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‘O livro dos humanos’: o Homo sapiens entre outros animais


O ‘Nexo’ publica trecho de um livro que tenta entender o lugar dos humanos no reino animal. Reunindo informações sobre várias espécies, Adam Rutherford demonstra que não somos tão distintos quanto gostaríamos de imaginar – e por que, ainda assim, somos extraordinários. Leia, abaixo, trecho da introdução

Hamlet maravilha-se diante do nosso esplendor, tal qual fizeram cientistas, filósofos e religiões por milênios. No entanto, o progresso do conhecimento enfraqueceu nossa singularidade. Nicolau Copérnico nos arrastou de um mundo no centro do universo para um que apenas orbita uma estrela simples. A astrofísica do século 20 revelou que nosso sistema solar é só mais um entre bilhões em nossa galáxia, que, por sua vez, é só mais uma entre outras bilhões no universo. Até hoje, só sabemos de um mundo com vida, mas desde 1997, quando os primeiros planetas fora da gravidade solar foram descobertos, tomamos conhecimento de milhares no firmamento celeste, e em abril de 2018 um novo satélite foi lançado especificamente para buscar novos mundos estranhos. Estamos começando a entender bem as condições necessárias para que a química se transforme em biologia e para que a vida surja a partir de uma rocha estéril. A questão de haver ou não vida fora da Terra mudou: seria surpreendente se não houvesse seres vivos em outras partes do universo. Isso tudo ainda está por vir, então, por enquanto, só conhecemos vida na Terra. Mas é provável que não sejamos tão especiais quanto costumávamos pensar, e quanto mais aprendemos, mais claro isso se torna.

Na Terra, Charles Darwin iniciou o processo de nos trazer de volta ao mundo natural, afastando-nos da criação especial. Ele mostrou que somos animais, evoluídos a partir de outros animais, e nos estabeleceu firmemente como criaturas procriadas, e não criadas. Todas as evidências moleculares incontroversas dos pilares da biologia ainda estavam por vir em 1859, quando ele apresentou ao mundo sua grande ideia em “A origem das espécies”. Ele evitou incluir os seres humanos nessa grande obra, mas nos provocou ao afirmar que seu mecanismo da seleção natural logo traria esclarecimentos a respeito de nossas próprias origens. Em “A origem do homem e a seleção sexual”, de 1871, ele aplicou seu meticuloso e presciente cérebro à nossa gênese, descrevendo-nos como um animal evoluído, assim como qualquer outro organismo da história da Terra. Embora quase pelado, você é um macaco, descendente de macacos, seus traços e ações esculpidos ou escolhidos pela seleção natural.

Nesse sentido, não somos especiais. Evoluímos com uma biologia indistinta de toda vida, e sob os auspícios de um mecanismo que é similarmente universal. Mas a evolução também nos equipou com um conjunto de capacidades cognitivas que nos deu, ironicamente, um senso de separação da natureza, pois nos permitiu desenvolver e refinar nossa cultura a um nível de complexidade que vai muito além de qualquer outra espécie. Ela nos deu uma ideia clara de que somos especiais, e especialmente criados.

No entanto, muitas das coisas que outrora pensávamos ser exclusivamente humanas, na verdade, não são. Estendemos nosso alcance para além do nosso domínio utilizando a natureza e inventando tecnologias. Mas muitos animais também usam ferramentas. Dissociamos o sexo da reprodução, e quase sempre fazemos sexo por diversão. Os cientistas têm relutância em admitir a possibilidade de prazer nos animais, mas, ainda assim, uma grande proporção dessa atividade sexual não resulta e não pode resultar em reprodução. Somos, muitas vezes, uma espécie homossexual. Houve uma época — e em muitos lugares isso não acabou — em que a homossexualidade era condenada como contra naturam, um crime contra a natureza. Na realidade, atos sexuais entre membros do mesmo sexo abundam na natureza, em milhares de animais, e podem muito bem, por exemplo, dominar os encontros sexuais entre girafas machos.

Nossa capacidade de comunicação parece superar a de qualquer outro animal, embora simplesmente ainda não saibamos o que eles dizem. Estou escrevendo este livro, e você agora o lê, o que é um nível de comunicação que se desenvolveu para muito além de qualquer outro nível que tenhamos observado em qualquer outra espécie. Embora isso sem dúvida nos torne diferentes, uma tamarutaca não dá a mínima para esse fato. Ela pode enxergar dezesseis comprimentos de onda de luz, enquanto enxergamos míseros três,* o que é muito mais útil para ela do que toda a cultura e autoestima que conquistamos em milênios.

Não obstante, um livro é algo que tipifica a lacuna entre nós e todas as outras criaturas. É o compartilhamento de informações geradas por milhares de outros, quase nenhum dos quais tem uma ligação próxima a mim. Estudei suas ideias e registrei-as em uma ferramenta de complexidade quase inimaginável, a fim de que nossa mente possa ser enriquecida por esta coleção de histórias que são novas, e, com sorte, interessantes para qualquer um que tenha a curiosidade de apanhá-la.

Este é um livro sobre o paradoxo de como nos tornamos nós. Explora uma evolução que conferiu capacidades imensas de intelecto a um macaco que, caso contrário, seria mediano, para criar ferramentas, arte, música, ciência e engenharia. Por meio de ossos antigos, e, hoje, da genética, temos informações sobre a mecânica da nossa jornada evolucionária através das eras (apesar de ainda haver muito a ser descoberto), mas sabemos muito menos sobre o desenvolvimento de nosso comportamento, de nossa mente e do modo como evoluímos de maneira singular para os seres sociais que somos hoje.

*Ou quatro: estamos começando a achar que algumas mulheres são tetracromatas, o que significa que têm fotorreceptores aperfeiçoados para detectar quatro cores primárias em vez das três tricromáticas, que são o padrão. A nova cor primária pertenceria ao espectro verde.

Adam Rutherford é PhD em genética, graduado em biologia evolutiva e pesquisador honorário da UCL (University College London). Foi editor da revista Nature e é colaborador frequente do jornal The Guardian. Participou de diversas séries de divulgação científica de grande sucesso na televisão, como The Gene Code e The Cell, ambas transmitidas pela BBC. Atualmente apresenta o programa Inside Science na Rádio BBC 4. Seu primeiro livro, Creation (2013), foi aclamado pela crítica e indicado ao Wellcome Trust Book Prize.

Capa do "Livro dos Humanos", com ilustração de um esqueleto humano

O livro dos humanos

Adam Rutherford

Editora Record

252 páginas

Lançamento em fevereiro

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