‘O acontecimento’: relatos autobiográficos sobre o aborto


O ‘Nexo’ publica trecho de livro que revisita memórias da francesa Annie Ernaux. A obra narra os eventos referentes à interrupção de uma gravidez pela qual a escritora passou na década de 1960, quando a prática era ilegal na França

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Em outubro de 1963, em Rouen, esperei mais de uma semana que minha menstruação descesse. Era um mês ensolarado e ameno. Eu me sentia pesada e pegajosa em meu casaco de inverno retirado cedo demais do armário, sobretudo quando eu estava dentro das lojas de departamento por onde flanava, comprava meias, à espera do retorno das aulas. Ao voltar para o meu quarto na cidade universitária, na rua d’Herbouville, tinha sempre a esperança de ver uma mancha na calcinha. Comecei a escrever na agenda todas as noites, em maiúsculas e sublinhado: nada. Quando acordava de madrugada, logo sabia que não havia “nada”. No ano anterior, na mesma época, eu tinha começado a escrever um romance, e isso me parecia tão distante, como se nunca mais fosse se repetir.

Certa tarde fui ao cinema ver um filme italiano em preto e branco, “O emprego”. Era lento e triste, a vida de um garoto em seu primeiro emprego, num escritório. A sala estava quase vazia. Vendo o corpo frágil, numa capa de chuva, de um funcionário menor, suas humilhações; diante da agonia sem esperanças do filme, eu soube que minha menstruação não desceria.

Numa noite, acabei aceitando ir ao teatro com umas moças da cidade universitária que tinham um ingresso a mais. Era “Entre quatro paredes” e eu nunca tinha visto uma peça contemporânea. A sala estava lotada. Olhava o palco, distante, violentamente iluminado, e não parava de pensar que minha menstruação não vinha. Só lembro da personagem de Estelle, loira com um vestido azul, e do Garoto vestido de lacaio, com os olhos vermelhos e sem pálpebras. Escrevi na agenda: “Formidável. Se ao menos eu não tivesse essa realidade nas minhas entranhas”.

No fim de outubro, parei de acreditar que ela poderia descer. Marquei uma consulta com um ginecologista, o dr. N., para o dia 8 de novembro.

No fim de semana do Dia de Todos os Santos, voltei para a casa dos meus pais, como de costume. Temia que minha mãe fizesse perguntas sobre o atraso. Tinha certeza de que ela olhava as minhas calcinhas todos os meses, quando separava a roupa suja que eu trazia para ser lavada.

Segunda-feira, acordei com o estômago embrulhado e um gosto estranho na boca. Na farmácia me deram Hepatoum, um líquido denso e verde que piorou meu enjoo.

O., uma garota da cidade universitária, propôs que eu desse aulas de francês no lugar dela no Instituto Saint-Dominique. Era uma boa oportunidade para ganhar um pouco de dinheiro

além da bolsa de estudos. A diretora me recebeu, o Lagarde et Michard* do século 16 na mão. Eu disse que nunca tinha dado aula e que estava assustada. Era normal, e até ela, durante dois anos, só tinha conseguido entrar na sala de aula de filosofia com a cabeça baixa, olhando para o chão. Sentada em uma cadeira em frente à minha, ela encenava essa lembrança. Eu só conseguia prestar atenção em seu crânio coberto pelo véu. Saindo com o Lagarde et Michard que ela havia me emprestado, eu me vi na sala do primeiro ano do ensino médio diante das adolescentes e tive vontade de vomitar. No dia seguinte liguei para a diretora e recusei as aulas. Ela me pediu secamente que devolvesse o manual de literatura.

Sexta-feira, dia 8 de novembro, andando na direção da praça do Hôtel-de-Ville para pegar um ônibus e ir à consulta do dr. N. na rua La Fayette, cruzei com Jacques S., um estudante

de letras, filho de um diretor de fábrica da região. Ele queria saber o que eu estava fazendo do outro lado do rio. Eu disse que estava com dor de estômago e que ia me consultar com um estomatologista. Ele me corrigiu categoricamente: o estomatologista não cuida do estômago, mas de infecções na boca. Temendo que ele suspeitasse de alguma coisa por causa da minha gafe e quisesse me acompanhar até a porta do consultório, me despedi de repente com a chegada do ônibus.

Bem no momento em que eu estava descendo da maca, com meu grande suéter verde caindo sobre as coxas, o ginecologista me disse que com toda a certeza eu estava grávida. O que eu achei que fosse um problema de estômago era náusea. De todo modo, ele me receitou algumas injeções para fazer a menstruação descer, mas não parecia acreditar que surtiriam efeito. Na porta, sorria com um ar jovial, “os filhos do amor são sempre os mais bonitos”. Era uma frase horrorosa.

Voltei a pé para a cidade universitária. Na agenda, consta: “Estou grávida. Que horror”.

No início de outubro, eu tinha transado várias vezes com P., um estudante de ciências políticas que havia conhecido durante as férias, e a quem depois visitara em Bordeaux. Sabia estar num período de risco segundo a tabelinha, mas não acreditava que aquilo poderia “pegar” no meu ventre. No amor e no gozo, não me sentia um corpo intrinsecamente diferente do corpo dos homens.

Todas as imagens da minha estadia em Bordeaux — o quarto na rua Pasteur com o barulho incessante dos carros, a cama estreita, o terraço do café Montaigne, o cinema onde havíamos assistido a um filme B, “O rapto das sabinas” — não tinham mais do que um único significado: eu estava ali e não sabia que estava engravidando.

A enfermeira da universidade me deu uma injeção à noite, sem fazer nenhum comentário, e outra no dia seguinte pela manhã. Era o fim de semana do dia 11 de novembro. Voltei para a casa dos meus pais. Em certo momento tive um rápido e curto corrimento de sangue rosado. Botei a calcinha e o jeans manchados sobre a pilha de roupa suja, bem à mostra. (Agenda: “Um único vazamento. O suficiente para enrolar minha mãe”.) De volta a Rouen, liguei para o dr. N., que confirmou meu estado e anunciou que enviaria meu atestado de gravidez. Recebi no dia seguinte. Parto de: Senhorita Annie Duchesne. Previsto para: 8 de julho de 1964. Vi o verão, o sol. Rasguei o documento.

Escrevi para P. dizendo que estava grávida e que não queria o filho. Tínhamos nos despedido sem certezas sobre a nossa relação, e eu senti certa satisfação em incomodar a sua tranquilidade, mesmo não tendo nenhuma ilusão sobre o profundo alívio que lhe causaria a minha decisão de abortar.

Uma semana depois, Kennedy foi assassinado em Dallas. Mas isso já não me despertava nenhum interesse.

Os meses seguiram banhados por uma luz embaçada e pálida. Eu me vejo nas ruas andando sem parar. Todas as vezes que pensei nesse período, me vieram à mente expressões literárias como “a viagem”, “além do bem e do mal”, ou ainda “viagem ao fim da noite”. Elas sempre me pareceram corresponder ao que vivi e senti naquele momento, algo indizível e de certa beleza.

Há muitos anos estou às voltas com esse acontecimento da minha vida. Ler o relato de um aborto em um romance me arrebata, num sobressalto sem imagens nem pensamentos, como se as palavras se transformassem instantaneamente em sensação violenta. Da mesma forma, quando ouço por acaso “La javanaise”, “J’ai la mémoire qui flanche”, ou qualquer outra música que me acompanhou nesse período, fico perturbada.

Faz uma semana que comecei esta narrativa, sem nenhuma certeza de continuá-la. Só queria testar meu desejo de escrever sobre isso. Um desejo que me atravessava constantemente sempre que eu estava trabalhando no livro que venho escrevendo há dois anos. Eu resistia, mas não conseguia deixar de pensar nisso. Ceder ao desejo me parecia assustador. Mas me dizia também que poderia morrer sem ter feito nada desse acontecimento. Se havia uma culpa, era essa. Uma noite sonhei que segurava um livro que havia escrito sobre meu aborto, mas não se podia encontrá-lo em nenhuma livraria e ele não era mencionado em nenhum catálogo. Na parte inferior da capa, em letras grandes, constava ESGOTADO. Não sabia se esse sonho significava que eu devia escrever este livro ou se seria inútil fazê-lo.

Com este relato, foi o tempo que se pôs em movimento e que me conduz apesar de mim. Sei agora que estou tão decidida a ir até o fim, aconteça o que acontecer, como estava quando, aos 23 anos, rasguei o atestado de gravidez.

Quero mergulhar mais uma vez nesse período da minha vida, saber o que se encontra ali. Essa exploração vai se inscrever na trama de um relato, o único capaz de recuperar um acontecimento que era apenas tempo dentro e fora de mim. Uma agenda e um diário íntimo mantidos durante esses meses vão me trazer as referências e as provas necessárias ao estabelecimento dos fatos. Vou me esforçar, acima de tudo, para me aprofundar em cada imagem, até que tenha a sensação física de “alcançá-la”, e que surjam algumas palavras sobre as quais eu possa dizer “é isso”. Ouvir de novo cada uma dessas frases, que não se apagaram em mim, cujo sentido na época deve ter sido tão insuportável, ou, inversamente, tão reconfortante, que afundo em desgosto ou doçura ao pensá-las hoje.

Que o modo como vivi essa experiência do aborto — a clandestinidade — remonte a uma história superada não me parece um motivo válido para deixá-la enterrada — mesmo que o paradoxo de uma lei justa seja quase sempre obrigar as antigas vítimas a se calar, em nome de que “tudo isso acabou”, de maneira que o mesmo silêncio de antes encubra o que aconteceu. É justamente porque nenhuma interdição pesa mais sobre o aborto que posso, deixando de lado o senso coletivo e as fórmulas necessariamente simplificadas, impostas pela luta das mulheres dos anos 1970 — “violência contra as mulheres” etc. —, enfrentar, na sua realidade, esse acontecimento inesquecível.

Annie Ernaux nasceu em 1940, em Lillebonne, na França. Estudou na universidade de Rouen e foi professora do Centre National d’Enseignement par Correspondance por mais de 30 anos. Seus livros são considerados clássicos modernos na França. Em 2017, Ernaux recebeu o prêmio Marguerite Yourcenar pelo conjunto de sua obra.

*Livro didático em dez volumes sobre literatura francesa da Idade Média até o século 21, lançado em 1948 e adotado nas escolas por décadas.

Capa do livro "O acontecimento"

O acontecimento

Annie Ernaux

Trad. Isadora de Araújo Pontes

Fósforo

80 páginas

Lançamento em 23 de fevereiro

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