‘Costuras para fora’: contos que viram a vida pelo avesso


O ‘Nexo’ publica trecho do primeiro livro de Ana Squilanti, ganhadora do Edital de Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. As histórias reunidas no volume capturam os dramas que se escondem em cenas do cotidiano. Leia abaixo o conto ‘Lista de compras’:

Algumas frutas secam e outras apodrecem

Nossa antiga Brasília rodopiou na estrada quando eu tinha sete anos. Papai ficou manco, meu irmão quebrou o braço, e eu, banco de trás sem cinto, seis pontos no supercílio, nunca deixei de acelerar no sinal amarelo. Hoje, empurrando o carrinho no supermercado, fico sem ar a cada curva entre corredores, tremo as mãos ao guiá-lo, sinto o corpo todo gelar a cada grito de Mãe!

É a primeira vez sobre este chão acinzentado e polido para as rodinhas deslizarem melhor, desde o incidente. Desde que Danilo não me ouviu e ainda disse que eu falei nada, como é que pode, Você acha que eu sou surdo, teria escutado que era para olhar a criança, Renata.

Agora entendo por que Rafael quis sair do apartamento e Lucília detesta o Guarujá, só que aqui não tem jeito, o outro mercado fica muito longe e sou eu a encarregada das compras, se Danilo fizesse no meu lugar se extinguiria o papel folha dupla no banheiro e só o shoyo continuaria sendo light. Mas devia fazer ele vir, é ele o responsável por eu estar inalando em dois tempos e expirando em quatro.

O homem de chapéu panamá, Senhor, por favor, um garotinho passou por aqui sozinho?, também está comprando hoje. Será que me olha com pena enquanto passo, com raiva da mãe desnaturada que abandonou o filho entre as gôndolas da feira enquanto pesava laranjas. Isso é culpa do Danilo também, se tivéssemos comprado a casa com quintal ou pelo menos jardim, um corredor lateral,teríamos um canteiro com árvore e fruta o ano todo, mas ele quis morar no centro.

Dias atrás peguei uma laranja murcha na fruteira, inteira por fora e passada por dentro, seca que só, quase sem suco. Morreu de deterioração, sem ação externa. Quase todas morrem do bolor, do fungo que acha ambiente propício para viver e contamina uma duas três laranjas as bananas e abobrinhas, o que estiver ao lado. Essa não, por que será, resistiu às toxinas e desidratou sozinha. Eu assisti ela morrer. Deixei secar até o ponto que achei que ela aguentaria e a abri. Havia tanto bagaço.

Há tanta gente no mercado. Naquele dia acho que era a mesma coisa, já havia perguntado a seis ou sete pessoas, De roupa vermelha? Desse tamanho?, quando Danilo chegou ao balcão de informações e questionaram o mercado todo de uma vez pelo alto-falante. Neste instante as caixinhas de som anunciam sabão de côco, três por dois no setor de Roupas, e degustação de suco de uva integral no de Matinais, naquele dia era que uma criança de quatro anos e roupa do Mickey estava sumida por qualquer um destes e dos muitos outros corredores.

Chuto umas cem pessoas ao todo, metade não ligaria se gritassem algo como aquilo de novo pelas caixinhas, estão com o olhar longe, além da etiqueta do preço da lata de milho ou de molho de tomate, ninguém presta atenção direito no que compra, imagina no que anuncia a voz fora da cabeça.

A outra metade ouviria e procuraria o pequeno e sofreria com a mãe e a julgaria logo em seguida. Logo que ela virasse as costas. Deve ter sido assim comigo. Não lembro das expressões que me deram enquanto corria por entre expositores e cestas e carrinhos e gritava Filho!, e o pensamento disparava junto, imaginando que Maurício viraria rosto em verso de recibo rodoviário, uma das oito crianças por hora que somem e para sempre desaparecem, e que eu teria de passar a vida com o coração a acelerar toda vez que visse uma tigelinha castanha, para só depois lembrar que já teriam passado vinte anos e ele poderia nem mais ter cabelo direito, ter pintado, estar em outro estado.

Quanto tempo será que ele levaria para se acostumar à vida sem mim? Por quanto tempo ainda se lembraria do meu rosto, levantaria o braço para alcançar a minha mão, procuraria meu colo no choro, minha voz e meu cheiro ainda seriam seu calmante? Tão pequeno e frágil, menor que a árvore de Natal, nem pisou em um parque de diversão porque a ida só vale a pena para andarmos na montanha-russa. Faltam 31 centímetros.

Será que ele gritou Mãe! enquanto eu gritava Filho! lá longe e eu não ouvi, será que ali ele teria começado a me esquecer, ao me chamar e eu não atender?

O corredor de Utensílios exibe umas facas bem caras, podia ter pedido alguma dessas no enxoval de casamento, as de casa mal cortam cebola. Dupla camada de aço, braço de madeira com resina que encaixa perfeitamente em qualquer pessoa, a embalagem diz que raramente terá de afiá-la. Se eu me matasse aqui, será que colocariam a faca na conta para o Danilo pagar?

Agora, lendo as informações, penso que se o desespero fosse real eu poderia ter colocado a arma na palma e em um golpe só na jugular resolvido o futuro de sofrimento. No peito seria poético, mas ali há costelas e outros órgãos e o movimento teria que ser certeiro para impedir o salvamento.

Uma mocinha loira cruza meu caminho indo para Massas e Molhos, tem uns oito anos, se localiza sozinha, carrega um pacotinho de aveia. Maurício não come aveia, nunca fiz mingau, ele gosta de farinha láctea, cheia de açúcar, faz mal, mas sou mãe ruim mesmo, coloque isto na lista, antes de – Perder o filho no mercado.

Danilo mal ajuda na dieta, na criação palpita e não decide, nas compras fala nada, tinha poucas funções aquele dia, pegar cerveja e carne para o final de semana e olhar o Maurício, custava fazer direito, querido, vou ali pesar rapidinho, olha nosso filho. Mas se Danilo não perdesse o Maurício perderia a hora a chave o ticket do estacionamento. O pagamento da escolinha que só dá desconto até dia cinco.

Em Limpeza os alvejantes prometem tirar todas as manchas. Quase encenam um comercial na minha frente, roupas estendidas sob um céu azul, brancas como sulfite, balançando em um varal comprido que eu não tenho. Tenho medo das lavagens fortes, corrosivas, que clareiam bem, mas podem rasgar o tecido, tirar o brilho do piso. Nunca sei se é melhor correr o risco de estragar ou de me acostumar com um pouquinho de sujeira. Ou jogar tudo fora. Os sacos de lixo estão tão perto da água sanitária.

Viro à esquerda para o hortifrúti, é inevitável, já comprei todo o resto, e chego finalmente nas verduras, tão sensível quanto elas. Vejo a banca da laranja no meio do salão, as unidades empilhadas como uma pirâmide de vitamina C. Com Maurício seguro em casa as frutas são só frutas e o mercado volta aos poucos a ser local de compra.

Estaciono o carrinho sem acidentes ao lado de Gizé. A Bahia está barata, gosto muito da Pera, por isso compro tanto, mas hoje vou pegar a Lima, mais doce e suave, menos ácida, boa para a digestão. Três quilos dá para a semana, fazer um suco, chupar e colocar na salada. A medida certa para os fungos não fazerem a festa, estará tudo equilibrado, sem toxina, sem excesso, ninguém vai desidratar, nada vai ser jogado fora.

Ana Squilanti nasceu em Indaiatuba, interior de São Paulo, em 1989. É farmacêutica, jornalista e roteirista, pós-graduada em produção transmídia pela Faculdade Cásper Líbero. Ex-coordenadora do Clube da Escrita para Mulheres, faz a divulgação do seu livro através do instagram @anasquilanti. “Costuras para fora”, ganhador do Edital de Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de SP, é seu primeiro livro.

Capa do livro "Costuras para fora", da Ana Squilanti

Costuras para fora

Ana Squilanti

Editora Nós

144 páginas

Lançamento em 13 de dezembro

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