‘Internacionalismo ou extinção’: saídas para ameaças globais


O ‘Nexo’ publica trecho de livro que reúne ensaios e entrevistas do filósofo americano Noam Chomsky. Ele identifica as maiores ameaças à vida humana — guerra nuclear, mudanças climáticas e crise democrática — e discute estratégias para combatê-las. Segundo o pensador, somente acordos internacionais pautados por movimentos populares têm chances de solucionar esses problemas

Extinção e internacionalismo são dois temas unidos em um abraço fatídico desde o momento em que a ameaça de extinção se tornou uma preocupação bastante realista, em 6 de agosto de 1945, dia que jamais será esquecido por aqueles que estavam vivos na época e tinham os olhos abertos — um dia de que pessoalmente me lembro muito bem. Naquela data, constatamos que a inteligência havia inventado meios para dar fim ao experimento humano de 200 mil anos de existência.

Desde o primeiro momento, não havia dúvida de que a capacidade de destruir se intensificaria e seria disseminada para outras mãos — aumentando a ameaça de autoaniquilação. Nos anos que se seguiram, foi aterrador o registro de ocasiões em que escapamos por um triz, às vezes por acidente e erro, às vezes em casos apavorantes de imprudência — mas a verdade é que a ameaça vem crescendo de forma preocupante. Uma revisão do histórico revela claramente que escapar da catástrofe ao longo de setenta anos tem sido quase um milagre, e não se pode confiar que esses milagres se perpetuem.

Naquele funesto dia de agosto de 1945, a humanidade entrou em uma nova era, a era nuclear. É improvável que dure muito: ou acabamos com ela, ou é bem possível que ela leve a nosso fim. De imediato, ficou evidente que qualquer esperança de conter o demônio exigiria cooperação internacional. No outono de 1945, um livro pedindo um governo federal mundial alcançou o topo da lista dos mais vendidos — foi escrito pelo agente literário de Winston Churchill, Emery Reves.

Albert Einstein foi apenas um dos que reagiram reivindicando um governo mundial — o que ele chamou de resposta política aos devastadores eventos de agosto de 1945. Eles reconheceram que se tratava de um ponto de inflexão na história humana e, talvez, o início de seu derradeiro estado. As esperanças de que as Nações Unidas cumprissem a função de governo mundial foram rapidamente frustradas — um importante tópico, não examinado aqui.

Naquele momento não houve uma compreensão do fato, mas uma segunda e não menos decisiva nova era estava começando — uma era geológica chamada Antropoceno. É uma época definida pelo extremo impacto humano sobre o meio ambiente. É consensual que já entramos há muito nessa nova era, mas houve divergências entre os cientistas acerca de quando a mudança se tornou tão extrema a ponto de sinalizar o início do Antropoceno. Em abril de 2016, o Grupo de Trabalho do Antropoceno (AWG, na sigla em inglês), organização geológica oficial, chegou a uma conclusão sobre o início da era geológica. Durante o 35º Congresso Geológico Internacional, estudiosos e pesquisadores recomendaram que se considerasse como marco inicial do Antropoceno o período que começa após o fim da Segunda Guerra Mundial.

De acordo com a análise deles, o Antropoceno e a era nuclear coincidem; trata-se de uma dupla ameaça à perpetuação da vida humana organizada. Ambas as ameaças são graves e iminentes. É amplamente reconhecido que entramos no período da sexta extinção em massa. De modo geral, atribui-se a quinta extinção, ocorrida 66 milhões de anos atrás, a um asteroide, um enorme asteroide que atingiu a Terra destruindo 75% das espécies. Isso pôs fim à era dos dinossauros e abriu caminho para a ascensão de pequenos mamíferos — e, finalmente, dos humanos, cerca de 200 mil anos atrás.

Não há de demorar muito para que a humanidade provoque a sexta extinção, cuja expectativa é ser semelhante em escala às anteriores, ainda que diferindo de maneira instrutiva. Nas extinções em massa que antecederam em muito o surgimento dos humanos, o tamanho do corpo não estava correlacionado com o aniquilamento. Era uma espécie de assassino com oportunidades iguais — independentemente do tamanho do corpo. Na sexta extinção, gerada pelo homem e que está a pleno vapor, os animais maiores são mortos de forma desproporcional.

Isso alarga um registro que remonta a nossos primeiros ancestrais proto-humanos. Esses hominídeos eram uma espécie predatória que causou danos significativos a grandes organismos, apagou do mapa muitos deles e quase deu cabo de si mesma. Faz muito tempo que não se coloca em dúvida a capacidade de os humanos destruírem uns aos outros em grande escala, processo que teve um pico hediondo no século passado. O Grupo de Trabalho do Antropoceno reafirma a conclusão de que as emissões de CO₂ causadas pelo aquecimento climático estão aumentando na atmosfera à taxa mais rápida em 66 milhões de anos.

Os pesquisadores citam um relatório de julho do ano passado (2016), de acordo com o qual as partículas de CO₂ atingiram mais de 400 partes por milhão (ppm), e o nível está subindo a um ritmo sem precedentes no registro geológico. Estudos subsequentes revelaram que esse número não era uma flutuação. Ele parece ser permanente, uma base para crescimento ainda maior, e esta cifra, 400 ppm, tem sido considerada um fator crítico, um ponto em que a segurança dá lugar ao perigo. Chega perigosamente perto do nível estimado de estabilidade do enorme manto de gelo da Antártida. O colapso da geleira continental teria consequências catastróficas para o nível dos mares, e esses processos já estão em andamento, de modo bastante sinistro nas regiões árticas.

O quadro mais amplo não é menos sinistro, e praticamente todo mês a temperatura quebra recordes históricos; secas inclementes ameaçam a sobrevivência de centenas de milhões de pessoas. Esses também são fatores relevantes em algumas das regiões onde hoje ocorrem os mais horrendos conflitos: Darfur e Síria. Todos os anos, aproximadamente 31,5 milhões de pessoas são obrigadas a se deslocar por causa de desastres como inundações e tempestades, e isso é um efeito previsto do aquecimento global; é quase uma pessoa por segundo. É um contingente consideravelmente maior que as levas que fogem das guerras e do terrorismo. Os números estão fadados a aumentar à medida que as geleiras derretem e o nível do mar sobe, ameaçando o abastecimento de água de milhões de pessoas.

O derretimento das geleiras do Himalaia pode eliminar o suprimento de água para o sul da Ásia, o que significa impactar vários bilhões de pessoas. Somente em Bangladesh, dezenas de milhões devem fugir nas próximas décadas por causa do aumento do nível do mar, uma vez que se trata de uma planície costeira baixa e plana. É uma crise de refugiados que fará com que a crise migratória de hoje se torne insignificante, e é apenas o começo. Com alguma justiça, os principais cientistas climáticos de Bangladesh já afirmaram que esses migrantes deveriam ter o direito de se mudar para países de onde todos esses gases de efeito estufa estão vindo — e que milhões deveriam poder seguir para os Estados Unidos, algo que suscita uma questão moral nem um pouco trivial.

Não perderei tempo em recapitular o quadro geral; presumo que o leitor esteja familiarizado com isso, mas a situação deveria ser profundamente alarmante para qualquer pessoa preocupada com o destino da espécie e das outras espécies que estamos destruindo de forma irresponsável e com a maior naturalidade. Essa condição não está num futuro longínquo, está acontecendo agora — e vai se agravar acentuadamente. Sempre foi evidente que quaisquer medidas eficazes para conter a ameaça de catástrofe ambiental teriam que ser tomadas em âmbito global.

Noam Chomsky é autor de inúmeras obras sobre política que se tornaram best-sellers e referências em todo o mundo. Professor emérito de Linguística e Filosofia do MIT, é considerado o teórico que revolucionou a linguística moderna. Chomsky também é conhecido pelas suas posições políticas de esquerda e pela sua crítica à política externa dos Estados Unidos. Ele se descreve como um socialista libertário. Vive em Cambridge, Massachusetts.

Capa do livro "Internacionalismo ou extinção", estampado com um símbolo de risco biológico

Internacionalismo ou extinção

Noam Chomsky

Trad. Renato Marques

Planeta

128 páginas

Lançamento em junho de 2020

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