‘QualityLand’: a humanidade sob controle das máquinas


O ‘Nexo’ publica trecho de uma visão cômica e sombria sobre o futuro da humanidade. Nesta sátira social, a vida foi totalmente automatizada por algoritmos e aplicativos que identificam desejos de seus usuários e tomam as decisões cotidianas. O livro está sendo adaptado para a televisão pela HBO, com produção de Mike Judge (criador de ‘Beavis e Butt-head’, ‘O rei do pedaço’)

Peter Desempregado está de saco cheio.

— Ninguém — ele chama.

— Pois não? — pergunta Ninguém.

— Estou satisfeito.

— Ok — diz Ninguém.

Ninguém é o assistente digital de Peter. Peter foi quem escolheu o nome, pois muitas vezes ele tem a impressão de que ninguém está ao seu lado. Ninguém o ajuda. Ninguém o escuta. Ninguém fala com ele. Ninguém o observa. Ninguém toma decisões por ele. Peter pensa até mesmo que “Ninguém” gosta dele. Peter é um WINNER, pois Ninguém é um assistente WIN. WIN é a abreviação de “What-I-Need”, originalmente um mecanismo de busca, cujas pesquisas eram feitas de maneira incômoda por comando de voz e, antes disso, pelo teclado. No fundo, o WIN ainda é um mecanismo de busca, mas não é preciso mais fazer perguntas. O WIN sabe o que queremos saber. Peter não precisa se esforçar em encontrar informações relevantes. As informações mais relevantes é que se esforçam em encontrar Peter.

Ninguém escolheu o restaurante no qual Peter e seus amigos estão comendo depois de avaliar as preferências de Peter e dos seus amigos. Ninguém também pediu o hambúrguer adequado para Peter. Os guardanapos vêm com o lembrete: “Os melhores hambúrgueres de carne reciclada de QualityCity”. Apesar disso, Peter não gostou. Talvez seja porque o restaurante não tinha de combinar apenas com o gosto de Peter, mas também com sua conta bancária.

— Já está tarde — ele diz para os amigos. — Vou indo, pessoal. A resposta é um murmúrio indefinido.

Peter gosta dos seus amigos. Ninguém os encontrou para ele. Às vezes, porém, sem que saiba o motivo, Peter fica de mau humor quando está com eles. Peter empurra para o lado o prato com mais da metade do seu hambúrguer reciclado e veste a jaqueta. Ninguém pede a conta. Ela chega imediatamente. O garçom é um ser humano e não um androide, como na maioria dos restaurantes. Hoje em dia as máquinas conseguem fazer muita coisa, mas ainda não dão conta de carregar uma xícara de A até B sem derramar uma gota. No mais, os seres humanos são mais baratos. Eles não têm custos de aquisição e de manutenção. E, no ramo da gastronomia, nem o custo do salário, pois trabalham pelas gorjetas. Não se consegue manter um androide só com gorjetas.

— Como o senhor quer pagar? — pergunta o garçom.

— TouchKiss — diz Peter.

— Muito bem — diz o garçom, que mexe na tela do seu QualityPad, e o QualityPad de Peter começa a vibrar.

Desde sua introdução, o TouchKiss rapidamente se consolidou como meio de pagamento. Pesquisadores da QualityCorp, a empresa que melhora sua vida, descobriram que os lábios são mais seguros contra falsificações do que a digital de uma pessoa. Entretanto, críticos afirmam que não é esse o ponto, mas sim que a QualityCorp quer apenas uma maior ligação emocional com o cliente. Caso esse tenha realmente sido seu objetivo, pelo menos com Peter não funcionou. Sem qualquer animação, ele tasca um beijo no seu QualityPad. Com um segundo beijo, ele dá os 32% usuais de gorjeta. Após oito segundos sem utilização, o QualityPad entra em stand-by e a tela fica preta. O reflexo escuro de Peter o encara de maneira idiota. Um rosto branco, comum. Não é feio, mas comum. Tão comum que Peter às vezes tem a impressão de se confundir com outra pessoa. Daí ele acha – como agora – que um estranho o está encarando na tela.

Um carro autônomo, sem motorista, está esperando por ele diante da porta. Ninguém o chamou.

— Olá, Peter — diz o carro. — Você quer ir para casa?

— Sim — responde Peter ao embarcar.

Sem mais perguntas a respeito do caminho ou do endereço, o carro começa a andar. Eles se conhecem. Ou, pelo menos, o carro conhece Peter. O nome do carro aparece para Peter em uma tela. Ele se chama Carl.

— O tempo está bom, não é? — pergunta Carl.

— Desabilitar conversa — diz Peter.

— Então vou tocar para você os maiores sucessos do rock romântico — diz o carro, ligando a música.

Há vinte e três anos, Peter escuta rock romântico. Toda a sua vida.

— Desligue, por favor — ele pede.

— Tudo bem — diz o carro. — Tenho de confessar que seu estilo não é exatamente o meu.

— Ah, não? Do que é então que você gosta? — pergunta Peter.

— Quando rodo sozinho, em geral escuto industrial — diz o carro.

— Coloque isso.

A “música” que logo em seguida ecoa dos alto-falantes combina muito bem com o mau humor de Peter.

— A música está ok — diz ele após um tempo para Carl. — Mas daria para você parar de cantar junto?

— Ah, claro. Naturalmente — diz o carro. — Desculpe. O ritmo me contagiou.

Peter se espreguiça. O carro é espaçoso e confortável. É que Peter paga um plano de mobilidade de uma classe de veículos que, na verdade, é muito caro para ele. Hoje, um dos seus amigos zombou de sua cara ao dizer que ele devia estar passando pela crise da meia-idade. O amigo estava insinuando que Peter havia comprado um carro! Mas apenas os super-ricos, os proletários e os cafetões têm carros. O restante faz uso da gigantesca frota de carros autônomos dos serviços de mobilidade. “O melhor dos carros autônomos”, repetia o pai de Peter, “é não precisar mais procurar por vaga de estacionamento.” Assim que a pessoa chega ao destino, basta descer do veículo. O carro segue e faz o que os carros costumam fazer quando sentem que não estão sendo observados. Provavelmente enchem o tanque em um lugar qualquer.

De repente, Carl aciona o freio. Eles estão junto ao meio-fio, próximos de um grande cruzamento.

— Sinto muito — diz o carro —, mas as novas diretrizes do seguro indicam que seu bairro é muito perigoso para carros autônomos da minha qualidade. O senhor certamente compreenderá que tenho de lhe pedir para descer aqui.

— Ãh? — pergunta Peter, com eloquência.

— O senhor já deveria estar sabendo disso — diz Carl. — Afinal, há 51,2 minutos o senhor recebeu os novos termos de serviço e utilização de seu plano de mobilidade. Não leu o contrato?

Peter não fala nada.

— De todo modo, o senhor concordou — diz o carro. — Mas certamente ficará feliz em saber que, para seu conforto, determinei um ponto-limite que lhe permitirá chegar em casa a pé em apenas 26,5 minutos, com sua velocidade habitual.

— Maravilha — diz Peter. — Uma maravilha.

— Isso foi irônico? — o carro pergunta. — Preciso confessar que ainda tenho problemas com meu detector de ironias.

— Difícil de acreditar.

— O senhor está sendo irônico, não? — o carro pergunta. — E sua alegria há pouco também não foi real, certo? O senhor não está disposto a andar? Se quiser, posso chamar um carro de qualidade inferior que corresponde à nova categoria de seu bairro. Um carro desses chegaria aqui em 6,4 minutos.

— Por que as categorias foram alteradas?

— O senhor não acompanhou nada? — Carl pergunta. — Os assaltos contra carros autônomos aumentaram na sua região. Gangues de jovens desempregados estão se divertindo em hackear os sistemas operacionais de meus colegas. Eles estragam o chip de posicionamento e apagam o sentido de navegação. É terrível. Os pobres coitados ficam dirigindo pelo mundo dia e noite, sem orientação nem rumo, feito uns zumbis. E quando são pegos por acaso, estão destinados ao ferro-velho por causa das leis de consumo. Um destino terrível. O senhor certamente sabe que desde a entrada em vigor das leis de proteção ao consumo, qualquer tipo de reparo é absolutamente proibido.

— Sim, eu sei. Eu dirijo uma pequena prensa de sucata.

— Oh — exclama o carro.

— Oh — exclama Peter.

— Então o senhor certamente compreende a minha situação.

Peter abre a porta sem dizer nada.

— Por favor, faça minha avaliação agora — pede o carro.

Peter desce e bate a porta. O carro ainda se lamenta mais um pouco, porque não foi avaliado, mas por fim entrega os pontos e segue até o próximo passageiro.

Ninguém ajuda Peter a tomar o caminho mais rápido para casa. A casa de Peter é uma pequena e descuidada loja de produtos usados que dispõe de uma prensa de sucata, com a qual ele não apenas trabalha, mas também usa como quarto. Ele assumiu a loja do avô há dois anos e desde então mal conseguiu faturar o suficiente para o aluguel. Quando faltam somente 819,2 metros até sua casa, Ninguém exclama de repente:

— Peter, cuidado. Quatro jovens fichados por violência estão parados no próximo cruzamento. Sugiro um pequeno desvio.

— Talvez os quatro tenham apenas montado uma barraquinha e estejam vendendo limonada caseira — diz Peter.

— Improvável — diz Ninguém. — A probabilidade disso está na casa de…

— Tudo bem — aquiesce Peter. — Me indique o desvio.

Marc-Uwe Kling é um dos autores de maior sucesso na Alemanha. É formado em filosofia e artes cênicas e, além da escrita, se dedica à música e à comédia. Seu romance QualityLand, ganhador do Deutsche Science-Fiction-Prei e traduzido para 24 idiomas, é um fenômeno de vendas na Europa e será adaptado para uma série de TV pela HBO. Atualmente, Kling vive em Berlim.

Capa do livro QualityLand, com uma ilustração no estilo pop art de uma pessoa rasgando o próprio rosto para revelar um robô por baixo

QualityLand

Marc Uwe-Kling

Trad. Claudia Abeling

Tusquets Editores

352 páginas

Lançamento em abril de 2020

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