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‘Hamlet’: retrato atemporal do desejo humano


O ‘Nexo’ publica trechos selecionados de Jacques Lacan sobre a peça de William Shakespeare. O material compõe reedição do clássico do autor inglês. O psicanalista comenta a potência duradoura da obra e sua relação com o inconsciente; leia abaixo

O que distingue “A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca” – espero conseguir fazê-los perceber – é, essencialmente, o fato de ser a tragédia do desejo. […]

Para quem consegue ler o texto, é algo de cair para trás, de beijar a lona, de rolar no chão, é algo inimaginável! Não há um verso de “Hamlet”, uma réplica que, em inglês, não tenha tal potência de impacto, tal violência de linguagem que não faça dele algo que nos deixa, a todo instante, absolutamente estupefatos. Parece que foi escrito ontem, que não era possível escrever desse jeito três séculos atrás.

Na Inglaterra, ou seja, lá onde a peça é encenada em sua língua, uma representação de “Hamlet” é sempre um acontecimento. Vou mais longe ainda, porque, afinal, só se pode medir a tensão psicológica do público pela bilheteria. Direi o que ela significa para os atores, e isso nos ensina duas coisas.

Primeiro, é muito claro que, para um ator inglês, representar “Hamlet” é o coroamento de sua carreira. Quando não é o coroamento de sua carreira, é só depois de ter encenado essa peça que ele se aposenta feliz com um espetáculo de despedida, mesmo que seu papel consista em interpretar o primeiro coveiro. Há nisso algo importante, e veremos seu significado, pois não é por acaso que o digo.

Em segundo lugar, uma coisa curiosa é que, no fim das contas, quando o ator inglês consegue interpretar Hamlet, ele o interpreta bem, todos o interpretam bem. Uma coisa mais estranha ainda é que se fala do Hamlet de fulano ou sicrano. Há tantos Hamlets quantos grandes atores houver. Ainda se fala do Hamlet de Garrick [1717-79], do Hamlet de Kean [1787-1833] etc. Isso também é algo extraordinariamente sugestivo.

Se há tantos Hamlets quanto há grandes atores, é, creio, por uma razão análoga àquela que faz com que uma representação da peça seja um acontecimento, ou que haja uma massa enorme de comentários a seu respeito. A razão não é a mesma, porque uma coisa é interpretar Hamlet e outra é estar interessado como espectador e como crítico. Mas o ponto de convergência de tudo isso é que, no fim das contas, podemos acreditar que, se é assim, é por causa da estrutura do problema que Hamlet como tal coloca a respeito do desejo.

A tese que estou propondo, e que lhes peço para ter em mente, é que Hamlet põe em jogo os diferentes planos, o próprio quadro no qual procuro introduzi-los, aquele no qual vem se situar o desejo. O lugar do desejo está articulado de maneira tão excelente, tão excepcional, que todos, diria eu, nele se reconhecem. O aparelho da peça “Hamlet” é uma espécie de rede, de arapuca em que o desejo do homem é pego. E, na peça, esse desejo está articulado essencialmente nas coordenadas que Freud, justamente, nos revela, a saber, sua relação com o Édipo e com a castração. […]

Se uma peça de teatro nos emociona, não é em razão do que ela representa de esforços penosos, nem do que, sem saber, um autor deixa passar, mas, repito, em razão do espaço que ela nos oferece, pelas dimensões de seu desenvolvimento, para colocar o que, em nós, está escondido, a saber, nossa própria relação com nosso próprio desejo. Se essa possibilidade nos é aberta de forma eminente por “Hamlet”, não é porque Shakespeare está, naquele momento, metido num drama pessoal, é porque essa peça realiza – e, de certos pontos de vista, ao máximo – a superposição de dimensões, de planos ordenados, necessária para dar ao que está em nós o seu lugar, a fim de que esse drama venha reverberar aí. […]

Se “Hamlet” é realmente o que estou dizendo, a saber, uma composição, uma estrutura tal que, nela, o desejo pode encontrar seu lugar, situado de maneira suficientemente correta, rigorosa, para que ali possam se projetar todos os desejos ou, mais exatamente, todos os problemas suscitados pela relação do sujeito com o desejo, bastaria, em certo sentido, lê-lo. Referia-me, portanto, aos que poderiam me perguntar sobre a função do ator. Onde está a função do teatro, da representação?

É claro que não é absolutamente a mesma coisa ler “Hamlet” e vê-lo representado. Tampouco acho que isso possa lhes causar problemas por muito tempo. Na perspectiva que estou tentando desenvolver aqui, concernente, em suma, à função do inconsciente, o inconsciente se define como o discurso do Outro. Nada pode ilustrá-lo melhor do que a perspectiva que nos é dada por uma experiência como a da relação da plateia com “Hamlet”. Fica claro que, ali, o inconsciente se presentifica sob a forma do discurso do Outro, que é um discurso perfeitamente composto. Ali, o herói só está presente por meio desse discurso, assim como o poeta. Morto há muito tempo, é, no fim das contas, seu discurso que o poeta nos lega.

A dimensão que a representação acrescenta, a saber, os atores que vão interpretar esse “Hamlet”, é rigorosamente análoga àquilo pelo qual nós mesmos estamos implicados em nosso próprio inconsciente. Isso que constitui nossa relação com o inconsciente, ou seja, o significante (para ser claro), somos nós que fornecemos seu material – é precisamente isso que ensino e que passo meu tempo a lhes dizer – com nosso imaginário, isto é, com nossa relação com nosso próprio corpo, já que o imaginário é isso. […]

Jacques Lacan nasceu em 1901. Foi um dos grandes nomes da psicanálise no século 20. Até sua morte em 1981, dedicou uma série de seminários a Hamlet: os trechos aqui compilados foram extraídos de uma longa parte intitulada “Sete lições sobre Hamlet”, presente no sexto volume de O seminário, O desejo e sua interpretação (Zahar, 2016).

Capa de "Hamlet"

A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca

William ShakespeareUbu

320 páginas

Lançamento em 9 de dezembro

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