‘Roberto Carlos’: a voz que ecoa no imaginário brasileiro


O ‘Nexo’ publica trecho de livro sobre as complexas nuances da vida de Roberto Carlos. No ano em que o cantor completa 80 anos, o Brasil tem a oportunidade de retraçar a trajetória de um de seus artistas mais icônicos. Leia, abaixo, parte do capítulo ‘Aquele menino da Boate Plaza’

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Durante algum tempo, o jovem Roberto Carlos cortejou um emprego na noite, um emprego de carteira assinada no qual pudesse mostrar para um público seleto sua arte e alargar seus horizontes. Quanto mais ouvia os músicos e amigos que ia conhecendo, mais se convencia de que um dos lugares que desfrutavam de unanimidade parecia ser a Boate Plaza, o mais ebulitivo centro de atração de talentos do Rio àquela altura, no coração do Leme. Passou a rondar o local para conhecer, saber quais eram suas especialidades, seu público. “Antes de começar lá, ele ia e ficava na porta, pedia para dar uma canja”, contou o pianista João Donato, que morava na Tijuca, conhecia a moçada. “Elza, Erasmo, Jorge Ben, Tim Maia. Era todo mundo do mesmo lugar. Nós não convivemos ao mesmo tempo. Todos jogamos no Botafogo, mas não na mesma época”, costuma brincar Donato. De vez em quando, o rapaz que pedia canja na boate conseguia uma brecha. Mas o trompetista Barriquinha, com quem Donato tocava piano, não ia muito com a cara de Roberto e começou a vetar suas canjas. “Não deixa ele cantar aqui não, Donato, esse cara é muito chato!”, dizia.

Barriquinha (o pistonista, como se dizia na época), apelido de Edgard Cavalcanti, era puro refinamento. Tinha discos gravados ao lado de cobras como Paulo Moura, Oscar Castro-Neves, Aurino. Debulhava baladas, boleros, sambas e jazz e legou uma gravação de “Menina moça”, que é considerada uma pérola da música brasileira. Sua palavra ou seu veto tinham peso, era extremamente exigente.

“Vem aqui, rapaz, vem cantar”, dizia Donato a Roberto, à revelia do bandleader. “Mas, João, eu não quero prejudicar você, bicho! Melhor não fazer isso, não vão gostar”, balbuciava o rapaz. “Prejudicar que nada! Moro com meu pai e minha mãe, não devo nada a ninguém. Não tô nem aí, não quero saber de nada. Vamos, sobe aí!” E Roberto cantava.

“Isso fez bem a ele também, porque ele enfrentava a proibição e ganhava confiança”, ponderou Donato. Mas, além de tudo, o rapaz tímido tinha um trunfo: uma prima sua era casada com o Amaral, gerente do Hotel Plaza. Após mais uma intervenção miraculosa de dona Laura Braga, Amaral solicitou e conseguiu uma audição para o filho entre os programadores do Plaza.

Roberto foi aprovado e arrumou um emprego de crooner na boate, pelo qual ganharia 9 mil cruzeiros por mês para cantar bossa nova na madrugada. Mas não foi sem alguma resistência. “Os meus colegas diziam: ‘Não deixa esse camarada cantar, você vai prejudicar seu trabalho’. Eu respondia que estava pouco ligando, ele já cantava daquele jeito cativante, agradável”, lembra Donato. E continuava dizendo para o novato: “Vamulá”. O pianista rechaçava o impulso de certa “reserva de mercado” que seus colegas demonstravam. Donato prossegue:

Não era o repertório de João Gilberto, até porque quando foi que João Gilberto teve repertório? João cantava Bororó, Ary Barroso, Tom Jobim. Havia esse boato de que Roberto cantava o repertório do João. Mas se o João cantasse “Cai, cai, balão”, tornava-se bossa. Quando cantava “Juju balangandã”, era bossa. Porque a bossa é uma maneira de ver as coisas. E aí? Roberto estava cantando o que existia para se cantar, o que é que tem isso?

A aceitação de Roberto como crooner do Plaza, aos dezoito anos, foi uma façanha considerável. A despeito do “pistolão”, não é apenas um fato corriqueiro de sua trajetória, como se pensa às vezes. A Boate Plaza não era de modo algum um antro de aventuras sonoras, ao contrário de algum eco da crônica; ali só tinha macaco velho: Durval Ferreira, Luiz Eça, Johnny Alf, João Donato, Ed Wilson, Angela Maria, Milton Banana, Baden Powell, Osmar Milito. E algo de muito definitivo para a música brasileira estava sendo gestado ali.

Um dia, a cantora Sylvinha Telles, uma artista residente do bar do Hotel Plaza, foi a uma apresentação organizada no Grupo Universitário Hebraico, que era dirigido por Ronaldo Bôscoli, que tinha lhe pedido, como camaradagem, o reforço de sua presença para encorpar o cast de seu festival. Os rapazes escreviam o nome das atrações no quadro-negro das salas e alguém escreveu lá: “Hoje, Sylvinha Telles e um grupo bossa nova”. Ronaldo Bôscoli olha para aquilo e diz: “Esse nome é do caralho: bossa nova!”. E assim, segundo contam Ronaldo Bôscoli e Ruy Castro, se deu o batismo de uma das grandes façanhas da música brasileira, embora Ruy afirme que “a bossa nova começou a ser germinada muito antes de 1958 e, ao contrário do que parecia, não morreu em 1968”.

Quando Sylvinha Telles largou o Plaza para se casar, trouxe para ficar no seu lugar uma menina baixinha e de riso fácil. Era Claudette Soares, diva em ascensão ali mesmo de Copacabana e adjacências que tinha sido garota-prodígio da tv cantando ao lado de Baden Powell no Clube do Guri. Mas Claudette era menor de idade, e a mãe ou o pai sempre a acompanhavam nas jornadas notívagas. O pai era simpático e falante, mas a mãe… Crente que queriam “desencaminhar” a filha, ela cuidava de manter afastadas todas as conversas com homens, era um verdadeiro vigilante (não era só ela; a mãe de Olivinha Carvalho também acompanhava a filha). Nesse mesmo tempo, veio a ideia de abrir as sessões musicais na boate, atravessando o hall do hotel para o lado oposto, que tinha saída para a avenida Prado Júnior. No bar do hotel, entrava-se pelo lado da avenida Princesa Isabel.

A bossa nova já tinha assento preferencial ali, no bar do Hotel Plaza, bem antes de seu bunker original no Beco das Garrafas. Johnny Alf e Tom Jobim davam canjas no bar do Plaza. João Donato tocava no Plaza. A fama do local ultrapassou as gerações: quando chegou ao Rio, Caetano Veloso, levado pelo gaitista Mauricio Einhorn, ouviu falar de Johnny Alf tocando no Plaza e costumava chegar às três da manhã para ouvir os artistas da noite. O espraiamento e a consagração do novo gênero envolviam uma parcela expressiva da intelligentsia nacional. “É claro que era música de carpete de apartamento, mas nem por isso deixava de representar uma parcela importante de toda a nação, a parcela chamada classe média”, definiu o radialista e pesquisador Walter Silva, o Picapau. Era uma onda que arrastaria consequências muito fortes e definitivas. “A bossa nova foi a mais importante contribuição que o jazz já teve desde seu nascimento em New Orleans”, sentenciou mais tarde o afamado crítico norte-americano Leonard Feather.

Ali no Plaza estava o líquido amniótico de tudo. Claudette Soares, que às vezes se fazia acompanhar na boate por Luizinho Eça, finalmente foi apresentada àquele jovem cantor muito tímido que estava sendo contratado, Roberto Carlos, e que não tinha a menor noção do que estava acontecendo ali, caíra de paraquedas em seu epicentro; para enturmá-lo, a pequena Claudette o chamou para dar algumas canjas com ela.

Ele adorava a bossa nova. Havia um grupo que fazia uma pressão muito grande em cima dele porque diziam que imitava João Gilberto. Era tímido, mas o palco tem uma coisa: tem gente que cresce, tem gente que some. Ele era dos que crescem. É como diz o pessoal do teatro, são os deuses do palco. Quando ele entra, alguma coisa acontece.

O ambiente era de alquimia. Funcionava na Boate Plaza um refinado clube de insiders chamado Plaza Boate Jazz Clube, organizado pelo pianista “Fats” Elpídio, pernambucano de Paudalho, o rei dos cabarés do Rio, roliço como o nome diz, 103 quilos, risada despachada. Morador dali mesmo de Copacabana, Fats Elpídio tinha passado um tempo tocando no Caverna, no subsolo do Cassino Beira-Mar, no Assírio, debaixo do Teatro Municipal, e no Tabaris, em Buenos Aires, cabaré de luxo na Calle Corrientes, integrando a orquestra de Romeu Silva. Também tocou com Fon Fon e Sua Orquestra. Experimentado notívago, amante de uma cachacinha e da boa música, Elpídio era exigente e bon-vivant.

O Plaza reunia a nata das bandas de jazz do Rio: o quinteto de Bill Horne, o quarteto de Alex de Andrade, o trio de Mário Castro Neves e os conjuntos dos trompetistas Dido Gebara e Barriquinha. No acompanhamento dos solistas estavam músicos como Milton Banana (bateria), Zé Marinho (piano) e Valdir Marinho (contrabaixo).

A boate era uma instituição da boemia e da crônica mundana. “Depois de sua noitada no Au Bon Gourmet, Murilinho resolveu dar uma passada na Boate Plaza. Lá, cantou com a orquestra de Booker Pittman. Estavam presentes dois barbichas de Fidel Castro, e a última canção foi cantada a três vozes por Murilinho e os dois barbichas, com Murilinho segurando as barbas dos nossos pobres irmãos cubanos”, escreveu o cronista Antônio Maria em sua concorrida coluna de novelos cariocas.

Assim, não era apenas um rapazola qualquer bater ali na porta e conseguir um emprego de cantor. Roberto teve que convencer numa audição, mas a impressão foi das melhores. Tão boa que, no anúncio do pré-aquecimento das marchas de Carnaval, “as primeiras melodias para o reinado de Momo de 1959”, o nome de Roberto já estava entre os destaques.

PLAZA BOITE. HOJE SENSACIONAL GRITO DE CARNAVAL. COM OS CANTORES SWING. BOLA 7. CLAUDETTE SOARES. TRIO FLUMINENSE. ROBERTO CARLOS E O CONJUNTO MUSICAL DE BARRIQUINHA.

A presença dessa constelação, que tinha uma produção gravada, experiência e reconhecimento, em vez de fazer desabrochar, só levava Roberto a se sentir inseguro quanto à sua posição naquela cena e naquele local.

Mas o show prosseguia, alheio às hesitações. Roberto aprendia com os melhores. Enquanto o Rio se afirma cultural e socialmente, entre torneios de biriba na Hípica, as esticadas para ouvir Claude Bernie na não menos lendária boate Drink, uma escapadela ao cinema para ver Os bravos morrem de pé, com Gregory Peck, o jovem ia deixando a casca interiorana pelo chão e adquirindo um novo sorriso cosmopolita, mais ladino e astucioso.

Ao ingressar no “clube” restrito da Boate Plaza, Roberto penetrou num refinado local de exigências sonoras mais agudas do que o que frequentara até então, o público de auditório. A penumbra das boates de música do Rio no final dos anos 1950 e início dos 1960 abrigava uma tribo de consumidores e connaisseurs de jazz mais exigente do que ele jamais imaginaria. Camuflados atrás de um copo de uísque, poderiam estar ali, na sua plateia, gente como Jorginho Guinle, Luiz Orlando Carneiro, Ary Vasconcelos, Armando Aflalo, Aurino Ferreira, Ricardo Cravo Albin, entre outros.

Com informações do próprio João Gilberto, que entrevistou em Salvador, o escritor Paulo Cesar de Araújo contou que o papa da bossa nova foi ao Plaza para ouvir aquele cujos relatos definiam como “uma cópia meio aguada” de si mesmo. João Donato é que estava à porta da boate e recepcionou o baiano, ansioso para conferir o “João Gilberto dos pobres”. Roberto Carlos apenas ouviu o burburinho: “O homem está aí, o homem está aí!”. O homem ainda não era uma lenda, é preciso anotar, mas entre os músicos já se reverenciava a sua murmurosa revolução. “Lembro-me que quando entrei na boate, Roberto estava cantando ‘Brigas nunca mais’. Achei o Roberto muito musical”, contou João Gilberto. “Até hoje não tinha certeza se João Gilberto havia mesmo me ouvido cantar naquela noite no Plaza”, disse Roberto mais tarde. “Eu queria ser como João, queria cantar como João. Mas era uma barra, bicho!”

Jotabê Medeiros nasceu em 1962, na Paraíba. É repórter e crítico musical, se formou em 1986 em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. Em três décadas de profissão, já atuou na Veja São Paulo e nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo.

Capa do livro "Roberto Carlos: por isso essa voz tamanha", estampada com colagem e tipografia na parte central

Roberto Carlos: por isso essa voz tamanha

Jotabê Medeiros

Todavia

512 páginas

Lançamento em 19 de abril

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