‘Desinformação’: a função política e econômica da mentira


O ‘Nexo’ publica trecho de livro do Coletivo Intervozes sobre o papel das fake news na formação da crise política. Os autores investigam a intencionalidade por trás da propagação sistemática de informações falsas, a responsabilidade das plataformas digitais nesse fenômeno e quais as perspectivas de superá-lo. Leia, abaixo, o prefácio

A desinformação é uma indústria

Negar a existência do holocausto. Afirmar que o nazismo era de esquerda. Dizer que não há indícios do aquecimento global. Declarar que o filósofo Theodor Adorno escreveu as canções dos Beatles. Divulgar a existência de um kit gay com o objetivo de converter crianças ao homossexualismo. Difundir que Obama não era norte-americano. Defender que chumbo na gasolina não envenenava o planeta. Manifestar que desconhece uma única pessoa que tenha morrido pelo ataque do novo coronavírus. Bradar que a pandemia não passa de uma “gripezinha”. São exemplos de discursos que carregam a desinformação. Inventam, distorcem ou negam fatos e acontecimentos. Muitas dessas práticas discursivas visam reconstruir a história, buscam alterar o passado para redirecionar o futuro. Outras estão a serviço de interesses econômicos, religiosos ou estritamente políticos e eleitorais.

A luta pelo poder é principalmente a luta pela verdade. A disputa pela construção da verdade se faz pela comunicação. Na formação dos apoios e no arregimentar das opiniões, a comunicação é estratégica. Os comunicadores organizam as verdades dos poderes e dos contrapoderes. A construção do que é verdadeiro pode ser vista como enfrentamento da História à ideologia (Karl Marx), como práticas discursivas (Michel Foucault), como imaginário (Cornelius Castoriadis), como objetividade científica (Auguste Comte), como percepção “do mundo como nos aparece” (Kant), entre tantas prescrições da realidade. A definição do que é a verdade na filosofia é um terreno de combates.

A modernidade, como império da razão, afastou os profetas e os demônios da formação do verdadeiro e permitiu a René Descartes declarar que havia vencido até mesmo o deus enganador com seu método. A razão e a comprovação factual, empírica, nos conduziriam ao saber científico. Assim, as ciências se estruturaram na modernidade como guias da sociedade dos viventes. As almas e os mortos caberiam aos deuses. As ciências seriam incapazes de construir métodos de comprovação das verdades divinas e da vida após a morte, nem estariam aptas a constituir um método para definir qual deus seguir, pois faltaria a empiria. Max Weber declarou que a modernidade desencantou o mundo e o submeteu à força da razão.

Foucault buscou demonstrar que as ciências sociais, a linguística e a biologia, incluindo o saber médico, se tornaram fundamentais para a formação de uma governamentalidade que redundou em uma biopolítica. A condução do corpo de espécie, da vida da população, estaria submetida ao saber científico que forneceria a verdade ao governo dos vivos. Isso gerou o uso disseminado da estatística para se conhecer e controlar a sociedade. Campanhas de saúde, educação de modos e comportamentos foram efetuados para positivamente melhorar a produtividade geral da população, para protegê-la. Todavia, nem todos os extratos da sociedade são bem-vindos às elites econômicas e aos líderes políticos. Como eliminar segmentos indesejáveis da população? Criar ciências que fundamentem exclusões, extermínios, purificações. Assim as tentativas eugenistas buscaram se validar como ciência. No início do século 20, as sociedades eugenistas se tornaram representantes científicas de práticas políticas que hoje denominamos de tanatopolíticas ou necropolíticas, para lembrar Giorgio Agamben e Achille Mbembe. Não foram os cientistas que derrotaram a eugenia. Infelizmente foi a guerra. O nazismo e a solução final, o assassinato de pessoas com deficiência, a criação da categoria dos indesejáveis e os fornos de Auschwitz assustaram o mundo liberal e democrático. A derrota militar eugenista não representou sua eliminação teórica.

No início da segunda década desse século, em tempos neoliberais, um aparente inofensivo movimento de pessoas politicamente incorretas, nerds que queriam expressar seus preconceitos sem limitações, pessoas incultas que odiavam a cultura e que consideravam prazeroso desprezar a história e a opinião dos outros, foi atraído pelos estrategistas da ultradireita na construção de um movimento internacional, a partir das redes digitais, para vencer importantes eleições. Trump inaugurou a nova estratégia do elogio ao preconceito e à desinformação como estratégia política principal. Essas mobilizações e coletivos neorreacionários foram chamados por Richard Spencer, líder da Supremacia Branca norte-americana, de direita alternativa. O que os une é o ataque às políticas públicas distributivas, sociais e aos direitos universalizados, além do desprezo pelos fatos e pela análise dos acontecimentos. Seus ícones não são Mandela, Abraham Lincoln ou Martin Luther King, são Peter Thiel – criador do PayPal e formulador da ideia de que a liberdade não consegue mais conviver com a democracia, corrompida pelo agigantamento do Estado –, Nick Land, autor do texto chamado Dark Enlightenment ou Iluminismo das Trevas. A partir da formação de uma direita que ataca a razão como algo que conduz necessariamente ao marxismo global, se implantou a estratégia de neutralizar os argumentos e análises baseadas em fatos. O objetivo é retornar ao mundo em que a crença e a vontade é superior a tudo.

Assim, equivocar-se, mentir uma vez ou outra, exagerar, são elementos notórios da trajetória de quase todos os políticos que disputam eleições. Mas o fenômeno da desinformação que vivenciamos não é esse. Minha prima ou meu tio no WhatsApp podem reproduzir mensagens, mas não são eles que organizam as estratégias de desinformação. As ondas de desinformação são construídas intencionalmente pela extrema-direita. São fabricadas e sustentadas mesmo quando fatos apresentados demonstram a sua completa improcedência. Diante desse cenário, em que a desinformação não é apenas um equívoco, mas uma estratégia política de destruição da democracia, é que esse livro organizado pelo Intervozes adquire uma grande relevância.

Aqui se pretende conceituar a desinformação. O livro traz as especificidades das fake news, o debate sobre o papel do jornalismo, as dificuldades de compreender e enfrentar a opacidade da gestão algorítmica da informação, a responsabilidade das plataformas; enfim, o fenômeno da desinformação é detalhado. Discutem-se as formas de contenção e de redução da velocidade de disseminação desses processos desinformativos. Também são apresentadas uma série de proposições para a detecção e enfrentamento da desinformação. Sem dúvida, é um trabalho de fôlego que permitirá às pessoas, pesquisadoras ou leigas, perceberem que é preciso agir contra a organização do poder erguido com base no desprezo aos fatos e à realidade.

Quando Jair Bolsonaro acusou o Greenpeace de jogar óleo no mar, quando atacou Leonardo DiCaprio por financiar ONGs que põem fogo na Amazônia ou diz que as universidades brasileiras estão dominadas por comunistas, elevou a desinformação à condição de política pública oficial. Vivemos o inaceitável. A desinformação precisa ser desmoralizada e seus centros de produção denunciados. O desprezo pela realidade e a fé na crença de um passado que nunca existiu não permitirá a construção de uma sociedade democrática, livre e diversificada. É necessário fortalecer os processos de combate à desinformação. A consolidação e a naturalização do desvirtuamento da realidade só interessam aos poderosos, aos que comandam hordas e grupos armados, aos que querem se impor pela violência. Para as maiorias, a disputa pela verdade continuará, mas é preciso resgatar os parâmetros da realidade e os fatos como elementos vitais para a realização de um julgamento de opinião. A desinformação só interessa ao neoliberalismo e sua expressão neofascista.

Sérgio Amadeu da Silveira é sociólogo, doutor em ciência política, professor-adjunto da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC). É autor de diversos livros sobre cultura digital e software livre.

Capa do livro "Desinformação", do Coletivo Intervozes

Desinformação: crise política e saídas democráticas para as fake news

Coletivo Intervozes

Org. Helena Martins

Veneta

Lançamento em 9 de junho

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