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‘O poder do sim’: uma peça para entender a crise de 2008


O ‘Nexo’ publica trecho de uma peça de teatro sobre a crise econômica de 2008, encomendada pelo National Theater de Londres ao dramaturgo David Hare. O autor se insere como personagem da própria obra e, em diálogo com figuras importantes do mercado financeiro, tenta dar sentido à catástrofe. Leia, abaixo, a terceira cena

Myron Scholes, alegre e bem-humorado, está perto do quadro-negro. Veste uma jaqueta xadrez e uma camisa listrada. Ele escreve no quadro com giz a famosa equação em que C é igual a S multiplicado por N etc. Ao mesmo tempo, Masa (pronuncia-se “Macha”), de cabelo escuro, autoritária, começa a esclarecer ao Autor. Enquanto ela faz isso, o Locutor identifica os participantes da cena.

Masa Há duas coisas que você precisa entender sobre os bancos: alavancagem e risco.​​​​

Locutor Masa Serdarevic. Prestes a trabalhar no Financial Times.​​​​

Masa Você tem ideia do que eu estou falando?​​​​

Autor Ainda n��o. Mas espero ter.​​​​

Masa Onde você guarda o seu dinheiro?​​​​

Autor Nos correios.​​​​

Masa Entendi. (Ela pensa por um instante) Entendi. Nos correios?​​​​

Autor É.​​​​

Locutor Ela é paga pelo National Theatre para ensinar finanças ao Autor. Idade: 23 anos.​​​​

Masa Infelizmente eu não entendo nada de teatro.​​​​

Autor Não tem problema. Tudo bem.​​​​

Masa Meu irmão frequenta o teatro. Ele já ouviu falar de você.​​​​

Autor Que bom. Pode continuar.​​​​

Masa Então vamos começar por uma coisa simples. John Maynard Keynes. Keynes disse que todas as inovações em finanças são inovações em alavancagem. Grosso modo, alavancagem é o que você toma emprestado em proporção ao que você tem. O banco pega o seu dinheiro e o utiliza em várias operações.​​​​

Autor Entendi.​​​​

Masa Os bancos fingem guardar o seu dinheiro, mas não guardam. Eles emprestam o seu dinheiro para poder ganhar o deles. Agora, é óbvio que, ao emprestar o seu dinheiro, eles correm um risco. Eles correm um risco a mais quando emprestam dinheiro a pessoas que talvez não possam pagar de volta. Este é o chamado empréstimo subprime. ​​​​

Autor Ah, sim. Subprime. Já ouvi falar.​​​​

Masa Significa emprestar dinheiro a pessoas que não são confiáveis – pessoas com rendas irregulares; pessoas comuns, na verdade. O outro risco que os banqueiros assumem está em realizar qualquer operação financeira que dependa de adivinhações futuras.​​​​

Autor Não é isso que se chama especulação?​​​​

Masa Exatamente. Mas até pouco tempo, apesar de as pessoas sempre inventarem sistemas engenhosos, malucos, ninguém acreditava de verdade que a matemática pudesse ser usada para prever o futuro. Aí… (Volta-se ao quadro-negro)

Locutor Myron Scholes. Foi professor e agora é consultor de investimentos.​​​​

Scholes (Aponta para o quadro-negro) Muito bem, vamos dar uma olhada aqui, a fórmula Black-Scholes.​​​​

Masa Myron Scholes inventou uma fórmula.​​​​

Scholes É muito simples. Eu posso explicar a vocês sem dificuldade.​​​​

Masa Myron Scholes ajudou a montar um hedge fund em Greenwich, Connecticut. Era o Fundo de Investimentos de Longo Prazo.​​​​

Autor E um hedge fund é?…​​​​

Masa Um hedge fund é um fundo de investimento direcionado a profissionais e licenciado para estratégias de alto risco. Alto risco, alto retorno.​​​​

Autor Continue.​​​​

Masa Em 1973, Scholes e um colega acadêmico, Fischer Black, chegaram a uma fórmula algébrica de precificação de opções.​​​​

Autor Me diga o que é uma “opção”.​​​​

Masa Claro. Se uma ação vale certa quantia hoje, e eu acredito que em seis meses seu valor vá duplicar, então me convém ter a “opção” de comprá-la por um preço menor do que eu imagino que ela valerá daqui a seis meses.​​​​

Autor Mas isso é uma aposta.​​​​

Masa Exatamente. É uma aposta.​​​​

Autor Uma aposta no futuro.​​​​

Masa Então, para a pessoa que está vendendo, o principal é decidir que valor cobrar pela “opção”. Nos anos 1970, dois professores de Harvard – você vai perceber que é uma constante, muitas das pessoas que ferraram com o capitalismo vieram de Harvard, outras do Goldman Sachs, a maioria, dos dois –, enfim, eles afirmavam que era possível usar computadores modernos para gerenciar riscos através de modelos matemáticos. ​​​​

Scholes (Aponta para os símbolos que desenhou no quadro) Aqui está a fórmula Black-Scholes. O valor de uma opção, C, depende de cinco variáveis. O preço de mercado da ação é S. O preço futuro contratado da opção é X. O tempo para que a opção vença é T. A taxa de juros livre de risco é R. E o fator decisivo, a flutuação esperada do preço da ação, a chamada volatilidade, é representada pela letra grega sigma. Agora, aplicando a seguinte fórmula… (Demonstra) … C é igual a S vezes N, parênteses, d1, que é a área sob a curva normal em d1, menos X multiplicado por “e” elevado a potência negativa rT vezes N, parênteses, d2, que é a área sob a curva normal em d2. d1 é igual a logaritmo de S sobre X mais, abre parênteses, “r” mais raiz quadrada de sigma, fecha parênteses, multiplicado por T, tudo dividido por sigma vezes a raiz quadrada de T. d2 é igual a d1 menos sigma vezes a raiz quadrada de T, assim é possível chegar justamente ao melhor preço de venda nos contratos de opções. Alguém tem alguma pergunta?​​​​

Masa Em 1994, Scholes virou sócio de um hedge fund que prosperou tanto que seus lucros foram primeiro de 43 por cento, depois de 41 por cento.​​​​

Autor É, não há o que contestar.​​​​

Masa Scholes insistiu que qualquer portfólio baseado em suas projeções matemáticas deveria necessariamente abranger a maior variedade de investimentos possível. Mesmo que um ou dois tivessem um desempenho ruim, as leis da probabilidade indicavam que tudo não daria errado ao mesmo tempo. O fundo fez muitos empréstimos e produziu uma imensa alavancagem. ​​​​

Autor O que você quer dizer com “imensa”?​​​​

Masa A proporção entre empréstimos e capital próprio chegou a ser de cinquenta para um.​​​​

(O homem conhecido como George se dirige a nós)

Soros Olhando para trás, eu acho espantoso alguém ter pensado que modelos matemáticos pudessem eliminar o risco.​​​​

Locutor George Soros, ex-gestor de um hedge fund. Especulou contra a libra esterlina em 1992.​​​​

Soros É ainda mais chocante que as pessoas tenham acreditado neles.​​​​

Locutor Hoje, filósofo e filantropo mundial. Patrimônio líquido estimado: onze bilhões de dólares.​​​​

Soros Eles realmente acharam que tudo poderia ser previsível. Eu tinha 13 ou 14 anos quando os nazistas invadiram Budapeste, então estou acostumado a situações em que as coisas estão longe do equilíbrio. Meu pai já tinha me ensinado que em determinadas épocas as regras normais não se aplicam – ele me ensinou a esperá-las, a reconhecê-las. Quando eu era criança, meu pai descreveu para mim como conseguiu sobreviver à Revolução Russa – contava histórias maravilhosas. A revolução sempre foi real para mim, porque eu a vivenciei por meio dele. Nós sabíamos que existiam épocas em que nada era normal e sabíamos como lidar com elas. Quando os alemães vieram, nossa família sobreviveu, porque nós já tínhamos bagagem. Então, não, eu admito, não acreditei neles quando disseram que conseguiam prever o futuro.​​​​

Masa Em 1997, Myron Scholes recebeu o prêmio Nobel de Economia. (Scholes recebe os aplausos da Academia Sueca) Um ano depois, em decorrência do enfraquecimento na economia russa, seu Fundo de Investimentos de Longo Prazo sofreu perdas que seus computadores diziam ser matematicamente impossíveis. Em quatro meses, o fundo estava liquidado. Em 2004, ele foi condenado por sonegação fiscal em um tribunal federal. O modelo Black-Scholes ainda é, hoje em dia, usado e reconhecido internacionalmente como a fórmula para cálculo de risco.​​​​

Industrial importante (Começa a falar) Você tem que entender que este é um mundo em que não existe passado. As pessoas não pensam no passado.​​​​

Locutor Este é um industrial importante que dirigiu algumas das mais renomadas empresas britânicas. Não quis se identificar.​​​​

Industrial importante É pior ainda. Elas nem conhecem o passado. Na verdade, eu trabalhei num banco por uns dois anos, depois do exército e da faculdade. Fui trabalhar num banco comercial, e ainda dava para sentir o efeito da crise de 1929 enraizada na cabeça dos funcionários. Era uma sensação que pairava no lugar. Havia uma regra que era repetida sem parar: um terço em dívidas, dois terços em capital próprio. Porque aquela geração tinha a memória vívida. Existia uma memória cultural sobre as consequências de o risco sair do controle. Aí essa geração se foi. A nova geração não tem memória. Eu aprendi a sequer mencionar os anos 1980, porque ninguém sabe sobre o que eu estou falando. Thatcherismo. Quem se lembra disso?​​​​

(O homem que conhecemos como Harry começa a falar)

Lovelock O que aconteceu nos últimos vinte anos foi que os bancos começaram a apostar o dinheiro das pessoas de um jeito que, na verdade, ninguém entendia.​​​​

Locutor Harry Lovelock, advogado corporativo. Representou algumas das maiores empresas britânicas em fusões na City.​​​​

Lovelock Não foi por acaso que o sistema bancário se tornou tão complicado. Porque quanto mais complicado ele se torna, menos as pessoas o compreendem. E isso é conveniente aos banqueiros. A autoridade sempre é outorgada àqueles que conseguem manter o misticismo. Apostar não é um problema. Eu não tenho nada contra apostas. Com o seu próprio dinheiro. Mas quando você começa a jogar com o dinheiro dos seus clientes, aí a coisa é diferente, não é? É aí que os problemas éticos aparecem.​​​​

Locutor Myron Scholes foi recentemente entrevistado por um jornal estadunidense sobre seu trabalho ao longo da vida.​​​​

(Entra em cena Deborah Solomon, do New York Times)

Solomon Olhando em retrospecto, é justo dizer que a ideia de que os bancos controlariam o risco foi uma completa ilusão?​​​​

Scholes Você está sendo pessimista. A vida pode ser otimista também.​​​​

Solomon Você é conhecido como o pai dos credit default swaps (CDS). Você aceita esse rótulo?​​​​

Scholes Vamos ver. Se for bom, eu aceito. Se não for, não.​​​​

Solomon Alguns economistas acreditam que modelos matemáticos como o seu deram aos bancos uma falsa sensação de segurança. Eu gostaria de saber se o senhor reformulou seus conceitos.​​​​

Scholes (Sorri, feliz) Não, eu não mudei de ideia.​​​​

David Hare nasceu em Sussex, Inglaterra, em 1947. Dezesseis de suas peças foram produzidas pelo National Theatre, incluindo uma trilogia sobre a Igreja, a Lei e o Partido Trabalhista – “Racing Demon”, “Murmuring Judges” e “The Absence of War” –, que entrou em repertório no Olivier Theatre mais tarde, em 1993. Dez de suas peças mais conhecidas, incluindo “Plenty” (1978), “The Secret Rapture” (1988), “Skylight” (1995), “Amy’s View” (1997; encenada no Brasil em 2001 com o título “Ponto de vista”), “The Blue Room” (1998), “The Judas Kiss” (1998), “Via Dolorosa” (1998) – na qual atuou – e “The Vertical Hour” (2006) também foram apresentadas na Broadway. Seus mais recentes roteiros para o cinema foram “As horas” (2002) e “O leitor” (2008).

Capa do livro "O poder do sim", com o título e nome do autor sobre um fundo sólido

O poder do sim

David Hare

Temporal

184 páginas

Lançamento em 20 de janeiro

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