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‘A menininha do Hotel Metropol’: infância na URSS stalinista


O ‘Nexo’ publica trecho do livro de memórias de Liudmila Petruchévskaia, escritora russa que viveu a juventude durante o regime stalinista e chegou a ser considerada ‘inimiga do estado’. Nos dois capítulos abaixo, ela narra o momento em que reencontrou sua mãe e voltou a Moscou, onde nasceu, após fugir com familiares para Kuibichev e acabar morando na rua

Outra vida

Logo depois dessa dor começou minha outra vida, aconteceu um milagre.

Naquela época, começo de junho de 1947, depois de descer da varanda, passei muito tempo vivendo na rua, ou seja, no pátio; já tinham conseguido até me adotar como filha. Era uma mulher de um pátio vizinho que havia perdido sua filha. Ela morava numa casinha de um andar, debaixo de uma árvore, numa sombra espessa. No quarto da mulher reinava a penumbra, em cima de uma caminha estava pendurada uma fotografia ampliada de uma menina morta com fitas pretas afixadas nela. Aquela mulher me deu um banho numa tina, o que era cruel e absurdo. Mãos de outra pessoa me tocando, eca. Eu não lembro, mas possivelmente ela passou querosene no meu cabelo. Passei pouco tempo dormindo debaixo do retrato, e uma noite fugi correndo para meu pátio. Retrato, retrato, sempre um retrato com olhos que me fitavam! E a mulher, sempre vestida de roupa escura, pequena e preocupada, quase não olhava para mim. Na penumbra, ela tirava do armário as preciosas roupinhas de sua filha e, hesitando, olhava para meu lado. Era claro que ela queria se acostumar comigo, e por enquanto não tinha pressa em revelar todas as suas riquezas, mas fui passear no pátio e não voltei. Não sei por quê, mas eu esperava minha própria mãe, que tinha ido embora quatro anos antes para estudar em Moscou, e por enquanto não havia voltado, só mandava um pouco de dinheiro com o qual comprávamos cupons para pão e, de vez em quando, querosene.

Eu, livre como um pássaro, desgrenhada, me coçando toda por causa dos percevejos e piolhos, já cheia de poeira depois do banho (naquela época não havia espelhos, e eu não me via, como todos os vagabundos), corria pelo pátio sem conhecer meu futuro, mas chegaram aos pulos os filhos crescidos dos vizinhos de cima da nossa prumada, filhos dos nossos inimigos e eles mesmos meus inimigos, porque sempre me perseguiam e batiam, um rapaz e uma moça, irmão e irmã: eu tinha medo deles e me escondi na esquina. De repente, como amigos, eles começaram a gritar de longe alegremente para eu ir com eles para casa, porque minha mãe estava me esperando!

Eis o que acontece na vida! Seus oponentes e atormentadores de repente se transformam em rostos absolutamente amigáveis, radiantes, bondosos. (Depois observei isso mais de uma vez.)

Eu embirrei e não acreditei. Ir para a casa dos meus inimigos? Que mãe? Aquela mulher de preto com o retrato na parede? Mas eles gritavam: “Sua mãe, sua mãe chegou! De Moscou!”.

Era incrível! Minha cabeça começou a girar.

Mas crianças de rua não devem confiar em ninguém.

Queriam eles me enganar para me levar de volta para casa? Trancar-me à chave? Ou me entregar a um orfanato? Duas mulheres de algum departamento andavam me perseguindo para me mandar para o orfanato, e eu as temia como o fogo. Uma vez eu tinha dado de encontro com uma delas — raspei a unha nas costas de alguém dizendo “me dá uma moedinha” e de repente na minha frente, ao se virar, surgiu aquela mesma mulher, como se viesse de um pesadelo, e disse: “Aí está você!”.

Como corri dela daquela vez!

Mas fui com meus inimigos. Subimos, passamos pela porta de nosso apartamento, abandonado por mim, atrás da qual me esperavam em vão as pobres vovó e Vava. Subimos um andar a mais e me levaram para o quarto, onde estava sentada à mesa minha própria mãe!

Engasguei e caí no choro de felicidade, parecia que eu tinha explodido. Não via minha querida mãe havia quatro anos. Aquele rosto amado sorria para mim, mas apareceram também umas covinhas embaixo dos olhos (elas apareciam quando mamãe queria chorar de emoção, como quando me viu depois da separação; agora, minha filha tem as mesmas covinhas). Minha mãe me sentou e começou a me alimentar de colherinha, como se eu fosse pequena, com mingau de semolina, que ela havia cozinhado especialmente para mim enquanto esperava — com leite, óleo e açúcar. Vomitei. Depois lembro que mamãe me limpou e me carregou no colo até a casa de banho, eu fiquei terrivelmente envergonhada por estarem me carregando diante de todos, uma meninona saudável, mas mamãe havia me deixado aos cinco anos e estava acostumada a carregar a filha. Na casa de banho rasparam meu cabelo, deixando só um topetinho, e depois passamos a noite nos leitos de madeira e lona chamados de “boleia”, em lençóis brancos e limpíssimos, no salão enorme do aeroporto, entre dezenas de pessoas que dormiam como nós. Eu não conseguia dormir. O cheiro da roupa de cama fresca, seca ao sol no pátio! Mamãe dormiu ao meu ladinho, segurando minha mão!

Era 9 de junho. Lembrarei a data por toda a vida. No fim da noite nos acordaram e nos puseram num avião com bancos de ferro que se estendiam ao longo da cabine, como é o metrô agora. Passamos muito tempo voando; o avião balançava, caía em buracos no ar, a alma vinha até a boca.

Chegamos de manhã. Eu usava sandalinhas marrons novas, com meias, calcinha, camiseta e um vestido vermelho-vivo! E ainda tinha um grande sobretudo de xadrez marrom. Eu me sentia como Cinderela no baile, completamente mudada. Começava uma nova vida.

Avançando um pouco, direi que nela não havia lugar para mim.

O Metropol

Em Moscou, onde chegamos de ônibus, era um começo de manhã nublado, e um calafrio me correu. A leve névoa escondia a praça Sverdlov adiante, quando estávamos esperando no farol do Teatro Máli, em frente ao Metropol. Ou o sol ainda não havia saído. Eu não tinha dormido bem, fazia frio, e mamãe me segurava pela mão de um jeito que, ao primeiro olhar, dava a impressão de que tinha medo de me perder.

Eu não permitia que mais ninguém me desse a mão.

Lembro que diante de mim se estendia o Okhotni Riad vazio, que precisávamos atravessar para chegar ao Hotel Metropol, onde meu bisavô Iliá Serguêievitch, Dêdia, nos esperava — fiquei impressionada que houvesse tão poucos carros no cruzamento. Eu havia sido criada com filmes americanos do tipo “A irmã do mordomo”, na querida ODO, e esperava que eu e mamãe desembarcássemos no mínimo em Nova York, com suas torrentes de carros!

Mas desembarcamos em Moscou.

Entramos no apartamento do meu bisavô no Hotel Metropol. Era para lá que tinham me levado da maternidade, ali eu havia passado os primeiros anos da minha vida. Era como minha casa.

Mas eu já era uma criança totalmente ingovernável e selvagem depois da guerra, depois da separação, quase um Mogli. Como diriam agora, eu era insocial. A vida que levávamos em Kuibichev era uma vida de renegados, párias, loucos. “Inimigos do povo” não era uma expressão vazia, éramos inimigos dos vizinhos, da polícia, dos chefes, dos zeladores, dos passantes, dos habitantes de todas as idades naquele prédio. Não nos deixavam entrar no banheiro, lavar a roupa, nem sabão tínhamos. Nos meus nove anos eu não sabia o que eram sapatos, pente, lenço de nariz, escola, o que era disciplina, por exemplo. Eu não sabia como ficar sentada sem me mexer, lia quase sempre de quatro, devorando os volumes com uma rapidez furiosa. Comia quase num instante, principalmente com as mãos, enfiando na boca pedaços enormes, e me lambia até ficar tudo limpo. Eu andava o ano inteiro descalça (no inverno, sem sair de casa). Não sabia o que era lençol. Piolhos e percevejos roíam minhas mãos do ombro até o cotovelo, e de tanto coçar não sobrava um lugar vivo. Meus pés e minhas mãos eram cinzentos, com fendas ensanguentadas, pus, rachaduras e arranhões, e as unhas eram pretas como as de um macaco.

Só os cabelos e os olhos eram, talvez, como antes, de criança. Mas haviam raspado meus cabelos.

Essa era a menina que minha mãe recebeu.

Claro, eu incomodava meu bisavô no Hotel Metropol, ele só tinha um quarto ali, e quem gostaria da presença da natureza desenfreada de nove anos descrita acima naquele ninho de altos funcionários do Partido, como o Metropol?

Mamãe ia trabalhar, Dêdia ia cuidar de suas coisas. Eu ficava entediada, precisava agir.

Deixada sozinha, comecei a fuçar a escrivaninha e descobri na gaveta de Dêdia uma lata com moedas de cinquenta copeques de prata. Eram tão bonitas!

Subi no parapeito.

Embaixo, no pátio, os meninos corriam e gritavam como desesperados.

Do alto da minha posição comecei a jogar as moedas para eles regiamente, e me divertia horrores, olhando como se alvoroçavam, corriam atrás das moedas e se engalfinhavam!

Cada nova moeda provocava neles uma explosão de atividade furiosa e bofetões.

Eles já olhavam para cima com esperança, e eu, satisfeita, me escondia.

No dia seguinte, fui para o corredor com um cavalinho de madeira de brinquedo do meu bisavô. Mais precisamente, era um cavalo do Serioja, o piloto que havia partido, meu jovem tio. Para completar, enterrei na cabeça a pesada e desmesurada budionnóvka de Dêdia (toda uma armadura, um capacete de feltro com longos protetores de orelha que pinicavam, um elmo!). O ângulo da pala chegava quase até meu queixo, e era preciso levantar a cabeça para ver o chão. Além disso, surrupiei um sabre pesado que pendia pacificamente da tapeçaria na parede de meu bisavô, empunhei e assim comecei a sulcar o longo corredor do Metropol sobre o cavalo, empurrando os tacos do chão com os pés e gritando a galope: “Viva, camaradas! Para a batalha!”.

O que houve entre os adultos depois de meu ataque de cavalaria eu não sei. O sabre se revelou pesado demais, no fim das contas ele ficou pendurado por algum trapo atravessado sobre meu peito; imagine essa visão no corredor de altos funcionários do Metropol, saltitando, gritando e arranhando o piso decorado e encerado, juntando as perninhas, avançava uma enorme budionnóvka sobre um cavalo de brinquedo, e atrás dela se arrasta também um sabre, retinindo. Eu era muito magra e pequena; no orfanato, depois, meu apelido era moscovita-palito.

Liudmila Petruchévskaia nasceu em 1938 em Moscou, onde ainda vive. Escreveu mais de quinze livros, além de peças de teatro que foram interpretadas no mundo inteiro. Considerada inimiga do povo pela regime stalinista, Petruchévskaia teve sua obra censurada até o final da década de 1990. Em 2002, recebeu o mais prestigioso prêmio da Rússia, Triumph, pelo conjunto de sua obra.

Capa do livro "A menininha do Hotel Metropol", traz o desenho de uma menina de cabelos loiros despenteados

A menininha do Hotel Metropol: minha infância na Rússia comunista

Liudmila Petruchévskaia

Companhia das Letras

312 páginas

Lançamento em 15 de janeiro

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