Ir direto ao conteúdo

‘A tortura’: horrores da independência argelina


O ‘Nexo’ publica trecho inicial de um dos mais famosos relatos dos métodos bárbaros usados por autoridades francesas durante a guerra de independência da Argélia. Henri Alleg, diretor de um jornal comunista e militante da libertação argelina, foi sequestrado pelos ‘paraquedistas’ franceses e submetido a diversos tipos de tortura. Este é o texto que escreveu em denúncia

Nesta imensa prisão mais que lotada, em que cada cela abriga um sofrimento, falar de si mesmo é quase uma indecência. No andar térreo encontra-se a “divisão” dos condenados à morte. São oitenta, de tornozelos agrilhoados, a esperar o perdão ou o fim. E é segundo seu ritmo que todos vivemos. Não há prisioneiro que, à noite, não se revire no catre à ideia de que a alvorada pode ser sinistra, não há quem adormeça sem antes pedir com todas as forças que não aconteça nada. E, mesmo assim, é lá de baixo que sobem, todo dia, as canções proibidas, as canções magníficas que sempre vêm do coração dos povos que lutam por sua liberdade.

A tortura? Faz tempo que a palavra se tornou familiar para todos. Aqui são raros os que escaparam a ela. Quando chega um “novato” com quem conseguimos falar, as perguntas são, nesta ordem: “Preso há muito tempo? Torturaram? Polícia ou paraquedistas?”. Meu caso é excepcional pela repercussão que teve. Ele está longe de ser único. O que eu disse diante do tribunal, o que direi aqui, ilustra com um exemplo singular isso que é uma prática trivial nesta guerra atroz e sanguinolenta.

Faz agora mais de três meses que fui detido. Durante esse tempo, passei por tantos sofrimentos e tantas humilhações que não ousaria voltar a falar desses dias e noites de suplício se não soubesse que isso pode ser útil, que dar a conhecer a verdade também é uma maneira de contribuir para o cessar-fogo e para a paz. Por noites inteiras, durante todo um mês, ouvi os berros de homens torturados, e seus gritos ressoam para sempre na minha memória. Vi prisioneiros jogados a golpes de cassetete de um andar para outro e que, aturdidos pela tortura e pelas pancadas, já não sabiam fazer outra coisa senão murmurar em árabe as primeiras palavras de uma antiga oração.

Mais tarde, soube de outras coisas mais. Fiquei sabendo do “desaparecimento” do meu amigo Maurice Audin, detido 24 horas antes de mim, torturado pela mesma equipe que, em seguida, “tratou” de mim. Desaparecido como o cheikh Tebessi, presidente da Associação dos Ulemás, o dr. Cherif Zahar e tantos outros. Em Lodi, encontrei meu amigo De Milly, funcionário do hospital psiquiátrico de Blida, também ele torturado pelos paraquedistas, mas segundo uma nova técnica: foi amarrado, nu, a uma cadeira de metal, pela qual passava uma corrente elétrica; até hoje, suas pernas estão marcadas a fundo pelas queimaduras. Nos corredores da prisão, reconheci um dos “novatos”, Mohamed Sefta, da justiça muçulmana de Argel, a Mahakma. “Quarenta e três dias com os paraquedistas. Me perdoe, ainda tenho dificuldade para falar: eles me queimaram a língua” — e então me mostrou a língua dilacerada. Vi outros mais: no interior do camburão que nos conduzia ao tribunal militar, um jovem comerciante de Casbá, Boualem Bahmed, me mostrou as longas cicatrizes que tinha nas panturrilhas. “Foram os paraquedistas, com uma faca: eu tinha dado abrigo a um FLN.”*

Do outro lado do muro, na ala reservada às mulheres, estão moças de que ninguém falou: Djamila Bouhired, Élyette Loup, Nassima Hablal, Melika Khene, Lucie Coscas, Colette Grégoire e outras mais. Despidas, espancadas, insultadas por torturadores sádicos, também elas passaram pela água e pela eletricidade. Todo mundo aqui sabe do martírio de Annick Castel, que, estuprada por um paraquedista, julgava estar grávida e só pensava em morrer.

Todas essas coisas, eu as sei, eu as ouvi. Mas quem há de contar todo o resto?

É nos “desaparecidos” e naqueles que, firmes em sua causa, esperam a morte sem medo; naqueles que enfrentam os carrascos e não os temeram; em todos aqueles que, diante do ódio e da tortura, reafirmaram sua certeza numa paz próxima e na amizade entre os nossos povos — é neles que se deve pensar à leitura do meu relato, pois esta poderia ser a história de cada um deles.

*Fundada em 1954, a Frente de Libertação Nacional foi o protagonista principal na luta pela independência da Argélia — será justamente com a FLN que o governo francês negociará e assinará os acordos de Évian, de março de 1962, que puseram fim à guerra. [Nota do tradutor]

Henri Alleg foi, de 1950 a 1955, o diretor do Alger Républicain, principal jornal de oposição durante a guerra de independência da Argélia. Sua circulação foi proibida em 1955, e Alleg passou à clandestinidade. Em 12 de junho de 1957, foi sequestrado pela 10ª Divisão Paraquedista, detido e torturado por um mês em El Biar, na periferia de Argel. Seu relato, escrito às pressas e contrabandeado a Paris para publicação, é um dos mais famosos registros da tortura francesa no período.

Capa do livro "A tortura", fotografia em preto e branco de uma mão levantada por detrás de um muro

A tortura

Henri Alleg

Editora Todavia

80 páginas

Lançamento em janeiro de 2020

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!