‘Instruções para montar mapas’: as cicatrizes de Buenos Aires


O ‘Nexo’ publica trecho de um registro de Buenos Aires que não passa pelos pontos turísticos da cidade. A autora mineira Flávia Péret morou na capital argentina por um ano e narra, em pequenas crônicas e contos, a realidade dos bairros de trabalhadores e as marcas profundas deixadas pela ditadura militar no país

É isso um homem?

Em 24 de março de 1976, instaurou-se no país o que o escritor Rodolfo Walsh qualificou como o terror mais profundo que a sociedade argentina conheceu. Durante oito anos, uma junta militar aliada a instituições internacionais e grupos econômicos contrários ao intenso movimento de organização popular que emergia na Argentina, assim como aconteceu alguns anos antes em outros países da América Latina, implementou um regime de violência que tinha no tripé sequestro–tortura–desaparecimento sua principal forma de organização. De 1976 a 1983, existiram na Argentina cerca de 500 centros clandestinos de detenção que eram os dispositivos do Estado para executar sua política de extermínio. A ESMA (Escola de Mecânica da Armada) tinha uma particularidade. No prédio, foi montada uma pequena “maternidade” onde nasceram pelo menos 34 bebês, filhos de mulheres presas e, posteriormente, mortas. A maioria desses recém-nascidos foi sequestrada de suas famílias. De todas as práticas de violência implementadas pelo regime militar argentino, a mais abjeta foi a tortura de crianças na presença das suas mães.

Arquiteturas coletivas

Os operários que trabalhavam nas redondezas da estação de trens do Retiro não tinham dinheiro para o aluguel, muito menos para comprar um terreno ou uma casa em algum bairro afastado. Os primeiros barracos foram construídos na década de 1930. Eram construções simples, feitas de madeira e sucata. Os homens catavam o material durante o dia e erguiam suas casas nos fins de semana, coletivamente. Alguém emprestava uma ferramenta, outro tinha conhecimento em marcenaria, e juntos construíram uma das maiores favelas de Buenos Aires – Villa 31, localizada em uma região altamente valorizada pelo mercado imobiliário, ao lado do requintado bairro da Recoleta.

A Villa 31 já teve inúmeros nomes e inúmeras são as nacionalidades que atualmente vivem lá, paraguaios, bolivianos, peruanos e argentinos das províncias do Norte, estrangeiros neste país chamado Buenos Aires. Com o tempo, algumas famílias conseguiram construir casas melhores: dois pavimentos, reboco e pintura nas paredes. Os jornais começaram a informar que a arquitetura evoluiu e a especulação imobiliária chegou também às villas miserias. Os jornais sempre se esquecem de informar o essencial: pode ser homem, mulher, velho ou criança, todos servem para o trabalho escravo.

Aguante los pibes

Gustavo, Matías, os homens desconhecidos que tomam cerveja na porta do kiosco que fica em frente a minha casa, mas sobretudo Maradona – Diego Armando, aquele que com ajuda divina fez um dos gols mais importantes da indústria do futebol – são o protótipo daquilo que aprendi a identificar como o macho argentino.

O macho argentino é profundamente machista, profundamente homofóbico, profundamente apaixonado por futebol, profundamente ligado ao corpo e suas marcas. Cicatrizes e tatuagens contam a seguinte história: viver é lutar, sobreviver. O macho argentino não tem a ginga do macho brasileiro, são espécimes, embora hegemônicas em seus respectivos países, completamente diferentes. O macho argentino não coloca sua masculinidade em dúvida ao beijar outro homem na bochecha ou chorar em público. O choro, aliás, é um componente estético dessa subjetividade permeada por uma expressão que Maradona simboliza com precisão: el aguante.

Segundo a mitologia local, esta expressão que vejo pichada por toda a cidade, aguante los pibes, e demorei meses para compreender tem a ver com suportar o insuportável, a derrota moral e a derrota política, mas sobretudo a derrota física, a violência dos campos de futebol, a violência da polícia e do Estado contra os homens trabalhadores pobres das periferias de Buenos Aires, essa espécie que me dá medo, principalmente quando volto sozinha para casa, à noite, mas que também me dá pena.

História oficial 2

Algumas famílias guardam tão bem seus segredos que é como se de fato eles não existissem. Mas não é verdade. Todas as famílias possuem segredos impronunciáveis, sujos, gastos pelo tempo como os gestos que fazemos diariamente, as manias, os tiques, o som de determinadas palavras pronunciadas por um corpo que sente raiva. Alejandro nunca se reconheceu nos olhos da mãe, não identificava nas próprias mãos o desenho das mãos do pai e não havia, em casa, fotografias da época em que era bebê. Isso não era um problema. Às vezes, como muitas pessoas, sentia que não fazia parte daquela família. No entanto, era amado, e este sentimento – o amor – atestava sua filiação.

Quando era adolescente, Alejandro foi a um show de uma banda de rock muito famosa na Argentina. Em um momento do show, o grupo estendeu uma grande faixa branca e nela os seguintes dizeres: “30 mil desaparecidos: Manuel Gonçalves Granada é um deles”. Ao lado do texto, a imagem de uma criança de quatro anos, um menino moreno de cabelos lisos e pretos, olhos muito grandes, também pretos.

Em 1977, um grupo de mulheres, mães que viram seus filhos e netos desaparecerem à luz do dia em várias cidades do país, criaram uma associação para tentar recuperar essas crianças e devolvê-las às suas famílias de origem. Essas mulheres iniciaram uma luta quase impossível: descobrir para onde tinham sido levados seus netos. Algumas crianças foram retiradas dos braços das mães logo após o nascimento, já que muitas mulheres presas deram à luz em salas estrategicamente montadas em alguns dos principais centros de detenção do país. Ao longo dos oito anos de ditadura militar, cerca de 500 centros clandestinos de detenção funcionaram no país. Muitas mulheres, enquanto pariam seus filhos, tinham os braços presos por algemas, eram amordaçadas, os médicos que acompanhavam o procedimento retiravam o filho de dentro da mulher e o entregavam imediatamente a um militar que esperava do lado de fora da cela de parto. Algumas mulheres nunca tiveram o direito de saber se o filho era menino ou menina. Outras crianças, alguns irmãos, foram sequestradas em suas próprias casas, de madrugada, mas também à luz do dia, já que os militares não poupavam esforços para prender, torturar e fazer desaparecer pessoas consideradas inimigas do país.

Mas aquelas avós não desistiam e exigiam informações. Semanalmente, junto com outra associação formada por mulheres – mães de desaparecidos políticos –, marchavam em torno da Casa Rosada exigindo explicações, estabeleceram contato com organizações internacionais de direitos humanos e descobriram, por exemplo, que algumas crianças foram vendidas para famílias europeias; outras estavam mortas, assim como seus pais, e algumas ainda viviam no país. Era preciso encontrá-las, reconhecer a paternidade por meio de exames de DNA e assim iniciar um longo processo judicial de restituição familiar. Ao longo da história da associação criada por essas avós, 125 crianças (hoje adultos) foram encontradas e tiveram suas identidades e histórias de vida restabelecidas.

Alejandro estava feliz naquela noite, realizava um sonho: ver de perto sua banda favorita, Los Pericos. Ao ver a faixa em cima do palco, reconheceu-se imediatamente naquela fotografia.

Flávia Péret é escritora e professora. Mestre em teoria da literatura pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), atualmente realiza doutorado sobre as relações entre escrita, gênero e política na Faculdade de Educação da mesma instituição. Em 2018, recebeu o prêmio Jean-Jacques Rousseau, pela Akademie Schloss Solitude (Alemanha) pelo seu trabalho com a literatura. Há 10 anos desenvolve metodologias e processos formativos no campo da arte-educação. Publicou os livros: “Imprensa gay no Brasil” (2011), “10 poemas de amor e de susto��� (2013), “Outra noite” (2014), “Escrita infinita” (2014), “Novelinha” (2016), “Uma mulher” (2017), “Os patos” (2018) e “Mulher-bomba” (2019).

Capa do livro "Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeças" com uma ilustração simplificada da bandeira do Brasil

Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeças

Flávia Péret

Trad. ao espanhol por Paloma Vidal

Guayabo

208 páginas

Lançamento em abril de 2020

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: