‘A casa na Rua Mango’: vida de menina, mexicana, americana


O ‘Nexo’ publica trecho do livro clássico da autora Sandra Cisneros, um romance de formação que narra um ano na vida de Esperanza, pré-adolescente de uma família de mexicanos-americanos. O texto é estruturado em pequenos episódios que capturam a relação da protagonista com suas raízes latinas, os problemas de sua comunidade e o início da puberdade

A casa na Rua Mango

Nós não moramos desde sempre na Rua Mango. Antes disso, nós moramos na Loomis, no terceiro andar e, antes disso, nós moramos na Keeler. Antes da Keeler foi na Paulina e, antes disso eu não me lembro. Mas o que eu lembro mais é de nos mudarmos um monte. A cada vez parecia que surgia mais um de nós. Quando chegamos na Rua Mango, éramos seis – a Mãe, o Pai, o Carlos, o Kiki, minha irmã Nenny e eu.

A casa na Rua Mango é nossa e não temos que pagar aluguel para ninguém nem dividir o pátio com as pessoas do andar de baixo nem sermos cuidadosos para não fazer muito barulho e não tem um proprietário batendo no teto com uma vassoura. Mas mesmo assim, não é a casa que nós pensávamos que conseguiríamos.

Nós tivemos que sair ligeiro do apartamento na Loomis. Os canos de água quebraram e o proprietário não os consertava porque a casa era velha demais. Nós tivemos que sair rápido. Estávamos usando o lavabo do apartamento vizinho e levando água em galões de leite vazios. Por isso a Mãe e o Pai procuraram uma casa e é por isso que nos mudamos pra casa da Rua Mango, longe dali, do outro lado da cidade.

Eles sempre nos disseram que um dia nos mudaríamos para uma casa, uma casa de verdade que fosse nossa para sempre e desse jeito não teríamos que nos mudar todos os anos. E nossa casa teria água corrente e canos funcionando. E dentro teria uma escada de verdade, não na entrada do prédio, mas dentro, como as casas na tevê. E nós teríamos um porão e pelo menos três banheiros, desse jeito quando nós tomássemos banho, não teríamos que avisar todo o mundo. Nossa casa seria branca com árvores ao redor, um jardim grande e grama crescendo sem cerca. Era sobre essa casa que o Pai falava quando segurava um bilhete de loteria e era essa a casa com a qual a Mãe sonhava nas histórias que ela contava pra gente antes de irmos pra cama.

Mas a casa na Rua Mango não é do jeito que eles disseram, não mesmo. Ela é pequena e vermelha com degraus apertados na frente e janelas tão pequenas que você poderia pensar que elas estão segurando a respiração. Os tijolos se esfarelam em alguns lugares, e a porta da frente está tão inchada que você tem que empurrar com força para entrar. Não tem pátio, só quatro pequenos olmos que a prefeitura plantou perto da sarjeta. Atrás tem uma garagem pro carro que não possuímos ainda e um pequeno pátio que parece bem menor entre os dois prédios de cada lado. Tem escadas na nossa casa, mas são escadas comuns, e a casa tem só um banheiro. Todo mundo tem que dividir quartos – a Mãe e o Pai, o Carlos e o Kiki, e a Nenny e eu.

Quando morávamos na Loomis, uma freira da escola passou e me viu brincando lá na frente. A lavanderia no andar de baixo tinha sido coberta com tapumes porque havia sido roubada dois dias antes e o dono tinha pintado na madeira SIM ESTAMOS ABERTOS para não perderem clientes.

Onde você mora? ela perguntou.

Ali, eu disse apontando pro terceiro andar.

Você mora ali?

Ali. Eu tive que olhar para onde ela apontava – o terceiro andar, a pintura descascando, tábuas de madeira que o Pai tinha pregado nas janelas para que nós não caíssemos. Você mora ali? O jeito que ela disse fez eu me sentir como se eu fosse nada. Ali. Eu morava ali. Acenei com a cabeça.

Foi então que eu soube que eu tinha que ter uma casa. Uma casa de verdade. Uma pra qual eu pudesse apontar. Mas não é essa. A casa na Rua Mango não é isso. Por enquanto, a Mãe diz. Temporário, o Pai diz. Mas eu sei como são essas coisas.

Cabelos

Todo mundo na nossa família tem o cabelo diferente. O cabelo do meu Pai parece uma vassoura, todo em pé. E eu, meu cabelo é preguiçoso. Ele nunca obedece prendedores de cabelo ou faixas. O cabelo do Carlos é grosso e liso. Ele não precisa pentear. O cabelo da Nenny é escorregadio de liso – escorre das mãos. E o Kiki, que é o mais novo, tem o cabelo que parece pelo.

Mas o cabelo da minha Mãe, o cabelo da minha Mãe é como pequenas rosetas, como doces espiralados, todo encaracolado e lindo porque ela o prende em rolinhos o dia inteiro, é doce pôr o nariz dentro quando ela te abraça, quando ela te abraça e você se sente segura, é o cheiro quente de pão antes de assar, é o cheiro de quando ela dá espaço para você no lado dela na cama ainda quente da sua pele, e você dorme por ali, com a chuva lá fora caindo e o Pai roncando. O ronco, a chuva e o cabelo da mãe que cheira a pão.

Meninos & meninas

Os meninos e as meninas vivem em mundos separados. Os meninos no seu universo e nós dentro do nosso. Meus irmãos, por exemplo. Eles têm muito a dizer para mim e a Nenny dentro de casa. Mas fora, eles não podem ser vistos conversando com meninas. Carlos e Kiki são melhores amigos um do outro... não nossos.

Nenny é nova demais para ser minha amiga. Ela é só a minha irmã e não é minha culpa. A gente não escolhe as irmãs, a gente só as ganha e às vezes elas vêm como a Nenny.

Ela não pode brincar com aqueles filhos dos Vargas senão ela vai ficar como eles. E já que ela veio logo depois de mim, ela é minha responsabilidade.

Um dia eu vou ter uma melhor amiga só minha. Uma para quem eu possa contar meus segredos. Uma que vai entender as minhas piadas sem eu ter que explicá-las. Até lá eu sou um balão vermelho, um balão preso a uma âncora.

Meu nome

Em inglês, meu nome significa esperança. Em espanhol, significa muitas letras. Significa tristeza, significa espera. É como o número nove. Uma cor de barro. São os discos mexicanos que meu pai ouve aos domingos quando ele está se barbeando, músicas de chorar.

Foi o nome da minha bisavó e agora é o meu. Ela era uma mulher de cavalo, também, como eu nascida no ano chinês do cavalo — o que supostamente é má sorte se você nasce mulher —, mas eu acho que isso é uma mentira dos chineses, que, como os mexicanos, não querem que suas mulheres sejam fortes.

Minha bisavó. Eu queria ter conhecido ela, um cavalo selvagem de mulher, tão selvagem que não se casou. Até que meu bisavô jogou um saco na cabeça dela e a levou. Bem assim, como se ela fosse um lustre caro. Foi assim que ele fez.

E a história diz que ela nunca o perdoou. Ela olhou pela janela a vida toda, do jeito que tantas mulheres apoiam suas tristezas em um cotovelo. Eu fico pensando se ela fez o melhor com o que recebeu ou se ela lamentava por não ter conseguido ser todas as coisas que queria ser. Esperanza. Eu herdei o nome dela, mas eu não quero herdar seu lugar na janela.

Na escola, eles falam meu nome de um jeito engraçado, como se as sílabas fossem feitas de lata e machucassem o céu da boca. Mas, em espanhol, meu nome é feito de algo tão mais macio, como prata, não tão grosso quanto o nome da minha irmã — Magdalena —, que é mais feio do que o meu. Magdalena que ao menos pode chegar em casa e ser a Nenny. Mas eu sou sempre a Esperanza.

Eu gostaria de me batizar com um nome novo, um nome que combine mais com a verdadeira eu, aquela que ninguém vê. Esperanza como Lisandra ou Martiza ou Zeze X. Sim. Algo como Zeze X dá para o gasto.

Sandra Cisneros nasceu em 1954, em Chicago, e cresceu entre o México e os Estados Unidos. Com talento para a escrita desde muito cedo, fez faculdade de artes e cursou o célebre programa de escrita criativa na Universidade de Iowa, onde percebeu que seu meio social e cultural poderiam servir de inspiração para a sua literatura. Retratando a vizinhança, as pessoas e a pobreza que conheceu, Sandra escreveu mais de uma dúzia de livros, com destaque para “A casa na Rua Mango”, que vendeu mais de seis milhões de exemplares e foi traduzido para mais de vinte idiomas.

Capa do livro "A casa na Rua Mango", com uma ilustração colorida de uma menina olhando para fora da janela

A casa na Rua Mango

Sandra Cisneros

Trad. Natalia Borges Polesso

Dublinense

144 páginas

Lançamento em 15 de abril

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