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‘Os Donos do Inverno’: um romance familiar latino-americano


O ‘Nexo’ publica trecho do romance que atravessa o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina para contar a história de dois irmãos, Elias e Fernando, que se evitam há 25 anos. Um acontecimento inesperado força uma viagem, mesclando reencontro familiar, corrida de cavalos e os ossos de um irmão mais velho. Leia, abaixo, trecho do 31º capítulo

Sentados no fundo do buque, olhamos o rio pela janela. Ficamos escutando a conversa misturada das pessoas que esperam a partida e percebemos que até o barulho tem idioma. Nos isolamos no barco, mesmo que haja alguém na terceira poltrona, a do corredor. É uma mulher de óculos, da nossa idade. Mas logo ela e as outras pessoas, as sentadas, as que circulam, as que usam uniforme, que falam, que vão comprar água mineral, que vão ao banheiro, que voltam, que no vídeo aparecem com as instruções de segurança — todas são apenas fundo. Estamos com pouca roupa, e é claro que o ar-condicionado nos castiga, que a tosse do Elias ameaça. Nossas roupas quentes estão emboladas dentro das sacolas de pano que levamos no colo. Não pesam quase nada. Escondemos os braços atrás das sacolas. Assim, sentimos menos frio.

 

— A gente tem muita coragem.

 

O Elias fala aquilo. O Fernando não comenta nada ainda, mas a sensação é de que conseguimos.

 

Fizemos o combinado. Deixamos o carro num estacionamento em frente ao terminal dos barcos. Pegamos o boné, os óculos e a máquina fotográfica. Apresentamos as passagens e fizemos o check-in. Mostramos documentos, entramos em filas. Preenchemos papéis de imigração onde perguntaram quem éramos, de onde tínhamos vindo e o motivo de entrar na Argentina: marcamos turismo. Depois nos deparamos com a esteira onde pessoas deixavam as malas e passavam pelo detector de metais. Carregamos nas mãos uma sacola cada um e nos olhamos. Aí o homem da esteira disse algo e apontou para que passássemos, e nós passamos.

 

— A gente tem muita coragem.

 

O Fernando não tira os olhos da janela e duvida um pouco. Mas daí vem a partida do barco, e ele é vencido pela ideia bonita de que temos, mesmo, muita coragem. Podíamos ter seguido reto de Porto Alegre até Montevidéu, de Montevidéu até Buenos Aires, mas fizemos curvas e cá estamos. Também o barco que nos leva não vai seguir reto, a tela nos mostra o trajeto que vai durar quase uma hora. Nos olhamos: o Elias tem um metro e sessenta e três de altura, quarenta anos. O Fernando é três anos mais velho, tem um e setenta e seis. Temos cabelo liso e temos cabelo crespo. O Fernando tem sobrancelhas grossas e o bigode do Elias começa a crescer. Mas somos jóqueis num fotochart. Desaparecemos. Só nossos cavalos se destacam neste dia vitorioso.

 

— Onde a gente esteve?

— Como é que é?

— Esse tempo todo?

— Tava pensando nisso?

— Claro.

— Vou pensar também.

 

Estivemos perto.

Por vinte e quatro anos o Fernando continuou dirigindo. Primeiro, para o Dr. Miguel, até que o Dr. Miguel morresse e o Fernando continuasse motorista particular, então para um casal de idosos, depois dirigisse táxis para três proprietários diferentes e enfim fosse dono do próprio carro. Enquanto isso, o Elias terminava o segundo grau e fazia vestibular para Ciências Biológicas e passava e se formava na universidade federal, e já começava a dar aulas particulares, quando conseguiu uma escola.

Quantas vezes o Fernando levou uma senhora ao supermercado quando o Elias comprava açúcar e não nos vimos? Não nos vimos nem quando o Elias, levando o açúcar pra casa, pegou um táxi antes que o Fernando chegasse à fila do ponto. Com certeza, numa manhã de maio muito chuvosa, o Fernando deve ter levado um estudante atrasado para uma escola onde o professor Elias, fechando a porta da sala de aula, preparava as carteiras em cinco filas para a avaliação de Biologia. Algumas vezes, numa partida de futebol, estivemos no estádio e assistimos à mesma falta dura, ao mesmo pênalti, ao mesmo empate, sem nos darmos conta um do outro.

Pagamos contas de luz, de água, quebramos galhos aqui e ali — um conserto imprevisto de torneira, de radiador. Também durante todo o tempo, os documentos foram trocados, mudaram-se as regras do imposto de renda, o código de trânsito, e o ensino básico passou a ter nove anos. Votamos em candidatos nem sempre diferentes. Estivemos trabalhando, tirando férias, chegando adiantados e atrasados.

Evitamos as redes sociais e passamos de raspão pela mesma cidade, pelos mesmos governos. Caminhamos rente a uma loja, um parque, uma carrocinha de cachorro-quente. Porto Alegre foi pequena mas não o suficiente para estarmos no aniversário de uma amigo comum. Se bebemos a água do mesmo rio, talvez tenhamos bebido um o mijo do outro, mas como distinguir o gosto? Estivemos nos verões, expansivos com o calor, talvez suados da mesma felicidade covarde, mais distantes talvez. Depois, o frio que encolhe, o frio que sempre nos pôs pra dentro, e a memória que perde os dentes mas permanece nítida como se repetíssemos o endereço para que alguém nos levasse em casa. Mas sempre retornamos aos setembros, e aos jacarandás roxos da janela da escola, da rua do supermercado, sobre o para-brisa dos táxis em fila.

Estivemos acordando cedo, o Elias lecionando até tarde, o Fernando guiando aos domingos. Compramos roupas novas. Fomos um num churrasco de cursinho em Gravataí só para ver uma secretária de cabelos curtos, outro numa pescaria em açude particular na Barra do Ribeiro onde foi charqueado pelos mosquitos. Estivemos com a perna quebrada — em dois lugares, fíbula e tíbia — e lecionamos de muletas sem poder dirigir. Estivemos constantemente encontrando mulheres, tentando deixá-las, tentando entender por que não gostamos delas. Planejamos fazer filhos sem conseguir, pensamos em adotar com alguém, e não passamos na prova de mestrado. Fizemos curso de mecânica e economizamos revisando o próprio carro. Fomos demitidos em quatro escolas, lecionamos em supletivo e fomos desejados pelas alunas que já eram mães. Jogamos futebol de quadra, pôquer aos domingos, e fizemos algumas aulas de natação que achamos um saco. Lemos “O gene egoísta” quando o autor veio a Porto Alegre e acabamos fazendo carteira para dirigir moto e caminhão. Tentamos aprender inglês, fomos sócios de um curso em Passo Fundo, de uma locadora de vídeos no bairro Floresta, e tivemos cinco endereços de e-mail. Dávamos aula quando caiu a primeira torre gêmea e escutamos a queda da segunda pelo rádio do táxi. Tivemos raiva das notícias que já não lembramos mais. Bebemos de vez em quando. Somando tudo, estivemos bebendo quase todos os dias. Fumamos maconha e achamos um absurdo o taxista que transportava cocaína. Tivemos hamster, cachorro, gato, iguana e tartaruga. Nossos peixes morreram no aquário sem explicação. Tratamos o canal de um dente de trás e decidimos não fazer a artroscopia no joelho direito. Compramos bicicleta e o primeiro autorrádio com mp3. Aprovamos aluno por conselho de classe, fomos assaltados dirigindo à noite, compramos casa na zona norte e ainda vivemos de aluguel num apartamento do Bom Fim.

Se o Fernando olhasse num GPS, diria que estivemos pisando os mesmos lugares de um mapa que pouco mudou. É o que o Elias diria se tivéssemos na pele aqueles rastreadores aplicados sob o couro dos bichos.

Pouquíssimas vezes nos encontramos — o pai Liandro no hospital, ou frequentemente na casa de Guaíba, em aniversários, dia das mães, dia dos pais. O Elias vinha para o almoço, falava da faculdade, das aulas, de uma namorada, e escutava a mãe dizer que o Fernando estava dirigindo táxi, tinha comprado táxi, tinha comprado casa. O Fernando chegava à tardinha, porque tinha corridas a fazer. Nos cumprimentávamos como se acabássemos de ser apresentados e o Elias tinha coisas a estudar, provas a corrigir, e era o primeiro a ir embora.

É absurdo: dividimos domingos, moedas de troco, perfume, moscas, água mineral. Só não acontecemos.

A última vez que nos encontramos foi numa feira agropecuária, em Esteio. O Elias era o guia de uma turma do colégio e mostrava os animais. O Fernando tinha ido com uns amigos ao centro de exposições e os esperaria até o fim da festa. Justamente numa prova de paleteada sob chuva fina, sem sabermos, pisamos os dois no barro e ficamos assistindo. A vaca foi solta e disparou. Atrás, vieram galopando os ginetes e a apertaram firme, lado a lado, e iam contê-la quando a vaca derrubou um deles. O cavalo caiu por cima, e gente de macacão laranja veio segurar as patas do animal. O ginete levantou, embarrado mas ileso e, juntando e abanando o chapéu, foi aplaudido. Divididos pela arena de barro e serragem, estivemos lá, vendo aquilo. Até que um avistou o outro na multidão. Ficamos um instante tentando descobrir, num rosto que olharia para o chão, outro que viraria de lado, que não éramos o Elias, não éramos o Fernando, e fugimos para a confusão de chuva e gente até que a multidão nos devolvesse o olho cavalo.

Se estivemos com frio, foi por julgarmos que a distância talvez fosse um velório. E que também os mortos, ao pensar na vida, têm lá o seu direito a ficar de luto. Mas onde estivemos para permitir que o pó cobrisse tudo e, assombrados de afastá-lo com a mão, acabássemos deixando que a camada recebesse chuva, cabelos caídos, unhas mortas até que, sob o peso que o chão conquista, aceitássemos viver embaixo, como se vive sob as lembranças? Onde estivemos esse tempo todo, hein, Elias, hein, Fernando? Estivemos enterrando alguém que o escuro não se negou a cobrir. Estivemos morrendo.

 

Altair Martins nasceu em Porto Alegre em 1975. Venceu os prêmios São Paulo de Literatura em 2009, o Açorianos em 2009 e 2012 e o AGES em 2009 e 2015, além de ter sido finalista do Jabuti em quatro ocasiões. Hoje, é professor de Letras e Escrita Criativa, depois de dar aula em várias escolas e uma passagem pelo curso de formação de escritores da Unisinos entre os anos de 2007 e 2010. É também autor dos livros “Como se moesse ferro” (1999), “Dentro do olho dentro” (2001), “Se choverem pássaros” (2002) e “A parede no escuro” (2008).

 

 

Os Donos do Inverno

Altair Martins Não Editora, selo da editora Dublinense para literatura brasileira de ficção256 páginasLançamento em outubro de 2019

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