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‘Os vendedores de cigarros’: memórias do Holocausto


O ‘Nexo’ publica trecho das memórias de um sobrevivente do Holocausto na Polônia. Enquanto foragido em Varsóvia, ele se deparou com algo improvável: um grupo de crianças judias se esquivando, sozinhas, da ocupação nazista. Neste livro, ele registrou suas histórias no período em que estiveram sob sua proteção. Leia, abaixo, o primeiro capítulo

O encontro

Outono de 1943

As últimas trocas de tiros com o inimigo haviam cessado há tempos no gueto. Sobraram apenas os restos das casas incendiadas e os muros que contornavam o velho cemitério da comunidade, de quase meio milhão de judeus. Varsóvia estava Judenrein, limpa de judeus, suas ruas voltaram à vida normal. Raramente se ouviam as histórias fantásticas sobre grupos de judeus que lutaram contra os alemães; já não se via mais um fugitivo do gueto em cada pessoa que passava na rua como antes. De novo era possível ir a Zoliborz pela rua Bonifraterska. Durante os combates no gueto costumava-se chegar até lá por um desvio, pela rua Zakroczymska. Somente os cartazes alemães que decretavam pena de morte a quem escondesse judeus testemunhavam a existência do gueto destruído. Certo número deles conseguiu fugir provisoriamente da matança. Haviam escapado para o lado ariano e levavam uma vida clandestina: escondiam-se em porões, em ruínas ou na casa de poloneses (por amizade ou por dinheiro).

Todo dia era uma loteria, com a sobrevivência em jogo. Nem o tempo estava do lado deles: as horas se arrastavam impiedosas, às vezes parecia que a desgraça seria eterna. Mas no fundo da alma brilhava uma pequena faísca de esperança: quanto mais próximo se estava da morte, mais forte se lutava pela vida.

Esse foi o primeiro outono depois que entrei para a clandestinidade. Eu tinha um Kennkarta, documento de identidade concedido pelas autoridades alemãs, e um Ausweis, comprovante de trabalho, falsos, além de uma biografia inventada. Uma história de vida bem arquitetada e memorizada era condição importante para uma conspiração de sucesso. Mesmo se me tirassem de repente do mais profundo sono, eu deveria ser capaz de recitar onde “trabalhava” e quem era meu “pai”. Não ter uma família era considerado suspeito. Sugerir a existência de um contato com o Movimento de Resistência Polonês caía bem: naquela época ele gozava de grande respeito entre os poloneses.

Realmente eu tinha contato com o Movimento de Resistência, mas com o judaico, e sobre isso não se podia falar. As condições da dupla conspiração – por causa da ascendência e por pertencer ao Movimento de Resistência – exigiam especial cuidado. Todo passo precisava ser calculado, toda palavra, pensada com exatidão. Com a rapidez de um raio, devia-se avaliar uma pessoa encontrada por acaso. Às vezes, o aspecto do rosto, um gesto ou um detalhe da roupa davam uma pista de quanto cuidado se deveria tomar.

Era necessário usar de artifícios para se evitar um encontro indesejado, ou mesmo um olhar. Por exemplo: limpar o nariz com um lenço, amarrar o cadarço, olhar para a vitrine de uma loja… Pelos reflexos dos vidros, podia-se observar o comportamento dos pedestres sem ser observado. Essa era uma grande escola de psicologia humana. Perder a autoconfiança e a naturalidade nos movimentos poderia significar o fim da vida. Nesse oceano de hostilidade, qualquer passo em falso poderia ser fatal.

Em um dia de outubro, eu andava pela rua Nowy Swiat em direção à avenida Jerozolimskie, 23, 2º portão, 1º andar, onde funcionava a RGO [Rada Główna Opiekuncza], Assistência Social Polonesa, onde eu jantava quase todos os dias. Estava atrasado, de modo que me apressei para não encontrar a cozinha fechada.

A rua estava repleta de pessoas. De repente, notei entre a multidão dois rapazinhos: um parecia ter dezesseis anos, o outro, treze. Como através de uma névoa, o rosto do mais velho me parecia o de alguém conhecido do gueto. Logo desconfiei que eram crianças judias sem lar. É impossível, pensei, já se passaram alguns meses desde a destruição total do gueto. Quase todo dia prendiam e executavam judeus que se escondiam no lado ariano. Sobreviver na selva da ocupação exigia energia e sagacidade. Nem judeus adultos suportavam a luta diária pela vida, quanto mais crianças.

Repentinamente, nossos olhos se cruzaram. Foi o suficiente para dissipar qualquer dúvida. Com certeza existe muita verdade no dito de que um judeu reconhece outro a distância. Resolvi aproximar-me deles, mas para estabelecer contato com alguém devia-se tomar muito cuidado e não abrir logo as cartas. Frequentemente, o medo era recíproco: abordar um desconhecido e conseguir sua confiança não eram coisas fáceis. Quando não se tratava de grandes amigos, encontros casuais entre judeus – mesmo conhecidos – acabavam em geral com um rápido diálogo: “Desculpe, eu não o conheço, o senhor deve ter se enganado”. Em seguida, cada um ia para um lado, apagando as pegadas. Os perseguidos tinham medo da própria sombra.

As crianças de rua, que tinham apenas a pobre roupa sobre si, não interessavam aos shmalzers. Por isso, talvez, elas fossem menos visadas do que os adultos. Ainda assim, elas também deviam tomar cuidado. Quando se aproximavam de alguém, deviam negociar conforme os princípios de vida do lado ariano, tomando cuidado para não serem desmascaradas.

Entrei pelo portão. Por um instante voltei-me e de novo nossos olhares se cruzaram. O gelo se quebrou: parecia que os meninos estavam famintos de calor humano, por isso me seguiram. Entramos quase juntos na cantina da RGO. Sentei-me a uma mesinha, e próximo a mim sentaram-se os garotos. Comiam ali mendigos, pessoas refugiadas de distritos incorporados ao Terceiro Reich, pequenos funcionários públicos, intelectuais empobrecidos etc. Muitos judeus escondidos no lado ariano usavam as cantinas da RGO, espalhadas pela cidade. O principal assunto das conversas era a guerra.

Nesse ambiente desfavorecido, eu me sentia mais seguro. Observava os garotos. O mais velho tinha o rosto redondo, olhos azuis espertos, cabelos castanho-escuros, enfim, tinha aparência ariana. Dava a impressão de ser enérgico e bastante seguro. Vestia-se discretamente: usava uma camisa branca e um agasalho. O mais novo parecia mais semita. Tinha rosto magro, nariz alongado, olhos azul-escuros meigos, e os cabelos lhe caíam sobre a testa. Usava um casaco muito comprido e calças rotas. Seus pés, em tamancos, estavam roxos de frio. Os dois garotos olhavam pela sala. Percebi por sua curiosidade que queriam conversar comigo. Rapidamente terminei de almoçar e deixei a cantina. Com leve balanço de cabeça indiquei-lhes que me seguissem.

No pátio, o mais velho me perguntou:

— Desculpe, o senhor não trabalhava na placowka da estação de trem?

— Você trabalhava lá? – devolvi a pergunta.

Ele disse que sim, embora com isso confessasse que era judeu.

— O que o senhor está fazendo aqui? Onde mora? – perguntou de novo. Parecia que o meu silêncio à sua primeira pergunta lhe revelara a minha origem.

Eu estava num impasse: não podia revelar minha “profissão” nem meu endereço. Essa era a primeira regra da vida na clandestinidade.

— Moro em casas destruídas, dou sempre um jeito – respondi com ar preocupado.

Eu queria apresentar minhas condições de vida para que eles também contassem as suas. Isso talvez pudesse desfazer a estranheza entre nós e também reduzir as chances de eu ser chantageado ou denunciado por eles.

— Se o senhor quiser, pode dormir com a gente, na casa de uma polonesa – disse o garoto.

Quando ouvi essa sugestão, quase perdi a fala. O que tinha acontecido para eu ganhar daquele modo sua simpatia e confiança? Naquela época, era um fenômeno raro que alguém abrisse as próprias cartas.

— Nós somos muitos. Negociamos na praça Três Cruzes – acrescentou o menor. — A gente se ajuda e as coisas estão dando certo.

— Às vezes, os rapazes poloneses nos provocam e pedem para ver nossos documentos. Mas a gente sabe se defender – explicou o mais velho.

Aquilo me pareceu inacreditável. Pensei que essa história fosse produto de uma fantasia juvenil. Ninguém acreditaria. “Quanto de verdade há nisso?”, perguntei para mim mesmo.

Conversamos mais alguns minutos. Dei uma desculpa para me esquivar do convite dos garotos e combinei de conversar com eles no dia seguinte, no mesmo lugar.

Fui ao encontro marcado com um dos meus “adotados”, como chamávamos os judeus escondidos que recebiam ajuda do nosso movimento, a quem contei que havia encontrado crianças judias sozinhas, sem família. Na época, eu ainda não tinha noção clara da situação dos meninos. Durante o encontro, o meu acompanhante* devia circular perto do alto-falante da avenida Jerozolimskie, na esquina com a Nowy Swiat, e observar o portão da casa 23 da Nowy Swiat. Era um cuidado indispensável naqueles dias. Em caso de algum perigo, ele devia me avisar com um assobio.

O mais velho dos rapazes já estava próximo ao portão e, atravessando o pátio, foi até as escadas de uma oficina ao lado.

— Quem era o sujeito falando com o senhor na rua? – perguntou o rapaz, em vez de me cumprimentar. Percebi que havia sido observado. — Talvez fosse um shmalzer – acrescentou em seguida.

— Não, ele apenas me perguntou sobre uma rua – respondi e, para mudar de assunto, perguntei: — Onde está o seu amigo?

— Ele vem logo, está no primeiro andar observando – esclareceu tranquilo. — O senhor sabe, às vezes sem querer a gente atrai shmalzers, eles gostam de farejar todo mundo.

Sua sinceridade desfez todas as minhas suspeitas e dúvidas. Ela demonstrava que os meninos eram cautelosos e sabiam as regras. Instantes depois, apareceu o outro menino.

— Como vai o senhor? Onde dormiu à noite? De que o senhor vive? Alguém de sua família se salvou do gueto? – Os garotos me cercaram de perguntas. Respondi algumas, mas tive que me esquivar de outras.

— Infelizmente ninguém da minha família se salvou.

— Nós também ficamos sozinhos – responderam eles.

Os meninos sentiram em mim uma alma irmã. Nada une tanto as pessoas quanto o sofrimento comum.

— Touro, alguém vem vindo! – sussurrou o mais novo.

Minutos depois ouvimos passos embaixo. O que seria? Prendemos a respiração e ficamos atentos. Os passos se aproximaram, uma porta se abriu e depois se fechou com estrondo. Alguém entrou num quarto e novamente fez-se silêncio. O perigo tinha passado.

— Por que Touro? – perguntei ao mais velho.

— Me chamam assim na praça, quase todos têm apelidos. A ele chamam de Napa, o senhor não reparou no nariz grande que ele tem?

Touro e eu rimos muito, o menino mais novo se ofendeu.

— Ele leva tudo a sério – disse Touro.

— Vocês são muitos na praça? – perguntei ao Napa, para ver se ele se descontraía um pouco.

— Uns dez. Vendemos cigarros e estamos sempre juntos. Somos duros na queda.

— O negócio vai bem, venha com a gente, o senhor vai ver – acrescentou Touro. Sob a cabeleira espessa, seus olhos brilhavam alegres e confiantes. O convite era tentador. Confesso que na época não acreditei na existência de um grupo organizado de crianças judias no coração do bairro alemão de Varsóvia, de modo que resolvi segui-los para conferir.

Saímos para a rua. Touro foi na frente, alguns passos atrás Napa e eu, para não chamar a atenção. Passamos pela avenida Jerozolimskie. Perto do alto-falante que transmitia notícias do front, havia uma multidão. Paramos por um instante. Todos esperavam novidades sobre o recuo dos alemães, e nós prendíamos a respiração enquanto escutávamos.

— Estão preparando a evacuação… – disse um jovem dando uma cutucada no vizinho. Um piscar de olhos e um leve sorriso bastaram como resposta.

Após um rápido combate, nosso contato com o inimigo foi interrompido.

Os ouvintes se entreolharam. Ouviu-se um murmúrio de frases curtas e insultos.

Seguimos adiante. Na rua Nowy Swiat, 5, passamos pelo restaurante Quatro Estações, um lugar Nur für Deutsche, só para alemães. Pelas portas abertas, ouviam-se vozes de soldados. Como Touro me informou, ali ficava o ponto comercial de Napa.

Por fim chegamos à praça Três Cruzes.

*S. Leizerowicz – morto durante o Levante de Varsóvia em 1944. [n.a.]

 

Joseph Ziemian nasceu em Varsóvia, em 1922. Durante a Segunda Guerra Mundial, participou do Movimento de Resistência Judaica, tendo contribuído para a sobrevivência de inúmeros judeus poloneses que escaparam à deportação. Após o fim da guerra, mudou-se para Israel, onde viveu até sua morte, em 1971.

 

Os vendedores de cigarros da Praça Três Cruzes
 

Os vendedores de cigarros da Praça Três Cruzes

Joseph Ziemian Três Estrelas216 páginasLançamento em 1 de novembro de 2019

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