‘Prazer em queimar’: o poder incendiário do autoritarismo


O ‘Nexo’ publica trecho de livro de Ray Bradbury, autor de ‘Fahrenheit 451’. Nova coletânea da Biblioteca Azul reúne escritos que deram origem ao clássico distópico: retratos ficcionalizados da repressão de governos autoritários que o escritor testemunhou em vida. Bradbury completaria 100 anos em agosto de 2020. Leia, abaixo, o conto ‘Fogueira’ na íntegra

O que mais irritava William Peterson era Shakespeare e Platão, Aristóteles, Jonathan Swift, William Faulkner e os poemas de Weller, Robert Frost, talvez, John Donne e Robert Herrick. Todos esses, vale lembrar, jogados na Fogueira. Então ele começou a pensar em certas pinturas no museu, ou nos livros em seu recanto, nos bons Picassos, não nos ruins, mas nos raríssimos que eram bons; os bons Dalís (tinha alguns, como você sabe); e o melhor do Van Gogh; as linhas em certos Matisses, sem contar a cor, e o jeito que Monet pintava rios e córregos, e a névoa que pairava nos rostos em formato de pêssego das mulheres nos quadros de Renoir, nas sombras do verão. Ou, voltando ainda mais, havia El Greco com uma iluminação maravilhosa dos raios, os corpos dos santos alongados por uma espécie de gravidade divina em direção a nuvens brancas e sulfurosas de trovoadas. Depois de pensar nesses pedaços de coisas usadas para acender o fogo (pois é isso que viraram), ele pensou nas esculturas enormes de Michelangelo, no menino Davi com seus pulsos inchados da juventude e seu pescoço tendinoso, os olhos e mãos sensíveis, a boca suave; os Rodins montados apaixonadamente; os sulcos suaves nas costas da estátua de uma mulher nua na parte de trás do Museu de Arte Moderna, aquele sulco fresco onde ele poderia querer passar sua mão para parabenizar Lembroocke por seu talento artístico…

William Peterson estava com as luzes apagadas em seu escritório, tarde da noite, vendo apenas o brilho rosado fraco de seu toca-discos acariciando seu rosto ossudo. A música se espalhava pelo quarto com o movimento mais suave possível, o coro de gafanhotos de “Jena”, de Beethoven, um pizzicato chuvoso em meio à “Quarta” de Tchaikovsky, o ataque de metais durante a “Sexta” de Shostakovich, um fantasma de “La Valse”. Às vezes, William Peterson tocava o próprio rosto e descobria uma umidade sob cada pálpebra inferior. “Isso não é autocomiseração?”, ele pensou. É só não ser capaz de fazer nada a respeito disso. Por séculos, o pensamento deles seguiu vivo. A partir do dia seguinte, estariam mortos. Shakespeare, Frost, Huxley, Dalí, Picasso, Beethoven, Swift, mortos de verdade. Até agora, nunca tinham morrido, embora seus corpos estivessem entregues aos vermes. No dia seguinte dariam um jeito nisso.

O telefone tocou. William Peterson jogou a mão pelo ar escuro e atendeu.

— Bill?

— Ah, oi, Mary.

— O que você está fazendo?

— Ouvindo música.

— Não vai fazer nada de especial hoje à noite?

— O que tem para fazer? — disse ele.

— Só Deus sabe onde estaremos amanhã à noite, só pensei…

— Não vai existir amanhã à noite — ele interrompeu. — Só vai existir a Fogueira.

— Que maneira esquisita de ver a situação. Uma pena — disse ela, distante. — Andei pensando, que desperdício. Minha mãe me teve, meu pai me colocou na escola. Com você foi igual, Bill. A mesma coisa, com 2 bilhões de pessoas na Terra. E então isso acontece.

— Não é só isso — ele pensou, de olhos fechados, com o telefone próximo à boca. — Mas todos os milhões de anos que demorou para chegarmos aqui. Ah, você deve estar se perguntando “O que nós temos, para onde fomos? Nós chegamos? E onde estamos?”. Mas aqui estamos, seja como for, por bem ou por mal. E demorou milhões de anos para que surgisse o homem. Fico chocado que alguns poucos homens no alto escalão podem estalar os dedos e acabar com tudo. Meu único consolo é que eles também vão queimar. — Ele abriu os olhos. — Você acredita no inferno, Mary?

— Não acreditava. Agora acredito. Disseram que, depois de começar, a Terra queimaria por um bilhão de anos, como um pequeno sol.

— É, isso é o inferno, sem dúvida, e nós estamos nele. Nunca pensei a respeito disso, mas nossas almas serão assadas no ar aqui, guardadas na Terra por muito tempo depois de não sobrar nada além de uma fogueira.

Ela começou a chorar, do outro lado da cidade, no apartamento dela.

— Não chore, Mary — disse ele. — Isso me machuca mais do que qualquer outra coisa nessa bagunça toda.

— Não consigo me conter — disse ela. — Estou realmente furiosa. Pensar que desperdiçamos nossas vidas, gastamos nosso tempo, você, escrevendo três dos melhores livros de nossa geração, e isso vira nada. E todas as outras pessoas, as milhares de horas de escrita e construção e pensamento que nós investimos, meu Deus, é muito assustador, e tudo que alguém precisa fazer é riscar um fósforo.

Ele concedeu a ela um longo minuto de histeria silenciosa.

— Você acha que as pessoas não pensaram nisso? — disse ele. — Todos temos nossa parte nisso. Pensamos: “Jesus, foi por isso que nossos avós atravessaram as planícies, é por isso que Cristóvão Colombo descobriu a América, é por isso que Galileu largou os pesos da Torre de Pisa, é por isso que Moisés atravessou o Mar Vermelho?”. De repente, isso apaga toda a equação e torna tudo o que fizemos algo tolo, porque a soma disso tudo é cancelamento, CANCELAMENTO na máquina.

— Não podemos fazer nada?

— Participei de todas as organizações. Conversei. Bati nas mesas, votei, fui preso, e agora estou em silêncio — ele disse. — Fizemos tudo o que foi possível. Escapou de nossas mãos. Alguém jogou a direção pela janela por volta dos anos 1940, e ninguém conferiu se os freios estavam funcionando.

— Por que ainda nos demos ao trabalho de tentar algo? — ela disse.

— Não sei. Eu quero voltar no passado e falar comigo mesmo em 1939, “escuta aqui, camarada, vai sem pressa, não se empolgue, não fustigue o cérebro, não invente contos ou escreva seus livros, não serve para nada, para nada, em 1960 vão colocar você e os livros no incinerador!”. E eu diria ao sr. Matisse: “Pare de fazer essas belas linhas”. E ao sr. Picasso: “Nem se dê ao trabalho de criar ‘Guernica’”. E ao sr. Franco: “Não se dê ao trabalho de ganhar de seu próprio povo, ninguém deve se dar ao trabalho de nada!”.

— Mas tínhamos de nos dar ao trabalho, precisávamos persistir.

— Sim — disse ele. — Essa é a parte maravilhosa e idiota. Persistimos, até quando sabíamos que estávamos indo para o forno. Podemos dizer isso até o último momento, quase, que estávamos pintando, rindo, conversando e atuando, como se isso fosse durar para sempre. Um dia, me iludi de que, de alguma maneira, restaria uma parte da Terra, que alguns fragmentos poderiam persistir. Shakespeare, Blake, uns pedaços, uns trechos, talvez alguns dos meus contos, resquícios. Pensei que iríamos embora e deixaríamos o mundo para os ilhéus ou os asiáticos. Mas isso é diferente. Isso é total.

— Quando você acha que isso vai acontecer?

— A qualquer momento.

— Eles nem sabem o que a bomba vai fazer, né?

— Temos uma chance, seja como for. Perdoe meu pessimismo, eu acho que eles calcularam mal.

— Por que você não vem aqui? — perguntou ela.

— Por quê?

— Pelo menos a gente podia conversar…

— Por quê?

— Seria algo a fazer…

— Por quê?

— Nos daria algo do que conversar.

— Por quê? Por quê? Por quê?

Ela aguardou um minuto.

— Bill?

Silêncio.

— Bill!

Nenhuma resposta.

Ele estava pensando em um poema de Thomas Lovell Beddoes, pensando em uma tira de película de um filme antigo chamado “Cidadão Kane”, pensando na névoa suave de penas brancas na qual as bailarinas de Degas posavam, pensando em um bandolim de Braque, um violão de Picasso, um relógio de Dalí, uma linha de Houseman, pensando em milhares de manhãs jogando água fria no rosto, pensando em bilhões de manhãs e bilhões de pessoas jogando água fria em seus rostos, indo trabalhar nos últimos dez mil anos. Pensava em campos com grama, trigo e dentes-de-leão. Pensava em mulheres.

— Bill, você está aí?

Nenhuma resposta.

Enfim, engolindo seco, ele disse:

— Sim, estou aqui.

— Eu… — disse ela.

— Sim?

— Quero… — disse ela.

A Terra explodiu e queimou de forma constante por milhares de milhões de séculos…

Ray Bradbury nasceu nos Estados Unidos, em 1920. Escreveu romances, contos, peças, poesia e roteiros para filmes, mas se tornou famoso com seus romances visionários. Considerado um dos mais importantes nomes da ficção científica, vendeu mais de 8 milhões de cópias de seus livros. Morreu em junho de 2012.

Capa do livro "Prazer em queimar — histórias de Fahrenheit 451", com a ilustração de um fósforo queimado

Prazer em queimar — histórias de Fahrenheit 451

Ray Bradbury

Trad. Antônio Xerxenesky e Bruno Cobalchini Mattos

416 páginas

Biblioteca Azul

Lançamento em 30 de junho de 2020

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