‘Belhell’: submundo de jogatina na capital paraense


O ‘Nexo’ publica trecho de livro do escritor paraense Edyr Augusto. ‘Belhell’ é apelido da capital Belém — ‘hell’, em inglês, significa ‘inferno’. Neste thriller, o autor explora o submundo da cidade a qual alude o título: as vidas de seus protagonistas se cruzam no cassino clandestino Royal, marcadas por jogos de azar e violência. Leia, abaixo, o prólogo

Hora do almoço

Olhei pro relógio, ih, hora de almoçar. Segui pela Presidente Vargas, até o restaurante Largo da Palmeira. Dei uma quebrada na Ó de Almeida, Primeiro de Março. Três caras que tomam conta de carros. A gente se enxerga. Passei e ouvi. O escritor anda mexendo onde não deve. Foda-se, fiz que não ouvi. D. Fátima veio me servir e me entregou um bilhete. Abri e estava escrito “Cuidado onde te mete”. Paguei minha conta, fiz a Manoel Barata até a Presidente, onde tem mais pessoas, e voltei. Ameaças?

Um goró

Você acorda assim meio tonto, pescoço doendo por conta da posição em que deitou, olha em volta e não sabe onde está. Sim, mas agora, como é que eu vim parar na escadaria do Arquivo Público a essa hora da noite? Apalpei os bolsos e estava tudo lá. Celular desligado, carteira intacta, chaves. Duas e pouco, não, quase três da manhã. Quer dizer que era só uma prova de nada e rápido eu ia acordar. Liguei para o Pedro e ele veio me buscar de moto. Estava de serviço. Uma turma que circula pelo comércio e pela Campina protegendo a galera. Primeiro baixei na Esther para comer alguma coisa. Nem tinha almoçado. Hoje falei com o Ariosvaldo, o Bronco, disse ao Pedro. Quer dizer, me levaram pra falar. Hora do almoço, ia na Presidente Vargas, quebrei na Ó até a Primeiro de Março para chegar ao Largo da Palmeira. A rua é estreita. As calçadas também. Alguém me tocou o braço. Mano, o chefe quer falar contigo. Um carro ao meu lado. Vidros escuros. Abriu a porta. Me empurraram antes que eu pudesse esboçar defesa. Desculpa aí, cara, é só uma conversa. Chuta, põe a venda nele. Chuta? Porra, não aperta tanto. Dr. Escritor, não encrespa com o Chuta. Ele é assim meio mão pesada, mas é boa gente. Sabe por que Chuta? Porque chuta pra caralho! Riram. Havia mais pessoas. Rodamos pelo comércio. Trânsito lento. Mas eu sei que acabamos na Primeiro de Março, ainda, mas para trás, depois da Carlos Gomes. Conheço a região como a palma da minha mão. Abriu uma garagem. Tiraram a venda. Subimos. Taí, chefe, o dr. Escritor, como o senhor pediu. Ninguém aperreou, até contamos piada, tudo limpeza. Boa tarde, cara, senta, por favor. Me disseram que tu és viciado em Coca zero, é? Balancei a cabeça. Traz uma aqui pro doutor, estupidamente gelada. Deixa eu te dizer: eu sou o Ariosvaldo, mas a galera me chama de Bronco, apelido de infância. Tu sabes, a gente conhece quem mora por aqui. Sei muito bem onde é teu muquifo ali naquele prédio antigo, sei daquele teu cachorro que morreu de repente, pqp, o cachorro era bonito pra dedéu! Mas é que tu andas fuçando muito aqui e ali, e aí, sabe como é, essa área é do meu controle. Porra, tu me vai na Paraíso Perdido com o Pedro, gente boa, me dou com ele, te protegendo, depois circula pelo Veropa perguntando. Então já te encontram no 77, ali junto dos fundos do Basa, perguntando. Porra, eu nunca te vi metido onde não devias. Até soube dos livros e tal, mas, sabe, eu não ando com tempo pra ler. Eu lia, verdade, mas dava sono. Lembras aquele livrinho que vendia na banca, da Brigitte Montfort? O ZZ7, acho... Porra, Escritor, me diz o que é que tu tás querendo, porque eu não deixei ninguém chegar junto por respeito. Gente letrada, gente boa, sabe como é. O que é que tu estás procurando?

Expliquei para o Bronco. Era pesquisa para um livro. Não tinha nada a ver com os negócios dele nem iria botar nada que comprometesse. Escrevo ficção, cara, fica tranquilo. Então, tá. Vou confiar em ti. Mas tu já me conheces, e no meu negócio eu não brinco nem sou educado, tá? Valeu. Os caras vão te dar um goró aí, dose fraca, só pra tu dormires um pouco e não saber esse endereço aqui, certo? Porra, vê se não é muito forte, aí...

Museu pessoal

Um cenário desolador. Luzes acesas revelando um local onde muitos sonhos de riqueza, a maioria, não aconteceram. Havia garrafas de bebida, aqui e ali, em mesas luxuosamente montadas, com toalhas bonitas, cadeiras confortáveis. Andamos entre as roletas, bacará, aparelhos de vídeo que publicavam resultados aqui e ali.

O porteiro me disse que meu amigo ia mandar me buscar às nove da noite. Esperasse na portaria. Assunto do livro. O carro veio, e eu fui, vendado, mas sabendo aonde iria.

Chegamos a uma sala em um tipo de sobreloja, grande, com uma enorme mesa circular e espaços para serviços de restaurante e bar. Uma cozinha já meio antiquada para os equipamentos de hoje. Depois, fomos através de um corredor até outra sala, não, um quarto, luxuoso, cama grande, aparelhos diversos, de som a TV, banheiro totalmente pronto com jacuzzi de hidromassagem. O Bronco perguntou se estava satisfeito. Havia poeira, e ele tinha rinite. Posso voltar aqui sozinho? Não. É só hoje. Esse é meu museu pessoal. Guardo tudo como era. Mas é só meu. Se te mostro, é porque entendi o teu barato de escrever. Mas também preciso novamente te avisar pra não chegar próximo do meu negócio. Fica na tua. Escreve teu livro. Respeito gente de letras. Mas, já te disse, meu negócio é sagrado. Garanti a ele que não estava procurando nada que o envolvesse. Neste momento, isso não é meu assunto. Agora me diz: o que tu tens a ver com esse lugar aqui? Te conto mas isso se esgota aqui, tá bem? Não quero levantar lebre sobre minha pessoa, de onde vim e coisa e tal. Já gasto uma boa grana pra manter uma turma aí sossegada, sem perturbar. Trabalhei com ele. Ele quem? O dr. Marollo. Ah. Foi meu primeiro emprego, o de garçom. Fui aprendendo, melhorando e fazendo amizade. Sabes que amizade é tudo nessas horas. Ele confiava em mim. Então passei a servi-lo pessoalmente. Sabia de tudo que ninguém sabia. Infelizmente, não percebi aquilo que estava acontecendo bem próximo. Ele também não sacou. Aconteceram uns troços aí e tudo acabou. Mas isso tu já sabes, não é? É, já sei. Queria saber mais. Podias me contar. Não, cara, isso é coisa minha. Bronco, escrevo ficção. Troco os nomes, misturo um monte de acontecimentos. Depois, porra, essa é uma puta história que tu viveste e estás aqui, com esse lugar, uma história pedindo pra ser contada. Confia em mim. Vamos fazer o seguinte: te mostro antes de publicar. O que não quiseres, eu tiro. Pensa aí, cara. Tá bom, tá bom. De qualquer maneira, encontrar o lugar foi importante. Te agradeço. Não te preocupa. Tu foste legal comigo, fica tranquilo, na boa. Meu assunto é escrever ficção. E só.

Fim do jogo

Atravesso a Presidente Vargas e vou buscar jornais na Banca do Alvino. Lá dentro, o Chuta me aguarda. Porra, Escritor, tu dormes pacas, hein? Fala, meu. O chefe quer falar. Pensei que o papo estava encerrado. Sei lá, ele quer falar. Pode ser agora? Tá. Tem de botar venda e esses caralhos? Tem. Quando estiver dentro do carro.

Rodou, rodou, mas eu sabia. Fale, garoto. E aí, Bronco? Lembrou alguma coisa? Olha só, esse teu livro pode dar em merda pra mim. Porra, tu vais escarafunchar umas coisas que ficaram pra trás. Eu já tenho uma porrada de gente que está torcendo por um tropeço, pra me pegar. Isso tu já me disseste, Bronco. Pra que me chamaste hoje? Puta que pariu, eu sei que vou me foder. Quem vai se foder? Eu, caralho, mas vaidade é uma merda, porra. Porra, cara, eu te chamei. Eu te chamei. Nem dormi direito. Essa história que tu queres saber mais, saca? Pois é. Coça muito a língua. Demais. Eu sei, cara, é uma puta história. Tu vais me contar. A merda é que eu sei que vou me foder, sabes? Bora, desembucha, cara. Tu estás doido pra contar! Porra, tu também dás uma corda do caralho, né? Ri. Vais ou não vais contar? Olha, velho, falando sério. Eu vou contar. Vai dar merda, mas de merda eu já ando cheio, essa acaba sendo a menor. Mas tu levas a sério. Quero ler antes. Quero poder dizer não. Está bem. Isso eu prometi ontem. Fazes bem. Essa história está engasgada em ti. Contar pode ser libertador. Te livras disso tudo. É, é, eu sei, eu acho também. Precisamos marcar um horário, todos os dias. Bom, não pode ser todo dia. Depende dos acontecimentos. Pega esse celular. Eu falo contigo através dele. Não usa pra mais nada. Mando sempre tipo, HJ de hoje e um número, tipo 9, pra nove horas, tá? Combinado? Vai ver, ninguém mais lembra de nada, mas eu vou contar, pronto, vou contar.

Amanhã, vamos ver, te aviso.

Edyr Augusto nasceu em Belém (PA) em 1954. Jornalista, escritor, dramaturgo e diretor de teatro, trabalhou como radialista e redator publicitário e também produziu jingles. As narrativas de Edyr Augusto estão todas ancoradas na realidade paraense. É autor de “Os éguas” (1998), “Moscow” (2001), “Casa de Caba” (2004), “Um sol para cada um” (2008), “Selva concreta” (2012) e “Pssica” (2015), todos publicados pela Boitempo. Em 2013, com a publicação de “Os éguas” em francês (com o título “Belém”), o autor ganhou destaque na cena literária parisiense. O livro recebeu, em 2015, o prêmio Caméléon de melhor romance estrangeiro, na Université Jean Moulin Lyon 3. Desde então, seus romances vêm sendo traduzidos para o francês.

Capa do livro Belhell, com título sobreposto a imagens editadas de Belém

Belhell

Edyr Augusto

Boitempo

152 páginas

Lançamento em 13 de fevereiro

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