‘Vamos comprar um poeta’: arte em uma sociedade utilitarista


O ‘Nexo’ publica trecho de um romance que imagina, com boa dose de humor, um mundo materialista onde a mercantilização das expressões artísticas é levada ao extremo. Nessa distopia, artistas são vendidos como animais de estimação, e até trocas de afeto têm valor transacional mensurado. Leia, abaixo, os primeiros capítulos

De que tamanho?

Achei muito estranho que acedessem à minha petição — à petição que irei relatar de seguida —, sem qualquer inquérito por escrito. Não tenho números suficientes para descrever como me senti feliz com a decisão. Nesse dia, à noite, ao jantar, levantei-me e declarei:

Gostava de ter um poeta. Podemos comprar um?

A mãe não disse nada, limitou-se a levantar a louça, quatro pratos de sopa, quatro colheres de sopa e informar os comensais, eu e o pai e o meu irmão, de que a carne seria servida de seguida, dentro de trinta segundos. O pai acabou de mastigar um bocado de pão, cerca de treze gramas, moveu os maxilares cinco vezes e inquiriu:

Porque não um artista?

A mãe disse:

Nem pensar, fazem muita porcaria, a senhora 5638,2 tem um e despende três a quatro horas por dia a limpar a sujidade que ele faz com as tintas naqueles objetos brancos.

Telas.

Isso.

Muito bem, disse o pai, compramos um poeta. De que tamanho?

A escolha de um poeta

No dia da escolha, fomos a uma loja, eu e o pai. O pai não é alto, e eu tampouco, aliás, é por isso que na escola me chamam ordenado mínimo, que é algo que já existiu em tempos, mas que felizmente foi extinto, porque, dizem, era um entrave à competitividade mais elementar.

Na loja havia poetas de muitos tipos, baixos, altos, louros, com óculos (são mais caros), sendo a maior parte, sessenta e dois por cento, carecas, e sessenta e oito por cento de barba.

Gostei de um que era ligeiramente marreco, uma escoliose com uma curvatura oblonga.

Trajava um colete de fazenda, setenta e cinco por cento lã, sendo os restantes vinte e cinco nylon, calças de bombazina castanhas, pantone setecentos e trinta e dois, sapatos de couro já muito usados. Fungava e tinha um livro debaixo do braço. Nenhuma das suas roupas tinha patrocínio de marcas.

O pai cumprimentou o vendedor com a cortesia destas ocasiões, há sempre uma grande solenidade, sacralidade, no ato de iniciar um possível negócio:

Que os números lhe sejam favoráveis, disse ele.

Crescimento e prosperidade, respondeu o vendedor.

O pai apontou para o poeta que fungava e não tinha patrocínio nas roupas e perguntou se aquele exemplar era subversivo, que é a característica mais temida nos poetas, é o equivalente à agressividade dos cães.

O senhor da loja respondeu:

Está abaixo dos dois por cento. É sempre necessário serem um pouco subversivos ou a qualidade poética baixa demasiado e não gera lucro, ninguém compra, acabam preteridos a bailarinos ou hamsters.

O que é que ele come?

Qualquer coisa. Não são muito esquisitos, muitas vezes, três a quatro ocorrências por semana, chegam inclusivamente a esquecer-se de comer. Alguns abandonam a refeição a meio e levantam-se para deambular sem qualquer destino. Acontece muito ao pôr do sol ou ao luar ou com nevoeiro, é um comportamento típico. Não estranhem se os virem parados muito tempo como se estivessem a fazer contas. Não estão, são incapazes da soma mais elementar. Essas paragens são precisamente os momentos em que começam a fazer poemas nas suas cabeças. É um processo fascinante. Não se irão arrepender de comprar um poeta. E são muito mais asseados do que os artistas.

Já tinha ouvido dizer.

Mais alguma coisa que devamos saber sobre a manutenção de um destes exemplares?, inquiri eu.

Para o entreter, compre-lhe cadernos com folhas brancas e canetas. Pode também adquirir alguns livros. Temos de várias marcas.

Fazer a cama

Em casa, o pai ordenou que a mãe fizesse a cama para o poeta.

Onde?, perguntou ela.

Debaixo das escadas, disse o pai, há três metros quadrados. Comprámos um poeta pequeno, caberá aí um divã e uma pequena mesa onde possa realizar as suas atividades diárias.

O meu irmão desceu as escadas, que tinham patrocínio de uma empresa de telecomunicações. Parou, encostado ao corrimão, e olhou para o poeta com um sorriso de escárnio. Abanou a cabeça para os lados, cinco vezes. Queria dizer que eu sou caprichosa e que só me interesso por coisas inúteis com pouco valor no que concerne ao crescimento económico ou com um valor de mercado desprezível.

O poeta olhava para todos os lados. Devia estar feliz, agora tinha um lar.

A mãe fez que sim com a cabeça, inclinando o queixo para baixo e subiu os trinta e três degraus até ao primeiro andar, onde ficavam os quartos.

Voltou com dois lençóis e um cobertor.

Pousou-os no sofá da sala. Abriu o divã e arrastou-o para debaixo das escadas depois de ter limpado os tais dois metros quadrados e meio (o pai exagerou no cálculo do espaço quando disse três).

Fez a cama.

Colocou uma pequena mesa, que servia de apoio ao sofá, especialmente para que o pai pousasse o whisky e este item ali ficasse esquecido meia hora a quarenta e cinco minutos (ou menos) depois de se sentar e começar a beber. Tinha um tampo redondo, vidro temperado, com trinta e sete centímetros de diâmetro. Bonita, diria um poeta.

O que é que ele vai fazer?

O poeta aproximou-se do sofá e passou as mãos pelo tecido.

É um sofá, disse eu, mas ele nem sequer olhou para mim. Não que estivesse à espera, já que os estudos afirmam que os poetas vivem com pouca relação com a realidade e com quem os rodeia, não é que sejam parvos, é mais uma característica, assim como ser muito baixinho, digamos, abaixo de um metro e quarenta, ou ter manchas pretas como as vacas leiteiras que aparecem nas embalagens dos chocolates importados da Suíça ou da Bélgica.

A mãe alisou os lençóis, patrocinados por uma empresa de exportação de frutas e legumes, virou-se uns quarenta e cinco graus, baixou-se um pouco, bateu com a mão direita três vezes na cama enquanto sorria para o poeta. Aquele gesto significava: vá, deite-se.

O poeta aproximou-se lentamente.

Os olhos brilhavam.

Não sei se eram lágrimas.

Sentou-se na cama.

Ficámos parados a ver.

O poeta descalçou-se.

A mãe torcia as mãos à frente do avental.

O poeta deitou-se de costas e levou as mãos ao interior do casaco.

Tirou um livro.

Por Mamon, o que é que ele vai fazer?, perguntou o meu irmão, alarmado.

Vai ler, respondi eu.

Na escola

Na escola, quando disse às minhas colegas que tinha recentemente adquirido um poeta, houve alguma inveja desta minha propriedade tão exótica. A NM 792 comentou:

Os poetas nem sequer têm noção da mais elementar pirâmide das necessidades.

Como assim?, perguntei.

Acham que comer vegetais, cereais e laticínios, por exemplo, é mais importante do que simplesmente consumir produtos amorfos e fazer circular a economia.

Isso não é verdade, disse eu.

Discutimos com intensidade e quase cancelámos quaisquer transferências de afetos que pudéssemos ter uma pela outra. A NM 792 chegou a acusar-me de inutilista, que é o que o meu irmão acha de mim, de forma injusta, já que não sou nada disso. Gostava de ter um poeta, e depois? Há muitos estudos que afirmam que ter um artista, um bailarino, um ator, ou mesmo um poeta, ajuda a combater o stress, a baixar o colesterol mau, o que nos torna cidad��os e profissionais mais produtivos, concentrados e eficazes.

Ora bem, nada mais útil do que isso.

Amanhã, pensei, esfrego-lhe estes estudos na cara.

Evidentemente que, quando cheguei a casa, fui tirar o caso a limpo, havia que inquirir o poeta sobre a questão da pirâmide das necessidades. O poeta deambulava (acho que é assim que os poetas andam) pela casa, o olhar perdido naquela linha de interseção entre o teto e a parede. Interpelei-o.

Por acaso, o poeta acha que vegetais e frutas são o mais importante da pirâmide das necessidades?

Evidentemente que não.

É o quê, então?

É a liberdade.

Francamente...

Afonso Cruz nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Publicou mais de trinta livros, entre romances, teatro, não ficção, ensaio, álbuns ilustrados, novelas juvenis e ainda uma enciclopédia inventada, que conta com sete volumes. Colabora regularmente para jornais e revistas e recebeu vários prêmios pelos seus livros, cujos direitos estão vendidos para vinte idiomas.

Capa do livro "Vamos comprar um poeta", com a ilustração de um homem de paletó e chapéu, que lembra o poeta Fernando Pessoa

Vamos comprar um poeta

Afonso Cruz

Dublinense

96 páginas

Lançamento em 18 de março

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