‘A segunda espada’: conto de vingança de um Nobel infame


O ‘Nexo’ publica trecho do novo livro de Peter Handke, escritor austríaco que venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 2019 em meio a controvérsias sobre sua defesa do governo sérvio, que conduziu o genocídio de muçulmanos na Bósnia. Este romance, escrito poucos meses antes, tem um tom presciente: o protagonista busca vingança por sua mãe, que foi caracterizada na imprensa como uma simpatizante nazista

Ao longo de todo o caminho, tendo sido tomado por aquela sensação de urgência, não encontrei ninguém. E era bom que fosse assim. Estava desfrutando da minha raiva e da minha hostilidade. E, o que era o principal, desta forma a sensação de urgência também desaparecia. Na floresta ao longo da qual eu seguia, havia, ao que parece, uma carreira de tiro pois, a cada tanto, ouviam-se disparos abafados de balestras por detrás das árvores. Setas zuniam e vibravam em direção ao alvo, ou caíam ao errar, menos sonoras. As balestras as faziam chiar e ressoar com baques surdos. E quem dava os tiros ali, era eu; eu, eu, e novamente eu. E o estilingue de criança, ali, à beira do caminho, ainda que estivesse destruído, era meu. Vamos voltar a retesá-lo! Era uma lástima, uma pena eterna, que este caminho do inimigo da humanidade fosse tão curto, mal e mal se estendendo pela distância de doze tiros de arco, ou de duas dúzias de pedradas.

Por outro lado, quanto mais triunfava o sentimento de êxtase — inimigo mortal de todo o gênero humano — tanto mais me sentia inseguro. Era perturbador que eu nada soubesse a respeito do estado atual do mundo. De fato, eu não só sentia um peso na consciência por estar desinformado desde aquela manhã, e, àquela hora, já pelo dia inteiro como, como também porque via o meu ignorar das informações, fossem elas quais fossem, como falta de responsabilidade e como culpa, uma culpa grave. Por que eu não tinha me interessado pelas catástrofes, pelos massacres, pelos atentados do dia? E se o mundo sequer continuasse a existir? E se isto aqui fossem apenas reflexos? E agora, olhe: nos suportes para os anúncios das eleições europeias, no desvio que leva à parada de ônibus, que se estendem sobre metade da aldeia, não se vê nenhum rosto, estão totalmente vazios! — Mas veja, aqui: uma joaninha debaixo da cerejeira, na calçada, quase do tamanho de um polegar, com os desenhos de dentes de serrote na parte lateral da carapaça, morta, congelada na noite de maio, e ali: mais uma, e aquela lá ainda se arrasta, ainda vive! Então, quer dizer que, ao contrário do que foi alegado, as joaninhas ainda não foram extintas. Informação! Boa notícia!

Esperar pelo ônibus numa cabine de concreto sem janela em mais uma das estradas da Ilha de França, junto à aldeia. Havia, ali, um jovem casal, mudo, o homem balançava os braços, a mulher, a um pequeno passo de distância dele, sem contato corporal, exceto pelos dedos de uma mão, que ela voltava, sempre, a passar pelas costas dele, de cima para baixo. Aquele gesto era uma novidade para mim; de qualquer maneira, não se tratava de carícias. Ou talvez sim, e este tipo de carícia estabelecera-se no mundo, e não apenas no mundo ocidental, enquanto eu dormia e sonhava no meu isolamento pascaliano. E me sentia como se, naquele dia, tivesse passado anos em Port-Royal.

O casal se afastou, sem olhar para mim. Ou, assim: minha presença ali, desde o princípio, permanecera despercebida por ambos. Além disso, eles sequer estavam esperando por um ônibus. Será que aquela parada de ônibus já não funcionava e a linha de ônibus que eu conhecia de anos antes já não mais existia? Sim: pois os horários atualizados da passagem do ônibus estavam anunciados ali, inclusive os horários de fim de semana.

Para mim, que havia pouco me sentira tomado pela urgência, agora o tempo parecia demorar-se. Imaginei que isto se devesse ao fato de que, continuadamente, ninguém prestasse atenção em mim. Entre os ciclistas que circulam pelas estradas, isso era o normal, especialmente quando se tratava daqueles que seguiam em bandos, vestindo roupas de ciclista e levando capacetes sobre as cabeças, e que, além disso, estavam ocupados com seus diálogos aos berros — pois era preciso superar o zumbido das rodas. Tampouco vindo dos automóveis que passavam, e cujo número pouco aumentara com a chegada do fim da tarde, havia qualquer olhar que me atingisse ou, ao menos, passasse de raspão por mim; se é que os ocupantes dos veículos olhavam para alguma coisa, então olhavam para a estrada ou, quando eram vários, um para o outro. E, no entanto, eu imaginava ser uma aparição que chamaria a atenção, com meu terno Dior de três peças azul-escuro, chapéu Borsalino de abas largas, cuja fita era ornada por uma pena de buteo, óculos de aros escurecidos, sentado, sozinho, sobre o banco deteriorado, sob o abrigo da parada do ônibus.

Saí de lá, para a beira da estrada. Não que eu desejasse, ao fazê-lo, ser atingido por um raio vindo do zênite do céu. Mas, por um momento, estava preparado para algo assim, tal era meu desejo de obter alguma prova de minha existência. Sentei-me, deliberadamente, sobre uma pedra à beira da estrada, que era maior e mais pesada do que todas as demais ali, e que, além disso, inclinava-se, rodeada, até o topo, por urtigas particularmente agressivas. Quando arranquei algumas delas, com as mãos nuas, deixando-me queimar deliberadamente (de início, uma sensação agradável), notei, naquela pedra, que, ao contrário das demais, não era de concreto, mas de granito, uma coroa real que fora cinzelada, não hoje, nem ontem. Com gestos cuidadosos, usando as unhas e depois o pequeno punhal sarraceno, cujo comprimento mal chegava ao de um dedo médio e que, como era meu costume, eu colocara no bolso naquele dia, tirei a camada de musgos que recobria o contorno da coroa e, enquanto o fazia, voltava, a cada tanto, a separar minhas pernas, assim tentando atrair os olhares, fossem eles quais fossem, em direção àquele fenômeno, como que através de uma cortina que se abria: “Olhem, vejam, uma pedra dos tempos dos reis, e vejam, também, o idiota do dia, sentado sobre essa pedra, como se esse fosse o seu lugar, e vejam como esse transviado, sentado sobre a pedra do rei, ao mesmo tempo dança, sem erguer o traseiro uma polegada sequer; como ele dança sua dança, que já há séculos saiu de moda, sentado à beira da nossa antiga estrada real e, além disso, sentado sobre os cantos pontiagudos e esburacados do seu trono de rocha!”

Peter Handke é um dos maiores escritores de língua alemã e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2019. Tornou-se conhecido nos anos 1970 como roteirista de Wim Wenders e por obras como “O medo do goleiro diante do pênalti”, “A mulher canhota” (também filmado por ele) e “Tarde de um escritor”. Produto por excelência da dissolução do Império Austro-Húngaro e mais tarde da Iugoslávia (a mãe era eslovena, o pai austríaco), sua escrita é fortemente marcada pelo desassossego centro-europeu e das margens do Danúbio.

Capa da edição alemã do livro "A segunda espada", ilustrada com lascas de lápis apontados

A segunda espada — Uma história de maio*

Peter Handke

Trad. Luis S. Krausz

160 páginas

Estação Liberdade

Lançamento em junho de 2020

*Capa da edição alemã

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