‘A planta do mundo’: crônicas sobre a onipresença vegetal


O ‘Nexo’ publica trecho de livro que cede o protagonismo às plantas. Apesar de serem frequentemente postas em posição secundária, elas representam 85% da vida no planeta em que vivemos. O enredo das plantas se conecta ao da vida humana. Dividido em oito capítulos, leia, abaixo, parte de ‘A planta da cidade’

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A história das árvores da liberdade que já enfeitaram a paisagem de muitas cidades grandes e pequenas me vem à mente toda vez que me deparo com uma das três magníficas pinturas renascentistas conhecidas como A cidade ideal, nas quais, ao contrário, não se vê nem a sombra de uma árvore. Esses trabalhos estão expostos na Galleria Nazionale delle Marche, em Urbino, no The Walters Art Museum, em Baltimore, e na Gemäldegalerie, em Berlim. São três pinturas muito conhecidas, todas anônimas, porém, sem dúvida, têm origem italiana e representam o ideal da cidade perfeita. Observando com atenção, é possível verificar que não há nenhum indício de vegetação nas três obras, a não ser algumas plantas usadas como decoração em janelas e varandas na pintura de Urbino. Tomemos essa como exemplo. É a mais famosa e a mais bonita, atribuída por muitos a Leon Battista Alberti (1404–1472), pai da arquitetura renascentista e autor de De re aedificatoria [Da arte de construir], o tratado arquitetônico fundamental da cultura humanista. A pintura representa uma praça vista do centro, no meio da qual há uma magnífica igreja. A praça é muito ampla, com um pavimento geométrico que a transforma em um grande tabuleiro de xadrez, no qual os edifícios, como peças de jogo, estão dispostos em distâncias regulares. A igreja circular, figura perfeita e acabada, os dois poços octogonais simétricos, as relações entre as dimensões dos edifícios: tudo nessa cidade parece ser puro desdobramento do pensamento humano. A vegetação não é contemplada dentro da cidade ideal, aquela que celebra a arquitetura e o pensamento filosófico que a sustenta. Claro, pode-se argumentar que não se trata de uma ausência significativa porque são apenas representações de cidades, e não cidades reais. É verdade. Mas, elas são, sem dúvida, a expressão de como uma cidade deve ser.

Afinal: que aspecto mais influencia na construção de nossas cidades? O que acreditamos que uma cidade deve ser ou para que deve servir? Embora a resposta inevitável seja que ambos os aspectos são relevantes, acredito que a herança cultural desempenha papel preponderante. E, em certo sentido, corrobora também a memória evolutiva que influencia a maneira como nossa casa deve ser construída. Muito dessa memória ancestral diz respeito à necessidade de se defender. A partir do momento em que o primeiro ser humano sentiu a necessidade de construir uma cabana para se instalar definitivamente em um local, a consequência inevitável dessa decisão foi traçar uma separação entre seu refúgio e a natureza ao redor. A defesa contra predadores, animais ou humanos, sempre foi um aspecto essencial a ser considerado na construção de nossos assentamentos. A separação entre o lado de fora da cidade, onde a natureza reina suprema, e o interior, do qual, ao contrário, a natureza é totalmente removida, é uma reminiscência ancestral de tempos longínquos.

A cidade antiga precisava de muros e de outros mecanismos de defesa que mantivessem o seu interior separado e defendido de um exterior ameaçador. A presença desse perímetro intransponível, por sua vez, fazia com que as dimensões urbanas não fossem muito extensas e que as principais atividades produtivas, como a agricultura, não encontrando espaço no interior das muralhas da cidade, tivessem que sair do centro habitado. O que une as cidades de todos os tipos e de todos os tempos, segundo o historiador inglês Arnold J. Toynbee (1889–1975), é que os habitantes de uma cidade não conseguem produzir, dentro dos limites que ela apresenta, os alimentos dos quais necessitam para sobreviver. Uma cidade está, portanto, necessariamente separada do contexto natural que a acolhe. É algo muito diferente da própria natureza. É o lugar dos seres humanos. Um lugar criado por nós onde a natureza não é admitida.

Mas será que a forma da cidade como a conhecemos é a única plausível? Não seria possível imaginar de modo diferente o que hoje é considerado o lar de nossa espécie? Até agora, deixamos esse exercício de imaginação exclusivamente para os arquitetos, embora eu acredite ser essencial que ele se torne um exercício mental para todos nós. Na verdade, boa parte de nossas chances de sobrevivência depende de como vamos imaginar nossas cidades nos próximos anos. Para citar apenas um exemplo, a possibilidade de vencer o desafio do aquecimento global está ligada à forma, aos materiais e à funcionalidade das cidades.

No entanto, para entender um pouco mais, precisamos olhar essa história com cautela.

O ser humano é cada vez menos um habitante global deste planeta. Ele foi durante sua história recente, quando podiam ser encontradas populações humanas em todos os cantos remotos da Terra. Mas não mais. Hoje, o ser humano se concentra em uma pequena parte da superfície do planeta, onde estão as cidades. Em 2050, 70% da população humana − que deverá ser em torno de 10 bilhões de pessoas − viverá em centros urbanos, muitos dos quais abrigarão várias dezenas de milhões de habitantes.

Não percebemos a velocidade surpreendente desse fenômeno. Em 1950, mais de dois terços (70%) das pessoas em todo o mundo ainda viviam em assentamentos rurais. Em 2007, pela primeira vez na história a população urbana superou globalmente a rural e, desde então, a velocidade do fenômeno só aumentou. Em 2030, segundo as previsões, 60% da população mundial viverá em áreas urbanas e, vinte anos mais tarde, a porcentagem aumentará para 70%, invertendo completamente a distribuição global da população rural/urbana em apenas um século (1950–2050), decerto com variações importantes nas diferentes áreas do mundo. De um lado, a África, que continua com uma população espalhada e prioritariamente rural, do outro, o continente americano (América do Norte e do Sul), onde, hoje, mais de 80% da população vive em cidades. Na Itália, a porcentagem de habitantes das áreas urbanas já alcança 71%; na Alemanha, em torno de 75%; enquanto na França, Espanha e Grã-Bretanha, esse número ultrapassa largamente os 80%.

O que chama a atenção nessa aceleração tão rápida rumo à urbanização é o fato de ela contrastar totalmente com o resto de nossas atividades. A comunicação, o comércio, a alimentação, a indústria, a cultura e qualquer outra forma de manifestação humana que possa vir à nossa mente tendem a assumir um caráter universal e difuso. Nos tempos atuais, ao contrário, cada vez mais as possibilidades de escolha do lugar para morar se reduzem a uma parte exígua da superfície terrestre. Excluindo a Antártica do cálculo, as cidades, todas juntas, cobrem uma área equivalente a 2,7% da massa terrestre do planeta. A irresistível atração que elas exercem leva, por um lado, ao despovoamento de vastas áreas anteriormente habitadas e, por outro, à concentração da população em locais com densidade demográfica muito elevada.

O ponto que acho mais interessante de toda essa história é que o ser humano, em poucos anos, está revolucionando o próprio comportamento atávico da espécie. A conquista de novas terras tem sido a principal atividade de nossa espécie desde o seu surgimento. Durante centenas de milhares de anos, temos procurado novos territórios para habitar, movendo-nos da África para todos os outros lugares do planeta. No entanto, em um período relativamente curto, paramos, como exemplifica a triste história da exploração espacial. Em 1969, pisamos na Lua pela primeira vez... E basicamente nunca mais voltamos. O comandante Eugene Cernan, os pilotos Harrison Schmitt e Ronald Evans, acompanhados de cinco ratos, continuam a ser não apenas os últimos humanos (e ratos) a visitar a Lua, como, desde dezembro desde 1972, foram os últimos seres vivos a ultrapassar a órbita terrestre baixa. A sensação é de que o pouso na Lua foi o apogeu da expansão humana. Pela primeira vez, um novo território não se tornou parte de nosso hábitat; pela primeira vez, não tivemos pioneiros; pela primeira vez na história da exploração humana, por cinquenta anos não voltamos a um lugar que exploramos. O impulso de expansão parece ter se esgotado. Ninguém parece ter mais interesse em colonizar novos territórios, enquanto todos sentem uma atração irresistível para se concentrar nos centros urbanos.

Esse comportamento depende do quê? A alternância das fases de expansão e contração é normal na distribuição geográfica de todas as espécies vivas, sejam plantas, sejam animais. Será que o ser humano está passando pela fase de contração? Estamos acostumados a nos considerar fora da natureza, entretanto, respondemos aos mesmos fatores fundamentais que controlam a expansão das espécies: clima, mudanças no ecossistema, interações entre espécies, fatores abióticos etc. É muito simples. Quanto mais favoráveis as condições, maior a disseminação de uma espécie e, portanto, maiores suas chances de sobrevivência. Essa afirmação não é novidade. Imaginemos que uma espécie, antes espalhada pelo planeta, por algum motivo, conhecido ou não, restrinja sua presença a pequenas áreas delimitadas da superfície terrestre. É claro que os riscos para essa espécie vão aumentar. Na verdade, é muito mais fácil ocorrer alguma mudança incompatível com a sobrevivência dela no âmbito local do que no global.

Ora, os organismos capazes de colonizar ambientes muito diferentes em termos de clima, disponibilidade nutricional, presença de predadores etc. são chamados de “generalistas”, ao passo que os demais, aqueles que precisam de ambientes especiais para sobreviver, são os “especialistas”. Obviamente, as chances de sobrevivência das espécies generalistas são muito maiores. Quando as condições ambientais mudam, elas conseguem se adaptar melhor do que os especialistas, que, por sua vez, tendem a se extinguir com mais facilidade.

Vamos pensar, para dar apenas um exemplo, nas diferentes capacidades de sobrevivência de um onívoro, que pode se alimentar de vários alimentos de origem animal ou vegetal, em comparação com as de um monófago, como o coala, cujo único alimento são folhas de eucalipto. Atenção. Não é apenas a dieta que define se uma espécie é generalista ou especialista. Um cacto é um exemplo de espécie vegetal adaptada para sobreviver em altas temperaturas e em condições de escassez de água, portanto, especialista. Na verdade, dentro de seu ambiente restrito, ele é muito competitivo com outras espécies, porém fora dele não consegue sobreviver.

A julgar pela parábola de nossa expansão geográfica, parece que o ser humano, de uma espécie generalista, capaz de colonizar qualquer ambiente, está se transformando muito rapidamente em um organismo especialista, que tem êxito em prosperar em habitats determinados: as cidades. Estas, de fato, independentemente da sua história ou localização geográfica, têm características comuns inexistentes no meio rural. Forçando um pouco, poderíamos descrever nossas cidades usando o conceito ecológico de nicho.

Stefano Mancuso nasceu em 1965, em Catanzaro, na Itália. É formado pela UniFI (Università degli Studi di Firenze). Fundou o Linv (International Laboratory of Plant Neurobiology). Em 2018, Mancuso recebeu o XII Prêmio Galileo de escrita literária de divulgação científica pelo livro Revolução das plantas. Desde 2001, atua como professor do departamento de ciência e tecnologia agrária, alimentar, ambiental e florestal da UniFI.

Capa do livro "A planta do mundo", estampada com uma ilustração de fundo amarelo e plantas esverdeadas por cima

A planta do mundo

Stefano Mancuso

Trad. Regina Silva

Ubu

192 páginas

Lançamento em 1 de maio

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