‘Despertar os leões’: dilemas de um homicídio culposo


O ‘Nexo’ publica trecho de suspense sobre a crise moral de um homicídio culposo. Eitan Green, um neurocirurgião israelense casado com uma policial, foge da cena após atropelar fatalmente um imigrante africano na estrada. No dia seguinte, Eitan é visitado e extorquido pela esposa de sua vítima, e faz o que for necessário para conquistar seu silêncio, enquanto sua própria esposa investiga o caso

Era um eritreu. Ou um sudanês. Ou Deus sabe o quê. Um homem de uns trinta anos, talvez quarenta, nunca conseguia determinar com clareza qual era a idade daquelas pessoas. No fim do safári no Quênia tinha dado uma gorjeta ao homem que dirigia o jipe. Sua gratidão o sensibilizou e ele acrescentou algumas perguntas insossas numa jovialidade na qual, naquele momento, acreditou. Perguntou: como se chama, quantos filhos tem, qual é sua idade? Chamava-se Hossu, tinha três filhos e a mesma idade que ele, embora parecesse dez anos mais velho. Aquelas pessoas nasciam velhas e morriam jovens, e no meio, o quê? Quando lhe perguntou a data exata de seu aniversário, descobriu que tinham nascido com um dia de diferença. Aquilo não tinha nenhum significado, mas mesmo assim… Agora este homem, de quarenta anos, talvez trinta, está estendido na estrada com a cabeça esmagada.

Janis Joplin insistia que se tomasse mais um pedaço do coração dela, mas ele se ajoelhou e colou a cabeça nos lábios rachados do eritreu. Um médico do Soroka tinha terminado seu trabalho às duas da manhã depois de dezenove horas de plantão. Em vez de ir para casa dormir resolvera testar o desempenho de seu jipe. No escuro. Em alta velocidade. O que se ganha com uma coisa dessas? Eitan olhou piedosamente para o buraco que se abrira na cabeça do homem, mas o crânio não demonstrou qualquer intenção de se consolidar milagrosamente. Na prova final do quinto ano, o professor Zakai perguntara o que se fazia quando chegava um paciente com uma abertura no crânio. Canetas tinham sido mordidas, sussurros tinham sido trocados, e mesmo assim todos haviam fracassado. “O problema de vocês é que vocês supõem que se pode fazer algo”, disse Zakai quando as objeções tinham começado a se amontoar em sua mesa. “Quando a calvária está esmigalhada e há uma ampla lesão neurocirúrgica, a única coisa que se pode fazer é tomar um café.” Mesmo assim Eitan mediu a pulsação, que estava rápida e fraca, examinou o preenchimento capilar, que estava incrivelmente lento, e depois confirmou com um rigor ridículo que as vias respiratórias estavam livres. Com os diabos, ele não poderia ficar simplesmente olhando o homem agonizar.

“Vinte minutos”, ecoou tranquilamente a voz de Zakai. “Nem um minuto a mais. A menos que você tenha começado a acreditar em milagres.” Eitan tornou a examinar a lesão na cabeça do eritreu. Era preciso muito mais que um milagre para tornar a cobrir a matéria acinzentada que se revelava por baixo dos cachos de cabelo: neurônios nus, a descoberto, que brilhavam ao luar. Sangue saía pelas orelhas do homem, claro e aquoso devido ao fluido cefalorraquidiano, que já começara a escorrer do crânio partido. Mesmo assim Eitan levantou-se, correu para o jipe e voltou com sua maleta de primeiros socorros, já abrindo o pacote de ataduras, quando de repente se deteve. De que adianta isso? Este homem vai morrer.

E quando ela finalmente apareceu, a palavra explícita, ele sentiu que de uma só vez todos os seus órgãos abdominais se cobriam de gelo. Uma camada de geada branca espalhou-se do fígado ao estômago, do estômago ao intestino. As circunvoluções do intestino delgado estendem-se por seis a oito metros. Mais de três vezes a estatura de um homem. Seu diâmetro é de cerca de três centímetros, mas seu tamanho não é uniforme em todas as idades. O intestino delgado divide-se em três partes, duodeno, jejuno e íleo. Eitan extraiu da informação uma estranha serenidade, uma serenidade branca e gelada. Deteve-se no intestino delgado. Examinou-o. Sua área interna, por exemplo, é ampliada por excrescências em forma de dedos chamadas vilosidades. Essa estrutura multiplica a área interna do intestino delgado quinhentas vezes, até cerca de duzentos e cinquenta metros quadrados. Espantoso. Simplesmente espantoso. Agora reconhecia o valor de seus estudos. Uma muralha fortificada de conhecimento que se interpunha entre ele e aquela palavra tão imunda, “morrer”. Este homem ia morrer.

Você tem de ligar para o Soroka, disse consigo mesmo, para que enviem uma ambulância. Para que preparem a sala de cirurgia. Para que convoquem o professor Tal.

Para que contatem a polícia.

Pois seria o que fariam. É o que sempre fazem quando chega o relato de um acidente na estrada. O fato de o médico que está cuidando da vítima ser também o motorista que a atropelou não faz qualquer diferença. Eles vão contatar a polícia, a polícia virá e ele explicará que estava escuro. Que não enxergou nada. Que não havia motivo algum para imaginar que alguém estaria caminhando à beira da estrada numa hora dessas. Liat vai ajudá-lo. Ele era casado com uma investigadora graduada da polícia de Israel. Ela vai explicar a eles, e eles vão entender. Terão de entender. Era verdade que estava muito acima da velocidade permitida, e, sim, já não dormia havia mais de vinte horas, mas a irresponsabilidade tinha sido do eritreu, ele não tinha motivo algum para supor que houvesse alguém ali.

E o eritreu teria algum motivo para supor que você estivesse aqui?

A voz de Liat soava fria e seca. Já a tinha ouvido falar assim, mas sempre com outras pessoas. Com a faxineira que no fim confessou ter roubado seus brincos de pérola, com o encarregado das obras em sua casa que reconheceu ter superfaturado. Como gostava de imaginá-la no trabalho, lançando um olhar distante e divertido à pessoa que estava à sua frente sendo interrogada, uma leoa preguiçosa que brinca um pouco com sua presa antes de se atirar sobre ela. Só que agora Eitan a via diante dele, os olhos castanhos pregados no homem estendido no chão. E depois erguendo-se para ele.

Olhou novamente para o eritreu. Sangue escorria de sua cabeça e manchava o colarinho de sua camisa. Com sorte, o juiz ficaria satisfeito com alguns meses. Mas não poderia continuar operando. Aquilo era certo. Ninguém aceitaria um médico condenado por ter matado alguém. Nem a mídia, Iheli, Itamar, Liat, sua mãe ou os conhecidos que encontraria por acaso na rua.

O eritreu continuou a sangrar, como se fizesse aquilo de propósito.

De repente soube que tinha de sair dali. Agora. Aquele homem ele já não conseguiria salvar. Tentaria pelo menos salvar a si mesmo.

A possibilidade pairava no ar noturno, simples e clara: entrar no jipe e sair voando dali. Eitan olhou-a à distância, tenso, acompanhando seus movimentos. E a possibilidade já dava um salto para envolvê-lo, e o envolveu inteiro, um pânico gelado e urgente que lhe gritava na orelha — para o jipe. Agora.

Mas no mesmo instante o eritreu abriu os olhos. Eitan ficou paralisado. O ar ficou mais rarefeito e sua língua parecia uma lixa na boca. A seus pés, junto aos sapatos com palmilha ortopédica que comprara no free shop, jazia o eritreu com o crânio esmagado e os olhos arregalados.

Não olhava para Eitan. Só estava ali estirado, os olhos no céu, com tal concentração que Eitan não conseguiu evitar lançar um olhar enviesado para cima, para o ponto a que se dirigiam. Talvez, afinal, exista alguma coisa lá. Não havia nada. Apenas uma lua maravilhosa, um céu brilhante de um azul profundo. Como se alguém o tivesse retocado com Photoshop. Quando tornou a olhar para o chão, os olhos do eritreu estavam fechados, a respiração, tranquila. Já a respiração de Eitan estava ofegante e agitada, todo o seu corpo tremia. Como poderia ir embora com os olhos do homem ainda abertos, ainda podendo se abrir? Por outro lado, olhos abertos não querem dizer nada, diz muito mais o líquido cefalorraquidiano, que agora não se bastava em escorrer das orelhas e também saía pelo nariz, e pela boca em forma de espuma. Os membros do eritreu estavam rígidos e encolhidos, rigidez de decorticação. Mesmo se quisesse, Eitan não dispunha de um resquício sequer de vida pela qual lutar. De verdade.

E, de verdade, parecia que o eritreu estava conformado com sua situação, com aquela famosa serenidade africana, pois de fato fazia o favor de manter os olhos fechados e só respirava baixinho, com uma careta não muito diferente de um sorriso no rosto. Eitan olhou novamente para ele antes de se dirigir ao jipe. Agora já tinha certeza de que o eritreu sorria para ele, seus olhos fechados sinalizando sua aprovação.

Ayelet Gundar-Goshen nasceu em Israel em 1982. É mestre em psicologia clínica pela Universidade de Tel Aviv. Seus roteiros ganharam prêmios em diversos festivais internacionais e foram adaptados para filmes e séries de tevê. Dela, a Todavia já publicou "Uma noite, Markovitch". Ano passado, a autora esteve no Brasil como convidada da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Capa do livro "Despertar os leões", com a ilustração de uma estrada à noite

Despertar os leões

Ayelet Gundar-Goshen

Trad. Paulo Geiger

Todavia

368 páginas

Lançamento em 5 de março

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