‘É sempre a hora da nossa morte amém’: pedaços da memória


O ‘Nexo’ publica trecho do novo livro de Mariana Carrara, finalista do Prêmio Jabuti 2020. A protagonista do romance sofre amnésia, o que a faz percorrer lembranças inconstantes de pessoas que fizeram parte de seu passado e a proximidade do fim da vida

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Hoje chove, ouço tiros. Os idosos estão acumulados na sala de vídeo e o vazio sem móveis faz um eco no tiroteio do filme, ouço o dublador descrever estratégias para encontrar o alvo e não há a menor chance de os telespectadores estarem de fato acompanhando a agilidade dessa fuga, todos quase derretidos nas cadeiras, de rodas ou não, os do fundo constantemente repetem que é pra colocar no futebol.

Vou ali perto espiar. Quando um ator sussurra no filme, não se pode escutar porque o ventilador faz muito barulho e num janeiro desses não dá pra desligar, embora eles detestem as correntes de vento, eu por mim desligava também. Se não é o ventilador, é o trovão. Quando estão todos juntos assim numa sala o cheiro de urina seca é mais evidente, misturado aos produtos baratos e à ferrugem das janelas posso apostar que é cheiro de cadeia, só falta o cheiro de suor dos jovens que até nisso os velhos ficam fracos.

Hoje tenho consulta no médico e estou aguardando as diretrizes, aqui fora da sala de vídeo estamos eu, a faxineira que jamais dará conta sozinha de tantos cheiros e ainda assim sorri para mim quando cruzo com a sua pressa, há o idoso que lê muitos jornais, há também a dupla do dominó incansável, não param mesmo quando a chuva espirra por baixo da mesa e começa a umedecer as meias, um perigo um idoso com as meias úmidas, e há também aqui fora a acumuladora, pelo que soube foi resgatada da própria casa quando já somava trinta e oito gatos, cento e noventa copos vazios de requeijão lavadinhos sem rótulo, uma graça de coleção, empilhados pelos cantos não apenas os rótulos mas qualquer papel de anúncio ou revista que tenha entrado pela porta, já não era possível usar a pia da cozinha, preenchida de ração de gato, no box do chuveiro ela estocou embalagens vazias de xampu e todas as escovas de dentes das últimas décadas, é fascinante uma pessoa que não pode viver sozinha porque se apega demais a todo o seu arsenal de coisinhas transitórias. E gatos.

Sento ao lado dela, à mesa, para ver a chuva, os tiros dublados ao fundo, um ou outro resmungo no dominó, com a umidade o cheiro de urina sobe, é nostálgico para ela, lembra os trinta e oito gatos. Este lugar é tão completo, acho que posso viver aqui para sempre.

Como eles ainda têm receio de que eu vá esquecer tudo de novo e não saberei voltar da consulta, mandam a coitada da Rosa me acompanhar, tantos problemas para acudir e precisa ficar aqui investigando uma velha confusa, isso é o que sinto, ela não, ela perde a

paciência, mas é um poço de amor, na volta já avisou que vamos aproveitar pra passar no postinho e cobrar a listinha toda dos remédios dos idosos, que eles não mandaram vários, poucas são as chances de isso ser uma função da Rosa e também poucas as chances de

haver alguém encarregado disso neste país e se houver ele não está ou não dá conta, a enfermeira sobrecarregadíssima, e o país sempre largado em cima de alguma Rosa que está quando os outros não estão.

Na fila do médico nem todos são velhos e ainda assim não ficam atentos aos malditos números das senhas apitando no painel eletrônico, mesmo com o barulhinho insistente, valha-me Nossa Senhora que basta olhar para cima a cada bipe e conferir se é o seu número, uma tarefa tão simples e ainda assim toda essa gente atrasando a vida dos outros, as funcionárias têm de vir chamar o nome. Por mim, deixavam por último.

O doutor refaz um monte de perguntas que já me fizeram antes de me liberarem do hospital e depois me olha com algum desgosto porque eu simplesmente não me encaixo em nenhuma das suas teorias, como tento desanuviar o ambiente fazendo um gracejo ou outro a Rosa questiona se eu estou ciente do privilégio que é uma consulta com um neurologista neste país, e é claro que estou, não me lembro se tive ou não tive uma filha mas fora isso estou ciente de tudo, a consulta avança e o cinismo do médico ganha tons de irritação, ele repassa o meu polêmico itinerário, encontrada na madrugada de Ano Novo zanzando praticamente na beira da estrada perguntando por Camila, uma coleira vazia na mão, depois segue numa longa ficha anotando os meus exames, olha de novo pra mim, humor eutímico, pragmatismo preservado, eu interrompo, pragmatismo preservadíssimo! Era uma piada e ele não ri.

Neuromoduladores em ordem, sem problema visível no córtex pré-frontal, nenhum déficit nas enzimas nem na síntese proteica, peço para falar mais devagar para eu anotar, já vou apanhando uma caneta, ele diz que estará tudo no laudo, gosto da ideia de que terei um laudo, não há estreitamento nas sinapses, nenhum sinal de apoptose, Aurora Aurora Aurora, ele está desgostoso de mim, vai dizer Aurora-do-céu, depois registra algo com a palavra fosforilar, e eu fico mais encantada.

Estou ciente do privilégio de estar diante de um neurologista e no entanto ele não está gostando do meu caso porque sou um desafio, ele precisa saber que eu detesto ser um desafio, sou uma pessoa totalmente devota à ideia de diagnóstico. Este homem precisa gostar um pouco mais de mim então me estico para ver a tela com o exame colorido, digo que a imagem do meu hipocampo parece uma lesma craquelada ao sol, e então ele finalmente sorri e responde que é assim mesmo, são as fibras aferentes do fórnix, elas são colinérgicas.

Como minha sintomatologia e meus neurônios não condizem com a ciência, ele pergunta se por acaso eu tinha muito medo de fogos de artifício. Não, mas um dos meus cachorros tem, demais, o Perdoai, para isso ele não tem perdão, dou risada com meu trocadilho e o médico fica com o olhar um pouco parado, talvez pense em reconsiderar o Pragmatismo Preservado. De tanto não rirem das minhas graças lembro que o Perdoai está sozinho no meu quintal com a Camila, o meu Jabuti, e isso é o pior de tudo.

Por que a senhora acha que esqueceu sua vida, Dona Aurora?

A pergunta é séria e a dúvida genuína. Mas não gosto de senhora e muito menos de Dona, também não esqueci a minha vida toda, não é bem assim, doutor, talvez, não sei.

A Rosa suspira e conclui de repente que tenho um distúrbio poético. Agora sim os dois riem.

Mariana Salomão Carrara é paulistana e defensora pública. Publicou um livro de contos, “Delicada uma de nós” (Off-Flip, 2015), e os romances “Fadas e copos no canto da casa” (Quintal Edições, 2017) e “Se deus me chamar não vou” (Editora nós, 2019, entre os 10 indicados ao Prêmio Jabuti 2020, em Romance Literário). Por contos e poemas, recebeu prêmios nacionais como Off-flip, SESC-DF, Felippe D’Oliveira, Sinecol, e Josué Guimarães. Recebeu o segundo lugar no Prêmio Guiões (Portugal, 2019) pelo roteiro de longa-metragem “É lá que eu quero morar”.

Capa do livro "É sempre a hora da nossa morte amém", estampada com pintura colorida de uma menina de vestido branco

É sempre a hora da nossa morte amém

Mariana Salomão Carrara

Nós

240 páginas

Lançamento em 24 de agosto

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