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‘Malagueta, Perus e Bacanaço’: malandragem paulistana


O ‘Nexo’ publica trecho de nova edição do livro que fez a fama de João Antônio, escritor e jornalista paulistano. A coletânea de contos reúne histórias de personagens às margens da vida urbana: bêbados, pedintes, trapaceiros. Leia, abaixo, início do conto que dá título ao livro

Lapa

O engraxate batucou na caixa mostrando que era o fim.

Bacanaço se levantou, estirou uma nota ao menino. Os olhos dançaram no brilho dos sapatos, foram para as cortinas verdes.

Vestido de branco, com macio rebolado, Bacanaço se chegou:

— Olá, meu parceirinho! Está a jogo ou está a passeio?

O menino Perus encolheu-se no blusão de couro. Os dedos de Bacanaço indo, vindo, atiçando. Desafiavam.

— Está a jogo ou a passeio?

Calado. O anelão luzia no dedo do outro e o apequenava, largava-o de olhos baixos, desenxabido. O menino Perus chutou para longe uma ponta de cigarro, arriou no banco lateral. Três dedos enfiaram-se nos cabelos.

— Que nada! Tou quebrado, meu — os dedos voltaram a descansar nos joelhos.

Avistavam-se todas as tardes, acordados há pouco ou apenas maldormidos. Dois tacos conhecidos e um amigo do outro não pretendem desacato sério. Os desafios goram, desembocam num bom entendimento. Perus e Bacanaço, de ordinário, acabavam sócios e partiam. Então, conluiados, nem queriam saber se estavam certos ou errados. Funcionavam como parelha fortíssima, como bárbaros, como relógios. Piranhas. Lapa, Pompeia, Pinheiros, Água Branca… ou em qualquer muquinfo por aí, porque todo muquinfo é muquinfo, quando se joga o joguinho e se está com a fome. Negaça, marmelo, trapaça, quando iam os dois. Um, o martelo; o outro era o cabo.

Mas se cumprimentavam aos palavrões. Quando se topavam, por malandragem ou negaça do joguinho, se encaravam. Picardia. E quem não soubesse diria que acabariam se atracando. Um querendo comer o outro pela perna, dizendo desconsiderações.

Chegava-lhes depois um risinho safado empurrando-lhes a gana para bem longe. Já não se estranhavam. Faziam sociedade, canalhas igualmente, catavam juntos as virações nas rodas do joguinho.

Àquela tarde, tinham manha, tinham charla, boquejavam a prosa mole… Mas por umas ou por outras estavam sem capital. Os dois quebrados, quebradinhos. Sem dinheiro, o maior malandro cai do cavalo e sofredor algum sai do buraco. Esperar maré de sorte? A sorte não gosta de ver ninguém bem.

A curriola parada naquele salão da Lapa. Jogo nenhum. Safados por todos os cantos. Magros, encardidos, amarelos, sonolentos, vagabundos, erradios, viradores. Tanto sono, muita gana, grana pouca ou nenhuma naquela roda de sinuca. A roda fica mais triste sem o jogo. Magros, magros. Pescoços de galinha.

Bacanaço abanou a cabeça.

— Tão só na boca de espera, mora. Aqui é tudo lixo.

Então, enquanto otários não surgiam, jogo bom não aparecia e a noite não chegava, Perus e Bacanaço brincaram. Com a boca e com as pernas, indo e vindo e requebrando, se fazendo de difíceis, brincaram. Desconsideradamente, nenhum golpe. As pernas ao de leve se tocavam e se afastavam, não se entrelaçando nunca, que aquilo era brincar.

A curriola veio se encostando.

Atiçou-se o rebolado dos dois corpos magros se relando e Bacanaço vibrou. Aquele menino Perus se mexia, esperteza e marotagem, se esgueirando e escapulindo como um susto. “Vou podar este menino”, considerou Bacanaço.

Do bolso traseiro da calça já veio aberta a navalha.

— Entra, safado.

Perus estatelou, guardou-se no blusão de couro. O antebraço cobriu a cara, os olhos firmaram.

A curriola calada.

Mas Bacanaço sorriu, que aquilo era brincar.

Durão veio pedir, que o dono do bar pedia. Parassem com aquilo, que aquilo não abria futuro, havia navalha, se os tiras aparecessem… Durão, no seu avental encardido e na sua vontade frouxa de ordem, que ajeitava, maneiro. Dessem juízo. O dono do bar pedia.

Bacanaço meteu as mãos no bolso, estirou o beiço. Sacou a mão, o polegar dobrou-se para trás, flechou o balcão:

— O mister aí da casa não quer batifundo, mora.

E brincaram mais um tanto, que a vontade não passara. Durão fez um barulho com a boca, descoroçoado, se foi com xícaras de café na mão.

Duma feita se aquietaram, já não querendo mais nada. Suados, procuraram o banco lateral, ajeitaram-se de pernas abertas. Jogar palitinho, contar façanha ou casos com nomes de parceiros, conluios, atrapalhadas, tramoias, brigas, fugas, prisões… Lembraram Sorocabana.

Ali, naquele salão enorme, não fazia uma semana.

O salão era na Lapa, era o velho Celestino, treze mesas, jogos bons, parceirinhos coiós. Catava-se ali muito trouxa de subúrbio, motoristas, operários, mascates, homens de sacaria, gente da estrada de ferro. Havia parceirões temporários. Bem. Não fazia uma semana, naquela boca do inferno apareceu Sorocabana, largando ali, numa semana, pouco mais de vinte contos. Quem ganhou foi Bacalau, com aquele seu jeito de sonso, na batida velha de quem não quer nada e joga só por jogar. Deu açúcar ao freguês e ele veio depressinha. Então, Bacalau mordeu. Comia o homem, comendo de gosto. Quando a semana findou, o malandro fingiu dó e aplicou a dissimulada — deu uma estia de cinco contos a Sorocabana. Pelo certo, na regra da sinuca, a gratificação de consolo previa apenas três contos e, bem considerando, não chegava nem a três. Dez por cento sobre o perdido é a estia. E Bacalau dando cinco contos… Mas Bacalau era um perigoso e tinha juízo, fintava na charla, mexia os pauzinhos. É que Sorocabana, trouxa, coió-sem-sorte, andava esbagaçando um salário-prêmio recebido pelos vinte anos de trabalho efetivo na lida brava da estrada de ferro. Sim. Casado, três filhos, um homem de vida brava. Um inveterado, um pixote se metendo a gente, um cavalo-de-teta. E Bacalau perguntava-se: “Para que trouxa quer dinheiro?”. Bacalau adoçou-o mais. Continuaram o joguinho e o malandro lhe mordeu os últimos, folgando, devagar, quatro horas de jogo. Por último, dando alarde ao desacato, manejava o taco com uma mão só e dava uma lambujem, um partido de quinze pontos na bola dois. Era escandaloso. Bacalau estava perdendo a linha que todo malandro tem. Não se faz aquilo na sinuca. Vá que se faça dissimulada, trapaça, até furtos de pontos no marcador. Certo, que é tudo malandragem. Mas desrespeitar parceiro, não. A própria curriola se assanhou, desaprovando.

Sorocabana, coitado. Ficava na beirada da mesa, atrapalhando-se com o cigarro, tirando as bolas, falando sozinho.

Mas o castigo vem a cavalo.

Bacalau quis ser mais malandro que a malandragem e isto o perdeu. Pegou a grana, empolou-se num rompante, ganhou a rua. Fala-se que entrou no primeiro restaurante e fartou-se como um lorde. Sozinho. A turma se mordeu, com aquilo a turma se queimou. Malandro ganhar vinte contos, não dar mimo a ninguém, não distribuir as estias! Que malandro era aquele? Aquilo era um safado precisando de lição. A curriola se enfezou. Era mancada, pouco-caso, era desdenhar, desconsiderar, que diabo! Afinal, quando Bacalau estava com a fome, sabia muito bem pedir e sempre lhe arranjavam algum para que o vagabundo se endireitasse, tirando o pé da lama. Como podia, agora que tinha de sobra… Entregaram Bacalau aos ratos.

Os tiras foram catá-lo, bebendo e folgando com mulher, dois dias depois, num boteco das Perdizes.

Entregaram Bacalau e ninguém soube quem foi.

Contava Bacanaço que sabia muito bem das coisinhas da façanha. O menino Perus também sabia. Mas era um menino diante de Bacanaço e por isso ouvia quieto, só meneando a cabeça e de acordo com tudo. Para final — Bacanaço era taco melhor, jogador maduro, ladino perigoso da caixeta, do baralho e da sinuca, moreno vistoso e mandão, malandro de mulheres. Camisa de Bacanaço era uma para cada dia. Vida arrumada. De mais a mais, Bacanaço tinha negócio com os mascates, aqueles que vendiam quinquilharias e penduricalhos nas beiradas da Lapa-de-baixo, e era um considerado dos homens do mercado. Malandro fino, vadio de muita linha, tinha a consideração dos policiais. Andar com Bacanaço, segui-lo, ouvi-lo, servi-lo, fazer parceria, era negócio bom.

Era quem primeiro cantava de galo. Bacanaço não olhava na cara dos desconhecidos. Impunha-se-lhes oprimindo, apequenando. Mandava primeiro, uma ruga nas sobrancelhas, sempre abespinhado. Desses que quando a conversa não interessa vão mandando para a casa do diabo. E se houver reaproximação já batem, já xingam, já correm o pé, dão cabeçada, deixam o sujeito estirado na calçada. Agora, se gostasse, gostava. Era igual, amigão. Ninguém botasse a mão em amigo seu. Porque seria como mexer com sua cara ou bulir com amiga sua. Assim era Bacanaço com o menino Perus. E por isso o menino o admirava.

Mas a façanha se acabou e Sorocabana sumiu-lhes do pensamento. Também o jogo de palitinho e os brinquedos de boca se sumiram. E falaram deles mesmos, paroleiros, exagerando-se em vantagens; mas uma realidade boiou e ficaram pequenos. O que lhes adiantava serem dois tacos, afiados para partidas caras? Estavam quebrados, quebradinhos.

Bacanaço foi para a porta do bar.

Os meninos vendedores de jornal gritavam mais, aproveitando a hora.

Gente. Gente mais gente. Gente se apertava.

A rua suja e pequena. Para os lados do mercado e à beira dos trilhos do trem — porteira fechada, profusão de barulhos, confusão, gente. Bondes rangiam nos trilhos, catando ou depositando gente empurrada e empurrando-se no ponto inicial. Fechado o sinal da porteira, continua fechado. É pressa, as buzinas comem o ar com precipitação, exigem passagem. Pressa, que gente deixou os trabalhos, homens de gravata ou homens das fábricas. Bicicleta, motoneta, caminhão, apertando-se na rua. Para a cidade ou para as vilas, gente que vem ou que vai.

Lusco-fusco. A rua parece inchar.

Bacanaço sorri. O pedido gritado da cega que pede esmolas. Gritado, exigindo. A menina chora, quer sorvete de palito, não quer saber se a mãe ofega entre pacotes. Bacanaço sorri.

O sinal se abriu e nova carga de gente, dos lados da Lapa-de-baixo, entope a rua.

Gente regateia preços, escolhe, descompra e torna a escolher nas carrocinhas dos mascates, numerosas. Alguns estenderam seus panos ordinários no chão, onde um mundão de quinquilharias se amontoam. E preços, ofertas, pedidos sobem numa voz só. Bacanaço sorri.

Do lado de lá da rua, junto ao anúncio de venda de terrenos, um casal desajeitado. A moça é novinha e uma distância de três-quatro corpos entre eles… A moça novinha aperta um guarda-chuva, esfrega qualquer coisa com os pés, os olhos nos sapatos, encabulados. Bacanaço sorri.

Trouxas. Não era inteligência se apertar naquela afobação da rua. Mais um pouco, acendendo-se a fachada do cinema, viria mais gente dos subúrbios distantes. A Lapa ferveria. Trouxas. Do Moinho Velho, do Piqueri, de Cruz das Almas, de Vila Anastácio, de… do diabo. Autos berrariam mais, misturação cresceria, gente feia, otários. Corriam e se afobavam e se fanavam como coiós atrás de dinheiro. Trouxas. Por isso tropicavam nas ruas, peitavam-se como baratas tontas.

Há espaços em que o grito da cega esmoleira domina. Aquela, no entanto, se defende com inteligência, como fazem os meninos jornaleiros, os engraxates e os mascates. Com inteligência. Não andam como coiós apertando-se nas ruas por causa de dinheiro.

Bacanaço deu com a primeira luz. Lá no meio da cara da locomotiva. Num golpe luzes brotaram acima dos trilhos dos bondes. Os luminosos dos bares se acenderam e a fachada do cinema ficou bonita.

A Lapa trocava de cor.

Um pensamento bateu-lhe de repente:

— E Malagueta?

Em que presepada ter-se-ia enfiado o velho sem-vergonha, esmoleiro, cara de pau? Meia-volta, andou.

Perus e Bacanaço entristeciam no banco lateral. Quebrados, quebradinhos. O menino Perus repetia cigarros fornecidos por Bacanaço e o mulato espiando mesas, abespinhado.

Ali, de ordinário, pingava um ou outro joguinho bom. Mas onde há jogo bom, piranha vem morder. Naquele salão da Lapa faziam ponto malandros finos de sinuca, escorregados de outros lados da cidade. Então, safados infestavam o salão e aquela boca do inferno virava um poço de piranhas.

Aquele dia era desses.

João Antônio foi um escritor e jornalista conhecido por seu registro de figuras à margem da vida urbana. Nascido em 1937, na zona oeste de São Paulo, alcançou sucesso literário em 1963 com seu livro de estreia, a colet��nea de contos “Malagueta, Perus e Bacanaço”. Foi da equipe fundadora da revista Realidade, na qual inaugurou o conto-reportagem.

Malagueta, Perus e Bacanaço

João Antônio

Editora 34

Lançamento em 2020

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