‘O despertar de tudo’: uma nova história da humanidade


O ‘Nexo’ publica trecho do livro que sugere uma nova forma de contar o desenvolvimento humano. Os autores David Graeber e David Wengrow exploram desde o início da agricultura até as origens do Estado, da democracia e da desigualdade

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

A maior parte da história humana está irremediavelmente perdida para nós. A nossa espécie, Homo sapiens, existe pelo menos há 200 mil anos, mas quase não temos ideia do que aconteceu durante grande parte desse tempo. No norte da Espanha, por exemplo, há pinturas e entalhes na caverna de Altamira que foram sendo criadas ao longo de uns 10 mil anos, entre 25 000 e 15 000 a.C. aproximadamente. Julga-se que ocorreram muitos eventos dramáticos durante esse período. Não temos como saber o que foi a grande maioria deles. Isso não tem muita importância para as pessoas em geral, porque as pessoas em geral raramente pensam sobre a magnitude da história humana. Não têm muito motivo para isso. Se e quando a questão chega a surgir, costuma ser quando a pessoa está se perguntando por que o mundo parece ser tão caótico e por que tantas vezes os seres humanos destratam uns aos outros — as razões da guerra, da ganância, da exploração, da indiferença sistemática ao sofrimento alheio. Sempre fomos assim ou, em algum momento, algo deu muito errado?

Trata-se na prática de um debate teológico. No fundo, a pergunta é: os seres humanos são inerentemente bons ou inerentemente maus? Mas, pensando bem, um questionamento nesses termos faz pouquíssimo sentido. “Bem” e “mal” são conceitos que dizem respeito apenas aos seres humanos. Jamais passaria pela cabeça de alguém discutir se um peixe ou uma árvore são bons ou maus, porque “bom” e “mau” são conceitos humanos que criamos para nos comparar uns aos outros. Por isso, discutir se os seres humanos são bons ou maus em sua essência faz tanto sentido quanto discutir se os seres humanos são naturalmente gordos ou magros.

Mesmo assim, quando refletem sobre as lições da pré-história, as pessoas quase sempre voltam a esse tipo de pergunta. Todo mundo conhece a resposta cristã: os humanos de outrora viviam num estado de inocência, mas foram maculados pelo pecado original. Aspiramos à divindade e fomos castigados por isso; agora vivemos num estado degenerado, esperando uma futura redenção. Hoje, a típica versão mais difundida dessa história é alguma retomada do Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, que Rousseau escreveu em 1754. Antigamente, segundo essa história, éramos caçadores-coletores e vivemos por muito tempo numa condição de inocência infantil, em pequenos bandos. Esses bandos eram igualitários, justamente por serem bem pequenos. Foi só depois da “Revolução Agrícola”, e ainda mais depois do surgimento das cidades, que essa feliz condição se desfez, dando origem à “civilização” e ao “Estado” — o que também significou o aparecimento da literatura, da ciência e da filosofia escritas, mas, ao mesmo tempo, de quase tudo o que há de ruim na vida humana: o patriarcado, exércitos permanentes, execuções em massa e burocratas irritantes exigindo que passemos boa parte da vida preenchendo formulários.

De fato é uma simplificação das mais grosseiras, mas realmente parece ser essa a história fundacional que aflora sempre que alguém, seja um psicólogo organizacional ou um teórico revolucionário, diz algo como “mas, claro, os seres humanos passaram a maior parte da sua história evolutiva vivendo em grupos de dez ou vinte pessoas” ou “a agricultura foi talvez o erro mais grave da humanidade”. E, como veremos, muitos autores que atingem grandes públicos defendem de forma explícita esse argumento.

O problema é que quem for procurar uma alternativa a essa visão bastante deprimente da história logo vai descobrir que a única alternativa disponível é, na verdade, ainda pior: se não for Rousseau, então é Thomas Hobbes. O Leviatã de Hobbes, publicado em 1651, é em muitos aspectos o texto fundador da teoria política moderna. O livro afirmava que, sendo os seres humanos as criaturas egoístas que são, a vida num Estado de Natureza original nada tinha de inocente; pelo contrário, devia ser “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta” — na prática, um estado de guerra, com todos lutando contra todos. Se houve algum progresso em relação a esse estado de coisas, argumentaria um hobbesiano, em grande medida foi exatamente por causa dos mecanismos repressivos que Rousseau condenava: governos, tribunais, burocracias, polícia. Essa visão das coisas também circula há muito tempo.

Existe uma razão para que, na língua inglesa, as palavras politics, polite e police [política, polido, polícia] soem quase iguais: todas derivam da palavra grega polis, ou cidade, cujo equivalente em latim é civitas, de onde vem civility, civic e uma certa acepção moderna de civilization [civilidade, cívico, civilização]. De acordo com essa concepção, a sociedade humana se funda sobre a repressão coletiva dos nossos instintos mais elementares, o que se torna ainda mais necessário quando uma grande quantidade de seres humanos habita o mesmo espaço. Assim, o hobbesiano de hoje diria que, de fato, vivemos a maior parte da nossa história evolutiva em pequenos bandos, que podiam ser harmoniosos principalmente porque tinham um interesse em comum pela sobrevivência de sua prole (“investimento parental”, como dizem os biólogos evolucionários).

Mas mesmo esses bandos não se orientavam de forma nenhuma pela igualdade. Havia sempre, nessa versão, algum “macho alfa” em posição de liderança. A hierarquia e a dominação — e a atuação descarada em nome dos próprios interesses — sempre foram a base da sociedade humana. É que simplesmente aprendemos, em termos coletivos, que mais vale dar prioridade aos nossos interesses de longo prazo do que aos nossos instintos de curto prazo — ou melhor, mais vale criar leis que nos obriguem a limitar a ação de acordo com nossos piores impulsos a áreas socialmente úteis, como a economia, e refreá-los em outras partes. Como o leitor provavelmente há de notar pelo tom de nosso texto, não gostamos muito da escolha entre essas duas alternativas.

capa 'O despertar de tudo'

O despertar de tudo

David Graeber e David Wengrow

Trad. Claudio Marcondes e Denise Bottmann

Companhia das Letras

696 páginas

Lançamento em 05 de agosto

*Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos do Nexo, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo. Por favor, considere também assinar o Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.