‘Trânsito’: grandes revelações nas trocas do cotidiano


O ‘Nexo’ publica trecho de romance da autora canadense Rachel Cusk. Esta é a sequência do elogiado ‘Esboço’ (Todavia, 2019), que novamente encontra a protagonista Faye extraindo dos momentos mais prosaicos reflexões profundas sobre a condição humana — desta vez, da reforma de um imóvel durante sua mudança para Londres

Uma astróloga me mandou um e-mail dizendo que tinha notícias importantes com relação a acontecimentos no meu futuro próximo. Conseguia ver coisas que eu não conseguia: tivera acesso a meus dados pessoais e isso lhe permitira estudar os planetas para obter informações. Queria que eu soubesse que um trânsito importante estava previsto para acontecer em breve no meu céu. Essa informação a estava deixando muito animada ao pensar nas mudanças que poderia representar. Por uma tarifa singela, ela a compartilharia comigo e me capacitaria a tirar dela o melhor proveito.

Podia sentir — continuava o e-mail — que eu estava perdida na vida, que às vezes tinha dificuldade para encontrar sentido na minha atual situação e ter esperança em relação ao que estava por vir; sentia haver entre nós uma conexão pessoal forte e, embora não pudesse explicar esse sentimento, sabia também que algumas coisas não tinham mesmo explicação. Sabia que muita gente não dava importância ao significado do céu acima de nossas cabeças, mas estava convicta de que eu não era uma dessas. Eu não tinha a crença cega na realidade que levava os outros a pedir explicações concretas. Ela sabia que eu já sofrera o suficiente a ponto de começar a fazer determinadas perguntas para as quais ainda não obtivera resposta. Mas os movimentos planetários representavam para o destino humano uma zona de reverberação infinita; talvez algumas pessoas simplesmente não conseguissem acreditar ser importantes o suficiente para estarem incluídas nisso. A triste verdade, dizia ela, era que nesta época de ciência e descrença nós perdemos a noção do nosso próprio significado. Tornamo-nos cruéis, com nós mesmos e com os outros, pois acreditamos no fundo que não temos valor. O que os planetas oferecem, dizia ela, é nada menos que a oportunidade de recuperar a fé na grandeza do humano: quanto mais honra e dignidade, quanto mais gentileza, responsabilidade e respeito nós traríamos para nossas interações mútuas se acreditássemos que todos nós, sem exceção, temos uma importância cósmica? Sentia que eu, particularmente, era capaz de discernir as implicações que isso tinha para o desenvolvimento da paz e da prosperidade mundiais, sem falar na revolução que um conceito aprimorado de destino poderia acarretar ao aspecto pessoal das coisas. Torcia para que eu a perdoasse por entrar em contato comigo daquela forma, e por falar de modo tão franco. Como já tinha dito, sentia haver entre nós uma forte conexão pessoal, e isso a incentivara a expressar seus sentimentos mais íntimos.

Parecia possível o mesmo algoritmo de computador que havia gerado esse e-mail ter gerado também a própria astróloga: suas expressões eram excessivamente cheias de personalidade, e esse aspecto se repetia com exagerada frequência; ela havia sido de modo evidente demais baseada num tipo humano para ser, por sua vez, humana. Em consequência, sua empatia e preocupação eram ligeiramente sinistras; por esse mesmo motivo, porém, pareciam também imparciais. Um amigo meu, deprimido após o divórcio, admitira recentemente que muitas vezes ficava à beira das lágrimas diante da preocupação com a sua saúde e o seu bem-estar expressados na terminologia dos anúncios e das embalagens de alimentos, e também com as vozes automatizadas nos trens e ônibus, que pareciam temerosas de que ele deixasse passar seu ponto ou sua estação; ele sentia até mesmo algo semelhante ao amor pela voz feminina que o guiava, enquanto ele dirigia seu carro, com muito mais dedicação do que sua mulher jamais tivera. Tinha havido uma grande coleta, disse ele, de linguagem e informações da vida, e talvez fosse o caso de o falso humano estar se tornando mais sólido e mais interpessoal do que o original, de ser mais possível receber afeto de uma máquina que de nosso próprio semelhante. Afinal, a interface mecanizada era resultado da destilação não de um humano, mas de muitos. Em outras palavras, fora preciso que muitos astrólogos vivessem para aquele exemplo específico ser criado. O que tranquilizava, na opinião dele, era o simples fato de esse coro oceânico não estar vinculado a nenhuma pessoa em especial, de parecer vir de toda parte e de lugar nenhum: reconhecia que muita gente achava essa ideia enlouquecedora, mas para ele a erosão da individualidade significava também a erosão do poder de machucar.

Fora esse mesmo amigo — um escritor — quem havia me aconselhado, na primavera, que mais valia comprar uma casa ruim numa rua boa do que uma casa boa num lugar ruim. Apenas os muito sortudos e os muito azarados, disse ele, recebem um destino homogêneo; o restante de nós precisa optar. O corretor de imóveis ficara surpreso por eu acatar esse sábio conselho, se é que de fato era sábio. Na sua experiência, disse ele, pessoas criativas muitas vezes valorizavam as vantagens da luz e do espaço mais que as da localização. Tendiam a procurar o potencial das coisas, enquanto a maioria buscava a segurança da conformidade, do que já havia alcançado seu potencial máximo, de imóveis cuja aparência era apenas a soma de possibilidades exauridas, aos quais nada mais se podia acrescentar. A ironia, disse ele, era que esse tipo de pessoa, embora tivesse medo de ser original, era também obcecada pela originalidade. A simples menção de algum elemento de época fazia seus clientes se extasiarem; ora, era só se afastar um pouco do centro para ter esses elementos em abundância por um preço bem menor. Também era um mistério para ele, disse-me o corretor, por que as pessoas continuavam a comprar em pontos hiperinflacionados da cidade quando era possível encontrar pechinchas nos bairros em ascensão. Supunha que no cerne disso estivesse a sua falta de imaginação. Atualmente o mercado estava em alta, disse ele; longe de desencorajar os compradores, essa situação na verdade parecia inflamá-los. Ele vinha assistindo diariamente a cenas de puro caos, vendo seu escritório ser invadido por hordas de gente se acotovelando para pagar muito por muito pouco, como se sua vida dependesse disso. Tinha feito visitas nas quais houve até brigas, intermediou duelos de ofertas de uma agressividade sem precedentes, e chegou a receber propostas de suborno em troca de tratamento preferencial; tudo isso, segundo ele, por imóveis que, quando analisados à fria luz do dia, nada tinham de excepcional. O que impressionava era o desespero genuíno dessas pessoas, uma vez aprisionadas pelas garras do desejo: elas lhe telefonavam de hora em hora querendo novas informações, ou então apareciam no escritório sem motivo; imploravam, e às vezes chegavam a chorar; num minuto se mostravam iradas e, no minuto seguinte, contritas, e muitas vezes o presenteavam com longas confissões relacionadas às suas circunstâncias pessoais. Ele teria sentido pena dessas pessoas não fosse o fato de elas invariavelmente apagarem o drama da mente no mesmo segundo em que tudo terminava e a compra se concluía, livrando-se não só da lembrança do próprio comportamento, mas também das pessoas que o haviam suportado. Alguns clientes compartilhavam com ele as intimidades mais repulsivas numa semana e, na semana seguinte, cruzavam com ele na rua sem o menor sinal de reconhecimento; conheceu casais que tinham chegado ao fundo do poço diante dos seus olhos e agora cuidavam de sua vida no bairro como se nada fosse. Somente no caráter absoluto do seu alheamento ele às vezes detectava algum indício de vergonha. Nos primeiros anos de sua carreira, havia ficado abalado com esses incidentes, mas felizmente a experiência tinha lhe ensinado a não levá-los para o lado pessoal. Compreendia que, para essas pessoas, ele representava um personagem surgido da névoa vermelha do seu desejo, um objeto de transferência, por assim dizer. No entanto, o desejo em si ainda o deixava perplexo. Às vezes ele chegava à conclusão de que as pessoas só queriam o que não tinham certeza de conseguir; em outros momentos, tudo lhe parecia mais complexo. Com frequência, seus clientes se confessavam aliviados com o fato de o seu desejo não ter sido atendido: as mesmas pessoas que haviam se descontrolado e chorado como crianças frustradas por não conseguirem um imóvel podiam ser vistas dias depois sentadas calmamente na sua sala expressando gratidão por não terem conseguido comprá-lo. Podiam ver agora que o imóvel teria sido totalmente impróprio para elas; queriam saber o que mais ele tinha disponível. Para a maioria das pessoas, disse ele, achar e comprar um imóvel era um estado intensamente ativo; e a atividade acarreta certa cegueira, a cegueira da fixação. É só quando as suas vontades se exaurem que a maioria das pessoas reconhece as leis do destino.

Estávamos sentados na sala dele quando esse diálogo ocorreu. Lá fora, o tráfego avançava com lentidão pela rua cinza e suja de Londres. Falei que o frenesi por ele descrito, longe de me incentivar a competir, eliminava qualquer entusiasmo que eu pudesse ter sentido em relação a procurar uma casa e me dava vontade de ir embora no mesmo instante. Além do mais, eu não tinha dinheiro para duelos de ofertas. Entendia que, nas condições de mercado descritas por ele, era portanto improvável que eu encontrasse um lugar para morar. Ao mesmo tempo, contudo, me rebelava contra a ideia de que pessoas criativas, como ele as havia chamado, devessem sempre permitir que os outros as marginalizassem por meio do que ele havia educadamente descrito como seus valores superiores. Ele tinha usado, acreditava eu, a palavra “imaginação”: a pior coisa possível para uma pessoa assim era sair do centro num ato de autoproteção e ir se refugiar numa realidade estética por meio da qual o mundo exterior permanecesse intacto. Se eu não queria competir, queria menos ainda criar novas regras em relação ao que constituía a vitória. Iria querer o que todo mundo queria, mesmo que não pudesse obtê-lo.

O corretor pareceu um pouco espantado com esses comentários. Disse não ter tido a intenção de sugerir que eu devesse ser marginalizada. Apenas pensou que eu talvez pudesse conseguir mais pelo dinheiro que tinha, e com mais facilidade, num bairro menos concorrido. Podia ver que eu estava numa situação vulnerável. E um fatalismo como o meu era raro no mundo em que ele trabalhava. No entanto, se eu estivesse decidida a competir com os outros, bem, ele tinha algo que poderia me mostrar. Estava com os detalhes bem ali na sua frente: o imóvel acabara de voltar ao mercado naquela mesma manhã, depois de a compra original não se concretizar. Era um imóvel de propriedade do governo; eles queriam encontrar logo outro comprador, e o preço refletia esse fato. Como eu podia ver, disse ele, estava em condições bem ruins — na verdade, era praticamente inabitável. A maioria dos clientes, por mais ávida que estivesse, não teria chegado nem perto. Se eu lhe permitisse usar a palavra “imaginação”, estava além do alcance da imaginação da maioria; embora ele reconhecesse que se situava num local muito desejável. Considerando a minha situação, contudo, ele não podia, em sã consciência, me incentivar. Aquele era um imóvel para um empreendedor ou para um construtor independente, alguém que pudesse olhá-lo com imparcialidade; o problema era que a margem era pequena demais para esse tipo de cliente se interessar. Ele me encarou nos olhos pela primeira vez. Obviamente não se trata de um lugar adequado para morar com crianças.

Semanas mais tarde, quando a transação foi concluída, por acaso cruzei com o corretor na rua. Ele estava caminhando sozinho, com um maço de papéis apertado junto ao peito e um molho de chaves tilintando na mão. Fiz questão de cumprimentá-lo, lembrando o que ele tinha dito, mas ele apenas me encarou com um olhar vazio e tornou a desviar os olhos. Isso tinha sido no começo do verão; estávamos agora no início do outono. Foram os comentários da astróloga sobre crueldade que me fizeram recordar esse incidente, que na época parecera provar que, a despeito do que desejemos acreditar em relação a nós mesmos, somos apenas o resultado de como os outros nos trataram. No e-mail da astróloga havia um link para a leitura dos planetas que ela havia feito para mim. Paguei pelo serviço e li o que estava escrito.

Rachel Cusk nasceu em 1967 e é autora de diversos romances. “Esboço” (2014), “Trânsito” (2016) e “Kudos” (2018) formam uma das trilogias de maior sucesso da literatura recente.

Capa do livro "Trânsito", de Rachel Cusk, estampada com a imagem de uma mão segurando um inseto preso em um copo

Trânsito

Rachel Cusk

Trad. Fernanda Abreu

Todavia

200 páginas

Lançamento em 7 de agosto

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