‘A cruel pedagogia do vírus’: ensinamentos da pandemia


O ‘Nexo’ publica trecho de livro do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. O ensaio faz parte da série Pandemia Capital, organizada pela editora Boitempo, que conta com publicações curtas de pensadores e ativistas sobre a crise do novo coronavírus. O capítulo abaixo discute quais os grupos vulnerabilizados em tempos de distanciamento social

A sul da quarentena

Qualquer quarentena é sempre discriminatória, mais difícil para uns grupos sociais do que para outros. É impossível para um vasto grupo de cuidadores cuja missão é tornar possível a quarentena ao conjunto da população. Neste texto, porém, analiso outros grupos para os quais a quarentena é particularmente difícil. São os grupos que têm em comum alguma vulnerabilidade especial que precede a quarentena e se agrava com ela. Tais grupos compõem o que chamo de sul. Na minha concepção, o sul não designa um espaço geográfico. Designa um espaço-tempo político, social e cultural. É a metáfora do sofrimento humano injusto causado pela exploração capitalista, pela discriminação racial e pela discriminação sexual. Proponho-me analisar a quarentena a partir da perspectiva daqueles e daquelas que mais têm sofrido com essas formas de dominação. E imaginar, também da sua perspectiva, as mudanças sociais que se impõem depois do término da quarentena. São muitos esses coletivos sociais. Seleciono uns poucos.

As mulheres. A quarentena será particularmente difícil para as mulheres e, em alguns casos, pode mesmo ser perigosa. As mulheres são consideradas “as cuidadoras do mundo”, dominam na prestação de cuidados dentro e fora das famílias. Dominam em profissões como enfermagem ou assistência social, que estarão na linha da frente da prestação de cuidados a doentes e idosos dentro e fora das instituições. Para garantir a quarentena dos outros, não podem observar a sua própria. São elas também que continuam a ter a seu cargo, exclusiva ou majoritariamente, o cuidado das famílias. Postas em quarentena, poderia imaginar-se que havendo mais braços em casa as tarefas poderiam ser mais distribuídas. Suspeito que assim não será, em face do machismo que impera e quiçá se reforça em momentos de crise e de confinamento familiar. O aumento do número de divórcios em algumas cidades chinesas durante a quarentena pode ser um indicador do que acabo de dizer. Por outro lado, é sabido que a violência contra as mulheres tende a aumentar em tempos de guerra e de crise – e tem aumentado agora. Uma boa parte dessa violência ocorre no espaço doméstico. O confinamento das famílias em espaços exíguos e sem saída pode oferecer mais oportunidades para o exercício da violência contra as mulheres. O jornal francês Le Figaro noticiava em 26 de março, com base em informações do Ministério do Interior, que a violência conjugal tinha aumentado 36% em Paris na semana anterior.

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