‘Como ser um ditador?’: sátira dos líderes autoritários


O ‘Nexo’ publica trecho de livro que se apresenta como manual sarcástico de como subir ao poder por vias antidemocráticas. O autor reconta casos reais — mas quase inacreditáveis — da história recente para ironizar a megalomania, o narcisismo e demais falhas de caráter dos governantes totalitários. Os exemplos servem de alerta sobre a fragilidade da democracia

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Na noite de 12 de abril de 1980, William Richard Tolbert Jr. dormia um sono profundo em sua casa, em Monróvia, capital da Libéria. O pequeno país na África Ocidental era visto como uma ilha de estabilidade num continente marcado por agitações políticas, guerras civis e golpes de Estado. Tolbert era presidente desde 1971, quando assumiu o cargo de seu antecessor, William Tubman. Tubman esteve no poder durante 27 anos. Tolbert não tinha motivos para acreditar que sua presidência terminaria em breve.

Na prática, a Libéria era um Estado de partido único que existia desde a fundação do país por escravos norte-americanos alforriados. Os primeiros chegaram ali em 1820 e, em 1847, os colonos afro-americanos declararam a independência. Desde então, a Libéria foi governada por uma elite de descendentes de escravos libertos, enquanto a população autóctone era marginalizada. Além da Etiópia, a Libéria é o único país africano que nunca foi uma colônia.

Naquela madrugada de abril, o sargento Samuel Kanyon Doe entrou furtivamente na casa de Tolbert acompanhado de um grupo de oficiais e soldados, todos descendentes da população nativa da Libéria. Testemunhas disseram que Doe estripou Tolbert enquanto ele dormia. Vinte e seis partidários de Tolbert morreram nos combates. O corpo do ex-presidente foi jogado numa vala comum ao lado de 27 outras vítimas. Em 22 de abril, 13 ministros foram executados após julgamentos sumários. Vários apoiadores do antigo regime foram presos.

O golpe desencadeou uma série de eventos que mergulharam a Libéria em 25 anos de caos, resultando em duas longas guerras civis e numa sucessão de chefes de Estado excêntricos, cujo grau de sanidade mental oscilava bastante.

Obviamente, para se tornar um ditador, você precisa primeiro de uma coisa: governar um país. Dito assim parece fácil. Há um número limitado de países no mundo e um contingente enorme de pessoas aspirando obter prestígio político e alcançar o poder. Mas quando examinamos como o poder passa de mãos ao longo da história, às vezes o caminho até o topo é surpreendentemente simples. Para um aspirante a ditador, as oportunidades são muitas. Alguns recebem ajuda externa. Outros são eleitos democraticamente. Alguns chegam lá por acaso, seja porque nasceram no berço certo ou simplesmente porque estavam no lugar certo na hora certa. Outros são usados como peões de um jogo sem que percebam.

Para a maioria, no entanto, é preciso muito trabalho e planejamento meticuloso para assumir o controle de um país. Há diversas maneiras de se tornar um ditador, e cada uma é mais adequada a determinados países e circunstâncias. Se você nutre realmente o sonho de seguir essa carreira, pense cuidadosamente em como torná-lo realidade. A história está cheia de tentativas fracassadas, e uma única tentativa fracassada pode terminar num exílio ou, se você tiver menos sorte, no cemitério. Felizmente, vários métodos foram testados ao longo do tempo e alguns deles têm uma taxa de sucesso relativamente boa.

Se estiver realmente decidido, é bom ter em mente onde você deve tentar. O caminho mais natural pode ser o país em que nasceu, mas ele nem sempre oferece as melhores condições. É muito mais difícil se tornar um ditador num país onde a democracia está estabelecida e tem raízes sólidas do que em regimes autoritários. Ditadores geralmente assumem o cargo das mãos de um ex-ditador, e é provável que um déspota seja sucedido por um novo déspota, mas esta não é de forma alguma uma regra absoluta. Na América Latina, por exemplo, vários países que eram ditaduras até pouco tempo atrás, como Argentina e Chile, são hoje democracias bem estabelecidas. Na Europa Ocidental, Portugal e Espanha deixaram de ser ditaduras há relativamente pouco tempo, menos tempo ainda no caso das ditaduras do Leste Europeu.

Ao mesmo tempo, há democracias que não duram para sempre. Quando assumiu o poder, Vladimir Putin desviou a Rússia dos trilhos de uma democracia funcional. Se ainda não merece ser chamado pura e simplesmente de ditador, não faltam indícios de que é exatamente isso que deseja. Nos últimos anos, chefes de Estados latino-americanos democraticamente eleitos se arrogaram poderes ampliados e restringiram a liberdade de imprensa. Isso não significa necessariamente que estão a caminho de se tornarem ditadores, mas esses líderes estão rezando pela mesma cartilha de déspotas anteriores na escalada rumo ao poder absoluto. Na América Latina, a alternância entre ditaduras e democracias é uma marca registrada.

Mesmo na Europa Ocidental, a democracia não pode ser considerada segura e eterna. A democracia representativa moderna é uma invenção relativamente nova, e é difícil precisar se tem ou não um prazo de validade. Há também exemplos de pessoas que são apeadas do poder por meio de processos democráticos. Em 2003, o povo de Liechtenstein votou esmagadoramente por uma Constituição que dava ao príncipe o poder de anular as instituições democráticas. O príncipe pode vetar qualquer lei promulgada pelo Parlamento, dissolver o governo ou demitir ministros. Embora o presidente da Bielorrússia, Aleksandr Lukashenko, seja considerado o último ditador da Europa, Sua Alteza Sereníssima João-Adão II, de Liechtenstein, não precisa fazer muito se quiser duplicar o número de ditaduras no continente.

Sendo assim, não há por que abandonar o pequeno ditador que habita dentro de você. Conforme veremos, há uma série de maneiras comprovadamente eficazes de tomar o poder num país.

Mikal Hem trabalhou como jornalista e comentarista político para os jornais Bergens Tidende, Dagblad e Verdens Gang, bem como para a NRK, emissora pública da Noruega. Viveu por longos períodos em países africanos e da antiga União Soviética. Pesquisou a censura da mídia em regimes autoritários no Instituto Reuters para Estudos de Jornalismo da Universidade de Oxford. Durante a infância, viveu com a família no Zimbábue de Robert Mugabe. Atualmente reside em Oslo.

Capa do livro "Como ser um ditador"

Como ser um ditador?

Mikal Hem

Trad. Leonardo Pinto Silva

Rua do Sabão

248 páginas

Lançamento em 8 de março

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