‘Que paraíso é esse?’: onde jihadistas recebem os turistas


O ‘Nexo’ publica trecho de livro-reportagem sobre as Maldivas. O país muçulmano é destino internacional de turistas que buscam as praias paradisíacas. Menos conhecidas são suas mazelas sociais, que fazem das ilhas alvo fácil para outra atividade: o recrutamento de combatentes jihadistas para a guerra da Síria

— Então você mora no Oriente Médio? É isso mesmo?

O taxista me observa pelo espelho retrovisor.

— Isso mesmo. Moro em Bagdá.

— Bagdá?

Arruma o espelho para me enquadrar melhor.

— Sou jornalista de guerra.

— E está no Iraque.

— Na Síria e no Iraque.

— Você está onde está a al-Qaeda?

—A al-Qaeda também, sim.

— Mesmo? Está com a al-Qaeda?

— Sim.

— Com a al-Qaeda? — Freia de repente.

— Quer dizer, não é que estou com a al-Qaeda. Mas estou onde a al-Qaeda está.

Se ilumina. Me diz: — Mas olha só!

— Com a al-Qaeda! Então você encontrou os nossos garotos!

Me diz: — Como são corajosos, hein?

Me diz: — Na linha de frente!

Em Paris, Bruxelas, Túnis, você fala com os muçulmanos sobre os jihadistas do ISIS e todos ficam mortificados, parecem querer se desculpar, como se fossem responsáveis, te dizem: Estão fora de si. Te dizem: Não são muçulmanos.

Nas Maldivas, te dizem: São heróis.

A chegada

Em geral os turistas ocidentais nem notam que este é um país muçulmano. E, no entanto, é o país não árabe com o maior número per capita de foreign fighters. Contá-los, obviamente, não é simples, mas, até agora, uns duzentos, mais ou menos, foram identificados. Em uma população de 350 mil habitantes. O governo nega. Categórico. Mas nas Maldivas todo mundo tem um irmão, um primo, um amigo na Síria. Em agosto, enquanto o resto do mundo assistia à Olimpíada, nas Maldivas a maioria assistia à batalha de Aleppo.

E torcia pela al-Qaeda.

O problema é que, fora alguns guias turísticos e o livro de um jornalista australiano — que há uns dois anos, cansado do frenesi de Londres, achou por bem se refugiar em um canto de paraíso para escrever para um jornal local e reencontrar o sentido da vida e, em vez disso, encontrou um machete enfiado na porta da redação — sobre as Maldivas, buscando na Amazon, se encontra apenas um livro: o estudo de um antropólogo espanhol sobre os reinos marítimos e oceânicos. Mais três livros de viagem, que mais do que de viagem já são de antiquário: o mais vendido é o diário de Ibn Battuta.

Que desembarcou nas Maldivas no século 14.

Praticamente, o único livro no mundo sobre as Maldivas, no momento, é o guia da Lonely Planet.

E, para falar a verdade, em Istambul, no aeroporto, no portão de embarque para Malé, que é a capital das Maldivas, parece que nem isso os turistas leram.

Nas Maldivas, basicamente tudo o que aos estrangeiros é permitido, aos locais é proibido. Como o álcool. Ou o sexo fora do casamento: são cem chibatadas. Era Ramadan, certa vez, e um sujeito se meteu em um buraco debaixo de uma escada com um sanduíche: foi preso. As Maldivas são um país levemente conservador, adverte com tato o Lonely Planet. Fora dos resorts, mangas compridas e nada de excessos.

Porque, se olhar para as moças, e não para os golfinhos, dá merda.

Mas no embarque para Malé os turistas já estão todos de bermuda e chinelos. Não são muitos, na verdade. Hoje, enquanto oito bilionários, segundo os últimos cálculos, possuem a mesma riqueza da metade da população do planeta, os que podem se dar ao luxo de ir às Maldivas não são suficientes para encher um avião inteiro: o avião só faz escala em Malé, seu destino é o Sri Lanka. Os passageiros são em sua maioria asiáticos franzinos, de pele escura, com imitações de Levi’s e Nikes falsos. Ficam todos de um lado só, acanhados. Como se estivessem intimidados. Uma família russa dorme com máscaras Gucci todas iguais e uma barreira de malas Hermès. A garota com saltos Jimmy Choo, a mãe com uma Selleria Fendi amarela. O pai usa um Rolex com bisel verde, duas pulseiras e um colar de ouro, três anéis, uma camisa de linho em parte aberta sobre a tatuagem de um dragão, ou talvez seja uma serpente, ou ainda o amortecedor de uma moto, e mocassim de couro branco. Tipo crocodilo. E segura o passaporte em uma capa Louis Vuitton. Enquanto isso, o filho pequeno voa com seu hoverboard e fones de ouvido Bose. No fundo, atrás de três suecos com kit completo para mergulho, dois franceses que aparentam setenta anos, elegantíssimos. Ambos. Ele de panamá e charuto apagado, ela com um chapéu de atriz dos anos 1930, aba larga, uma cópia do Le Monde na bolsa. Discutem sobre arame farpado. Sobre fronteiras. Sobre bancarrotas morais, refugiados mortos, por um momento me parece que estão falando de Calais, mas em seguida ela fala que é o individualismo americano, diz: — Trump, o turbocapitalismo. — Diz: — Nós na Europa somos outra coisa. — Não. Falam do muro com o México. À direita, deitadas, duas moças de sandália, de trinta anos, e com ar de funcionárias de uma ong em busca de uma semana de sexo. Estão usando aqueles vestidos modelo indiano, étnicos. Estão de anéis de bambu; os cabelos têm trancinhas coloridas. Uma delas lê Jonathan Franzen, enquanto a outra lê o relatório que tirou de uma bolsa de tela com o logo da ONU. O último sobre a Síria, provavelmente, ou algo parecido, porque é urgente: decidiram cortar as rações de comida aos refugiados. Dizem que já não têm nem mais um centavo.

Dizem que não chegam ao fim do mês.

Os mais nervosos, porém, são dois italianos de Bari com a viagem de lua de mel comprada a prestações, mala de mão da Carpisa. É a primeira vez deles em um avião. Reservaram o voo seis meses atrás, antes da tentativa de golpe contra Erdoğan, antes do atentado aqui mesmo, no aeroporto, antes de tudo. Um voo com uma escala de oito horas: mas na agência disseram para ficarem longe da área do duty free. Por isso trouxeram rosquinhas e dormiram em um corredor isolado. Perto de uma saída de emergência. Disseram para eles ficarem longe dos lugares abarrotados, me explica o rapaz, mas também dos lugares isolados, que talvez possam te livrar de um atentado, mas não de um assalto, e depois para ficarem longe dos tipos suspeitos, mas também dos tipos normais, porque na verdade, nestes tempos, o mais normal se torna o mais suspeito. Aqueles do Onze de Setembro, certo?, eram todos engenheiros. E depois disseram para ficarem longe das lixeiras, das vidraças, das bagagens sem proprietário, mas também de qualquer bagagem, longe de mochilas, de sacolas, de caixas, longe de quem usa coturnos, porque a sola dessas botas é perfeita para explosivos plásticos, mas, especialmente, longe de quem aparenta ser árabe, particularmente das mulheres, porque as mulheres nunca viajam sozinhas, imagine, não saem de casa, são o que há de mais pérfido: as mulheres árabes. A mais normal, a mais suspeita.

O rapaz me olha.

Tenho os cabelos pretos e os olhos pretos.

E estou sozinha.

— Bom, com licença — diz. — Agora vamos, já é tarde. — E desaparecem.

O avião sai daqui a quatro horas.

Na verdade, a agência recomendou também desativar os toques do celular: assim, se os terroristas começarem a atirar, você se finge de morto. E, como não podia deixar de ser, quando chegamos, ele encontra trezentas chamadas da mãe. Ela ficou a noite inteira diante da TV controlando se tinham sequestrado algum avião.

— De novo, mãe! — diz a ela. — Já te falei, não vi, estava dormindo. Agora já chegamos. Está tudo bem.

Desce da escadinha do avião.

— Não sei se está frio, mãe, acabamos de chegar. Agora chega, que sou eu que estou pagando a chamada, o que acha que vai acontecer aqui? Mãe… Mãe, não estou ouvindo, estão em obras aqui.

Estão trabalhando. Estão reestruturando o aeroporto.

— Puta merda... Cuidado!

Uma empilhadeira corta seu caminho.

— Fica tranquila, mãe. Não estou mais na Turquia. Aqui é seguro.

A obra está sendo realizada por uma empresa saudita.

— Mãe! Mãe, não estou ouvindo! Vou desligar! Está tudo bem!

A empresa da família Bin Laden.

Francesca Borri é uma escritora italiana nascida em 1980, formada em relações internacionais. Desde 2012, atua como jornalista de guerra cobrindo o conflito na Síria. Já publicou artigos e livro sobre Kosovo, Israel e Palestina e sobre Alepo.

Capa do livro "Que paraíso é esse", ilustrada com a imagem de uma redoma de vidro que separa um ambiente colorido de uma floresta em preto e branco

Que paraíso é esse?

Francesca Borri

Trad. Ana Palma

Âyiné

256 páginas

Lançamento em julho de 2020

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