‘Yawara’: embates entre indígenas e colonizadores


O ‘Nexo’ publica trecho de romance que tem como pano de fundo o início da colonização brasileira. A obra traz dos primeiros anos do século 16 questões ainda relevantes para o país, como identidade nacional, gênero e meio ambiente

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É triste ter que dizer isso assim, tão diretamente e sem floreios, caro Bacharel, mas tudo leva a crer que os canibais vão devorar você assim que o dia raiar.

A sua coragem, força, virilidade e corpulência, que tanto lhe valeram na peleja de anteontem, são justamente o tempero que mais açula o apetite desses índios aí. E mesmo que seja esse o destino certo de qualquer um que se prolongue demais neste rincão desgraçado do mundo, neste desertão verde-escuro e esmeralda — terminar devorado —, penso que, infelizmente, caberá a você aplacar a fome desta tal Terra do Pau-Brasil quando a manhã desfigurar a madrugada.

Entenda, Bacharel, esses bugres aqui comem os inimigos mais corajosos e potentes, os mais agressivos e temidos, por acreditar que a coragem está fixada no meio da carne e não no espírito. Veja a loucura desses desalmados! Comer o corpo e o sangue do outro como se fosse algo sagrado.

E não só isso, Bacharel, o pior deles, o que chamam de Yawara, é quem vai matá-lo, pois foi ele quem o prendeu durante a escaramuça. É ele que vai carregar o seu nome junto ao dele depois do banquete e por todo o tanto que viver. O monstro pensa que ao fazê-lo de almoço vai também deglutir sua coragem, o medo que seu nome inspira, sua história e a do seu povo. Não que faça muita diferença para ele. Aquele ali já campeia fazendo guerra por toda parte com centenas de nomes e fantasmas bailando dentro das vísceras.

Yawara. Quer dizer: “Aquele que morde”.

Para ser sincero com você, achava mesmo que esse famoso infiel nem existisse até sua tribo me aprisionar. Tinha por certo que os rumores que ouvia a respeito da sua existência eram conversa de gente vadia assoprando medo ao vento em volta das fogueiras da noite.

Só quando vi os cachorros foi que acreditei. Um índio com cachorros de guerra — um batalhão de asmodeuses rosnando e babando a serviço do trevoso. Animais de guerra, Bacharel. Cães de curso, como usavam os romanos em suas batalhas. Molossos. Quem poderia imaginar!

Nem os mais sábios astrólogos e matemáticos mouros, que tudo esquadrinham e calculam, poderiam determinar as probabilidades impensáveis desse índio gigante andando por aí a caçar gente com a ajuda de cachorros demoníacos, ocupado a fazer os trabalhos da morte nesta borda esquecida do mapa.

No entanto, ali está ele. Bem ali, ó. Vivo, real, ativo e preparando-se para devorá-lo, Bacharel.

Já estou há mais de um ano andando pelo mato com esses índios. Como um farnel de comida que um camponês carrega consigo aguardando a fome apertar — nem bem vivo nem bem morto. Fiz e faço de tudo para não lhes dar água na boca. Também, Bacharel, olhe para mim: um covarde, um falastrão, avermelhado e azedo como só são azedos os italianos, particularmente os montepulcianos como eu. Não há vantagem em almoçar o homem que só se apresenta com mentiras e artesanias.

Fui pego depois que subi a serra que eles chamam de Paranapiacaba e nós chamamos de Muralha.

Acompanhava na função de mercenário, que era o único trabalho possível naquele tempo, um grupo de contrabandistas portugueses que subiu a Muralha para comprar escravos aqui no Planalto dos Piratiningas buscando um preço mais convidativo do que o praticado no litoral. Eis que assim rodam as engrenagens do moderno mercantilismo, Bacharel. Estamos sempre maquinando maneiras de cortar os custos para ampliar os ganhos, não é mesmo? O moinho do mundo precisa de escravos para girar. Este é o fato. Fornecê-los com algum lucro a quem demanda não pode estar errado.

Teria sido um ótimo negócio se não tivesse sido o pior negócio da minha vida. Nem dez dias de caminhada tínhamos completado, depois de subir a serra, quando fomos atacados por esses índios. Apareceram em canoas por detrás de uma dobra do rio grande que chamam de Tietê.

Quando vi que a peleja estava perdida, disparei a correr pela floresta o mais rápido que os pés me levavam. Corri por um dia inteiro e noite adentro até que, alucinando de tanto medo e cansaço, tomei um tropico, meti a cabeça num tronco e desmaiei.

A floresta foi quem me pegou, Bacharel. E qual não foi minha surpresa quando acordei? Estava deitado no centro da aldeia de onde os guerreiros de Yawara tinham vindo. Veja você o picadeiro que a morte me preparou com seu esmero habitual. Aí não me restou outra opção. Tive que me entregar às musas da imaginação e deixar que a arte me salvasse.

Quando me dei conta da situação, larguei a fazer truques com os saquinhos de areia que carrego sempre comigo para praticar malabarismos. Dancei todo torto em cortesias incertas e desequilibradas. Declamei os poemas que tenho guardados de coração. Cantei. Plantei bananeira. Desenhei animais no chão do terreiro. Imitei mulheres e velhos. Gargalhei. Chorei. Até trovas eu cantei, Bacharel.

E não é que a arte me salvou? Mesmo que meu público não me enxergasse como um grande ator desempenhando uma comédia do grego Crátinos, mas apenas como um espírito louco da floresta, consegui arrancar risos e gargalhadas dos selvagens. Riam como se gente fossem! Eis o triunfo do teatro, da arte e da literatura sobre a vida vivida: a força da imaginação. Apresentei ali aos pelados um espetáculo como nunca antes tinham visto. Intriguei, encantei, entretive. Pois não é este o serviço das artes? Distrair a morte com truques ensaiados, ardis bem costurados e mentiras curiosas? Pois tenho por mim que é. Tanto é que aqui estou, vivo, inteiro e ao seu lado nesta noite.

Além do mais, não ofereci qualquer resistência. Poderia ter morrido de qualquer modo, pois o gentio da terra é tão imprevisível quanto qualquer uma das outras bestas de olhos vazios que perambulam por aqui.

Mas a Providência assim organizou os acontecimentos: foram as crianças que me capturaram finalmente, interrompendo o espetáculo. Crianças e reis não são público fácil de cativar por longos períodos, portanto logo se aborreceram e resolveram me amarrar e me bater um pouco. Ninguém respeita as crianças. E respeitam menos ainda o homem que se deixa prender por elas. Quem vai querer comer um homem assim e carregar essa vergonha por aí? Valho mais dançando e fazendo piruetas do que assando sobre o braseiro. Assim pretendo permanecer.

Nosso Senhor Jesus Cristo permitindo, nenhum deles vai querer se empanturrar com a minha covardia. Não senhor. Oxalá viverei para ver muitos amanhãs e encontrar uma oportunidade de fuga. Volto correndo para São Vicente, como agora se nomeia o Porto dos Escravos e, se Deus Todo-Poderoso assim quiser, de lá parto de volta para a civilização.

Aprendi minha lição sobre o que Pindorama oferece aos que aqui aportam — não há riqueza, beleza e nem aventura que valha ao indivíduo insistir neste horizonte onde todos os verdes chamuscam no vermelho-sangue da terra e acendem no anil prateado do céu: este paraíso dos olhos e dos sentidos que aqui se formou é a prisão mais ardilosa de toda a Criação.

Aqui só existem dois destinos. Ou se morre na chegada ou se passa a vida inventando artes para sobreviver apenas para morrer devorado pelos canibais no final. Ou um ou outro. Comigo não. Angelo, o Vermelho, não vai encerrar tão cedo suas aventuras.

Bacharel! Bacharel! Me perdoe. Que falta de educação a minha. Não tinha nem me apresentado apropriadamente. Muito prazer, Angelo, o Vermelho, ao seu dispor. Por que Vermelho? Por causa do cabelo, evidentemente. O que acho bom, pois sou um pouco vesgo e bem poderia ter sido chamado de Angelo, o Vesgo. Antes marcado pela distinção do que pelos defeitos, não é mesmo?

Pare com isso, por misericórdia. As caretas que você está fazendo. Não adianta, Bacharel, não entendo nem reconheço nada desses grunhidos que você está soltando. Não sei nem qual é sua língua natal. Talvez você não esteja entendendo nada do que eu estou lhe dizendo. Não há remédio. Imaginarei que me entende.

Sua mandíbula está quebrada, posso ver daqui. A língua, pendendo para fora, você não consegue recolher? Parece o caralho molenguento de um bêbado que amarrou mal as calças e deixou as vergonhas de fora. Pelo resultado deve ter sido golpe de tacape. Ta-ca-pe. É o nome que eles dão para aquela borduna pesada que desmontou o seu buraco da prosa. Parece com essa aí pendurada sobre sua cabeça. Mas essa aí é o ibirapema que, muito infelizmente, eles usam apenas nas execuções rituais.

Falo eu então por nós dois, se me permite, pois a agonia da situação torna alguns homens calados, mas eu, como você já deve ter suspeitado, infelizmente disparo a falar. Me perdoe. Temos uma longa noite pela frente, você e eu, Bacharel.

Rodrigo Leão nasceu em 1969 em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro e em Nova York. Trabalhou como jornalista, músico e publicitário. É mais conhecido como compositor de inúmeros hits do grupo mineiro Skank como “Saidera”, “Um mais um”, “Fotos na estante”, “Formato mínimo”, entre outras músicas. Suas canções ocupam mais de cinco horas de audição nas plataformas digitais. Recebeu em 2010 o Prêmio Estímulo do Governo do Estado de São Paulo pelo roteiro do curta-metragem “O cavalo”. “Yawara” é seu primeiro romance.

Capa do livro "Yawara", com ilustração que mostra uma boca aberta, exibindo dentes afiados e uma língua em vermelho

Yawara

Rodrigo Leão

Quelônio

200 páginas

Lançamento em 30 de novembro

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