‘Ressentimento’: as mágoas históricas do imaginário brasileiro


O ‘Nexo’ publica trecho de livro da psicanalista Maria Rita Kehl. Nova edição da obra de 2004 demonstra a atualidade do conceito definido por Kehl como a ação de ‘atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer’. No capítulo abaixo, ‘O ressentimento no Brasil’, a autora defende que conflitos não resolvidos da história nacional agem como entraves na vida política

Os brasileiros, em geral, não se consideram ressentidos. De fato, o imperativo da alegria, somado aos espaços genuínos de festividade popular em nossa cultura, favorecem o esquecimento dos agravos, não a rememoração ressentida de erros e sofrimentos passados. Somos uma nação voltada para o futuro, um país “pra frente”. Mas o ressentimento não deixa de estar presente entre nós, disfarçado em formações de linguagem irônicas, cínicas ou queixosas, que parecem — mas não são — uma crítica progressista em relação a nossas falhas históricas e nossas insuficiências sociais. Falhas que não são interpretadas como dívidas (para com o passado), passíveis de se pagar por meio da ação presente. Ao contrário, concebemos nossos problemas sociais como insuficiências que nos parecem sempre injustas, de responsabilidade de um outro, de alguém que teria o poder de remediar nossas mazelas, mas não o fez.

O ressentimento na sociedade brasileira está enraizado em nossa dificuldade em nos reconhecermos como agentes da vida social, sujeitos da nossa história, responsáveis coletivamente pela resolução dos problemas que nos afligem. Suas raízes remontam à tradição paternalista e cordial de mando, que mantém os subordinados em uma relação de dependência filial e servil em relação às autoridades políticas ou patronais, na expectativa de ver reconhecidos e premiados o bom comportamento e a docilidade de classe.

Tomemos, como exemplo do ressentimento camuflado na sociedade brasileira, a rapidez com que grande parte da população pareceu esquecer, ou perdoar, os crimes da ditadura militar, como se estes houvessem atingido apenas uma pequena parcela de militantes de esquerda, de jovens “radicais” que não representavam os interesses da maioria. Ao referir-se ao corte que o golpe de 1964 efetuou sobre a ordem democrática na sociedade brasileira, o professor e filósofo Paulo Arantes cita Paul Virilio, que classificou as ditaduras latino-americanas daquele período como “um laboratório onde se gestava um novo tipo de sociedade, a ‘sociedade do desaparecimento’”. Depois da anistia, a ausência de um processo judicial que condenasse os autores dos crimes cometidos sob a salvaguarda do Estado brasileiro contribuiu para que ainda hoje uma parte da sociedade viva sob uma espécie de regime de exceção, em que abusos policiais contra os cidadãos são tolerados e rapidamente “esquecidos”. Em outro artigo da mesma coletânea, Vladimir Safatle comenta a existência de um “desejo de desaparecimento” que perdura ainda hoje, ao comparar o Brasil com a Argentina e o Chile, países que julgaram e puniram seus torturadores. “Neste sentido, o único país que realizou de maneira bem-sucedida as palavras dos carrascos nazistas foi o Brasil: o país que realizou a profecia mais monstruosa e espúria de todas. A profecia da violência sem trauma.”

Os acontecimentos traumáticos vividos por um grupo minoritário não podem ser excluídos da experiência coletiva da sociedade onde este grupo se insere. No Brasil da década de 1990, filhos e parentes de desaparecidos políticos do período da ditadura militar promoveram encontros, debates e atos públicos que visavam a tirar do esquecimento o assassinato de seus entes queridos e devolvê-los à memória da sociedade da qual foram banidos por força da repressão. Tais eventos rememorativos, em que se fez escutar a voz de antigos militantes presos e torturados, de filhos e companheiros(as) de jovens assassinados, são essenciais para o amadurecimento político da sociedade civil brasileira. Não devem ser confundidos com políticas do ressentimento, como algumas análises conservadoras fazem parecer: seriam políticas de reparação, fundamentais para que a mágoa e a indignação não se transformem em ressentimento. Volto a Safatle, que faz lembrar ao leitor que

os jovens que entraram na luta armada [ao contrário do que apregoam seus torturadores] aplicaram o direito mais elementar: o direito de levantar armas contra um Estado ilegal, fundado por meio da usurpação pura e simples do poder graças a um golpe de Estado e ao uso sistemático da violência estatal.

O Brasil, lembra o autor, é o único país do mundo em que (ainda) vale o argumento de que os militantes que pegaram em armas contra a ditadura pretendiam implantar aqui uma ditadura estalinista, portanto mereciam ter sido assassinados. “Não haverá perdão enquanto não houver reconhecimento do crime”, conclui Safatle. Seu argumento nos ajuda a diferenciar com clareza o clamor por justiça, que pode e deve persistir pelo tempo que for necessário, da queixa reiterada do ressentimento.

No Brasil, nosso compromisso com a alegria, a festa, a irresponsabilidade, nos faz rejeitar a memória e abandonar os projetos de reparação de injustiças passadas. Distantes das condições sociais dos países do chamado Primeiro Mundo, idealizado e invejado, contentamo-nos em ser reconhecidos internacionalmente a partir da imagem de povo alegre, despreocupado e sensual que o colonizador fez de nós, desde a carta de Caminha. Tal compromisso nos impede de levar a reparação das injustiças às últimas consequências. Temos pressa em perdoar os inimigos, com medo de parecer ressentidos — mas o ressentimento, afeto que não ousa dizer seu nome, se esconde justamente nas formações reativas do esquecimento apressado, tão característico da sociedade brasileira.

A recusa da memória e do desagravo — a negação do ressentimento — não é igual ao perdão. Não se pode dizer que a sociedade brasileira tenha perdoado os militares por seus abusos, seus crimes, por vinte anos de atraso no desenvolvimento da democracia. Nada foi perdoado porque nada foi levado às últimas consequências, nenhum ex-ditador foi julgado, ninguém precisou pedir perdão. Ao contrário do que fizeram os argentinos — devemos considerar as Mães da Praça de Maio ressentidas? —, a sociedade brasileira costuma “deixar barato” o resgate das grandes injustiças de sua história para não manchar sua reputação de “último povo feliz” do planeta. Mas que preço caro pagamos por essa felicidade para inglês ver!

A alienação ao (suposto) desejo do Outro — não mais o colonizador, mas os atuais representantes do mundo desenvolvido — faz com que não nos apoderemos da nossa história como sujeitos. Não passamos nada a limpo, não elaboramos nossos traumas nem valorizamos nossas conquistas. Por isso mesmo nós, brasileiros, não nos reconhecemos no discurso que produzimos, e sim naquele que o estrangeiro produz sobre nós. Por essa mesma razão, estamos sempre em dívida para com uma identidade perdida. Quem somos nós, brasileiros? Quais são os significantes que nos identificam perante nós mesmos? É o que observa Stella Bresciani, ao se perguntar por que a busca de identidade, na sociedade brasileira, nunca cessa. No Brasil, a construção de uma identidade — ou, o que seria mais rico, o traçado legítimo do campo de múltiplas identificações que caracteriza nossa sociedade — se perde na demanda de reconhecimento de nosso valor por parte das nações mais poderosas. A busca de reconhecimento reproduz a submissão diante do mais forte, submissão que é condição do nosso ressentimento, nosso “complexo de inferioridade” nacional. A crítica aparentemente engajada de nossos males sociais disfarça com frequência o conformismo de grande parte dos brasileiros, que se limitam a lamentar nosso atraso e a distância que separa nossa realidade social da de países europeus ou dos Estados Unidos.

O que é que o brasileiro não enxerga em sua cultura, ou no conjunto de suas subculturas, a ponto de ter que pedir a um outro que o reconheça? Por que razão os pontos de inflexão mais marcantes de nossa história, assim como a riqueza de nossa produção cultural, não são suficientes para nos representar diante de nós mesmos? Autores que pensaram o Brasil no século 20, como Gilberto Freyre e, na mesma linha, Darcy Ribeiro, consideram que o sentimento de uma identidade nacional desapareceu justamente com o fim do período colonial, com o esforço de branqueamento e europeização da cultura local, como tentativas de o Brasil se tornar uma sociedade burguesa.

Nosso “avanço” na direção da modernidade teria nos custado o preço do apagamento da origem — o desprezo pelas “raças escuras” do negro e do índio, a desvalorização do português bronco (vindo de um país já em decadência); a eleição do modelo francês (na cultura) e inglês (na gestão do capitalismo) como ideais.

Com isso, os brasileiros representam a si mesmos como órfãos de pai: não prezamos os antepassados portugueses, não reconhecemos grandes heróis entre os fundadores da nação, não levamos muito a sério nossos símbolos pátrios. O que poderia ser condição de grande liberdade, se não nos ressentíssemos disso e não buscássemos sempre, na política, nas práticas religiosas, na cultura de massas, recuperar figuras do pai autoritário e protetor. Nossa suposta orfandade simbólica não produziu uma sociedade emancipada em relaç��o à autoridade paterna, mas uma permanente submissão à autoridade de governantes paternalistas reais, abusados, violentos como o pai da horda primitiva do mito freudiano.

Maria Rita Kehl é doutora em psicanálise pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), atua desde 1981 como psicanalista em clínica de adultos e, desde 2006, na ENFF (Escola Nacional Florestan Fernandes). Atuou como jornalista entre 1974 e 1981, em diversos jornais e revistas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 2010, recebeu o prêmio Jabuti de melhor livro do ano de não ficção com “O tempo e o cão”.

Capa do livro "Ressentimento", ilustrada com a imagem editada de uma duna de areia

Ressentimento

Maria Rita Kehl

Boitempo

208 páginas

Lançamento em 15 de julho

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: