e sujos de poeira após um bombardeio, rodarem o mundo.

 

Dezembro de 2016 - Retomada de Aleppo

Governo sírio, com a ajuda da Rússia e do irã, faz um avanço decisivo sobre as áreas dominadas pelos rebeldes em Aleppo, reconquistando o controle da cidade. Após denúncias de crimes contra a humanidade no processo, Rússia e Turquia negociam cessar fogo para a retirada de civis.

 

Abril de 2017 - Armas químicas e bombardeio americano

Uma série de bombardeios conduzidos pelo governo de Assad liberaram uma nuvem química que matou pelo menos 70 pessoas na província de Idlib, dominada por rebeldes. A propriedade dessas armas, contudo, é alvo de uma disputa de versões entre os dois lados. Dois dias depois, o governo americano de Donald Trump praticou seu primeiro ataque direcionado a uma base militar do governo sírio, com mais de 59 mísseis.

Vá ainda mais fundo

  • Compilação de todas as violações dos direitos humanos e crimes de guerra cometidos no conflito sírio, recolhidos e organizados pela Comissão Independente Internacional de Investigação sobre a República Árabe da Síria (ONU)
  • Documentário brasileiro da Globo News mostra o conflito sírio e a presença do Estado Islâmico na cidade de Kobani
  • O quanto você sabe sobre os sunitas e os xiitas? O centro de estudos internacionais Christian Science Monitor propõe um quiz (apenas em inglês).

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