‘Eu, Ota, rio de Hiroshima’: outra perspectiva da bomba


O ‘Nexo’ publica trecho de peça que usa a natureza como narradora para contar os momentos anteriores ao bombardeio atômico de Hiroshima. Alternando entre monólogos do rio Ota, correspondências de uma jovem moradora da cidade e diálogos de governantes americanos, o texto alerta para os perigos do armamentismo desenfreado

Cena 1

Uma poderosa música de abertura. Vestida modestamente, uma mulher caminha em direção ao público.

Ota Eu me chamo Ota.

Otagawa, o rio de Hiroshima.

Se você já me viu, tenho certeza de que me encontrou calmo e majestoso.

Largo, mas não muito.

Profundo, mas nem tanto.

Um belo rio, você deve ter pensado...

(Pausa. Ela sorri)

Obrigada. (Pausa)

Na verdade, como todos os rios do mundo, sou mutável...

No começo do meu percurso, lá no alto, sobre o monte Kanmuri, a 1.300 metros de altitude, salto de rocha em rocha como um pequeno animal que acaba de nascer... Sigo para todas as direções. Me divirto com as pedras, com as plantas que cercam minhas margens, com a sombra das arvorezinhas que se inclinam sobre mim...

(Pausa)

Depois, à medida que eu desço em direção ao mar, contenho-me, ganho volume...

Nós, os rios, somos como vocês, os seres humanos. Da velocidade da montanha à prudência da planície, nos avolumamos...

Mas, mesmo assim, continuo jovem e esbelto até reencontrar o mar de Seto. Imaginem! Não tenho mais que trezentos quilômetros, o que é bem pouco em relação a alguns de meus irmãos na Europa Central, na África, na Amazônia!

Sou modesto! Vejam, depois de tudo o que acabei de lhes contar, eu poderia reivindicar a alcunha de rio principal, por exemplo, depois de tudo, como o que acabei de lhes contar, porque deságuo no mar...

Mas prefiro que vocês me chamem apenas de rio, o que me convém perfeitamente... Além disso, quando reencontro o mar de Seto, não me faço de orgulhoso, divido-me, torno-me múltiplo. Vocês denominam isso delta, eu digo apenas que transformo meu leito principal em diversos ramos secundários. Isso é bom, não? É menos arrogante se comparado à infinidade dos oceanos... (Pausa) Seja como for, sou Ota, o belo, o doce, e, como todos os rios o fazem, mesmo que não seja comum ouvi-los, venho contar uma história a vocês.

(Música ou efeito sonoro que evoca uma grande cidade dos Estados Unidos nos anos 1940. Luz sobre dois homens; um deles deve aparecer sentado)

[...]

Cena 2

Bush Como vai, senhor presidente?

Roosevelt Vou levando, senhor conselheiro. Com meus problemas de saúde habituais. Noite difícil, mas, bem... Nada de importante comparado àquilo que se passa em nosso maldito planeta... Para onde estamos indo, não?

Bush Justamente, preciso lhe falar...

Roosevelt Seria algo surpreendente...

Bush ...Ainda não respondemos à carta de Albert Einstein.

Roosevelt Eu sei. O senhor já me chamou a atenção para isso. De quando é essa carta, exatamente?

Bush Einstein lhe escreveu no último 2 de agosto.

Roosevelt Ah, sim, é verdade... E o que motiva esse grande atraso para a resposta?

Bush A guerra na Europa. Decidimos esperar um pouco e ver o desenrolar dos acontecimentos. No entanto, hoje, penso que o senhor deveria não só responder, mas também analisar a profundidade da situação.

Roosevelt Continue.

Bush Em sua carta, Einstein destaca os seguintes pontos: ele estima que, após as pesquisas de Joliot-Curie, na França, e de Fermi e Szilárd, aqui nos Estados Unidos, é possível desencadear uma reação nuclear com grandes quantidades de urânio. Esse novo fenômeno poderia conduzir à construção de bombas de um novo tipo, de potência excepcional.

Roosevelt Em quanto tempo?

Bush Muito rapidamente.

Roosevelt Mas quando?

Bush Em um futuro bem próximo, alguns anos, talvez...

(Pausa)

Roosevelt Prossiga...

Bush Einstein toma como exemplo apenas uma dessas bombas, que, se transportada por barco, depois de explodir num porto, poderia destruir não apenas todo o entorno, mas uma vasta região mais distante.

Roosevelt Entendo. Seria mais conveniente transportar esse tipo de dispositivo por via aérea?

Bush Sem dúvida ainda é cedo para afirmar, senhor presidente. Isso parece, de qualquer forma, bem complicado. Esse tipo de bomba teria um peso excepcional se comparado às bombas convencionais, mesmo as mais volumosas...

(Pausa)

Roosevelt Refresque um pouco a minha memória sobre as origens desse novo processo, senhor conselheiro.

Bush Claro, senhor presidente. Tudo começa com a descoberta da radioatividade do urânio por um francês, Henri Becquerel.

Roosevelt Final do século 19?

Bush 1896, precisamente. Depois, ainda na França, temos os trabalhos fundamentais de Pierre e Marie Curie a respeito do polônio e do rádio, que abrem campo para a exploração do átomo. A pesquisa se torna internacional com o neozelandês Rutherford, que descobre os raios alfa e beta. Ele coloca o próton em destaque e prova a existência de um núcleo atômico.

Roosevelt Mas por que isso representa uma revolução, meu caro Bush?

Bush Nós estamos na escala de potências que desafiam a imaginação, senhor presidente. (Pausa) Insisto: que desafiam a nossa capacidade de imaginação! (Pausa) O britânico Joseph Thomson identificou o elétron, e os famosos Curie evidenciaram o princípio segundo o qual o átomo de rádio se transforma em um dissipador de energia considerável.

Roosevelt Coloca-se, então, a pergunta sobre o uso dessa energia. A serviço da medicina, da indústria, uma benfeitoria. Mas uma temível arma em tempos de guerra.

Jean-Paul Alègre é dramaturgo e diretor francês. Nos anos 1970, fundou a companhia Théâtre du Fil d'Ariane, para a qual escreveu suas primeiras peças. Tem mais de 50 títulos publicados na França e no exterior. Em 2007, foi condecorado Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras. Atualmente, é presidente da Fundação Paul Milliet e do espaço cultural Centre des Bords de Marne, localizado na Île-de-France.

Capa do livro "Eu, Ota, rio de Hiroshima"

Eu, Ota, rio de Hiroshima

Jean-Paul Alègre

Trad. Flavia Lago

Temporal

112 páginas

Lançamento em agosto de 2020

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