‘Humor’: dissecando as origens e os significados do riso


O ‘Nexo’ publica trecho de livro do crítico literário e filósofo inglês Terry Eagleton. Misturando referências teóricas e exemplos de piadas, o ensaio propõe uma investigação sobre a natureza do humor: o que nos faz rir, os diferentes tipos de riso, o caráter subversivo — ou apaziguador — da comédia. E as implicações de tudo isso para a psicanálise e a sociedade

Seria possível desenvolver uma semiótica do riso ou do sorriso, demonstrando como cada gênero de riso ou estilo de expressão facial tem lugar em um complexo sistema significante. É possível, em suma, tratar o riso como texto ou como língua com muitos sotaques regionais. Ingleses de classe alta, por exemplo, tendem mais a zurrar de rir que inglesas de classe média, mais dadas ao risinho tilintante. Há um estilo de riso em Belize que é improvável que se ouça em Belgravia. Generais tendem a não dar risadinhas nem papas a explodir em gargalhadas cacarejadas. Aqueles que se vestem de Papai Noel podem ter sorrisos amplos e radiantes, mas é desaconselhável que o façam de modo sarcástico. É difícil imaginar Arnold Schwarzenegger dando um sorrisinho afetado, embora seja bastante fácil visualizá-lo com um sorriso desdenhoso. O presidente do Banco Mundial pode rir com vontade, mas não histericamente.

A habilidade de avaliar tais modos e tons pertence ao que Aristóteles chamou de frônese, ou seja, nosso know-how prático, como saber quando o humor é apropriado ou não. Por exemplo, não devemos contar a piada sobre “O que é preto e branco e está de costas na sarjeta? Uma freira morta” para uma freira idosa rezando em uma catedral, como fez um de meus filhos quando tinha 5 anos.

Eis outro exemplo de humor inapropriado:

Médico: Eu tenho uma boa notícia e uma má notícia.

Paciente: Primeiro a má notícia.

Médico: A má notícia é que você só tem três meses de vida.

Paciente: E a boa notícia?

Médico: A boa notícia é que estou indo para Mônaco com uma mulher incrivelmente bonita.

Sorrimos aqui por causa da discrepância entre a maneira brutalmente jocosa ou monstruosamente insensível pela qual o médico agiu e a maneira pela qual deveria agir, uma tensão que é apimentada por um toque de agradável sadismo de nossa parte à custa do desafortunado paciente. Ficamos satisfeitos com a imensa audácia do médico, seu deslavado descaso pela compaixão humana e pelo decoro profissional, o que nos permite satisfazer indiretamente nosso próprio e ilícito anseio de nos livrarmos de tais aborrecidas responsabilidades. Somos libertados, por alguns momentos, do fardo inconveniente da compaixão. O humor negro desse tipo alivia a culpa que podemos sentir por nosso deleite com os problemas alheios ao socializar esse deleite, fazendo com que assuma a forma de uma piada que partilhamos com nossos amigos e que, desse modo, se torna mais aceitável.

Também há algo de prazeroso no ato de rir da morte e, assim, ser capaz de brincar com nossa própria mortalidade. Pois fazer piadas a respeito da morte é reduzir sua importância e diminuir seu terrível poder sobre nós, como em outra piada de médico:

Paciente: Quanto tempo de vida eu tenho?

Médico: Dez.

Paciente: Dez o quê? Anos? Meses? Semanas?

Médico: Não, não. Dez, nove, oito, sete...

Confrontar nossa própria extinção de forma fictícia significa que o ego pode transcendê-la de maneira monumental, obtendo um breve gostinho de imortalidade. Isso lembra a vitória simbólica sobre a morte do avô de Woody Allen, que, como relatou de modo comovente seu neto, vendeu-lhe um relógio no leito de morte. O riso compensa um pouco nossa mortalidade, assim como nossas enfermidades de modo geral. De fato, Friedrich Nietzsche observou que o animal humano é o único que ri porque sofre terrivelmente e precisa imaginar esse desesperado paliativo para suas aflições. Mas o humor mórbido envolve mais que a negação da morte. Reduzir a morte com uma tirada casual é também soltar os cachorros contra ela pela inquietação que nos causa.

Há também a questão de nosso desejo inconsciente por aquilo que tememos. O que Freud chamou de tânato ou pulsão de morte pulveriza significado e valor e, desse modo, nos liga ao transtorno passageiro do juízo que conhecemos como humor. Como o humor, essa força dionisíaca embaralha os sentidos, confunde hierarquias, funde identidades, desfoca distinções e revela o colapso do significado — e é por isso que o carnaval, que também faz tudo isso, acontece não muito longe do cemitério. Ao remover a base de todas as distinções sociais, o carnaval afirma a absoluta igualdade de todas as coisas, mas, ao fazê-lo, aproxima-se perigosamente da visão excremental, reduzindo tudo à mesmice da merda. Se os corpos são intercambiáveis em uma orgia, também o são nas câmaras de gás. Nivelamento pela morte, poderíamos dizer. Dionísio é o deus da folia embriagada e do êxtase sexual, mas também precursor da morte e da destruição. A jouissance que ele promete pode se provar letal.

A piada do médico, então, nos concede um alívio momentâneo da necessidade de nos comportarmos com decoro e tratarmos os outros com consideração. Durante breves instantes, ela também permite que deixemos de nos angustiar com a perspectiva da morte. A noção de humor como forma de alívio constitui a base de uma visão extremamente influente chamada de teoria do alívio. O conde de Shaftesbury, um filósofo do século 17, via a comédia como liberação de nosso espírito constrito, mas naturalmente livre, ao passo que Immanuel Kant, em sua “Crítica da faculdade do juízo”, falou do riso como “efeito resultante da súbita transformação de uma elevada expectativa em nada”, o que combina a teoria de alívio com o conceito de incongruidade. Fiel a essa abordagem, o filósofo vitoriano Herbert Spencer afirmou que “a hilaridade é causada pela golfada de sentimento prazeroso que se segue ao fim de uma tensão mental desprazerosa”.

Em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, Sigmund Freud argumentou que os chistes representam uma liberação da energia psíquica que normalmente investimos na manutenção de certas inibições socialmente essenciais. Ao relaxarmos tal repressão superegoica, poupamos o esforço inconsciente que ela demanda e o gastamos na forma de piadas e risos. Trata-se de uma economia do humor, digamos assim. Nessa visão, a piada é um tabefe insolente no superego. Exultamos com essas escaramuças edipianas, mas a consciência e a racionalidade também são faculdades que respeitamos, de modo que há tensão entre ser responsável e passar dos limites. Em “Cursos de estética”, Hegel falou do absurdo como resultado da colisão entre um impulso sensual incontrolável e nosso alto senso de dever. É um conflito refletido em gargalhadas escandalosas, que, como já comentamos, podem ser tão alarmantes quanto prazerosas. Talvez a maioria das piadas revele um murmúrio inquieto de riso frente à perspectiva de rebaixar o Pai. Com medo de sermos punidos por tal insolência, nosso deleite em ver o patriarca destronado é pontuado por risadinhas nervosas de culpa, o que nos leva a rir ainda mais como defesa contra essa inquietação. Nosso riso é tenso porque tanto nos regozijamos com esse prazer ilícito quanto tememos suas consequências. É por isso que estremecemos ao mesmo tempo que rimos. A culpa, todavia, adiciona certo tempero ao nosso prazer. De todo modo, sabemos que essa conquista é totalmente provisória — e também uma vitória nominal, pois uma piada, afinal, é apenas uma forma de linguagem. Como consequência, podemos satisfazer nossa iconoclastia e, ao mesmo tempo, mitigar nossa culpa por ela, seguros na crença de que o Pai (uma figura que, no fim das contas, amamos tanto quanto odiamos) não será permanentemente prejudicado por essa pequena insurreição. Sua abjeta perda de autoridade é puramente temporária. O mesmo se dá com a revolução fantasiosa do carnaval, no qual, após a diversão, o sol nascerá sobre milhares de garrafas vazias de bebida alcoólica, comidas semiconsumidas e virgindades perdidas, e a vida cotidiana será retomada, não sem certa ambígua sensação de alívio. Ou pense na comédia de teatro, na qual a plateia jamais duvida de que a ordem tão deliciosamente perturbada será restaurada, e talvez mesmo reforçada, por aquela transitória tentativa de desconsiderá-la, de modo que podemos misturar a seus prazeres anárquicos certa dose de autossatisfação conservadora. Como em “O alquimista”, de Ben Jonson; “Mansfield Park”, de Jane Austen; ou “O gato do chapéu”, do Dr. Seuss, podemos causar algum caos gloriosamente irresponsável enquanto a figura parental está ausente, mas ficaríamos devastados se essa figura jamais retornasse.

Freud argumentou que, nas piadas mais inócuas, o humor surge da liberação do impulso reprimido, ao passo que, nas obscenas ou abusivas, surge do relaxamento da própria repressão. Piadas blasfemas também permitem relaxar tais inibições, como naquela em que o papa e Bill Clinton morreram no mesmo dia. Por algum erro burocrático, Clinton foi despachado para o paraíso e o papa, para o inferno. Mas o erro foi rapidamente corrigido e os dois homens conseguiram ter uma breve conversa quando se cruzaram rumando em direções opostas, com o papa comentando como estava ansioso para conhecer a Virgem Maria e Clinton informando que agora era tarde.

Na visão de Freud, a própria forma prazerosa da piada (trocadilho, nonsense, associação absurda e assim por diante) pode levar o superego a relaxar a vigilância por um momento, o que dá ao anárquico id a oportunidade de empurrar o sentimento censurado para a frente. O “pré-prazer” da forma verbal da piada, como Freud o chamou, diminui nossas inibições e nos faz relaxar. Ao fazer isso, nos leva a aceitar o conteúdo sexual ou agressivo da piada, o que, de outro modo, poderíamos não estar prontos para fazer. Rir, nesse sentido, é uma falha da repressão; e, todavia, achamos engraçado porque reconhecemos a força da inibição no próprio ato de violá-la, de modo que, como indicou Sándor Ferenczi, um indivíduo totalmente virtuoso e um indivíduo totalmente vil não ririam. O primeiro não abrigaria sentimentos infames, para começar, e o segundo não reconheceria a força da proibição e, portanto, não sentiria nenhuma excitação em transgredi-la. Como disse Freud, podemos ser menos morais do que gostaríamos, mas também somos mais morais do que imaginamos. Para a teoria do alívio, a piada, assim como o sintoma neurótico, é uma formação de compromisso, incorporando tanto o ato da repressão quanto o instinto sendo reprimido.

Assim, para Freud, a piada é uma desgarrada que serve a dois mestres ao mesmo tempo. Ela deve se curvar à autoridade do superego enquanto promove assiduamente os interesses do id. Na pequena insurreição do gracejo, podemos colher os prazeres da rebelião e simultaneamente negá-los, uma vez que, afinal, trata-se apenas de uma piada. Como Olívia comenta em “Noite de Reis”, não há dano em um Bobo autorizado. Ao contrário, o bufão licenciado que ignora as convenções sociais é, em si mesmo, uma figura totalmente convencional. De fato, sua irreverência pode terminar reforçando as normas sociais ao demonstrar quão notavelmente resilientes elas são, quão bem-humoradamente capazes de sobreviver a qualquer quantidade de zombaria. A ordem social mais durável é aquela segura o bastante para não apenas tolerar os desvios, mas encorajá-los ativamente.

Terry Eagleton é filósofo, professor e um dos maiores nomes em crítica literária do mundo. Leciona literatura na Universidade de Lancaster, onde é professor emérito, e é autor de mais de cinquenta livros sobre teoria literária, pós-modernismo, política, ideologia e religião, entre eles o best-seller “Teoria da literatura: uma introdução”, “O problema dos desconhecidos: um estudo da ética”, “Depois da teoria: um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo” (os dois últimos pela Civilização Brasileira) e “A morte de Deus na cultura”.

Capa do livro "Humor" de Terry Eagleton, com a ilustração de uma galinha atravessando a rua

Humor: o papel fundamental do riso na cultura

Terry Eagleton

Trad. Alessandra Bonrruquer

Editora Record

154 páginas

Lançamento em 4 de maio

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