‘Cidade feminista’: como o espaço público afeta as mulheres


O ‘Nexo’ publica trecho de livro da geógrafa canadense Leslie Kern. Para refletir sobre a vida urbana feminina, a obra leva em conta gênero, raça, classe e sexualidade

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Virginia Woolf escreveu que “assombrar as ruas” em Londres estava entre os “maiores prazeres”. Mover-se confortável e silenciosamente pela cidade, vagar por entre pessoas estranhas e fascinantes era uma atividade acalentada. Para as mulheres, no entanto, ser uma flanadora é preocupante. Gostar de ficar sozinha exige respeito pelo espaço pessoal, um privilégio que raramente foi concedido às mulheres. O flâneur idealizado entra e sai da multidão urbana, junto com a cidade, mas também é anônimo e autônomo. Hoje, o flâneur pode tocar suas músicas favoritas em seus fones de ouvido enquanto caminhando pelas ruas, desfrutando de sua própria trilha sonora de uma aventura urbana pessoal.

Adoro ter meus fones de ouvido e música comigo na cidade também, mas para mim e muitas outras mulheres, eles fornecem mais do que uma forma de entretenimento. Podem ser pequenos, mas criam uma barreira social contra as intrusões muito regulares e quase sempre indesejadas dos homens. É impossível saber quantas conversas indesejadas e incidentes de assédio nas ruas evitei, sabendo ou não, por causa dos meus fones de ouvido. Posso, no entanto, pensar em ocasiões em que um pequeno conjunto de fones de ouvido brancos poderia ter me salvado de encontros humilhantes e profundamente sexistas.

Lembro-me de voltar para casa certa tarde de um turno diurno no pub onde trabalhava no Norte de Londres. Um homem estava sentado em um carro estacionado fez um sinal para mim. Porque ele estava parado em um lugar estranho (e porque sou uma canadense prestativa), achei que ele queria alguma indicação. Na verdade, ele estava se oferecendo para fazer sexo oral em mim. Ele falou de uma forma menos educada ainda. Não consigo me lembrar do que eu disse a ele, se é que eu disse alguma coisa, mas andei o resto do caminho para casa tremendo e olhando por cima do ombro, com medo de que ele estivesse me seguindo até em casa onde eu morava sozinha.

Ali eu estava, tentando ser uma boa cidadã urbana. Deixei de andar tranquilamente de volta para casa depois de trabalhar como atendente de balcão, que envolve horas de bate-papo obrigatório com bêbados, para ajudar um homem totalmente estranho. Encontros como esse só conseguiram diminuir minha simpatia por aqueles que gostariam de ter tido um passado ilusório cheio de gentilezas entre vizinhos no meio da rua. Para muitos, isso nunca fez parte de sua experiência urbana. Para nós, a capacidade de estar sozinho é um marcador igualmente importante de uma cidade bem-sucedida. Até que ponto as violações ao espaço individual das mulheres por meio de toques, palavras ou outras infrações são toleradas e até mesmo encorajadas numa cidade serve para mim como uma medida tão boa quanto qualquer outra de quão longe estamos, na realidade, da cidade sociável – e feminista – de encontros espontâneos.

Essa grande distância me atingiu recentemente, quando um artigo intitulado Como falar com uma mulher usando fones de ouvido foi divulgado nas redes sociais. Escrito por um homem que parece se identificar como um PUA*, o artigo começou a circular em agosto de 2016 e fez com que minha linha do tempo do Twitter principalmente feminista entrasse em colapso. O autor começa insistindo que até mesmo as “feministas malucas” “derretem instantaneamente e são legais quando um cara bastante confiante se aproxima e as cumprimenta”, então os homens não devem hesitar em insistir com uma mulher que tire seus fones de ouvido. Ele garante a seus leitores masculinos que não importa quais sejam os sinais que as mulheres deem, elas intimamente desejam que os homens interrompam o que elas estão fazendo. Na verdade, o artigo sugere que os homens devem insistir, mesmo se elas demonstrarem claramente que não estão interessadas.

As críticas na mídia social a esse artigo soaram engraçadas, como este tweet de Amy Elizabeth Hill: “Sou apenas uma garota usando fones de ouvido de pé na frente de um garoto pedindo para ele sair do meu caminho, porque não quero falar com ele” (@amyandelizabeth, 30 de agosto de 2016). Outros usaram meios de comunicação mais tradicionais para fornecer análises incisivas de todas as formas como esse conselho perpetua a cultura do estupro. Por exemplo, Martha Mills respondeu em The Guardian evocando a crescente sensação de medo que as mulheres sentem quando são abordadas repetidas vezes, quando nossos sinais negativos são ignorados ou mal interpretados e quando nossos limites são violados. Ela explica: “Meu cérebro está tentando lutar ou fugir, checando as rotas de fuga, tentando calcular o quão agressivamente você irá reagir diante de qualquer ação que eu tomar para sair de uma situação que eu não provoquei”. Fazendo a conexão com a cultura do estupro, Mills continua observando que “o conselho aqui é basicamente ‘Não, não significa não, significa seguir até conseguir o que deseja – a gritaria, no final, vai parar por si só’, porque, aparentemente, é isso o que as mulheres querem”.

Como falar com uma mulher usando fones de ouvido ilustra a incapacidade de (alguns) homens de reconhecer que as mulheres têm o desejo ou o direito de ficarem sozinhas em público. É incompreensível para o autor e seus apoiadores que as mulheres não queiram o tempo todo, mesmo secretamente, a atenção dos homens. Eles são incapazes de compreender que cada interação dessas está recheada com uma enorme bagagem da cultura do estupro e uma vida inteira de socialização de gênero contraditória: cuidado com estranhos, mas, também, seja boazinha com homens estranhos.

Esse paradoxo foi ilustrado de forma dolorosa pelo assassinato de Mollie Tibbetts em julho de 2018. Correndo sozinha perto de casa, no Brooklyn, Iowa, Tibbetts foi assassinada depois de ter supostamente ignorado as tentativas de um homem de falar com ela. O suspeito tem um histórico de assediar, de forma repetida, mulheres que rejeitam seus avanços. Embora grande parte da mídia tenha se concentrado na situação de imigrante do acusado, as feministas falaram sobre o assédio que as mulheres enfrentam. Depois que a CNN citou um estudo do Runner’s World sobre assédio alegando que um “número surpreendente de mulheres alegam terem sido assediadas enquanto corriam”, mulheres nas redes sociais responderam com incredulidade: “Surpreendente, para quem?”, tuitou a atriz June Diane Raphael (@MsJuneDiane, 23 de agosto de 2018). Mulheres ciclistas também relatam assédio sexual, além das ameaças que recebem quando ousam ocupar espaço na estrada. Esse tipo de assédio não é apenas rotina, mas também perigoso. As mulheres são orientadas a ignorar esse comportamento desagradável, mas, quando o fazemos, corremos o risco de sofrer reações de todo o tipo de violência.

Nesse ambiente cultural, ficar sozinha é um luxo para as mulheres e raramente desfrutamos dele por muito tempo. Estamos sempre prevendo a próxima abordagem de um estranho e não temos como saber se essa interação será benigna ou ameaçadora. Usar fones de ouvido é uma forma como as mulheres podem tentar conquistar seu espaço pessoal, mas até mesmo esse pequeno símbolo de independência é facilmente ignorado. Para as mulheres, o anonimato e a invisibilidade são sempre temporários e devem ser protegidos. Adoraria viver em uma cidade de encontros sociais amigáveis e espontâneos também, mas até que eu tenha certeza de que os homens respeitarão minha autonomia e segurança, não vou me desculpar por usar meus fones de ouvido e ser antissocial.

*Um PUA (abreviação de pick-up artist) é uma pessoa, em geral, um homem, que encontra múltiplos parceiros sexuais, como um jogo pessoal de sedução.

Leslie Kern é PhD em estudos femininos pela Universidade de York. Atua como professora associada de geografia e meio ambiente e diretora de estudos sobre mulheres e gênero na Universidade Mount Allison. Kern escreve sobre gênero, gentrificação e feminismo e ministra geografia urbana, social e feminista. Sua pesquisa recebeu o National Housing Studies Achievement Award e o Fulbright Scholar Award.

Capa do livro "Cidade feminista", em degradê de cores que vai do laranja ao roxo, com tipologia indicando o nome do livro e a sua autoria

Cidade feminista: a luta pelo espaço em um mundo desenhado por homens

Leslie Kern

Trad. Thereza Christina Rocque da Motta

Oficina Raquel

256 páginas

Lançamento em 30 de junho

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