‘Sul da fronteira, oeste do sol’: as armadilhas da nostalgia


O ‘Nexo’ publica trecho de uma das obras mais famosas de Haruki Murakami. Lançado originalmente em 1992, a narrativa deste livro explora o poder que as memórias e o desejo exercem na vida de Hajime, dos sucessos às decepções que enfrenta até à meia-idade. Leia, abaixo, um excerto sobre os anos de formação do protagonista

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Durante o ensino médio, eu fui um adolescente normal. Essa foi a segunda etapa da minha vida: me tornar uma pessoa normal. Desistir de tentar ser uma pessoa especial e virar uma pessoa normal foi parte da minha evolução pessoal. É claro que um observador atento logo veria que eu tinha várias questões mal resolvidas. Mas também, que jovem de dezesseis anos não tem várias questões mal resolvidas? Nesse sentido, ao mesmo tempo em que me aproximei do mundo, ele também se aproximou de mim.

Em todo caso, aos dezesseis anos eu já não era mais o filho único franzino de antes. Quando mudei de escola, comecei a frequentar uma piscina perto de casa. Aprendi a técnica do crawl e passei a nadar com afinco, duas vezes por semana. Graças a isso, logo meus ombros e peito se avolumaram e meus músculos foram ganhando forma. Deixei de ser um menino que ficava com febre e caía de cama por qualquer coisa. Nessa época eu costumava ficar nu diante do espelho do banheiro, examinando longamente meu corpo. Ele se transformava a olhos vistos e eu gostava de acompanhar essa transformação. O que me alegrava não era o fato de eu estar me aproximando pouco a pouco da forma de um adulto. Mais do que o crescimento em si, o que me dava prazer era o fato de eu estar me transformando. Ficava feliz por não ser mais quem eu era antes.

Eu lia muito e escutava música o tempo todo. Sempre gostei de livros e de música, mas ambos os hábitos tinham sido incentivados e refinados pela convivência com Shimamoto. Comecei a frequentar uma biblioteca e lia tudo o que encontrava lá, um livro atrás do outro. Quando começava a ler, não conseguia mais parar. Era como uma droga. Lia durante as refeições, no trem, na cama até amanhecer, escondido durante as aulas. Em dado momento consegui comprar meu próprio toca-discos e, sempre que podia, me enfiava no quarto e ficava ouvindo lps de jazz. Mas eu não tinha vontade de conversar sobre meus gostos com ninguém. Pelo contrário, ficava tranquilo e satisfeito por saber que eu era eu e não nenhuma outra pessoa. Nesse sentido, eu era um menino terrivelmente solitário e arrogante. Detestava esportes em grupo. Também não gostava de competir com os colegas para ver quem tirava as melhores notas. Só gostava de nadar, sozinho.

Entretanto, eu não era totalmente solitário. Fiz alguns amigos próximos na escola, ainda que não fossem muitos. Sinceramente, nunca gostei da escola. Sentia constantemente que todos estavam tentando me esmagar e que eu precisava me defender. Se não fosse por esses amigos, minha adolescência teria sido muito mais difícil e teria deixado cicatrizes muito mais profundas.

Depois que comecei a me exercitar, a lista de coisas que eu não comia diminuiu bastante e eu também parei de enrubescer sem motivo sempre que falava com uma menina. Mesmo se o fato de eu não ter irmãos surgisse em alguma conversa, ninguém ligava muito. Eu parecia, pelo menos por fora, ter me libertado da maldição de ser filho único.

E arrumei uma namorada.

Não era uma menina particularmente linda. Quer dizer, não era o tipo de menina que sua mãe aponta ao ver uma foto da classe e diz, com um suspiro: “Como chama essa menina? Que linda!”. Mas eu a achei bonita desde a primeira vez que a vi. Ela tinha um jeito sincero e caloroso que atraía naturalmente as pessoas, o tipo de coisa que as fotografias não mostram. Não era uma beldade da qual eu pudesse me gabar por aí, mas, pensando bem, eu também não era um partido digno de nota.

Nós dois caímos na mesma turma no segundo ano e saímos várias vezes. Primeiro, em encontros com outros casais, depois só nós dois. Eu me sentia surpreendentemente à vontade quando estava com ela. Conseguia falar sobre qualquer assunto e ela se mostrava interessada e parecia se divertir. Eu não dizia nada de mais, mas ela escutava com entusiasmo, como se eu estivesse falando de grandes descobertas que iriam mudar o mundo. Era a primeira vez, desde que eu deixara de encontrar Shimamoto, que uma menina me escutava com atenção. Ao mesmo tempo, eu queria saber tudo sobre ela, qualquer detalhe, por menor que fosse. O que ela comia todos os dias. Como era seu quarto. Qual era a vista da sua janela.

Ela se chamava Izumi, que quer dizer “nascente de água”. “Que nome lindo”, eu disse na primeira vez que conversamos. “Parece que, se você jogar um machado, vai aparecer uma fada”,* falei, e ela deu risada. Izumi tinha uma irmã três anos mais nova e um irmão cinco anos mais novo. O pai era dentista e, como não poderia deixar de ser, eles moravam em uma casa e tinham um cachorro, um pastor-alemão chamado Karl. O incrível é que o cachorro tinha esse nome por causa de Karl Marx. O pai de Izumi era membro do Partido Comunista Japonês. Há de haver certo número de dentistas comunistas no mundo. Juntando todos, deve dar para encher quatro ou cinco ônibus grandes. Mas o fato de o pai da minha namorada ser um deles era um pouco estranho. Os pais dela eram loucos por tênis e todos os domingos saíam de raquete embaixo do braço para jogar. A ideia de um comunista aficionado por tênis me soava esquisita, mas Izumi não parecia se importar. Ela não tinha nenhum interesse pelo Partido Comunista, mas gostava dos pais e frequentemente jogava tênis com eles. Ela chegou a sugerir que eu jogasse também, mas nunca consegui apreciar esse esporte.

Izumi tinha inveja de mim por eu ser filho único. Não gostava muito de seus irmãos. Achava-os insensíveis, uns idiotas sem salvação.

— Seria tão bom se eles sumissem! — dizia. — Deve ser maravilhoso não ter irmãos. Sempre sonhei em ser filha única... Poderia fazer o que eu quisesse, tranquilamente, sem ninguém pra me encher o saco.

No terceiro encontro, eu a beijei. Ela tinha ido me visitar em casa e em algum momento minha mãe saiu para fazer compras. Nós ficamos sozinhos. Quando aproximei meu rosto e pousei os lábios nos dela, Izumi fechou os olhos, sem dizer nada. Eu havia preparado uma dúzia de justificativas para usar caso ela ficasse brava ou virasse a cara, mas no fim não precisei usar nenhuma. Ainda com os lábios sobre os seus, abracei-a e a puxei para perto. Era fim de verão e ela usava um vestido de tecido anarruga, com uma faixa na cintura que fazia um laço às suas costas e caía como uma cauda. Senti o fecho de seu sutiã contra a palma da minha mão. Sua respiração no meu pescoço. Meu coração batia tão forte que parecia prestes a saltar para fora do corpo. Meu pênis, explodindo de tão duro, roçou sua coxa e ela moveu o corpo um pouco para o lado. Mas só isso. Não pareceu achar estranho, nem desagradável.

Ficamos assim, abraçados, no sofá da sala de estar da minha casa. Meu gato estava sentado na poltrona oposta. Ele lançou um olhar em nossa direção, se espreguiçou em silêncio e voltou a dormir. Afaguei os cabelos de Izumi e encostei os lábios na sua pequena orelha. Pensei que precisava dizer alguma coisa, mas não me ocorreu absolutamente nenhuma palavra. Além do mais, mesmo que quisesse falar, não teria fôlego para isso. Então apertei a mão dela e a beijei mais uma vez. Por muito tempo, nenhum de nós falou nada.

Quando Izumi foi embora, depois de acompanhá-la até a estação de trem, eu fiquei muito agitado. Voltei para casa, deitei no sofá e fiquei encarando o teto. Não conseguia pensar em nada. Depois de um tempo minha mãe voltou e falou que o jantar estaria pronto em breve. Mas a última coisa que eu tinha era fome. Calcei os sapatos, saí de casa sem dizer nada e perambulei pela cidade por duas horas. Me sentia estranho. Eu não estava mais sozinho, mas ao mesmo tempo sentia uma solidão profunda como nunca tinha experimentado. Não conseguia avaliar direito a profundidade dos objetos, como alguém que usa óculos pela primeira vez na vida. Via coisas distantes como se estivessem ao alcance da mão e enxergava nitidamente coisas que não deviam ser nítidas.

“Fiquei muito feliz. Obrigada”, dissera Izumi, ao se despedir.

Eu também estava feliz, é claro. Mal acreditava que uma menina havia permitido que eu a beijasse. Como eu não estaria feliz? Porém, não conseguia me entregar totalmente a essa alegria. Me sentia uma torre sem alicerces. Quanto mais eu me esforçava para enxergar ao longe, lá do alto, mais meu coração oscilava, me deixando atordoado.

“Por que ela?”, perguntei a mim mesmo. “O que eu sei sobre ela, afinal?” Nós só havíamos nos encontrado umas poucas vezes e conversado sobre amenidades. Fui ficando aflito enquanto pensava nisso. Era uma sensação agoniante.

Se fosse com Shimamoto, eu não estaria me sentindo tão perdido. Nós nos aceitaríamos completamente, sem dizer nada, e não haveria espaço para qualquer insegurança ou incerteza.

“Mas Shimamoto já não está mais aqui”, pensei. Agora ela vive no seu novo mundo, assim como eu vivo no meu. Então, não posso ficar comparando Izumi e ela. Não vai adiantar nada. Eu estou neste mundo e a porta que me conectava ao mundo anterior já se fechou às minhas costas. Agora, preciso me estabelecer, de algum jeito, neste mundo novo que me rodeia.

Fiquei acordado até o céu começar a clarear, ao leste. Então me deitei, dormi por umas duas horas, tomei um banho e fui para a escola. Queria uma oportunidade de conversar um pouco com Izumi e confirmar o que acontecera entre nós no dia anterior. Queria saber, da sua boca, se seus sentimentos não haviam mudado. É verdade que, antes de ir embora, ela me agradecera e dissera que estava feliz. Mas, depois que a noite clareou e um novo dia começou, tudo pareceu uma ilusão que eu havia criado sozinho, na minha mente. Não consegui nenhuma brecha para conversar com Izumi a sós. Ela passou os intervalos conversando com as amigas e, assim que as aulas acabaram, foi embora sozinha. Só uma vez, quando estávamos trocando de sala, nossos olhares se cruzaram no corredor. Ela me sorriu por um instante e eu sorri de volta. E foi só isso. Mas eu pude sentir, nesse sorriso, uma espécie de confirmação dos acontecimentos do dia anterior. “Tá tudo bem, aquilo aconteceu mesmo”, dizia ele. Quando peguei o trem para casa, minha confusão já havia se dissipado quase por completo. Meu desejo por ela era evidente, e muito mais saudável e intenso do que a dúvida e a incerteza que me assolavam no dia anterior.

O que eu desejava era inequívoco. Em primeiro lugar, eu queria Izumi nua. Queria tirar sua roupa. Depois, queria transar com ela. Para mim, esse era um destino muito distante. Para que as coisas caminhassem, eu precisava de um acúmulo de imagens concretas. Para chegar ao sexo seria necessário, antes de qualquer coisa, abrir o zíper do vestido. E, entre esses dois acontecimentos, certamente havia um processo que envolvia umas vinte ou trinta decisões e análises complexas.

A primeira providência que tomei foi tentar conseguir uma camisinha. Mesmo que o momento em que ela seria necessária ainda estivesse bem longe, achei que seria bom já deixar essa parte resolvida, pois ninguém sabia quando a necessidade poderia surgir. Mas comprar em uma farmácia estava fora de cogitação. Minha cara não deixava dúvidas de que eu era um estudante de dezesseis anos, e eu jamais teria coragem. Havia algumas máquinas de venda pela cidade, mas se alguém me visse comprando isso as coisas ficariam complicadas. Passei três ou quatro dias remoendo a questão.

Mas, no fim, foi bem mais simples do que eu esperava. Eu tinha um amigo relativamente entendido nesses assuntos, então tomei coragem e falei com ele: estou querendo umas camisinhas, qual é o melhor jeito de conseguir? Ele respondeu como se não fosse nada de mais: “Ah, isso é fácil, se você quiser eu te arranjo uma caixa. Meu irmão comprou um monte, pelo correio ou coisa assim. Não sei por que ele comprou tantas, tá tudo enfiado no armário, um monte. Se eu pegar uma caixa ele nem vai reparar”. Respondi que, se ele pudesse fazer isso, seria ótimo. E então, no dia seguinte, recebi a caixa de preservativos dentro de um saco de papel. Paguei o almoço dele e pedi que não contasse sobre aquilo a ninguém, de jeito nenhum. “Pode deixar, imagina se eu vou falar pra alguém”, disse ele. Mas é claro que ele falou. Disse para várias pessoas que eu andava precisando de camisinhas. Essas pessoas falaram para outras, até que Izumi ficou sabendo por uma amiga. Ela me chamou para conversar no terraço da escola, depois das aulas.

— Hajime, estão dizendo por aí que o Nishida te arranjou uma camisinha — disse ela. Pronunciou “camisinha” com grande relutância. Na boca de Izumi a palavra soava como o nome de uma bactéria imoral e pestilenta.

— É, foi... — respondi, e procurei alguma coisa boa para dizer.

Mas não encontrei nenhuma. — Mas, assim, não quer dizer nada de mais! É só que eu... já fazia um tempo que eu vinha pensando que seria bom ter…

— Foi por mim que você fez isso?

Haruki Murakami é considerado um dos autores mais importantes da atual literatura japonesa. Sua obra foi traduzida para mais de quarenta idiomas e recebeu importantes prêmios, como o Yomiuri e o Franz Kafka.

*Referência a O lenhador honesto, fábula sobre um lenhador que, sem querer, deixa seu machado cair em um rio. Em uma das versões da história, o objeto é resgatado e restituído ao homem por uma fada que emerge da água. (N. E.)

Capa do livro "Sul da fronteira, oeste do sol", estampada com uma ilustração de uma mulher segurando uma concha perto de seu ouvido

Sul da fronteira, oeste do sol

Haruki Murakami

Editora Alfaguara

Trad. Rita Kohl

232 páginas

Lançamento em 15 de abril

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