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ʽDemocracia’: um romance dos bastidores do poder americano


O ‘Nexo’ publica trecho do único trabalho ficcional de Henry Adams, historiador e herdeiro de uma dinastia de políticos norte-americanos que elegeu dois presidentes. Esse romance, publicado anonimamente em 1880, acompanha uma viúva que decide ir a Washington para entender o funcionamento do governo. Leia, abaixo, o primeiro capítulo

Por razões que muitos julgaram ridículas, a sra. Lightfoot Lee decidiu passar o inverno em Washington. Sua saúde estava em excelente estado; no entanto, disse que o clima lhe faria bem. Em Nova York, dispunha de uma legião de amigos, mas se viu de súbito ansiosa para reencontrar o reduzidíssimo grupo que vivia às margens do Potomac. Somente ao círculo mais íntimo admitiu, com toda a sinceridade, sentir-se torturada pelo ennui. Desde a morte do marido, cinco anos antes, perdera o gosto de frequentar as rodas nova-iorquinas; os preços das ações não lhe interessavam, tampouco os homens que as negociavam; tornara-se uma mulher séria. De que valia tudo aquilo, aquele agreste de homens e mulheres tão enfadonhos quanto as casas de arenito pardo em que viviam? Em seu desespero, recorrera a medidas extremas. Lera filosofia no original alemão e, quanto mais lia, mais ela se desanimava com o fato de que tanta cultura a levasse a nada – nada.

Depois de conversar uma noite inteira sobre Herbert Spencer com um comerciante de ideias literárias muito transcendentais, não foi capaz de ver seu tempo mais bem empregado do que quando, em outra época, o gastara flertando com um jovem corretor da bolsa muito agradável; a bem da verdade, tinha evidência do contrário, pois o flerte resultara em alguma coisa – sim: no casamento; enquanto a filosofia a levava a nada, a não ser, talvez, a outra noite do mesmo tipo, porque os filósofos transcendentais são em sua maioria homens de idade, em geral casados e, quando empenhados em negócios, um tanto sensíveis ao sono com o avizinhar-se da noite. No entanto, a sra. Lee fez o que esteve a seu alcance para imprimir caráter prático aos estudos. Mergulhou na filantropia, visitou prisões, inspecionou hospitais, leu a literatura disponível sobre a miséria e o crime, saturou-se de estatísticas sobre a imoralidade, a ponto de sua mente quase perder de vista a virtude. Esta, por fim, rebelou-se, e ela chegou ao limite de suas forças. Esse caminho, também, parecia não levar a parte alguma. Declarou que perdera o senso do dever e que, no que lhe dizia respeito, todos os indigentes e criminosos em Nova York poderiam, a partir de então, elevar-se em sua majestade e assenhorar-se de todas as ferrovias do continente. Que tinha ela com tudo aquilo? O que era a cidade para ela? Não conseguia encontrar nada que lhe parecesse digno de salvação. O que infundia particular santidade nos números? Por que 1 milhão de pessoas, uma semelhante a outra, eram mais interessantes que uma única? Que aspiração ela poderia ajudar a botar na mente desse monstro de 1 milhão de braços, a ponto de fazer valer seu amor ou respeito? Religião? Mil igrejas poderosas faziam o seu melhor nesse sentido, e ela não via espaço para uma nova fé da qual fosse a inspirada profetisa. Ambição? Elevados ideais populares? Paixão por tudo quanto fosse puro e sublime? As próprias palavras a irritavam. Não estava, ela mesma, consumida pela ambição, devorando o próprio coração por não ser capaz de encontrar nenhum objeto digno de sacrifício?

Foi a ambição – ambição real – ou foi a mera inquietação que tornou a sra. Lightfoot Lee tão amarga contra Nova York e Filadélfia, Baltimore e Boston, contra a vida americana em geral e toda vida em particular? O que desejava? Não se tratava de posição social, pois ela mesma era uma eminente e respeitável filadelfiana; seu pai, um famoso clérigo; e seu marido, igualmente irretocável, descendente de um ramo dos Lee da Virginia, que na juventude seguira para Nova York em busca de fortuna e a encontrara, ou apenas o bastante para ali permanecer. A viúva tinha o seu lugar na sociedade, ninguém podia contestar. Embora não mais brilhante do que suas iguais, o mundo insistiu em colocá-la na categoria das mulheres inteligentes; dispunha de riqueza, ou ao menos o suficiente para dar a ela tudo que o dinheiro pudesse dar, no sentido do prazer, a uma mulher de bom senso em uma cidade americana; possuía casa e carruagem; vestia-se bem; sua mesa era elegante, e nunca permitia que seus móveis estivessem aquém dos mais novos padrões de arte decorativa. Viajara pela Europa e, depois de várias visitas, que cobriram o intervalo de alguns anos, voltara para casa, digamos, trazendo em uma mão uma paisagem cinza-esverdeada, exemplar particularmente agradável do trabalho de Corot, e, na outra, alguns fardos com tapetes e bordados persas e sírios, bronzes e porcelanas japonesas. Com isso, cravou que a Europa se esgotara e declarou-se, pública e francamente, americana da cabeça aos pés; não sabia dizer – não era algo que a preocupasse – se era melhor viver na América ou na Europa; não morria de amores por nenhuma das duas e não objetava críticas a ambas; porém, tinha a pretensão de conquistar tudo que a vida americana pudesse oferecer, o bom e o ruim, e sorvê-la até a última gota, absolutamente determinada a obter tudo o que nela houvesse e a produzir dela tudo o que pudesse ser produzido.

— Sei – comentou ela – que a América produz petróleo e porcos; vi ambos nos navios a vapor; e me disseram que ela produz prata e ouro. Para qualquer mulher, as opções bastam.

No entanto, como já foi dito, a primeira experiência da sra. Lee não foi um sucesso. Não tardou a declarar que Nova York poderia representar o petróleo ou os porcos, mas o ouro da vida, aos seus olhos, não haveria de ser descoberto ali.

Não que não houvesse variedade suficiente: era uma miríade de pessoas, ocupações, objetivos e pensamentos; mas todos, depois de atingir certo ponto, estagnavam-se. Essas pessoas não encontravam o que as mantivesse vivas. Ela conhecia, com maior ou menor intimidade, uns dez homens cujas fortunas variavam entre 1 e 40 milhões. O que faziam do próprio dinheiro? O que podiam fazer com ele que fosse diferente do que outros homens haviam feito? Afinal, é absurdo gastar mais dinheiro do que o necessário para satisfazer todas as próprias necessidades; é grosseiro morar em duas casas na mesma rua, ou ser conduzido por três parelhas de cavalos. No entanto, depois de reservar renda suficiente para todos os desejos, o que fazer com o resto? Permitir que se acumulasse era o mesmo que possuir o fracasso; a grande queixa da sra. Lee era que se acumulava sem que a qualidade de seus proprietários se alterasse ou melhorasse. Gastar em caridade e obras públicas era sem dúvida louvável – mas seria sensato? A sra. Lee havia se dedicado à leitura de economia política e de relatórios sobre a pobreza a ponto de estar praticamente convencida de que as obras públicas eram deveres públicos, e de que as grandes benfeitorias faziam igualmente o mal e o bem.

E mesmo supondo que o dinheiro fosse gasto com tais objetivos: como poderia fazer mais do que ampliar e perpetuar aquele mesmo tipo de natureza humana que era sua grande queixa? Seus amigos de Nova York não eram capazes de enfrentar a questão sem recorrer aos clichês nativos, que ela esmagava sem dó, afirmando que, não obstante muito admirasse o gênio do famoso viajante, o sr. Gulliver, nunca fora capaz, desde que enviuvara, de aceitar a doutrina brobdingnagiana segundo a qual aquele que fez crescer duas lâminas de grama onde antes só havia uma merecia mais da humanidade do que toda a raça dos políticos. Não teria encontrado problemas no filósofo, caso este exigisse que a grama fosse de melhor qualidade:

— Mas – dizia ela – não posso, francamente, fingir que gostaria de ver dois nova-iorquinos onde hoje vejo apenas um; é uma ideia ridícula demais; um e meio que fosse já seria fatal para mim.

Apareceram, então, seus amigos de Boston, sugerindo que o ensino superior correspondia exatamente à necessidade dela – ela poderia se lançar em uma cruzada em nome das universidades e escolas de arte. A sra. Lee voltou-se a eles com um sorriso delicado:

— Vocês sabiam – comentou ela – que temos em Nova York a universidade mais rica da América, e que seu único problema sempre foi não conseguir alunos, nem mesmo pagando por eles? Vocês querem que eu vá para as ruas e faça emboscadas para garotos? Se os pagãos se recusarem a ser convertidos, vocês me concedem o poder de condená-los à fogueira ou à espada para obrigá-los a entrar? E suponhamos que possam. Suponhamos que eu perfile todos os garotos da Quinta Avenida e os faça marchar até a universidade e aprender adequadamente grego e latim, ética, literatura inglesa e filosofia alemã. E depois? Vocês fazem isso em Boston. Digam-me, honestamente, o que resulta disso. Imagino que vocês vivam em uma sociedade fantástica lá; incontáveis poetas, estudiosos, filósofos, estadistas, todos andando pela Beacon Street para cima e para baixo. As noites devem ser puro brilho; sua imprensa, magnífica. Como é que nós, os nova-iorquinos, nunca ouvimos falar disso? Não frequentamos muito a sociedade de Boston; mas, quando o fazemos, não parece muito melhor que a nossa. Vocês são como todos nós. Chegam a 6 polegadas de altura e param. Por que ninguém cresce a ponto de ser uma árvore e lançar uma sombra?

O cidadão médio da sociedade nova-iorquina, embora não de todo desacostumado ao tratamento desdenhoso de seus líderes, retaliou do alto de seu cego senso comum.

— O que quer essa mulher? – inquiriu ele. — Por acaso perdeu a cabeça nas Tulherias ou na Marlborough House? Ela se acha feita para um trono? Por que não dá palestras sobre os direitos das mulheres? Por que não sobe ao palco? Se não é capaz de se contentar, como os demais, que necessidade há de nos fustigar apenas porque não se sente mais alta do que nós? O que ela espera dessa língua ferina? Que tanto sabe ela, afinal?

É certo que a sra. Lee sabia muito pouco. Lera voraz e promiscuamente sobre uma enfiada de assuntos. Em seus pensamentos, Ruskin e Taine haviam dançado alegremente de mãos dadas com Darwin e Stuart Mill, Gustave Droz e Algernon Swinburne. Chegou até a debruçar-se sobre a literatura do próprio país. Era, talvez, a única mulher em Nova York que conhecia algo da história americana. Provavelmente não seria capaz de dizer a lista dos presidentes na sequência correta, mas sabia que a Constituição dividia o governo em Executivo, Legislativo e Judiciário; sabia que o presidente, o orador e o presidente do Supremo Tribunal eram personagens importantes, e instintivamente se perguntou se não eram eles a solução de seu problema; se não eram eles as árvores de sombra que via em seus sonhos.

Aqui, então, estava a explicação de sua inquietude, de seu descontentamento ou ambição – chamem-no como quiserem. Sentia-se como um passageiro a bordo de um navio a vapor cujos pensamentos não lhe davam descanso até que estivesse na sala das máquinas e conversasse com o maquinista. Ela queria ver com os próprios olhos as forças primárias em ação; tocar com as próprias mãos a imensa máquina da sociedade; medir com o próprio pensamento a capacidade da força motriz. Estava empenhada em chegar ao coração do grande mistério americano da democracia e do governo. Não se preocupava com o lugar aonde essa busca a poderia levar, pois não dava valor extravagante à vida, tendo, como dissera, exaurido ao menos duas delas e se tornado bastante endurecida e insensível no processo.

— Depois de perder um marido e um bebê – dizia ela – e manter a coragem e a razão, é preciso ou endurecer ou amolecer de vez. Hoje sou puro aço. Bata no meu coração com um martinete de forja, e o martinete será rebatido.

Talvez depois de esgotar o mundo político, ela pudesse tentar novamente outro lugar; ela não fingia saber aonde poderia ir, ou o que faria; mas, naquele momento, ela tinha a intenção de ver que tipo de diversão poderia haver na política.

Seus amigos perguntavam que tipo de diversão ela esperava encontrar entre o enxame iletrado de gente medíocre que em Washington representava colégios eleitorais tão desoladores que, em comparação, Nova York mais parecia uma Nova Jerusalém, e a Broad Street, um bosque de universidade. Ela respondeu que, se a sociedade de Washington fosse tão ruim assim, ela conseguiria tudo o que desejava, pois seria um prazer retornar – exatamente a sensação almejada. Em seus pensamentos, porém, desagradava-lhe a ideia de procurar homens. O que ela gostaria de ver, pensava, era o confronto de interesses, os interesses de 40 milhões de pessoas e todo um continente, centrando-se em Washington; guiados, contidos, controlados, ou desenfreados e incontroláveis, todos nas mãos de homens feitos do barro mais ordinário; as imensas forças do governo, a máquina da sociedade em funcionamento. O que ela queria era o PODER.

Talvez a força do motor se confundisse um pouco, em seus pensamentos, com a do maquinista, e o poder com os homens que o exerciam. Talvez o interesse humano da política fosse, afinal, o que realmente a atraía e, apesar de toda a força com que o negasse, a paixão pelo exercício do poder em si poderia cegar e induzir ao erro uma mulher que esgotara todos os recursos femininos comuns. Mas por que especular sobre seus motivos? Diante dela estava o palco, a cortina estava subindo, e os atores, prontos para entrar em cena; cabia a ela apenas se postar tranquilamente entre os espectadores e ver como a peça era representada e os efeitos de palco produzidos; como os grandes trágicos declamavam, e o diretor de palco praguejava.

Henry Adams é herdeiro de uma dinastia de políticos – neto e bisneto de presidentes norte-americanos. Atuou como professor universitário e é autor de ensaios sobre a persistência da corrupção no sistema político dos Estados Unidos. A autoria do romance só foi revelada depois da morte do escritor, em 1918, 38 anos depois de publicado.

Capa do livro "Democracia – um romance americano"

Democracia – um romance americano

Henry AdamsEditora Carambaia240 páginasLançamento em 26 de novembro

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