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‘O sino e o relógio’: contos raros do Romantismo brasileiro


O ‘Nexo’ publica trecho de uma antologia de contos do Romantismo brasileiro produzidos entre 1836 e 1879. Organizada por Hélio de Seixas Guimarães e Vagner Camilo, ambos professores de literatura da Universidade de São Paulo, a coletânea é fruto de uma pesquisa de mais de dez anos com ênfase em material raro, publicado apenas na imprensa do período. É o caso do texto abaixo, de autoria anônima

O baú

Isto foi há cinquenta anos: então ninguém amava o que era velho e nacional, e era uma dor de coração ver como se tratavam de resto, e se relegavam nos forros, e nos cantos mais obscuros os melhores trastes de casa. O tempo dos baús tinha passado, a maior parte deles se achava ignobilmente transformada em tulhas de aveia junto das estrebarias.

Adélia, linda rapariga, acabava de sair do convento; seus pais lhe deram parte do seu próximo casamento: que o noivo, os vestidos, as joias estavam prontas e os parentes convidados... Pensando nos vestidos, nas joias, nas plumas, Adélia era feliz… Chegou o dia das núpcias: grande era a alegria da família, da rapariga e de suas amigas. A festa foi bela e suntuosa; o povo ao ver passar os noivos, e os pobres ao receber a esmola, exclamavam: “Que lindo par! Deus os abençoe! Deus os faça felizes!”.

Felizes! Sim. Vós ides vê-lo. Um dia de casamento é sempre longo, e as horas correm penosamente. A jovem esposa propôs a suas amigas, para se divertirem, diversos jogos próprios da sua idade... “Vamos ao esconde-esconde...” E eu — disse Adélia — tenho um esconderijo em que ninguém me achará. Eis a bela e fresca desposada subindo a escada das águas-furtadas, abrindo e fechando a porta do forro; levantando a custo a pesada tampa dum enorme baú e metendo-se dentro com o seu vestido de cetim branco, seu véu branco, mui contente de se ter lembrado de tão seguro esconderijo... Suas amigas não a acharão... não... e a pesada tampa se fechou sobre ela. Quem virá descobri-la?! Ninguém.

As companheiras de Adélia a procuraram longo tempo, bem longo... puseram-se enfim a gritar por ela na escada, nos corredores, à porta de todos os quartos: “Adélia! Aparece, acabou-se o jogo... e tua mãe, teu marido esperam por ti no salão”.

Era assim: todo o mundo a esperava; em breve todo o mundo se pôs em cuidado, e começou a procurá-la, e a gritar: “Adélia! Adélia!...”. A pobre rapariga talvez que ouvisse todo esse ruído, todas essas vozes, mas não podia sair do baú. A tampa ao cair se tinha fechado, e as lindas mãos da noiva, ornadas de anéis e diamantes, não podiam abrir o caixão, que ia ser seu sepulcro. Quanto não gritaria ela?! Mas a grossura do velho baú lhe tinha sufocado a voz, e ninguém pôde imaginar, desgraçadamente, que se tivesse ali encerrado. Passaram-se semanas, meses e anos. Adélia não apareceu, e sua mãe, como Raquel, ficou inconsolável. O marido de um dia não teve uma dor tão profunda. Esta estranha desaparição deu longo tempo muito que falar. Depois que voltou a moda dos baús, foi tirado aquele do forro e trazido com outros móveis para o pátio, a fim de serem vistos e apreçados. O baú era bom... vai-se abrir para ver o seu estado por dentro.

Alguns ossos, restos dum esqueleto de mulher, pedaços de cetim branco, uma coroa de folhas de laranjeira, alguns diamantes e anéis enfiados em dedos descarnados... Eis o que restava da jovem e bela noiva.

Autor anônimo. Este conto é um exemplo de várias produções não assinadas com que nos deparamos em diversos periódicos da época, entre as quais selecionamos duas narrativas para integrar este volume. É curioso, aliás, pensar nesse anonimato em um contexto como o romântico, que prima pela afirmação do autor, indicando que a ocultação do nome é também uma das muitas estratégias de valorização da autoria. Por meio do objeto evocado no título, esta narrativa breve remete a um momento histórico específico em um relato tenebroso e, ao mesmo tempo, cômico. Não parece faltar, também, uma dimensão moralizante, que condena a atitude imprudente da noiva. [Comentário dos organizadores, Hélio de Seixas Guimarães e Vagner Camilo, professores de literatura brasileira da Universidade de São Paulo.]

Capa do livro "O sino e o relógio"

O sino e o relógio

Org. Hélio de Seixas Guimarães e Vagner Camilo

Carambaia

416 páginas

Lançamento em 27 de fevereiro

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