‘Sou sua irmã’: o valor de reconhecer e ultrapassar diferenças


O ‘Nexo’ publica trecho de livro da escritora e ativista americana Audre Lorde. Negra e lésbica, Lorde foi pioneira do feminismo de vertente interseccional. Nova coletânea da editora Ubu reúne seus pensamentos em palestras, aulas, ensaios e entradas de diário. Leia, abaixo, dois desses escritos

Minha poesia e autodefinição

Nenhum poeta que tenha algum valor escreve algo além daquelas várias entidades que ela ou ele definem como seu eu. A consciência que tenho dessas personalidades e a aceitação dessas partes de mim é que vão determinar como minha vida aparece na minha poesia. Como minha vida se torna disponível, com suas forças e fraquezas, por meio do meu trabalho, para cada uma de vocês.

Em outras palavras, o tempo, mais do que qualquer outra coisa, é o responsável por me mostrar o que preciso. Contudo, sei que se eu, Audre Lorde, não definir quem sou, o mundo exterior decerto o fará e, como cada uma de vocês descobrirá, provavelmente definirá todas nós, para nosso prejuízo, como indivíduo ou como grupo.

Então não posso separar minha vida e minha poesia. Escrevo minha vida e vivo meu trabalho. E encontro verdades que espero sejam capazes de alcançar outras mulheres, de levar riqueza, além das diferenças em nossas trajetórias, as diferenças no amor, no trabalho. Porque é no compartilhamento dessas diferenças que encontramos o crescimento. É no interior dessas diferenças que encontro o crescimento, se for honesta o suficiente para falar de tudo o que sou, de meus amores, rancores, erros, assim como das minhas forças.

Sinto, e aposto minha vida e meu modo de vida nisso, que nos fortalecemos quando fazemos aquilo que exige que sejamos fortes.

Solstício.

Sinto que minhas palavras aqui e agora são parte do que eu pago, e pago mais de uma vez, por quaisquer forças que são criadas aqui entre nós enquanto falamos.

Estou constantemente definindo meus eus, pelo que sou, assim como pelo que todos somos, feitos de tantas partes diferentes. No entanto, quando essas partes guerreiam dentro de mim, fico imobilizada e, quando elas se movem em harmonia, ou em trégua, me enriqueço, me fortaleço. Mas sei que há mulheres negras que não usam minha obra em suas aulas porque sou lésbica. Há lésbicas que não me ouvem porque tenho dois filhos que amo profundamente, um deles um menino. Há mulheres, talvez nesta sala, que não conseguem lidar comigo nem com minhas ideias porque sou negra, e seu racismo se torna uma cegueira que nos separa. Digo nós me referindo a todas aquelas que realmente acreditam que podemos trabalhar por um mundo em que todas sejamos capazes de viver e nos definir.

Vou lhes dizer uma coisa. Minhas amigas, sempre haverá alguém tentando usar uma parte de vocês e, ao mesmo tempo, as encorajando a esquecer ou destruir todas as outras. E aí vai um aviso: isso é a morte. A morte como mulher, a morte como poeta, a morte como ser humano.

Quando o desejo por definição, de si mesma ou de outra, vier de uma vontade de limitação em vez de expansão, nenhuma face verdadeira será capaz de emergir. Porque qualquer ratificação do exterior só pode reforçar, e não fornecer, minha autodefinição. Ninguém que me disser que tenho valor, ou que um poema é bom, poderá criar uma sensação semelhante de valor dentro de mim, ou de ter realizado o que me propus fazer. E aquelas entre nós que são negras, que são mulheres, que são lésbicas, todas vocês sabem o que quero dizer. O negro é lindo, mas está saindo da moda; contudo ainda sou negra. O movimento de libertação das mulheres pode em breve sair de moda, porque esse é o american way. De todo modo, não deixarei de ser mulher.

Mais uma coisa. Mulheres que amam mulheres continuarão a entrar e a sair de moda, entretanto isso não altera a quem direciono meu amor.

Então, lembrem-se. Quando eles vierem atrás de mim ou de você, não fará nenhuma diferença se você, ou eu, for uma mulher negra lésbica poeta mãe amante que faz e sente, só importará o que compartilhamos no crescimento do movimento humano mais real e ameaçador, o direito a amar, trabalhar e nos definirmos, do nosso jeito.

Não existe hierarquia de opressão

Nasci negra e mulher. Estou tentando me tornar a pessoa mais forte possível para usufruir a vida que me foi dada e ajudar a desencadear as mudanças em direção a um futuro aceitável para o planeta e para minhas crianças. Como negra, lésbica, socialista, mãe de dois, entre eles um menino, e integrante de um casal inter-racial, com frequência me vejo parte de um grupo em que a maioria me define como desviante, difícil, inferior ou simplesmente “errada”.

Com minha presença em todos esses grupos, aprendi que a opressão e a intolerância com a diferença podem se manifestar em todas as formas, cores e sexualidades; e que, entre aqueles com quem compartilhamos os objetivos de libertação e de um futuro possível para nossos filhos, não podem existir hierarquias de opressão. Aprendi que o machismo (uma crença na superioridade inerente de um sexo sobre todos os outros e, portanto, seu direito à dominância) e o heterossexismo (uma crença na superioridade inerente de uma forma de amor acima de todas as outras e, portanto, seu direito à dominância) emergem ambos da mesma fonte que o racismo – uma crença na superioridade inerente de uma raça sobre todas as outras e, portanto, seu direito à dominância.

“Oh”, diz uma voz da comunidade negra, “mas ser negro é NORMAL!” Bem, eu e muitas pessoas negras da minha idade podemos nos lembrar dos tristes dias em que não costumava ser.

Simplesmente não acredito que um aspecto do meu ser possa se beneficiar com a opressão de qualquer outra parte da minha identidade. Sei que meu povo provavelmente não pode ser beneficiado pela opressão de qualquer outro grupo que busque o direito a uma existência pacífica. Em vez disso, nos diminuímos ao recusar aos outros o que conseguimos para nossos filhos à custa do nosso sangue. E aquelas crianças precisam aprender que não é necessário se tornar idênticas para trabalharem juntas em prol de um futuro que todos vão compartilhar.

Os ataques crescentes às lésbicas e aos gays são somente o prelúdio a ataques mais frequentes aos negros, pois, onde quer que a opressão se manifeste neste país, pessoas negras são vítimas em potencial. É um padrão do cinismo direitista encorajar integrantes de grupos oprimidos a agir uns contra os outros, e, enquanto estivermos divididos por causa de nossas identidades específicas, não poderemos nos unir numa ação política efetiva.

Dentro da comunidade lésbica, sou negra, dentro da comunidade negra, sou lésbica. Qualquer ataque contra pessoas negras é uma questão que envolve gays e lésbicas, porque eu e milhares de outras mulheres negras somos parte da comunidade lésbica. Qualquer ataque a lésbicas e gays é uma questão que envolve os negros, porque milhares de lésbicas e gays são negros. Não existe hierarquia de opressão.

Não é acidental que o Family Protection Act, que agressivamente se posiciona contra as mulheres e contra os negros, o seja também contra os gays. Como uma pessoa negra, sei quem são meus inimigos, e, quando a Ku Klux Klan vai a um tribunal em Detroit para tentar forçar o Conselho de Educação a retirar de circulação os livros que acredita que “incitam a homossexualidade”, então sei que não posso me dar ao luxo de combater apenas uma forma de opressão. Não posso me dar ao luxo de acreditar que estar livre da intolerância é somente direito de um grupo específico. Tampouco posso me dar ao luxo de escolher as frentes nas quais devo lutar contra essas forças da discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E, quando eles aparecerem para me destruir, não demorará muito até que apareçam para destruir vocês.

Audre Lorde nasceu em Nova York, nos Estados Unidos, em 1934. Definindo a si mesma como uma “poeta negra, lésbica, mãe, guerreira”, Lorde contribuiu ativamente com os estudos de raça, sexualidade e gênero. Seus escritos prenunciam a mudança ocorrida dentro da academia no final dos anos 1980 em direção a estudos interseccionais.

Capa do livro "Sou sua irmã" conta com retratos de Audre Lorde

Sou sua irmã — escritos esparsos

Audre Lorde

Trad. Stephanie Borges

288 páginas

Ubu

Livro de julho do Circuito Ubu

Lançamento amplo em agosto de 2020

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