‘Cinco ou seis dias’: ficção sobre amizade e problemas sociais


O ‘Nexo’ publica trecho de romance que tem como pano de fundo as problemáticas da sociedade brasileira. Ambientada nos primeiros anos do século 2000, a narrativa foca em dois jovens recém-formados que divergem sobre qual é a maneira mais efetiva de mudar o país

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

João sempre foi encantado pelas histórias contadas pelos pais, a mãe que narrava com candura a crença firme e leve de que o amor tomaria conta do mundo tão logo se anunciasse a Era de Aquário, a Era de Aquário que inevitavelmente viria, que já estava vindo, que já estava ali pra quem quisesse ver, a mãe que ia aos Arquisambas, que ajudava a organizar um festival em Maquiné que imitava Woodstock, com O Terço e Tutti Frutti como estrelas, um festival em que choveu tanto quanto no americano, que também durou três dias, que também não teve brigas ou mortes, que também teve muita droga, LSD de verdade, ácido baiano, maconha da boa, muita música e muita alegria, o pai que contava com vigor a crença dura e guerreira de que a luta de classes levaria a um mundo de plena igualdade, um mundo sem patrões e sem empregados, sem guerra, sem contradições, sem as superficialidades do capital, um mundo sem milicos, um mundo que também viria já, que já estava vindo, que já estava ali, os dois se encontrando nas festas da Faculdade de Filosofia da UFRGS, nos bailes da Reitoria, bebendo na Esquina Maldita, no Marius, no Alaska, no Copa 70, vivendo o Bom Fim do teatro, dos punks, do Ocidente, do Cine Baltimore, se apaixonando, casando e tendo um filho único e muito amado cujo nome era João porque João era John Lennon, João Goulart e João Cabral de Melo Neto, porque João era João Gilberto, porque João era o Brasil que rebentava no começo dos anos 80, um Brasil que renasceria democrático, bonito, igualitário e popular como deveria ser, enorme, gigante, livre praquelas crianças que eram o seu futuro, um João que era efeito da paixão entre essas duas utopias, uma Era de Aquário comunista, implicada, musical, sensual e guerreira pra todos aqueles que nasceram meses antes do Barão Vermelho cantar Pro dia nascer feliz no Rock in Rio, com as bandeiras em verde e amarelo tremulando e o Cazuza transformando essa música num hino à democracia que ressurgia no país, agora vambora, estamos, meu bem, por um triz, nadando contra a corrente, só pra exercitar, que o dia nasça lindo pra todo mundo amanhã, um Brasil novo, uma rapaziada esperta, aquele discurso emocionante que os pais de João contavam que viram na televisão com o filho no colo e lágrimas nos olhos sentados no sofá da sala.

Eram histórias animadas, engraçadas, bonitas, mas também histórias duras como aquela que o pai contou numa noite, um tanto irritado como costumava ficar depois de três doses de uísque nacional, meio sindicalista de mesa de jantar, que era a expressão debochada que João usava pra se referir a ele nessas ocasiões em que dava discursos bêbados em casa, e meio que do nada disse que aquele trabalho que eles estavam fazendo sobre maio de 68 era muito interessante, que a ideia era boa, importante e tudo o mais, que tinha sido mesmo um fato importante, mas queria saber se João, Maria e Dante sabiam que no final dos anos 60 também teve um show dos Rolling Stones na Califórnia em que uns motoqueiros barra-pesada chamados Hell’s Angels eram os seguranças e esses caras mataram um guri negro a facadas no meio da multidão, e que aquilo tinha sido o fim de tudo, daquela coisa bonita, mas datada, do maio francês, dos hippies, das flores, do amor, de tudo, porque se era verdade que tinha tudo aquilo mesmo, os anos 60 e 70 foram também os anos de chumbo no Brasil, do assassinato do Edson Luiz, da passeata das mães, da marcha da família com Deus, da Primavera de Praga, do assassinato do Martin Luther King, da Guerra do Vietnã, do massacre de Tlatelolco, e que nada disso podia ficar de fora da conta quando se falava daquelas décadas, e parecia que eles não sabiam ou esqueciam daquilo tudo.

Porque as coisas não eram fáceis ou somente bonitas naquela época, que tinha inclusive vivido de perto algumas delas, que, por exemplo, estava no Teatro Leopoldina naquela noite em que os atores de Roda Viva foram sequestrados pelo Comando de Caça aos Comunistas e levados pro Parque Saint-Hilaire, em Viamão, intimidados e obrigados a deixar Porto Alegre na manhã seguinte, que como o Belchior já tinha dado a letra, ironizando o velho compositor baiano de quem eles tanto gostavam, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua, que aquele sonho não existia mais, que o próprio Gil, o Capinam e o Torquato já tinham feito o enterro do tropicalismo na televisão, que era preciso inventar outra coisa, que nem o rock nem o amor livre nem o comunismo faziam mais sentido, que o Gilberto Gil e o John Lennon já haviam composto boas canções e dado declarações sobre isso, quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou, que foi pesado o sono pra quem não sonhou, que eles deviam conhecer aquela música, que eles tinham que sair dessa, que não dava mais pra ficar requentando utopia, porque era impossível sonhar um mesmo sonho duas vezes, mesmo que a gente se esforçasse muito isso era impossível, e que aquele sonho tinha acabado e só não percebia quem não queria perceber, que a glasnost, a perestroika, o Gorbatchev, a queda do Muro de Berlim, essas coisas eram a prova do fim, era só ver a história, era só estudar um pouco, que achava simpático o engajamento deles, que entre ser de esquerda ou de direita é óbvio que preferia que fossem de esquerda, mas que achava que aquela era uma geração que não arriscava o corpo pra mudar o mundo, porque o que queriam mesmo era tomar cerveja, fumar baseado e conversar, tocar violão, fazer sexo, essas coisas que são todas boas, todas maravilhosas, que a juventude tem que fazer isso mesmo, mas que isso não era tudo.

Porque ele viu ressoarem muito próximos os ecos da revolução cubana, a revolução nacionalista de 1959, absurdamente heroica, aquela meia dúzia de náufragos libertando a ilha do jugo do imperialismo americano, e esses ecos fizeram crer que o sonho poderia se tornar realidade aqui também, e foi por isso que ele se filiou ao Partido Comunista, um partido que na época era clandestino, e foi também por isso que participou de várias atividades do cpc da une, shows, peças, um monte de coisas, e que queria se vincular ao Programa Nacional de Alfabetização pra ensinar adultos a ler e a escrever, naquela metodologia que o Paulo Freire tinha criado em Pernambuco e que depois com o Jango tinha virado uma política nacional, e achou que iam fazer um país melhor, com as reformas de base, como a reforma agrária, com um monte de coisas, mas esse sonho foi trucidado pelo golpe de 1964.

Depois de 1968, com o AI-5, quando o bicho pegou de verdade, ele forneceu apoio pra vários companheiros que estavam na clandestinidade, e uma denúncia anônima que ele nunca soube de onde veio fez com que sua casa no Menino Deus fosse monitorada sem que ele sequer desconfiasse, até que no dia 26 de agosto de 1970, essa data inesquecível, dois meses depois da seleção brasileira ser tricampeã mundial de futebol com uma vitória de 4 a 1 sobre a Itália e o país inteiro ficar alienado cantando noventa milhões em ação, pra frente, Brasil, salve a seleção, os militares invadiram a casa dele, apreenderam dezenas de livros e alguns documentos, e levaram ele DOPS, ali na Santo Antônio, muito perto de onde estavam agora.

E quando entrou lá, a primeira coisa que viu foi o delegado intimidando aos berros uma companheira também recém-chegada, fale, sua puta comunista, com quantos você trepou, essas palavras que ele nunca iria esquecer, que o cara dizia com raiva, cuspindo, e nesse momento ele foi levado pra outra sala, foi interrogado, apanhou bastante e foi liberado, e não viu mais a amiga, mas anos depois ela contou que foi encapuzada, algemada e levada pra um quartel do exército onde ficou detida por três meses, incomunicável, sem um único banho de sol ou qualquer exercício físico, e nesse quartel ficou numa cela em que um dia entrou um homem que se identificou como médico, mediu a pressão dela e perguntou se ela era cardíaca, e como a pressão estava ok e ela não tinha problema de coração, foi levada pra sala de torturas, a famosa sala roxa, e teve as roupas arrancadas, o corpo molhado, fios colocados no bico dos seios, na vagina, na boca e na orelha e recebeu choques elétricos, e depois foi levada de volta à cela, conduzida por um cabo do exército que balançava o molho de chaves e cantava uma canção que ela jamais esqueceria, receba as flores que eu lhe dou, em cada flor um beijo meu, são flores lindas que lhe dou, rosas vermelhas com amor, amor que por você nasceu.

E esses caras queriam que ela contasse coisas sobre o sequestro de um embaixador no Rio de Janeiro, coisas que ela não sabia, que não fazia a menor ideia, que não tinha como saber, mas eles achavam que ela estava escondendo alguma informação, e por isso despiram ela de novo e amarraram numa cadeira, e colocaram um filhote de jacaré sobre o corpo dela, e o filhote de jacaré percorreu o corpo dela, e muitos anos depois ela ainda lembrava bem da sensação da pele gelada e pegajosa do bicho, que aquilo foi um horror, e que numa outra madrugada retiraram ela da cela e levaram pro pátio amarrada, algemada e encapuzada, e gritaram que iriam matar ela, e ela acreditou, e aterrorizada fez xixi nas calças, e os milicos riram e levaram ela de volta à cela, e aqueles três meses foram um inferno, até o dia que largaram ela numa praça sem nada, sem identidade, sem dinheiro, e ela pegou um táxi e conseguiu ir pra casa da mãe na Azenha.

João, Maria e Dante ouviram aquilo tudo calados, assustados, atentos à história da geração anterior à deles, e o pai de João deixava passar uma certa raiva quando contava, a raiva que vinha do uísque, mas que vinha também de outros lugares, e dizia mais uma vez que eles não arriscavam o corpo, que não se arriscavam nada, que não saíam de zona de conforto nenhuma, que viviam um momento ótimo, que tudo estava bem, e que era preciso coragem pra mudar o que não estava tão bem assim e nadar contra a corrente, que não era função dele, que ele já era coroa e estava mais pra lá do que pra cá, que não tinha que dizer que coisas eram essas, que eles é que deveriam saber, e João precisou concordar com o pai, que aquela geração não estava disposta a entregar o corpo à luta, que era meio apática, que não saía da zona de conforto, mas achava também que era a hora deles, de pôr o corpo pra jogo, que era preciso honrar o destemor que a geração anterior tinha tido pra que eles pudessem estar naquele momento fumando, bebendo, tocando violão, que de fato era preciso uma radicalidade muito maior do que aquela que até então ele e os amigos tinham tido coragem de ter, e que eles com certeza teriam, não tinha a menor dúvida disso.

Danichi Hausen Mizoguchi nasceu em Porto Alegre, em 1981. Mora no Rio de Janeiro. É autor de “Segmentaricidades: passagens do Leme ao Pontal” (2º lugar no Prêmio da União Brasileira de Escritores), “Amizades contemporâneas: inconclusas modulações de nós” (finalista do Prêmio Açorianos e do Prêmio da Associação Gaúcha de Escritores) e coautor de “Nortes da noite, de antifascismo tropical e de transversais da subjetividade: arte, clínica e política”. Tem ensaios publicados na Argentina, nos Estados Unidos, na Espanha e na França.

Capa do livro "Cinco ou seis dias", ilustrada com uma cena urbana com cartazes na parede e pessoas em situação de rua

Cinco ou seis dias

Cinco ou seis dias

Danichi Hausen Mizoguchi

Dublinense

192 páginas

Lançamento em 24 de janeiro

*Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos do Nexo, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo. Por favor, considere também assinar o Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.