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‘Curadoria’: direções para navegar um mundo complexo


O ‘Nexo’ publica trecho de livro que discute como a curadoria se tornou tão importante em um mundo que tem o excesso — de informações, produtos, serviços — como grande desafio. Nesse cenário, as ‘práticas de seleção, refino e arranjo’ ganham valor, mas ainda são confundidas por modismo. Leia, abaixo, passagem da introdução

A curadoria é mal interpretada porque raramente é vista em todo o seu contexto. Curadoria tornou-se um modismo porque passou a ser a resposta para uma série de problemas que antes não existiam: os problemas decorrentes do excesso. Há duzentos anos, vivemos num mundo que promove a criatividade, que busca o crescimento acima de tudo, que aumenta a produtividade sem dar trégua e que quer sempre mais: mais gente, mais recursos, mais dados, mais tudo.

A cada dia que passa, porém, fica mais claro que estamos sobrecarregados. No Ocidente, temos tudo que as gerações passadas queriam ter. Conseguimos comprar roupas por menos de uma xícara de café (o qual, evidentemente, já foi um privilégio dos ricos). Temos a informação do mundo na ponta dos dedos. Dispomos de todos os dispositivos e brinquedos que desejarmos. Podemos levantar montanhas, ir para o espaço e gerar energia nuclear. Mas ainda não sabemos no quê, em quem, acreditar; o pior de tudo é que parecemos incapazes de enfrentar nossos problemas sistêmicos, desde crises financeiras até a catástrofe ambiental.

Já não passamos fome, mas estamos diante de uma pandemia de obesidade. Geramos mais dados, mas também mais ruído. Temos entretenimento constante, mas somos cada vez mais distraídos. Somos mais ricos, mas acumulamos mais dívidas e trabalhamos mais horas. O excesso de opções faz parte do nosso cotidiano. Eu fazia compras num hipermercado na França tão grande que os funcionários usavam patins para se locomover. Embora essa abundância de opções tenha começado com produtos de consumo de venda rápida, na verdade ela é o oxigênio do capitalismo: meios de comunicação, serviços básicos como eletricidade e água, nossos companheiros e companheiras, empregos, aposentadorias. Áreas como saúde, finanças (seguros, aposentadorias) e educação — que comportam riscos pessoais e responsabilidades enormes — agora baseiam-se na decisão do mercado. Em todas elas, as opções proliferaram mais rápido que o entendimento do consumidor. As empresas têm que descobrir uma nova forma de trabalhar.

Por sorte, a natureza do problema sugere uma resposta: já estamos vendo uma revolução na forma como abordamos o valor. Se o valor, pecuniário ou de outro tipo, antes tinha a ver com a produção primária, agora, num mundo que deixou de ser dominado pela escassez, ele mudou. Hoje o valor está em resolver esses problemas, em reduzir a complexidade. Curadoria tem a ver com construir empresas e economias baseadas em menos opções — mais apropriadas, mais personalizadas. Essa é a diferença fundamental e a grande tendência subjacente que ainda estamos começando a entender.

A curadoria responde à pergunta sobre como viver num mundo em que os problemas geralmente estão ligados a ter demais. As práticas de seleção, refino e arranjo para somar valor — minha definição operacional de curadoria — nos ajudam a superar a sobrecarga. Este livro destaca diversos pontos em que essa definição simples porém contundente de curadoria é cada vez mais sentida: na arte e na web, sim, mas também no varejo e na indústria, na comunicação e nas mídias, até na política e nas finanças.

É uma maneira de transformar posturas arraigadas na produção e na criatividade para chegar a um futuro mais sustentável. É o novo itinerário para alcançar áreas de valor mais elevado. É algo que deixou de ser secundário para se tornar um material de primeira. Uma resposta ao “excesso” que nos diz não apenas para parar, não apenas para esperar uma solução mágica, mas para tornar a triagem valiosa em si mesma.

Há uma nova geração de curadores e engenheiros da web resolvendo os problemas da sobrecarga de informação. Em vez de apenas lançar mais produtos, as indústrias criativas maduras tornam-se mais seletivas em sua estratégia de crescimento. As empresas de varejo percebem que seu valor está na curadoria, não no estoque e na variação. Os consumidores não aceitam cegamente tudo o que lhes oferecem. Eles querem ser curadores das suas vidas. Sem perceber, construímos uma ampla economia de serviços e finanças baseada nesse princípio. Bancos estão voltando a ser curadores do nosso dinheiro, e não meros apostadores.

Tudo isso acontece em meio a uma série de transformações sociais, comerciais, econômicas e culturais que um analista batizou de “a Grande Disrupção”. Entre elas está o advento de uma nova era pós-digital de abundância de informação, conectividade difusa e indefinição entre ambientes off-line e on-line; o deslocamento substancial de nossa cultura, negócios e relações rumo a esse novo ambiente; os padrões mutáveis de produção e distribuição; as novas economias centradas em experiências, artigos de luxo e serviços de alto nível; e, acima de tudo, o anseio pela simplicidade. Já ouvimos falar tanto dessas coisas que viraram clichê, mas isso não significa que não sejam verdadeiras.

A curadoria, o fazer menos e aparar os excessos, funciona porque acompanha tendências maiores na economia e afirma que as forças do mercado vão impulsioná-las. Durante centenas de anos fomos condicionados a dar prioridade a atividades e negócios que criam mais coisas. Se antes os negócios queriam mais, agora eles deveriam querer o melhor. A abundância era a meta, agora é um problema a ser resolvido. Quando os problemas mudam, nós também temos que mudar.

E estamos mudando. Muitas atividades comerciais, de bares a bancos, já embarcaram no negócio do fazer menos. Mas é apenas o começo. Resolvemos o problema da insuficiência apenas para descobrir que ele foi substituído pela abundância. Por isso, teremos que ser curadores mais efetivos. Para prosperar, teremos que começar a apreciar o valor do menos, da simplicidade num mundo complexo. Se bem entendida e devidamente utilizada, a curadoria pode ser um princípio essencial nas próximas décadas. Ela permitirá que organizações descubram reservas de valor que nem sabiam que tinham, em mercados saturados e num clima de concorrência feroz.

Michael Bhaskar é escritor, pesquisador e produtor de conteúdo digital. É cofundador da Canelo Digital Publishing. Michael já escreveu e palestrou sobre o futuro das mídias, as indústrias criativas e a economia do mundo tecnológico em jornais, revistas e blogs. Suas matérias tiveram destaque no The Guardian, Financial Times, Wired e Daily Telegraph, entre outros veículos. É formado em literatura inglesa pela Universidade de Oxford, onde venceu o Prêmio Gibbs. Foi Jovem Empreendedor Criativo pelo British Council e fellow da Feira do Livro de Frankfurt. Também é autor de “The Content Machine” e coeditor de um livro sobre o mercado editorial, no prelo. Seu endereço no Twitter é @michaelbhaskar.

Capa do livro Curadoria, composta por uma grade de retângulos brancos sobre um fundo azul

Curadoria: o poder da seleção no mundo do excesso

Michael Bhaskar

Trad. Érico Assis

Edições Sesc

320 páginas

Lançamento em maio de 2020

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