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‘Quando o sangue sobe à cabeça’: irreverência feminina


O ‘Nexo’ publica trecho do primeiro livro de contos de Anna Muylaert, diretora e roteirista de ‘Que horas ela volta?’ (2015), ‘É proibido fumar’ (2009), entre outros filmes. A coletânea reúne seis narrativas protagonizadas por mulheres, que a cineasta escreveu nos anos 1990 como forma de desenvolver sua voz autoral. Leia, abaixo, o conto ‘O segredo de Célia’

A revolução sexual, o advento da pílula e as conquistas feministas dos anos 1960 acabaram proporcionando às jovens solteiras das duas décadas seguintes um tipo de comportamento sexual tão “liberado”, que, nos anos 1950, certamente seria chamado de “libertino”.

— Ridículos!

Iracema mal podia crer que estava ouvindo essas palavras em um seminário de psicologia em plena Universidade de São Paulo.

Apesar de ter pago um bom dinheiro para participar daquele evento, levantou-se resoluta e foi embora.

Quando pôs a chave na porta do carro, ouviu uma voz masculina, que a deteve.

— Cema?

Quando olhou para o lado, Iracema gelou. José Carlos Aguiar, um ex-colega do curso de psicologia, um moreno forte e sorridente com quem ela havia feito sexo descompromissadamente duas ou três vezes durante a faculdade, estava ali à sua frente, esquálido, rouco e opaco. Tinha feridas abertas no rosto e uma calvície lateral característica. Não havia como negar. José Carlos estava morrendo de Aids.

— Se lembra de mim?

— Claro, claro! Mas...

— O Zeca!

— Eu sei... Zeca, não é mesmo? Você!

— Então! Você é a Iracema... Cema? Ceminha?

— Isso!

Iracema não queria continuar a conversa. Disse que estava com pressa, entrou no carro, enfiou a chave no contato e saiu cantando pneus.

— Não acredito! Não acredito!

Na raia olímpica, Iracema quase atropelou dois ciclistas. Na saída da Cidade Universitária, por pouco não bateu em uma Kombi. No cruzamento da Rebouças com a Eusébio Matoso, furou o sinal. Subitamente teve vontade de fumar um cigarro, coisa que não fazia havia dois anos, oito meses e uns dias. Parou num boteco da rua Teodoro Sampaio e comprou logo dois maços, pois sabia que voltaria ao vício.

Que diferença vai fazer um câncer a mais ou a menos?

Embora a personalidade de Iracema fosse um pouco difícil de definir — pois oscilava entre a extrema racionalidade e a mais faminta impulsividade —, havia nela uma característica muito própria, que só os amigos mais íntimos conheciam: quando ficava nervosa, era acometida por áreas vermelhas na região do peito; quando ficava nervosíssima, essa vermelhidão avançava para a zona do pescoço. Por isso, quando entrou em casa, seu marido foi logo perguntando:

— Nossa, o que aconteceu?

— Otávio, fica calmo, fica calmo!

— Eu estou calmo. Quem está nervosa é você!

— Otávio, sabe o Zeca?

— Qual Zeca?

— O Zeca, da faculdade.

— Aquele musculoso que te comeu?

— Exatamente, Otávio.

— Qual é o problema?

— Otávio, eu estou com Aids!

Otávio, que também era psicólogo, tentou — como manda a profissão — manter a calma. Iracema, que a essa altura já tinha mandado o diploma de psicologia às favas, tentou explicar o ocorrido aos trancos e barrancos.

— Otávio, não tem como negar! Só faltou o atestado pendurado no pescoço!

Iracema rodava pela sala, fumando um cigarro atrás do outro.

— Espera aí, Iracema! Não tem como explicar o quê?

— Otávio! Ele está cheio de feridas! Ele está com os cabelinhos ralos, Otávio!

— Ele quem, Iracema? O ZECA?

Assim que Otávio entendeu o porquê da agonia da mulher, calou-se. Iracema, ao perceber que o marido também estava em pânico, passou a tentar amenizar a situação.

— Otávio, tudo bem, tudo bem. Só espero que você não tenha pegado de mim — dizia Iracema, como se a compaixão dela por ele naquela hora pudesse despertar uma súbita compaixão de Jesus Cristo por ela, que a salvasse da doença.

— Iracema, você continuou se encontrando com ele depois da faculdade?

— É claro que não, Otávio!

Em silêncio, e com a cabeça girando na velocidade da luz, o marido calculou que Iracema devia ter feito sexo com o Zeca havia pelo menos dez anos e que talvez ele só tivesse se infectado depois disso. Como

Iracema estava à beira de um colapso — e ele mesmo começava a entrar em um, o que não ficava bem para um psicólogo, nem mesmo diante da morte, catou a mulher e foi direto para o laboratório Fleury.

— Teste anti-HIV, por favor. Particular mesmo, sem convênio. Passa no crédito?

Nos dois dias em que esperou pela chegada do exame, Iracema escreveu um romance que contava a história de Célia, uma dessas mulheres antigas, que, apesar de fiel, pegava sífilis do marido e morria, sem nunca ter conhecido o orgasmo. Imaginou e descreveu como era o casamento de Célia, a casa de Célia, o marido de Célia, os filhos de Célia, as amantes do marido de Célia e, ao final das duzentas páginas que redigiu como uma louca durante dois dias e duas noites, Iracema percebeu que estava contando sua própria história.

— Dona Mercedez, eu vou morrer. E, antes de morrer, eu preciso ter um orgasmo.

— Mas, Iracema, você me dizia que tinha orgasmos eventuais.

— Eu mentia, Mercedez.

— Mas para mim?

— Dona Mercedez, eu pago a senhora para ouvir o que eu quiser que a senhora ouça. Mulher fria é coisa feia. Mas agora eu vou morrer mesmo, e a senhora é minha última esperança!

— Como assim, Iracema?

— A senhora TEM de descobrir o trauma que me fez ficar frígida!

— Espera um pouco, Iracema. Você também é terapeuta e sabe que as coisas não são assim. Fique calma.

— FIQUE CALMA?

— Bem, Iracema, a sessão acabou.

— Eu quero que a senhora vá para a puta que a pariu!

E assim Iracema resolveu largar a análise que fazia havia doze anos, logo após revelar que nunca tinha conseguido obter um único orgasmo.

— Tudo bem, Iracema, com homem é difícil, eu sei. Principalmente com o marido, mas você não consegue nem, digamos assim, se masturbando? — perguntou Hortaliça, a sua amiga seguidora do movimento Rajneesh, entendida em massagens e técnicas tântricas.

— Quer saber, Hortaliça? Nem assim, me masturbando.

— Mas como assim? Você se masturba?

— Ã-hã.

— E quando você para?

— Quando canso.

— Mas como assim, Iracema? Então você se masturba pra quê?

— Pra ficar com tesão, ora!

Inexplicável. Iracema era uma psicóloga com consultório montado, vinte e três clientes fixos, fora os eventuais. Casamento constituído, belo corpo, casa decorada, possuidora de um aparelho de som, um videocassete, uma filmadora Canon, uma câmera Nikon, assinante da Folha, da Veja e da TVA, enfim, com a vida arrumada. E quem diria que ela, um poço de virtude, nunca tinha tido um orgasmo? Certamente o marido não diria.

— Otávio, sinto te informar.

— O quê? Você já foi buscar o exame?

— Não, muito pior.

— O quê, fala?

— Eu sou fria.

Otávio, que achava que a mulher era um verdadeiro churrasco — e esse era um dos maiores motivos pelos quais ele quis se casar com ela —, perguntou:

— Fria? Desde quando?

— Como desde quando? Mulher fria é mulher fria. Sou fria desde sempre.

Iracema tinha trepado exatamente com trinta e dois homens. Desde o colegial vinha experimentando arquitetos, jornalistas, músicos, dentistas. De quase todos, ela guardou boas lembranças, mas orgasmo não teve com nenhum.

— Então você fingia?

— É óbvio que fingia, besta! Só você que não notava.

— Até naquele dia?

— Não se fala mais nisso!

Otávio não só não queria aceitar que a mulher era frígida como não podia acreditar que ele tivesse sido enganado por todo esse tempo e até naquele dia no motel Astúrias, quando ela berrou como uma vaca que sente o cheiro de sangue no matadouro.

— Vê como as formigas são idiotas? Quando ouvem o barulho da chuva, correm como baratas tontas. Somos iguais. Pensamos em tudo na vida, menos que vamos morrer!

Na iminência da morte e da frigidez, o casal de psicólogos achou melhor dormir em quartos separados.

— Sonhe com os anjos.

O casal trocou beijos na testa. Otávio foi para o quarto de casal. Iracema foi para o de hóspedes. Sentada no espaldar da sua velha cama de solteira, Iracema contabilizou toda a sua vida sexual, refletiu sobre ela, lembrou-se de muitas coisas. Fumando um Hollywood atrás do outro, ela riu e chorou pela última vez. No branco descascado das paredes, assistiu àquele filminho da vida inteira, a que os moribundos assistem em câmera rápida.

“Um terreno em Itaipava. Vinte e três clientes. Uma casa no Alto da Lapa. Um romance escrito em dois dias. Um terreno em Itaipava. Vinte e três clientes. Uma casa no Alto da Lapa. Dois artigos na revista Psicologia Atual”...

Otávio, ao contrário, estava tão cansado por todas aquelas revelações, que caiu na cama e dormiu imediatamente. No dia seguinte, levantou-se antes de o despertador tocar e foi direto para o Laboratório Fleury. Abriu primeiro o envelope de Iracema e quase mijou nas próprias calças quando leu o resultado.

“Negativo.”

Ninguém ali tinha Aids, ninguém ali morreria tão cedo. E aquela história do orgasmo?

— Era tudo mentira, meu bem.

— Eu sabia! EU SABIA!

Otávio preferiu acreditar na mulher. Iracema jogou fora o recém-escrito romance “O segredo de Célia” e preferiu continuar fingindo. O Zeca, que Deus o tenha, foi o único a ver a luz da verdade.

17 de janeiro de 1993

Anna Muylaert nasceu em São Paulo em 1964, estudou cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Nas últimas décadas, fez roteiros para televisão e para cinema. Dirigiu e escreveu cinco longas metragens, entre eles “Durval Discos”, “É proibido fumar” e “Que horas ela volta”. Este último, de 2015, foi lançado em 30 países e vencedor do Prêmio Especial do Júri no Sundance Film Festival e do Panorama Audience Award na Berlinale 2015. Anna é membra da Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Escreveu o livro de poemas “Vai!” (Massao Ohno), quatro títulos da Coleção Castelo Rá-Tim-Bum (Cia. das Letrinhas) e livros do Menino Maluquinho, baseados na obra de Ziraldo (Melhoramentos). “Quando o sangue sobe à cabeça” é seu primeiro livro de contos. É mãe de José e Joaquim.

Capa do livro "Quando o sangue sobe à cabeça"; uma sobrecapa com dobras irregulares forma um pôster colorido com detalhes do corpo humano

Quando o sangue sobe à cabeça

Anna Muylaert

Lote 42

136 páginas

Lançamento em 21 de março

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