‘Daqui não saio’: quando um povoado italiano abraçou o nazismo


O ‘Nexo’ publica trecho de livro sobre uma região dividida entre forças fascistas e nazistas. Inspirado pela história real de Curon, na fronteira da Itália com a Áustria, o autor reconstrói os dramas de uma comuna destruída pelos projetos de Mussolini, que abraça a chegada de Hitler como promessa de libertação. O capítulo abaixo acompanha a protagonista Trina, que resiste à dominação italiana

Depois de diplomadas, ainda nos encontrávamos à beira do lago e debaixo dos lariços, mas de estudar italiano ninguém falava.

— Se a escola nos contratar, ótimo; se não, que vão para o inferno! — concluía Maja precipitadamente.

— Diploma aqui ninguém tem, então vão ser obrigados a nos contratar — dizia Barbara.

— Que importância os fascistas dão àquele pedaço de papel? O que lhes interessa é empregar os italianos.

— No fim, a gente estudou para nada — bufava Maja.

— Vou ter de ir para a venda com meu pai, e a gente não vai fazer outra coisa além de brigar.

— Bem melhor do que ficar em casa remendando meia — dizia eu, que me sentia asfixiada só de pensar em passar os dias com Ma’.

Enquanto isso, os fascistas ocupavam não só as escolas, mas as prefeituras, os correios, os tribunais. Os funcionários tiroleses eram mandados embora sem aviso prévio, e os italianos afixavam nos escritórios cartazes que diziam: Proibido falar alemão e Mussolini sempre tem razão. Impunham blecautes, concentrações nos sábados à tarde para a passagem do podestà, suas festas encomendadas.

Maja dizia:

— Parece que estou pisando em terreno minado.

Logo se cansava de nossas tagarelices, que sempre acabavam em coisas sem importância.

— Vocês não estão vendo que diabo está acontecendo? — explodia, aborrecida. — Curon, Resia, San Valentino... desde que os fascistas apareceram nada mais é nosso. Os homens não vão à taverna, as mulheres têm medo de andar na rua, à noite não se vê vivalma por aí! Como é que tudo isso passa em brancas nuvens para vocês?

— Meu irmão diz que o fascismo está com os dias contados — respondia Barbara, tentando acalmá-la.

Mas Maja não se acalmava de jeito nenhum. Bufava como um cavalo e deixava-se cair de costas na relva, dizendo que não passávamos de duas vaidosas.

Ela havia recebido uma educação diferente da nossa. Tinha um pai instruído que passava horas explicando aos filhos o que estava acontecendo em Tirol do Sul e no mundo. Contava quem era este governante, quem era aquele ministro e, se em sua casa aparecêssemos Barbara e eu, desandava numas conversas compridas, numa lista interminável de nomes e lugares que a gente nunca tinha ouvido. No fim, nos alertava com a seguinte frase: “Quando se casarem, digam aos maridos e lembrem-se disso também: se vocês não cuidarem de política, a política cuidará de vocês!” E retirava-se para outro aposento. Maja adorava o pai e, assim que ele acabava de falar, ela sempre acenava um sim com a cabeça em sinal de obediência. Barbara e eu ficávamos olhando pela janela porque nos sentíamos umas babacas.

— Nesse passo Maja vai ficar mais fanática que o pai — dizia Barbara quando voltávamos para casa.

Algumas vezes Barbara e eu saíamos sozinhas. Montávamos nas bicicletas e íamos até San Valentino, margeando o lago, sentindo o frescor da água que aderia aos rostos suados.

— Parece que as montanhas estão crescendo com a gente — dizia ela, pedalando com o queixo levantado.

— Você não acha que elas nos escondem o mundo? — perguntava eu, que um dia queria fugir, mas isso depois de me trancar em casa.

— Que lhe importa o mundo? — respondia ela, rindo.

Quando voltava da marcenaria, Pa’ repetia que por aí ainda se respirava um ar de guerra. Os pais de Maja diziam que era melhor ir embora para a Áustria, para ficar longe dos fascistas. Os de Barbara queriam ir morar com parentes na Alemanha.

Mesmo a população do Tirol do Sul mudava nesse período. Passavam-se os meses e continuavam chegando colônias de italianos mandadas pelo duce. Até aqui em Curon chegaram alguns. Eram logo reconhecidos aqueles forasteiros do Sul, com mala na mão e o nariz empinado, olhando ladeiras nunca vistas, nuvens próximas demais.

Desde o primeiro momento fomos nós contra eles. A língua de um contra a do outro. A prepotência do poder recente e quem reivindica raízes seculares.

Erich passava com frequência por nossa casa, Pa’ e ele eram amigos desde sempre: meu pai gostava dele porque Erich era órfão.

Ma’, ao contrário, não ia muito com a cara dele.

— Esse moço é arrogante — dizia. — Parece que faz um favor quando fala com a gente.

Dos outros esperava toda a expansividade que ela mesma não tinha.

Pa’ o convidava a sentar-se na banqueta, depois girava a cadeira ao contrário e apoiava os cotovelos no espaldar, pondo as faces barbudas entre as mãos. Erich parecia filho dele. Um filho inquieto, que pede conselhos sobre todas as coisas. Eu espiava de trás do batente da porta. Tentava ser sutil, prendendo a respiração, colando a palma das mãos na parede. Se meu irmão Peppi aparecesse, eu o agarrava de lado e lhe tapava a boca. Ele tentava se livrar, mas naqueles tempos eu ainda conseguia imobilizá-lo. Era sete anos mais novo que eu, o Peppi, e, além de queridinho da mamãe, eu não sabia o que mais dizer a ele. Não passava de um fedelho de cara suja e joelhos esfolados.

— Parece que o governo italiano está querendo retomar o projeto da represa — disse Erich certa noite. — Uns camponeses que levam os animais pelos lados de San Valentino viram equipes de trabalho chegando.

Pa’ deu de ombros:

— Dizem isso há anos, mas depois não fazem nada — respondeu com seu sorriso bonachão.

— Se construírem, vamos precisar encontrar um jeito de interromper — continuou Erich, olhando para outro lado. — Os fascistas têm todo o interesse em nos arruinar e nos espalhar pela Itália.

— Fique tranquilo, admitindo-se que o fascismo dure, aqui não dá para construir uma represa, o terreno é lamacento.

Mas os olhos cinzentos de Erich continuavam inquietos como os de um gato.

A represa tinha sido anunciada pela primeira vez em 1911. Empresários da Montecatini queriam desapropriar Resia e Curon e explorar a correnteza do rio para produzir energia. Industriais e políticos italianos diziam que o Alto Adige era uma mina de ouro branco e, com frequência cada vez maior, mandavam engenheiros para inspecionar os vales e sondar os cursos dos rios. Nossas cidadezinhas desapareceriam debaixo de um túmulo de água. As casas, a igreja, as lojas, os campos onde os rebanhos pastavam: tudo submerso. Com a represa perderíamos lares, animais, trabalho. Com a represa não sobraria mais nada de nós. Precisaríamos emigrar, virar outras pessoas. Outro ganha-pão, outro lugar, outro povo. Morreríamos longe de Val Venosta e do Tirol.

Em 1911 o projeto não vingou porque o solo foi considerado de risco. Não tinha consistência, era constituído apenas de detritos de dolomita. Mas, depois que o fascismo subiu ao poder, todos sabiam que o duce logo mandaria construir polos industriais em Bolzano e Merano — essas cidades ficariam com o dobro ou o triplo do tamanho, chegariam levas de italianos em busca de trabalho —, e a demanda de energia aumentaria enormemente.

Na taverna, no adro da igreja, na marcenaria de Pa’, Erich se esgoelava:

— Atenção, eles vão voltar. Podem ter certeza de que virão de novo.

Mas, enquanto ele se empenhava tanto, os camponeses continuavam bebendo, fumando, embaralhando as cartas. Liquidavam o discurso fazendo caretas ou agitando as mãos como se espantassem moscas.

— O que eles não veem não existe — dizia Erich a Pa’. — É só lhes dar um copo de vinho, e não pensam em mais nada.

Marco Balzano nasceu em Milão em 1978, onde mora e trabalha como professor. Com mais de 100 mil exemplares vendidos somente na Itália e direitos de tradução adquiridos em diversos países, “Daqui não saio”, seu sexto romance, foi finalista do Prêmio Strega e ganhador dos prêmios Bagutta, Mario Rigoni Stern, Asti d’Appello, Minerva, Elba, Dolomiti Unesco, Viadana, Latisana, Omegna e Méditerranée.

Capa do livro "Daqui não saio" retrata uma torre saindo da água de um lago

Daqui não saio

Marco Balzano

Trad. Ivone Benedetti

Bertrand Brasil

210 páginas

Lançamento em fevereiro de 2020

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