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‘O tempo em Marte’: intrigas da colonização interplanetária


O ‘Nexo’ publica trecho de livro do celebrado autor de ficção científica Philip K. Dick. O romance acompanha Jack Bohlen, técnico de manutenção e um dos primeiros moradores humanos em Marte. Enquanto tenta lidar com seus próprios problemas psicológicos, ele se envolve num ardil do mercado imobiliário na nova colônia. No capítulo abaixo, o pai de Jack lhe faz uma visita

David Bohlen sabia que vovô Leo tinha muito dinheiro e não se importava em gastá-lo. Antes mesmo de deixarem o prédio do terminal de foguetes, por exemplo, o velho homem de terno engomado, com colete e abotoaduras douradas – o terno que o garoto ficara observando até reconhecer seu avô percorrendo a rampa por onde apareciam os passageiros –, parou no balcão e comprou para a mãe dele um buquê de grandes flores azuis vindas da Terra. Ele queria comprar algo para David também, mas não havia brinquedos, apenas doces, e foi isto o que vovô Leo comprou: uma caixa de um quilo.

Debaixo do braço, o avô trazia também uma caixa branca amarrada com barbante: não deixou que a tripulação do foguete a pegasse e colocasse junto com as bagagens. Quando eles deixaram o prédio do terminal e já estavam no helicóptero do pai de David, vovô Leo abriu o pacote. Estava cheio de pão judaico e picles e finas fatias de carne enlatada envolvida em filme plástico – quase um quilo e meio de carne ao todo.

– Minha nossa – exclamou Jack, em puro deleite. – Vindo direto de Nova York. Não dá para comprar isso aqui nas colônias, pai.

– Eu sei, Jack – disse o avô. – Um camarada judeu me indicou onde comprar, e eu gosto tanto disso que sabia que você também gostaria. Você e eu temos os mesmos gostos – e deu uma risada, satisfeito em ver o quanto eles tinham ficado felizes com aquilo. – Vou preparar um sanduíche para vocês quando chegarmos em casa. Assim que chegarmos lá.

Agora o helicóptero ia se erguendo sobre o terminal de foguetes e sobrevoava o deserto escuro.

– Como tem estado o tempo por aqui? – perguntou vovô Leo.

– Muitas tempestades – respondeu Jack. – Fomos praticamente soterrados uma semana atrás ou coisa assim. Tivemos que alugar equipamentos de energia para conseguir remover a areia.

– Credo – disse o avô. – Precisam levantar aquela parede de cimento que você mencionou nas suas cartas.

– Custa uma fortuna para fazer esses trabalhos de reforma aqui – disse Silvia. – Não é igual a lá na Terra.

– Eu sei disso – disse o vovô Leo –, mas vocês precisam proteger o investimento que têm. Essa casa vale muito e, quanto ao terreno, vocês têm água por perto, não se esqueçam disso.

– Como a gente poderia se esquecer disso? – disse Silvia. – Meu Deus, sem o canal a gente morreria.

– O canal está maior este ano? – perguntou vovô Leo.

– A mesma coisa – respondeu Jack.

– Eles fizeram uma limpeza, vovô – David entrou na conversa. – Eu fiquei vendo. O pessoal da ONU usou uma máquina grande que sugava a areia do fundo, a água ficou bem mais limpa. Daí meu pai desligou o sistema de filtragem e, agora, quando o operador do sistema de águas vem e abre as comportas para nós, dá para bombear a água tão rápido que meu pai até me deixou fazer uma nova horta, que consigo regar com a água que sobra. Tem milho e abóbora e umas cenouras, mas alguma coisa comeu todas as beterrabas. Ontem à noite jantamos milho da horta. Colocamos uma cerca para impedir esses bichinhos de entrar. Como eles chamam mesmo, pai?

– Ratos do deserto, Leo – disse Jack. – Assim que a horta do David começou a dar certo, os ratos do deserto se mudaram para cá. Eles são grandes assim. – E fez um gesto com as mãos. – São inofensivos, exceto pelo fato de que conseguem comer o equivalente ao próprio peso em dez minutos. Os moradores mais antigos nos avisaram disso, mas a gente precisava tentar.

– É bom cultivar os próprios legumes – disse vovô Leo. – Sim, você escreveu me contando dessa horta, David. Quero vê-la amanhã. Hoje à noite estou cansado. Foi longa essa viagem que eu fiz, mesmo com esses foguetes novos que existem agora... como eles chamam mesmo? Tão rápidos quanto a luz, mas, na verdade, não é bem assim. Ainda demora muito para decolar e pousar e tem muita turbulência. Tinha uma mulher perto de mim que estava aterrorizada, achou que a gente ia queimar porque ficou muito quente lá dentro, mesmo com o ar condicionado. Não sei por que deixam tão quente assim, não há dúvidas de que eles cobram bem caro. Mas é uma grande melhoria... Lembra do foguete que você pegou quando emigrou para cá anos atrás? Levava dois meses!

– Leo, espero que você tenha trazido sua máscara de oxigênio – disse Jack. – A nossa já está muito velha, não é muito confiável.

– Claro, está na mala marrom. Não se preocupe comigo, eu consigo suportar essa atmosfera. Estou tomando um remédio novo para o coração, bem melhor. Tudo está melhorando lá na Terra. Claro, está superlotado. Mas cada vez mais pessoas vão emigrar para cá, pode acreditar no que digo. A poluição anda tão ruim na Terra que quase pode matar.

– Vovô Leo, o nosso vizinho, o sr. Steiner, tirou a própria vida – e David entrou na conversa de novo. – Agora o Manfred, filho dele, saiu do acampamento para crianças anômalas e voltou para casa, e meu pai está construindo um mecanismo para ele poder falar com a gente.

– Bom – disse o vovô Leo com um tom todo gentil, e sorriu para o garoto –, isso é muito interessante, David. Quantos anos tem o menino?

– Dez – disse David –, mas ele não consegue conversar com a gente ainda. Mas meu pai vai resolver isso com o mecanismo dele, e você sabe para quem meu pai está trabalhando agora? Para o sr. Kott, que dirige o Sindicato dos Funcionários das Águas e a colônia deles. É um homem muito importante.

– Acho que já ouvi falar dele – disse vovô Leo, dando uma piscada para Jack, que David pescou no ar.

– Pai – disse Jack, dirigindo-se a Leo –, você vai seguir em frente com esse negócio de comprar terras na região das Montanhas Franklin Roosevelt?

– Ah, com certeza – respondeu o avô –, pode apostar a sua vida, Jack. É lógico que fiz essa viagem socialmente, para ver todos vocês, mas não poderia ter tirado tanto tempo de folga assim se não tivesse trabalho a fazer também.

– Eu estava torcendo para você ter desistido – disse Jack.

– Olhe, Jack, não se preocupe – respondeu vovô Leo. – Deixe que eu me preocupe com o fato de estar fazendo a coisa certa ou não. Eu trabalho com investimento em terrenos faz muitos anos. Ouça bem. Você vai me levar até essa região das montanhas para eu dar uma conferida em primeira mão? Tenho um monte de mapas, mas, ainda assim, quero ver com meus próprios olhos.

– Vai ficar decepcionado quando vir – disse Silvia. – É tão desolado por lá, não existe água e raramente tem alguma coisa viva.

– Não vamos nos preocupar com isso agora – disse o avô, lançando um sorriso na direção de David e cutucando o garoto na altura das costelas. – Dá gosto de ver um jovem normal e saudável nessas bandas de cá, longe do ar poluído que a gente tem lá na Terra.

– Bom, Marte também tem seus problemas – disse Silvia. – Tente viver com essa água ruim ou sem água nenhuma por um tempo e vai ver só.

– Eu sei – disse vovô Leo, com um tom sóbrio. – Com certeza, vocês têm muita coragem de viver aqui. Mas é saudável, não se esqueçam disso.

Agora, logo abaixo, Bunchewood Park brilhava com todas as suas luzes e Jack orientou o helicóptero em sentido norte, rumo à casa deles.

* * *

Enquanto pilotava o helicóptero da Companhia Yee, Jack Bohlen olhava para seu pai e ficava impressionado ao ver como ele tinha envelhecido tão pouco, como parecia estar cheio de vigor e robusto para um homem nos seus 70 anos. E ainda trabalhando em período integral, tirando proveito das atividades de especulação como nunca, o máximo que podia.

No entanto, apesar de não aparentar, Bohlen tinha certeza de que a longa viagem da Terra até lá tinha cansado Leo mais do que ele admitia. De todo modo, já estavam quase em casa. O indicador da bússola giroscópica apontava 7,08054. Estavam a apenas alguns minutos de distância.

Depois de estacionarem no telhado da casa e descerem para o andar de baixo, Leo foi cumprir sua promessa na hora. Na cozinha, pôs-se a trabalhar e era todo contentamento enquanto preparava um sanduíche de carne enlatada kosher no pão judaico. Logo eles estavam sentados juntos na sala, comendo. Todo mundo estava em paz e relaxado.

– Você não sabe o quanto a gente passa vontade de comidas assim por aqui – disse Silvia, por fim. – Mesmo no mercado negro... – E lançou um olhar para Jack.

– Às vezes você encontra essas iguarias no mercado negro – disse Jack –, mas de um tempo para cá ficou mais difícil. Nós, pessoalmente, não fazemos isso. Nenhuma questão moral, só porque é muito caro mesmo.

Eles ficaram conversando um pouco, descobrindo os detalhes da viagem de Leo e como estavam as coisas na Terra. David foi dormir às dez e meia, e então, às onze, Silvia pediu licença e foi para a cama também. Leo e Jack ficaram sentados na sala, só os dois.

– A gente pode dar um pulo lá fora e dar uma olhada na horta do pequeno? – disse Leo. – Você tem uma boa lanterna?

Encontrando sua lanterna de inspeção, Jack foi até o lado de fora da casa, rumo ao ar frio da noite.

Quando eles pararam na beirada do trecho onde estavam plantados os milhos, Leo disse ao filho, em voz baixa:

– Como andam você e Silvia ultimamente?

– Bem – respondeu Jack, um pouco constrangido pela pergunta inesperada.

– Tive a impressão de uma certa frieza entre vocês dois – disse Leo. – Realmente seria terrível, Jack, se vocês se separassem. A sua esposa é uma mulher e tanto, uma em um milhão.

– Eu sei disso – respondeu Jack, meio desconfortável.

– Lá na Terra – continuou Leo –, quando você era jovem, sempre aprontava bastante. Mas sei que está sossegado agora.

– Estou sim – disse Jack. – E acho que você está imaginando coisas.

– Você está mesmo parecendo um pouco retraído, Jack... – disse seu pai. – Espero que aquele velho probleminha não o esteja incomodando, você sabe do que estou falando. Aquela história de...

– Eu sei do que você está falando.

Implacável, Leo continuou:

– Quando eu era garoto, não existiam doenças mentais como hoje. É um sinal dos tempos. Tem gente demais, superlotação. Eu me lembro da primeira vez que ficou doente; lembro também de muito tempo antes disso, quando você tinha uns 17 anos e era frio com as outras pessoas, não se interessava por elas. Também era temperamental. E me parece que está desse jeito agora.

Jack encarou seu pai fixamente. Este era o problema de receber visitas dos pais: eles nunca resistiam à tentação de retomar seus antigos papéis de sabe-tudo, de vozes da razão. Para Leo, Jack não era um homem adulto com mulher e filho, era apenas seu filho Jack.

– Olha, Leo – disse Jack –, tem muito pouca gente lá fora neste mundo. Ainda é um planeta parcamente habitado. É natural que as pessoas aqui sejam menos sociáveis. Elas precisam ser mais autocentradas do que lá na Terra, onde tudo é do jeito que você disse, multidão atrás de multidão.

Philip Kindred Dick nasceu nos Estados Unidos em 1928. Escritor de ficção científica, várias de suas obras tornaram‑se conhecidas ao serem roteirizadas e transformadas em grandes sucessos do cinema, como o clássico “Blade Runner”, baseado no romance “Androides sonham com ovelhas elétricas?”. “O vingador do futuro”, “Minority report” e “Os agentes do destino”, entre outros filmes, foram inspirados em contos de Dick. Autor de mais de 120 contos e 36 romances, entre eles “VALIS”, “Ubik”, “Os três estigmas de Palmer Eldritch” e os premiados “O homem do castelo alto” e “Fluam, minhas lágrimas, disse o policial”, Philip K. Dick morreu em 1982, aos 53 anos, em decorrência de um acidente vascular cerebral.

Capa do livro "O tempo em Marte", com ilustração de um homem e uma criança em frente a um edifício em Marte

O tempo em Marte

Philip K. Dick

Aleph

320 páginas

Lançamento em 28 de janeiro

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